Erradicar o Ecocídio

 

O Ecocídio é um crime que acontece contra as espécies animais e vegetais do Planeta. O Ecocídio acontece onde há extensos danos, destruição ou perda de ecossistemas. Tem acontecido no mundo em uma escala maciça e a cada dia está ficando pior. Exatamente por isto, cresce a consciência de que é preciso mudar o modelo de produção e consumo, interrompendo este processo que tem aumentado a destruição da vida na Terra. Para tanto, é preciso considerar o Ecocídio um crime contra a paz, um crime contra a natureza e um crime contra a humanidade e as gerações futuras.

O site “Eradicating Ecocide” (http://www.eradicatingecocide.com/) considera ser necessário a aprovação de uma lei internacional contra o Ecocídio para fazer com que os dirigentes de empresas e os chefes de Estado sejam legalmente responsáveis por proteger a Terra e as espécies não humanas. As pessoas com baixo padrão de consumo e o Planeta teriam que se tornar a prioridade número um da legislação nacional e internacional. O mundo já definiu o Genocídio como um crime, falta fazer o mesmo em relação ao Ecocídio.

As Conferências das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio/92 e a Rio + 20, buscaram estabelecer metas vinculativas e acordos legais para combater uma série de crises sociais e ambientais na tentativa de alcançar um futuro sustentável.

Porém, a produção econômica do Planeta continuou a aumentar, ao mesmo tempo que continuam existindo cerca de um 900 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar e sem acesso à energia elétrica. O fosso entre ricos e pobres continua elevado, embora exista um processo de convergência no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Mas o progresso da civilização tem acontecido ao mesmo tempo em que a destruição em massa dos ecosistemas da Terra se aprofundam em uma escala nunca vista antes na história.

O desmatamento da Amazônia ao longo de 30 anos, por exemplo, tem provocado danos irremediáveis. Outors ecossistemas também estão em perigo. Até 2050, podem ocorrer um percentual de 80% a 90% de extinção de espécies de mamíferos, aves e anfíbios e uma perda generalizada da vegetação.

Ao invés de leis garantindo prioritariamente o pagamento do lucro e dos juros do capital financeiro na ordem internacional é preciso criar uma legislação contra o ecocídio e contra os danos e a destruição em massa dos ecosistemas. Para alcançar o verdadeiro desenvolvimento sustentável é priciso garantir de forma explícita que o direito à vida não é privilégio da espécie humana.

Tornar o Ecocídio um crime é uma forma de tentar salvar o Planeta. A humanidade já avançou na abolição da escravatura, no fim do apartheid e na condenação do crime do genocídio. Agora é preciso tornar o imperativo moral tão importante quanto o imperativo econômico. O ecosistema deve estar no centro das preocupações e da legislação internacional no sentido de proteger a vida e a biodiversidade.

E a vida não para pra ninguém….

“[…] Então, eu acho que somos o que somos por várias razões. E talvez nunca conheçamos a maior parte delas. Mas mesmo que não tenhamos o poder de escolher quem vamos ser, ainda podemos escolher aonde iremos a partir daqui. Ainda podemos fazer coisas. E podemos tentar ficar bem com elas.”  (CHBOSKY, Stephen. As  vantagens de ser invisível. São Paulo: Rocco, 2007, p. 221).

No final de semana, li um livro, recomendado pelo meu filho adolescente, sem nenhuma pretensão literária, chamado “As vantagens de ser invisível”. No contexto, encontrei um protagonista adolescente, Charlie, que entre perdas e mudanças, vive no infinito entre ser triste e feliz ao mesmo tempo, oscilando entre a apatia e a motivação do recomeço.

Além dessas questões, o livro contemplava o encerramento de ciclos à medida que apresenta um adolescente que ao escrever cartas a alguém que não conhece, cura a dor da morte de um amigo, sobrelevando, paralelamente, entre o presságio de viver a própria vida e se esconder onde as coisas, apenas, são a vida.

Ademais, o livro nos proporciona um universo neutro, indiferente na maior parte do tempo, menos hostil para quem procura entender as razões do outro em vez de hostilizar. Alimenta a condescendência e, logo, parece estranho como se encontra a maturidade com um coração abrandado frente ao completo desequilíbrio da vida que não é democrática.

Quando jovem acreditava que poderia lutar contra decisões irrevogáveis e não cedia espaço a dúvida do que aconteceu de errado. Nunca esperei muito tempo pela sorte ou pela passagem efêmera do sucesso. Nunca percebi a vocação para a felicidade sem procurar entender que havia, também, a fraqueza dos outros. Sempre achei que o campo invisível já nascia com terreno loteado.

Nunca acreditei em prêmios por bom comportamento e percebia a solidão íntima de quem sofria pelo silêncio anônimo, de quem não se ariscava, de quem não se entregava, principalmente, daqueles que criavam os pré-requisitos, que limitavam com regras as mudanças, meramente, pela aversão ao risco. Sempre desconfiei dos que jamais chegam a lugar nenhum.

Naquela época, achava lógico adotar posturas que evitassem a invisibilidade ou mesmo ficar por trás de cortinas, sem assumir um papel em cada ato da ópera. Sempre corri atrás da completude extremista e de ensaios intermináveis.

Penso que fechar ciclo exige ensaio, exige decisão, foco e controle da angústia. Ninguém deve desejar o que é a própria indiferença de uma maratona sem largada. Ciclo aberto é um engano. É crueldade consigo mesmo. É um vício que não tolera internação. É arrumar a mesa para dois quando se sabe que está só. Ciclo aberto é como circo itinerante, aguarda o público e vaga pela estrada do pseudo aplauso.

De um lado, nunca acreditei que a vida exigia respostas simples  apenas pelo afago no rosto. Nunca fui de observar ou torcer na arquibancada, sem nunca me envolver no jogo. Nunca tive medo do desconhecido ou da aproximação inevitável do fim.

Por outro lado, respeitei os meus limites e tempos, ainda que sem pausa para entender a resposta que desejava do outro. Isso não significa que me acho invencível, que não  quebrei a cara, que não aceito derrotas ou que não acato a espera, mas apenas que aceito à disposição para viver, errar ou mesmo morrer por amor.

Percebo que as necessidades mudam e o peso dos ressentimentos também muda. E, mesmo nos dias em que a tristeza nos pega lá no fundo e desafia a escuridão, o tempo pode levar o esquecimento a cruzar com a injustiça imerecida, justificando o que julgávamos mortos.  Acredito que a  dor morta frente a emoção do passado possa resgatar a alegria que já contagiou.

Sempre joguei fora os restos de batons e perfumes. Mas também já me encontrei em uma terra desolada, sem construção, oscilando entre situações reais e imaginárias, evitando hábitos que fugissem do que fosse considerada uma rotina significante.  Não deixei nada mudar dentro de mim para não entrar em confronto com presente, mas já vaguei sem rumo, sem passaporte e escova de dentes para o futuro.

Creio que o desgaste do tempo me levou a encontrar novos significados que abrandou essa visão egocentrada. Diria que a indignação continuou existindo dentro de mim a cada ciclo que continuava aberto. Só que a precariedade do meu presente perdia a fé; renegava a confiança e já questionava o que tinha dado errado na promessa de não ser invisível.

Tive punições por ser imediatista, pela intolerância exacerbada, mas a recordação continuou por lá, fazendo companhia, convivendo com a madrugada enérgica de séculos que pareciam cair sobre mim. Ligava o motriz do silêncio quando os tambores batiam e sem saber quem era ou mesmo onde morava, estava ferida, melancólica, talvez uma perfeita companhia para os imortais, mas com pressa em voltar à mortalidade.

Diante desse contexto, essa visão reducionista do mundo que me mecanizava só me levou a questionar esse sistema de controle de semelhança taylorista em que perguntava: se isso é ser livre, então eu não me vejo como sujeito, mas como um objeto de ação de invisibilidade.

Em certa ocasião, me deparei, assistindo o filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulai”, com uma frase que destacava que os tempos continuavam difíceis para os sonhadores. Uma frase para qualquer continente e tempo que ultrapassa a mera conotação freudiana ou seara antropológica que frisa o seguinte: “Quando chega a hora, precisa saltar sem hesitar”.
E no final, ainda posso escolher aonde quero ir daqui para frente e acomodo, naturalmente, no novo ciclo, a frase do livro acima que limita a disciplina da paciência:  “[…] As coisas mudam. E os amigos partem. E a vida não para pra ninguém.”

A oposição ao PIG

 

Houvesse Serra sido eleito e teríamos uma noite inteira de transmissão da festa pelos canais da Rede Globo e congêneres. Os portais de internet mais conhecidos estampariam imensas fotos do novo prefeito de São Paulo. É de se imaginar, inclusive, que as prensas dos jornalões em papel rodassem apressadas matérias já prontas, tudo para ser distribuído ainda na noite de domingo.
 
É de se imaginar o tamanho do prejuízo financeiro que os arautos da “boa nova” política tiveram. Somas enormes investidas para que, ao final de domingo, serem obrigados a tratar a vitória da “oposição” como mais uma mera notícia. Sim, o governo brasileiro – PT, PMDB e seus aliados – é uma aberrante oposição ao PIG.
 
Mas não foi assim. Nada tendo para falar ou comentar que não estivesse diretamente ligado ao enterro político do seu até então maior Quixote, imediatamente começaram a criar factoides para 2014, enaltecendo o crescimento do PSB como uma força a ser já considerada oposição ao projeto do governo para 2014.
 
Bateram, também, na tecla de que o PT, no Nordeste, só ganhou a prefeitura de João Pessoa. Fora uns tantos pequenos comentários na tentativa de desmerecer o que ocorreu em São Paulo.
 
Nas redes sociais, os eleitores “perdedores” propagavam o mesmo pensamento. Das redes não há o que estranhar, dado que são campo fértil para um exercício que os brasileiros, em geral, adoram: falar sem fundamentar. Conversa de boteco.
 
Mas o cenário realista, que poucos dessa turma querem admitir, é outro.
 
Para eleger um presidente em 2014 serão necessários algo como 60 milhões de votos (considere-se que Dilma precisou de quase 56 milhões em 2010).A primeira conta é muito simples (e hilária na sua hipótese): juntos, os partidos de oposição mais fortes, “PSB” e PSDB somam um terço disso em número de votantes. Considerando apenas o 1º turno, PSDB fez 13.842.265 (3º) votos e o PSB 8.600.892 (4º). Some-se e temos 22.443157, isto é, um terço do necessário para eleger um presidente. Tomando os cinco maiores partidos da base aliada (considerando que o PSD deverá se abraçar com a Dilma. Afinal, o “titio já era”), já temos 51.295.298 votos. Claro que eleições não são assim, tão numéricas. Sabemos disso.
Mas também sabemos mais: sabemos que essa mesma base aliada governa 101,39 milhões de brasileiros, contra apenas 46,08 para a “oposição” do PSB e PSDB. (lembro: sem considerar o 2º turno).
 
Ainda há mais a ser desconsiderado pelo PIG e oposição: PT (409, 558, 634) e PSB (174, 310, 434 – 1º turno) são os únicos partidos que apresentam um crescimento constante no número de municípios que governam, desde 2004. E é nisso que parecem se agarrar os analistas do PIG e seus simpatizantes. Preferem achar que o crescimento do PSB represente uma ameaça e, portanto, que devem apostar suas carcomidas fichas psdebianas nele. O PSDB, por sua vez, é o único partido que apresenta uma constante perda de prefeituras (isso o PIG também esconde): de 865 em 2004, passando para 791 em 2008, para chegar em 2012 com 689, pouco mais que o PT. O PMDB, da base, segue sendo o maior partido em número de municípios, apesar de ter recuado para um número inferior ao de 2004.
 
Uma outra corda onde tentam se agarrar para não afundar nas análises é o número de abstenções, brancos e nulos. Em São Paulo, por exemplo, alardeiam que as abstenções “bateram recorde” no 2º turno, atingindo a assombrosa marca de quase 20%. Há maneiras e maneiras de dizer que TÃO SOMENTE 2% são importantes.
 
Primeiro, desconsideram o fato de que historicamente o percentual de abstenções, nulos e brancos, situa-se entre 25% e 28%. E, em geral, a abstenção no 2º turno é sempre maior que no 1º turno. E por uma razão mais simples do que ousa sonhar a vã filosofia pigueana: tem gente fiel ao seu candidato de 1º turno e de forma alguma votará em outro. Basicamente é essa a razão para o aumento no percentual do 2º turno em relação ao primeiro.
 
Por outro lado, há que se admitir que existe, sim, uma parcela significativa de pessoas que ou não aceitam que sejam obrigados a votar, ou que simplesmente não querem votar. Exercem seu natural direito se abstendo, anulando ou votando em branco.
 
Serão os analistas do PIG e seus simpatizantes tão incapazes assim de perceber a força disso tudo para as eleições de 2014? Será que um governador de estado, que representa tão somente a quinta força política no país vai se arriscar a se associar a um projeto amplamente derrotado no país tão somente para satisfazer o PIG (e o ego) e se tornar candidato em 2014? Com quem ele poderá contar, nos quadros do PSDB para tanto? Que ideias o PSDB tem para o país que já não tenham sido rechaçadas estrondosamente em 2012?
 
Mas a hipocrisia do PIG é tão grande, que até defender o socialismo (Não é Partido Socialista Brasileiro?) vale na hora de não perder a chance de continuar a determinar os rumos do povo.
 
Por fim, os números mostram CABALMENTE que a aposta no mensalão demonstrou o quilate de tantos quantos peleiam pelo PIG: gente incapaz de perceber que o povo sabe diferenciar alhos de bugalhos. Sabe bem que o fato de alguns terem sido condenados não significa que os partidos o sejam; sabe que nos partidos existem boas e más pessoas, como em todo lugar. E que muitos, inclusive, tenham interpretado o julgamento como algo bom para os partidos, como uma espécie de necessária purificação.
 
O PIG apostou mais uma vez na ignorância do povo. Do povo que ele mesmo tenta transformar em ignorantes.
 
Perdeu. A hipocrisia perdeu. Venceu um povo que a cada dia se transforma; que a cada dia percebe que a realidade só se muda com ações e não com promessas e esperanças. Esse é o tamanho da oposição ao PIG.

 

A população do Haiti em 2100

O Haiti é o país mais pobre do Hemisfério Ocidental. O país ocupa cerca de um terço do lado ocidental da ilha Hispaniola (primeira terra das Américas visitada por Cristovão Colombo, em 1492), enquanto a Republica Dominicana ocupa o lado oriental da ilha. O Haiti foi o primeiro país a acabar com a escravidão (em 1794) e o segundo país das Américas a conquistar a independência (depois dos Estados Unidos). Mas os duzentos anos de independência não foram fáceis.

No século XX o país foi ocupado por tropas americanas entre 1915 e 1934 e administrado por vários governos ditatoriais nas décadas seguintes. Para complicar, em 12 de janeiro de 2010, um terremoto de grandes proporções, com magnitude de 7,0 na escala Richter, destruiu a maior parte da capital Porto Príncipe. Os desastres naturais aconteceram depois dos desastres políticos que retiraram toda a capacidade de governança estatal. O governo brasileiro tem mantido tropas militares de ajuda no território haitiano.

A população do Haiti era de 3,2 milhões de habitantes em 1950, cerca da metade do número de cubanos na mesma data. Em 2010, a população haitiana chegou a 10 milhões de habitantes e deve chegar a 11,3 milhões em 2020, ultrapassando o número da população de Cuba. Para 2050, a esimativa é de 14,2 milhões na projeção média, 16,3 milhões na projeção alta e 12,2 milhões na projeção baixa. Para 2100 a população do Haiti pode variar de 8,6 milhões a 23 milhões, dependendo do comportamento das taxas de fecundidade.

A taxa de fecundidade do Haiti caiu de 6,3 filhos por mulher em 1950-55 para 3,6 filhos em 2005-10. Mas o país ainda tem uma estrutura etária jovem e a atual taxa de fecundidade ainda é uma das mais altas da América Latina. O Haiti conseguiu reduzir a taxa de mortalidade infantil de 242 por mil em 1950-55 para 63,1 por mil e a esperança de vida subiu de 37,5 anos para 61 anos no mesmo período.

Mas a despeito da queda da mortalidade infantil e do aumento da esperança de vida o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Haiti estava 0,45 em 2010, pouco mais da metade do IDH de Cuba. Em termos ambientais, a pegada ecológica per capita do Haiti era de apenas 0,60 hectares globais (gha), porém a biocapacidade per capita era ainda menor 0,31 gha.

Desta forma, além de merecer a solidariedade internacional, o Haiti jamais poderá ser acusado de contribuir para o aquecimento global. Porém, mesmo com toda a ajuda estrangeira, no curto prazo o povo haitiano não deixará de sofrer as consequências da degradação ambiental provocada por pressões demográficas e econômicas que tem seus fundamentos no passado.

Evidentemente a pobreza do Haiti tem raízes históricas. Eduardo Galeano, por exemplo, considera que a tragédia do país tem causas estruturais e que falta apoio dos países ocidentais. Com certeza, o passado ajuda a explicar o alto grau de analfabetismo da população, a falta de emprego, as péssimas condições de saneamento e moradia, etc. A insegurança alimentar é enorme e o país em sido palco de constantes revoltas por causa da fome A população haitiana não tem acesso aos direitos básicos de cidadania e encontra-se em situação caracterizada como “armadilha da pobreza”.

A situação é agravada pela destruição da maravilhosa floresta encontrada intacta por Cristóvão Colombo, em 1492. Nas primeiras décadas do século XX, a floresta tropical do Haiti ainda cobria 60% do território nacional. Nos anos 1950 havia caido para 20% e hoje em dia restou apenas 2% da cobertura vegetal do país. A floresta haitiana foi arrancada, pedaço a pedaço. Segundo estimativas da ONU, cerca de 30 milhões de árvores foram cortadas a cada ano, nas últimas décadas. Como resultado do desaparecimento da vegetação houve redução da fertilidade do solo, aumento da erosão e da desertificação. Assim, as chuvas e os ciclones tropicais (comuns naquela região) aumentam as torrentes de lama e a esterilidade do substrato natural.

Para 2100, as estimativas da população apontam para algo entre 8,6 milhões e 23 milhões de habitantes. Evidentemente, quanto maior for o acesso aos direitos de cidadania menor será o número da população no final do corrente século. Na situação atual, o Haiti sozinho não tem forças para superar suas dificuldades. O mundo precisa ajudar o país a achar o caminho para a transição demográfica, o crescimento econômico saudável, o desenvolvimento humano e a sustentabilidade ambiental.

Como se envolver com a Causa Indígena em 10 lições (algumas não tão fáceis)

 

 

  1. Pode parecer absurdo ou banal ter que afirmar isso, mas: os índios EXISTEM, ainda hoje e a despeito de todas as homéricas tentativas de acabar com eles! Mais absurdo ainda é o fato de que uma enorme parcela da população do país acredita que não existem mais índios vivos e que eles “são coisa” do passado. Ou, se não creem realmente nisso, ao menos agem como se! E isto é bastante compreensível, porque de fato, após tantos esforços em exterminar todas as nações indígenas que aqui viviam, é realmente inacreditável que muitos deles, tanto em número de etnias quanto em população, tenham sobrevivido a tamanho massacre e perseguição. Quando se analisa a fundo a história dos povos indígenas da américa e, particularmente, do Brasil, compreende-se que a re-existência destes povos é praticamente um milagre e, no entanto, para o desgosto e a desgraça de alguns setores da nossa sociedade, eles estão aqui! e eles estão VIVOS! A segunda afirmação será bem menos óbvia, mas não menos esperançosa: existem diversos povos que, inexplicavelmente, conseguiram manter-se até o presente momento em situação de isolamento, ou seja, sem NENHUM contato com a sociedade ocidental! E por favor, não me venham falar que estes índios são os “puros”, que eles é que são os “verdadeiros” índios e não os outros. Isso não existe. Não existem sociedades conhecidas que não tenham contatos ou que não estabeleçam relações com outros povos! E isso é o que mantém as culturas vivas! São as trocas: simbólicas, físicas, culturais, tecnológicas, linguísticas, etc. A única diferença destes povos isolados até hoje com relação aos demais é que eles, digamos por “misericórdia” divina, conseguiram evitar o contato altamente invasivo e prejudicial com a sociedade “branca”. Mas como podemos saber que existem povos sem contato, se não os conhecemos e nem mesmo os contatamos? Os povos isolados são conhecidos em geral por outros povos que vivem em locais muito ocultos e de difícil acesso, porém que já estabeleceram relações com a nossa sociedade. Portanto, através de informações dos próprios indígenas, em muitos lugares extremamente inacessíveis (especialmente para um ser humano da nossa cultura), sabemos que existem outros povos, os quais sistemática e conscientemente se negaram e se NEGAM ainda, até hoje, a estabeler contatos com a nossa sociedade. E a atitude mais honesta e honrada a se ter, para quem realmente se importa com estas populações, é simplesmente respeitar a sua escolha histórica e a sua luta heroica e, portanto, não procurá-los.

  2. Entender que cada etnia indígena é um povo diferente, com língua, cultura e um modo de vida específico, distintos entre si e com uma forma de pensar e ver o mundo (cosmovisão) em geral muito diferente da nossa. Isso significa que não é fácil compreender como eles entendem o mundo (assim como pra eles é muito difícil compreender nossa forma de pensar, de agir e como organizamos nosso mundo) porque não podemos homogeneizá-los como “os índios” e mesmo em cada caso particular pode levar muitos anos até que um indivíduo “branco” chegue a uma compreensão e partilha razoável da cosmovisão de um outro povo, no caso, um povo indígena que viva no Brasil.

  3. A situação real da maioria dos povos indígenas do Brasil hoje é muito pior do que se pode imaginar ou do que pode nos contar um caso isolado de extrema gravidade. E é muito pior porque é muito mais complexa. Em primeiro lugar, deve-se entender que as “realidades indígenas” são muitas, muitas mesmo. E são muito diversas. Considere-se por exemplo o caso de povos amazônicos que vivem ainda (graças aos seus deuses, que têm sido mais fortes do que o nosso deus dinheiro, por enquanto) nos corações da maior Floresta Tropical do planeta. Gente, isso não é pouco coisa! E, de outro lado, povos que vivem em regiões como o nordeste brasileiro, ou o centro-oeste ou ainda, de modo mais contrastante, no sul-sudeste do Brasil, próximo aos maiores aglomerados urbanos, onde não existe mais absolutamente (em muitos casos) nenhum vestígio de “floresta”, seja qual for. Dá pra imaginar o quão díspares são estas realidades, além das diferenças óbvias e extremamente significativas entre a cultura e modo de ser de cada povo e suas histórias particulares de contato. Bem, mesmo os povos da Floresta, que vivem ainda em relativa paz, harmonia e abundância, em seu modo tradicional com poucas interferências da cultura ocidental, sofrem constantes e progressivas pressões do entorno por garimpeiros, posseiros, grileiros, madeireiros (enquanto indivíduos), bem como pela força de megaempreendimentos como as grandes mineradoras, a infindável exploração de madeira, os esquemas industriais de grilagem (arquitetados e orquestrados à distância – de São Paulo, por exemplo), a biopirataria das multinacionais (patenteando formulações milenares descobertas por indígenas, roubando e patenteando códigos genéticos e princípios ativos de inúmeras espécies), as obras de engenharia do próprio Governo Federal (como hidrelétricas e outras) com impactos profundos e inevitáveis a uma vasta área muito além de sua implementação local.. enfim, não existe um futuro seguro hoje para nenhum povo amazônico, aliás, para nenhum povo indígena. Enquanto por outro lado, os demais povos que já não possuem florestas ou acesso a recursos necessários a reprodução de seus modos de vida tradicionais, sofrem muito mais severa e diretamente com a falta de perspectivas, com a desestruturação social e cultural (pois sua cosmovisão pertence a um mundo que, aos seus “olhos”, não existe mais, ainda que busquem incansavelmente o retorno a seus territórios tradicionais, onde sonham reconstruir e continuam o modo de vida de seus antepassados, numa tão sonhada “terra sem males”), com o assédio violento da sociedade envolvente, seja pela televisão e grande mídia em geral, seja pelo álcool e outras drogas, pela prostituição e pornografia, pelo fetiche e sedução do dinheiro – que supostamente resolveria os seus problemas – enfim, por uma série extremamente complexa e intrincada de fatores, os quais não excluem os sistemas de enquadramento (ou “aparelhos ideológicos do Estado”) como escolas, igrejas e religiões ocidentais e a própria cadeia. Tudo isso está aí para “testar a fé” destes povos que, milagrosa ou desgraçadamente, têm demonstrado ser gigantescamente maior do que a nossa.

  4. A situação real dos povos indígenas no Brasil como um todo, hoje – de um modo geral -, é muito melhor do que já foi, inclusive em anos bem recentes. Talvez possamos dizer que, nos últimos 50 anos, apesar de muitas variações e extremas dificuldades enfrentadas por estes povos e seus aliados, o balanço é positivo. E, em vista do que poderia ter sido (o extermínio físico ou a “integração” completa “bem sucedida”), acho que podemos dizer que o balanço é até muito positivo. A começar pelo fato de que a população indígena no Brasil é, segundo dados recentes do IBGE, a população que mais cresce. O que já nos indica necessariamente que, em termos numéricos absolutos, as populações indígenas estão aumentando e se recuperando ao menos fisicamente e não estão mais diminuindo. É claro que isso por si só não significa um fortalecimento cultural, étnico ou identitário. Mas já é um bom começo, pois para o fortalecimento da cultura de um povo é fundamental, antes de tudo, que exista um povo a ser fortalecido. Bom, neste “longo” processo das últimas décadas têm atuado inúmeros fatores, positivos e adversos, como envolvimento de muitas ongs, de igrejas, de muitas pessoas diretamente (missionários, leigos, intelectuais, jornalistas, etc), do Estado brasileiro e de suas organizações (como a Funai, por exemplo), entre outros. O intenso contato e as inevitáveis interferências foram permeadas de muitos equívocos e resultaram diversas consequências bastante negativas a longo prazo, em particular as influências das ideologias e sistemas de valores e crenças impostas (mesmo que “com jeitinho”) por escolas, igrejas, pela mídia em geral e até mesmo pela própria presença excessiva do Estado, com sua hierarquia, documentos, cargos, salários e, por último, mas de forma alguma menos importante, com seus programas assistenciais como todas as modalidades de bolsa que se possa imaginar, além das cestas básicas, “formadoras de hábitos” alimentares, culturais, sociais e até econômicos (na medida em que, ‘quanto mais eu ganho do Estado – que me ensinou que ele tem a obrigação de me dar porque eu sou um “cidadão”, coisa que ele também me ensinou a ser – menos eu preciso me esforçar pra ter ou pra produzir’). Por outro lado, é fundamental compreender que, antes desse momento histórico, ou seja, durante a primeira metade do século XX, enquanto não havia tanta gente tentando ajudar (ou atrapalhar) os índios, a situação destes povos não era necessariamente melhor e não estava mais fácil. Além disso, o próprio Estado já interferia demais, mas sem nenhum outro organismo ou ponto de compensação que regulasse ou se contrapusésse a ação do Estado. Dessa forma, por exemplo, o SPI – Serviço de Proteção ao Índio (criado em 1910 pelo governo brasileiro), graças a pressões e denúncias internacionais de diversas entidades e membros importantes da sociedade civil, sobre abusos de poder, violência e até mesmo assassinatos praticados pelo órgão Federal (com óbvia anuência por parte do Estado brasileiro) contra povos indígenas no Brasil, foi possível a extinção desse órgão. Infelizmente, ele foi “reinaugurado” pouco depois como FUNAI – Fundação Nacional do Índio que, tirando a mudança de nome, pouco se alterou em sua estrutura, funcionários e portanto, funcionamento. Mas ainda assim, a luta foi válida e hoje, depois de mais uns 40 anos de pressões dos próprios indígenas e das organizações parceiras, a FUNAI está de fato muito mais próxima e relativamente aliada aos índios. Pelo menos muito mais do que nestes outros tempos. Mas vale lembrar que ela é, sempre foi e sempre será um órgão do GOVERNO, portanto, a favor dos interesses do Estado que, cada vez mais tem se oposto claramente ao dos cidadãos e especialmente o dos povos indígenas. Num quadro geral, então, apesar de todas as “más” ou complicadas influências a estas sociedades, elas têm cada vez mais se apropriado e se empoderado de tais interferências e das ferramentas que nós impusemos a eles, como a educação formal, a tecnologia (especialmente as multimídias) e também dos discursos políticos, utilizando tudo isso cada vez mais em sua própria defesa e na defesa de seus direitos, para o fortalecimento de suas culturas ancestrais, bem como de sua “autodeterminação”. Em outras palavras: os índios sabem se defender, sempre souberam e a maior prova disso é que estão vivos e presentes, mas agora com mais armas e aliados.

  5. Apesar da imensa maioria da população brasileira não saber, inclusive acadêmicos e outros estudiosos, existem importantes movimentos organizados da sociedade civil que lutam pela causa indígena há pelo menos 40 anos. As duas principais e mais antigas ongs indigenistas que atuam em nível nacional no Brasil até hoje são a OPAN – Operação Amazônia Nativa (desde 1967) e o CIMI – Conselho Indigenista Missionário (desde 1972). Ambas organizações são brasileiras e ao passo que a OPAN tem sua ação mais intensa e circunscrita especificamente a alguns estados da amazônia, principalmente o AM e o MT, onde tem forte presença aliada aos povos Myky, Enawenê-Nawê e Xavante (Marãiwatséde), entre outros, o CIMI tem uma organização nacional, subdividida e distribuída nas 5 regiões brasileiras e onde procura atuar em todos os estados da federação, buscando uma presença junto a todos os povos indígenas contatados do Brasil. Também existem, hoje em dia, muitas outras entidades indigenistas, muitas delas organizações autônomas dos próprios indígenas, outras ligadas a igrejas de diversas religiões, outras ligadas a universidades, centros de pesquisa e várias entidades particulares, todas estas supostamente atuando em favor da causa indígena. Mas como houve uma proliferação de entidades criadas principalmente a partir da década de 1980, com o aumento cada vez maior de financiadores e agências europeias para a questão indígena na américa do sul, atualmente existe um sem-número de entidades, organizações ou pessoas que, de alguma maneira e em geral de forma muito localizada, atuam no indigenismo brasileiro. Por isso mesmo, destacamos aqui apenas as principais e mais conhecidas entidades especificamente indigenistas que há muitas décadas atuam consistentemente no Brasil, sendo grandes corresponsáveis por muitos avanços históricos na questão, como o levantamento da situação dos povos indígenas em território brasileiro, o acompanhamento jurídico e apoio a cultura e ao fortalecimento étnico e da autodeterminação destes povos. Porém não há aqui a intenção de desmerecer ou diminuir a importância ou atuação de quaisquer outras organizações que, certamente, também em muito contribuíram e ainda contribuem nesse processo histórico. Durante a última década, entretanto, devido ao grande crescimento econômico brasileiro (obtido em grande medida graças à exportação de minérios, extraídos do seio da floresta amazônica, às custas de um impacto direto e indireto em inúmeras comunidades tradicionais, indígenas e ribeirinhos), nos colocando no “ranking” dos 5 países mais ricos do planeta, a maioria das agências financiadoras da causa indígena em nosso país tem constantemente diminuído os recursos aqui investidos, para migrar progressivamente seu apoio a países muito mais pobres (do ponto de vista macroeconômico) do continente africano. Com isso, o trabalho de entidades tão sólidas quanto o CIMI (que nunca aceitou recursos dos governos brasileiros para não comprometer sua liberdade de ação política) e a OPAN, por exemplo (entre outras), têm se tornado cada vez mais difícil e restrito. As agências financiadoras ao fazer tal escolha (que é até bem justa, visto a extrema urgência e necessidades dos nossos povos irmãos, também indígenas, da África) esqueceram-se de olhar os índices da desigualdade social no Brasil e concentração de renda, o que devolveria ao país sua condição mais legítima: a de grandes oligarquias centenárias que construíram o “crescimento e desenvolvimento nacional” sobre um sistema escravocrata, explorando e expropriando territórios indígenas ancestrais desde o seu “descobrimento”.

 

O que fazer para ajudar (ou como se envolver com a causa)?

 

  1. Em primeiro lugar, é necessário estudar e conhecer mais a fundo as realidades indígenas e sua história, ou a “questão indígena” ou ainda a “causa indígena” como um todo. Boas fontes de informação para isso, hoje não faltam, especialmente na internet (embora seja fundamental saber “separar o joio do trigo” nesta seara). Outra forma extremamente rica de tomar contato (literalmente) com a questão é participando de encontros ou eventos nos quais indígenas de diversas etnias têm participado constantemente e cada vez mais. Até porque é tão importante e interessante para eles, em geral, participar de eventos com a presença de “brancos” quanto é pra nós, o contrário (porque a curiosidade pela diferença existe em qualquer sociedade humana). Eventos que permitem experiências ou vivências desse tipo são por exemplo: os Fóruns Sociais Mundiais, o Encontro de Culturas Populares da Chapada dos Veadeiros – GO (durante o qual ocorre a Aldeia Multiétnica), os Encontros de Leitura e Escrita em Sociedades Indígenas, as “Rios+20s”, etc. Nestes espaços é possível, além de estabelecer um primeiro contato (porque cada indivíduo tem que passar pelo seu primeiro contato, isto não é socializável, já que cada sujeito é singular e tem sua própria história) com pessoas pertencentes a outras etnias brasileiras, pode-se conhecer um pouco mais da cultura de vários povos, seja conversando informalmente com as pessoas presentes, seja participando de atividades conjuntas, celebrações, trabalhos, etc, ou seja simplesmente estando lá, observando e interagindo normalmente. Mas é fundamental sempre ir além das impressões superficiais e das aparências (ou seja, as primeiras impressões, pois certamente a cultura com a qual se toma contato deve ser extremamente mais complexa do que aquilo que se “apresenta” aos olhos, especialmente quando há muitos turistas ou midiáticos ao redor, como costumam ser estes eventos; exceto os de caráter mais formativo, restritos a círculos menores ou ligados à área da educação.

  2. Pros mais corajosos, desapegados, desesperados ou apenas apaixonados, engajando-se na luta, realmente, fisicamente, localmente, diariamente. As opções para isso são muitas. Há muitas formas e lugares em que se pode começar a trabalhar diretamente com a causa indígena. Dentre os mais óbvios (e que são, digamos, os caminhos mais convencionais) encontram-se as próprias ONGs, as quais geralmente tem seus processos próprios de admissão dos novos indigenistas, a depender do tipo de organização, ao que está ligada, etc. Por exemplo, muitas ONGs lançam editais de contratação, onde os candidatos se inscrevem, passam por um processo seletivo e estabelecem um contrato formal de trabalho. Outras selecionam pessoas apenas por entrevistas ou então é necessário que o candidato já esteja vinculado anteriomente a alguma instituição ligada à ong em questão, como participar de determinada igreja, por exemplo, geralmente com o objetivo de tornar-se missionário. Outra escolha muito clara que se pode fazer neste sentido é se engajar em um serviço público, prestando um concurso para ser admitido como um funcionário público convencional, como ocorre na FUNAI, por exemplo. Claro que haverá diferenças de foco, tipo de trabalho, relações políticas, etc. Mas muitas pessoas verdadeiramente interessadas e comprometidas com a causa, escolhem este caminho e, recentemente, no último concurso à Funai, houve uma grande renovação de funcionários da base, sendo em sua maioria, pessoas bem jovens que decidiram adentrar por este caminho. Isso, aliado a outras tantas questões contextuais e conjunturais têm servido para melhorar a própria imagem da Funai, bem como o trabalho que esta vêm efetivamente desenvolvendo, através de seus novos funcionários. É possível ainda se envolver em projetos locais através de outros meios (como Prefeituras, Associações de Moradores, Empresas) e, dependendo da situação até mesmo individualmente, convidado por exemplo pela própria comunidade.

  3. Bem, dito isso, a coisa mais importante e absolutamente necessária (do meu ponto de vista pessoal) para uma atuação indigenista sincera e realmente engajada, é a honestidade, o respeito verdadeiro (e não moral) e uma capacidade de se comprometer com as pessoas, com suas lutas e com a sua causa. Há quem diga que os índios são “para-ráio de maluco”, justamente por haver, muitas vezes, pessoas demais interessadas neles e pessoas de menos comprometidas com eles. É claro que é muito bom que muita gente se interesse pelos indígenas e queira conhecê-los e saber como são e principalmente que a sociedade reconheça sua existência e sua importância. Mas, se vocẽ quer realmente ajudar, se seu interesse em ajudar os povos indígenas for sincero, se seus sentimentos forem legítimos, você não será (ou ao menos terá o máximo cuidado em não ser) leviano com estas pessoas, com os sonhos e sentimentos delas. Porque a diferença de trabalhar com um povo indígena, em relação ao trabalho com outras populações é que trata-se ainda verdadeiramente de uma etnia e não apenas de uma comunidade de pessoas. Evidente que não se deve ser leviano com ninguém, com nenhuma comunidade, se algum tipo de compromisso é assumido. Mas, em especial, para ser possível ajudar verdadeiramente, de modo consistente um povo indígena, é uma condição quase obrigatória um envolvimento de longo prazo e de frequencia cotidiana. Por isso quem se engaja na causa, quem pretende tornar-se um indigenista normalmente acaba vivendo uma espécie de “exílio” da vida social comum da nossa sociedade. Isso não é uma regra e nem uma obrigação, mas é praticamente uma necessidade que qualquer pessoa honestamente engajada (penso eu) sente e compreende espontaneamente, por si mesma. Quando isso acontece, a pessoa se vê obrigada a tomar uma decisão: voltar “pra casa” (não importa o que ela chame de casa) ou seguir em frente, embrenhando-se cada vez mais na causa (o que às vezes significa adentrar a densa e selvagem floresta, outras vezes significa enfrentar os Gigantes Moinhos… de cana e não de vento). Mas seja como for, o fato é que a decisão de fazer da causa dos povos indígenas a sua causa, deve ser uma decisão muito pessoal, muito cuidadosa e muito verdadeira. É importante que as pessoas não tenham ilusões, ou melhor, que não tenham visões excessivamente fantasiosas da realidade indígena, porque uma coisa é certa: o que há neste universo de maravilhoso e instigante, há também em complexidade e dificuldade. Por isso, tal decisão não deve ser tomada ser um compromisso mínimo consigo mesmo. A pessoa deve decidir ao menos se ela está disposta a passar por estas experiências, ou seja, se ela se dispõe ao menos a experimentar humilde e abertamente esse grau tão grande de diferenças entre o seu universo e aquele em que está prestes a adentrar… e o sucesso e resultado deste “atravessar” dependerá quase exclusivamente do modo como se lida com as diferenças. Isso fará com que muitas pessoas cheguem a ter experiências de enorme realização, felicidade, descobertas, transformações e aprendizados, enquanto outras podem ter experiências bastante dolorosas, tristes, duras, porém, ainda assim podem ser enriquecedoras, transformadoras e extremamente férteis de ensinamentos. Trabalhar junto aos povos indígenas nas condições dadas atualmente, com perspectivas tão difíceis, certamente não é um mar de rosas, mas pode ser uma oportunidade fantástica.. contanto que estejamos abertos e sinceramente entregues a ela.

  4. Tá, legal, mas e se eu por qualquer razão do universo (de falta de vontade à total impossibilidade) não pretendo me tornar um “indigenista” e não quero atuar diretamente na causa, mas eu gostaria muito de ajudar, eu não posso fazer nada? Ahá!.. fique tranquilo, porque eu deixei a parte mais difícil pro final (e acreditem a parte mais difícil não é se embrenhar no mato ou nas monoculturas sem fim pra defender os índios, por mais que isso já seja muito difícil mesmo!). A coisa mais RADICAL, mais violenta (ou mais pacífica, depende do ponto de vista), mas cruxial e mais difícil de se realizar, porém também a mais vital, simples e acessível que qualquer pessoa, militante ou outro simplesmente interessado na causa ou que não concorde com o sistema atual de organização sociopoliticoeconômica da nossa sociedade pode fazer é: boicotar estratégica e SISTEMATICAMENTE o sistema de produção capitalista dos “bens” de consumo. Como fazer isso? Bem, aí começam as dificuldades. Digo com todas as letras: é algo verdadeiramente simples, porém muito difícil mesmo de ser executado, especialmente se for feito sozinho ou de modo isolado e aleatoriamente. Por isso, o segredo da força deste movimento é a união, organização e sistematização de pessoas, estratégias e ações, bem como uma ação constante, progressiva e coditiana. Repito, isso é simples, ou seja, não é um esquema que tenha que ser combinado com todo mundo ou que dependa que vocẽ nunca falhe.. não, apenas será muito mais fácil quanto mais pessoas estiverem praticando isso o máximo possível. Ou, dito de outra maneira, o quanto antes iniciarmos verdadeiramente este MOVIMENTO, de modo contínuo e permanente e quanto mais pessoas aderirem a ele espontaneamente, mais rápido chegaremos a uma espécie de humilde e silenciosa REVOLUÇÃO.. mas que certamente terá efeitos e que não deixaram de ser notados nem pelos praticantes de tal movimento e nem mesmo pelos que se sentem “donos dos meios de produção”. Agora, de forma extremamente pragmática. Boicote contra o que? Simples: pare de consumir (ou ao menos tente verdadeiramente, sinceramente, entusiasmadamente) qualquer produto que vocẽ saiba que tem uma origem latifundiária, ou seja, que para ser produzido necessitou e necessita ainda hoje, explorar, expropriar, roubar, assassinar, escravizar e dizimar quaisquer populações indígenas que se interponham no caminho do “progresso”. Pare de consumir açúcar e álcool, das inesgotáveis monoculturas de cana responsáveis pelos maiores índices de abuso do trabalhador, de violação de direitos humanos, de trabalho forçado infantil e condições de trabalho escravo (ou semi) de indígenas em MS, produção essa – diga-se de passagem – ilegal, por, em grande parte ocupar terras declaradamente indígenas e, de resto, apenas as terras que já há muito foram violentamente roubadas dos povos Guarani e Kaiowá do MS; pare de consumir carne de gado, os quais igualmente, para serem produzidos, implicam no roubo e grilagem de enormes quantidades de terra, assim como na derrubada e queimada de quantidades imensuráveis de Florestas e outras vegetações nativas, a exemplo do que tem ocorrido há cerca de 4 ou 5 décadas e nos últimos anos de forma ainda mais assustadora e criminosa tanto nas regiões de cerrado quanto em enormes áreas da amazônia; pare de consumir soja e seus derivados (que, além de tudo, hoje é quase 100% transgênica no Brasil); pare de consumir milho e todos os seus derivados, como canjicas, milhos em conserva, farinha de milho, fubá (que, do mesmo modo que a soja, a maior parte de sua produção no país hoje, ao menos da produção disponível nos mercados, é transgênica); poderíamos ainda dizer: pare de consumir papel ou pelo menos de desperdiçá-lo pois a maior indústria de celulose do planeta está sendo implantada neste momento, também no Estado do Mato Grosso do Sul, obviamente em cima de territórios tradicionais indígenas desta região; e pode-se acrescentar quantas coisas sejam necessárias até que uma mudança verdadeira de paradigmas ocorra em nosso mundo, em nossa sociedade. Mas eu garanto a vocẽs que não precisam seguir a lista toda. Apesar de que para todos os seres humanos, deixar de consumir tais produtos, nas atuais condições (como são produzidos, como os consumimos), certamente faria muito bem à saúde de todos. Mas de todos os produtos da lista acima, consumidos hoje em dia, o mais simbólico e o que mais causaria impactos diretos tanto na saúde da população (que melhoraria muito!) quanto na economia brasileira e até mesmo mundial, seria o boicote à cana-de-açúcar. Simplesmente parem de consumir açúcar, em todas as suas formas, em qualquer contexto ou circunstância.. ao menos experimentem de modo intenso e por inteiro não ingerirem QUALQUER forma de açúcar por um mês, apenas 1 mês!!! E verão o que o açúcar representa em nossas vidas e o que as monoculturas de cana significam para o país e para o planeta, especialmente em termos de economia e de força política e cultural de dominação. E então ficará absolutamente claro porque os povos Guarani e Kaiowá devem morrer! Porque devem ser assassinados ou levados ao suicídio e porque ninguém fala sobre isso há pelo menos 30 anos e porque o Governo Federal, o Estado Brasileiro, permite que este genocídio prossiga, porque Yjucá Pirama (“o índio, aquele que deve morrer”) ainda vive, ainda insiste em viver e em lutar por seu simples direito de existência. Consumir açúcar e carne (de gado) no Brasil (e no mundo, por consequência!) é um ato absolutamente criminoso! A cada vez que o fazemos – e é importante que tenhamos consciẽncia disso! – estamos cometendo um crime, tão violento quanto silencioso e ignorado por todos, especialmente e inclusive por nós mesmos. Então, aí está o desafio: se queremos de fato ajudar os povos indígenas a sobreviver e até a sonhar com a sua terra sagrada, com o dia em que poderão voltar para o lugar onde seus antepassados viveram e morreram e onde poderão, finalmente exercer a sua plena existência, enquanto nações livres e distintas da nossa, a primeira coisa a fazer (a mais importante e a mais difícil), é mudarmos a nós mesmos. Teremos que mudar de paradigmas – as referências que nos foram “vendidas” ou impostas (tanto quanto aos povos indígenas) também não servem a nós, homens brancos; ao menos não mais… nem tenho mais certeza se ainda somos esses homens brancos ou se mesmo estes, já não somos nós.. talvez estejamos também, assim como nossos irmãos indígenas, procurando o nosso próprio caminho, procurando encontrar a nossa Terra Sagrada (aonde estão enterrados nossos mortos?!), talvez ainda e cada vez mais estejamos a procura de nós mesmos para, quem sabe, encontrarmo-nos lá, aonde ainda existe – naqueles que não conseguimos apagar nem esquecer, nossos irmãos indígenas – a vida que nunca vivemos, mas a qual também tanto temos procurado.. uma vida numa Terra sem Males.

  5. O mais difícil de todo o trabalho é a mudança interna. O mais difícil é sem dúvida, sermos a mudança que queremos ver no mundo. Mas é inaceitável que isso seja motivo pra não fazermos nada. Ninguém tem a obrigação (e nem a capacidade) de fazer tudo, ou de acertar sempre. Mas não faz sentido não começar a fazer algo, só porque talvez não consigamos terminá-lo ou não façamos tudo da melhor forma possível. Se for assim, provavelmente acabaremos não fazendo nada, nunca. Portanto, é mais importante começar, tentar, se envolver de alguma maneira. Não existem “metas” corretas a se atingir, apenas o que devemos procurar é o melhor direcionamento da nossa energia. Portanto, se você não se sente a vontade ou não leva jeito pra vida “nômade” ou “desapegada”, tudo bem, isso não é um problema. Mas o que você se propuser a fazer, de livre e espontânea vontade, faça bem feito. Faça pequeno, mas faça completo! Isso é muito mais importante ou pelo menos mais sensato e eficaz do que tentar fazer “tudo” e não concluir nada. Pois a mudança deve ser permanente, constante, suave e cotidiana. Vivemos um momento e um mundo onde será fatalmente necessário “reinventar a vida”, e já estamos vivendo isso. Muitas pessoas, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, já estamos todos criando outra sociedade, outro mundo, outras relações e formas de vida. O que é necessário agora é nos entendermos cada vez mais como espécie e não como um “bando” de indivíduos. Assim, a nossa missão nesse momento é aprender a direcionar a nossa energia pra que tudo flua da forma mais plena possível, com cada pessoa agindo em sua melhor e máxima potência, num enorme coletivo complexo autogestionado. Então, faça suas escolhas, aprenda e desenvolva melhor as suas potências e aplique a sua energia com muita intensidade e tranquilidade naquilo que decidir fazer neste momento. Mas não deixe de fazer.. assim como, assuma a responsabilidade pela consequência das suas escolhas.

 

Uma última palavra: não citei absolutamente nenhum dado numérico e nem preocupei-me em ser exato principalmente por duas razões. A primeira é que o foco de minha contribuição não era a denúncia e nem mesmo um texto de convencimento para qualquer pessoa desinteressada. Ao contrário meu objetivo aqui é abrir um canal de apoio, diálogo e incentivo a todas as pessoas sinceramente interessadas nesta causa e, de um modo especial, àquelas que por ventura ainda não tenham tido oportunidade de conhecer mais a fundo o problema e que buscam obter informações mais seguras sobre o tema. A segunda razão é porque expor dados aqui seria por demais parcial e para quem quiser informar-se mais a esse respeito, o CIMI tem publicado nos últimos anos, Relatórios de Violência contra as Populações Indígenas do Brasil, de altíssima qualidade e grande densidade estatística, teórica e política. Em particular recomendo as duas últimas publicações nacionais (referentes aos anos de 2010 e 2011) e a última publicação específica sobre a Violência no Estado de Mato Grosso do Sul (2011).

Além disso, sugiro a todos que queiram efetivamente saber mais sobre a causa, além de ajudar de modo concreto, que assinem a publicação mensal do CIMI, o Jornal Porantim: http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=paginas&action=read&id=5723. Além de ter uma ótima qualidade na cobertura de assuntos relacionados à causa indígena e a todos os povos indígenas do Brasil, a assinatura anual não é cara e acredito sinceramente que além de ajudar na divulgação da situação indígena no país, é uma forma simples e solidária de apoiar os povos indígenas de um modo geral. Gostaria de deixar claro, por fim, que dei um destaque a esta entidade ao longo do texto basicamente porque tenho atuado junto a ela e por isso conheço mais de perto sua história e funcionamento interno, podendo falar com mais propriedade sobre ela do que sobre as demais, que não conheço tão bem. No entanto, como eu disse no próprio texto, certamente há muitas outras entidades, mesmo que locais, que têm ajudado muito e sem dúvida nenhuma contribuído para a história positiva do fortalecimento da luta e vida dos povos indígenas e, por isso, recomendo que busquem conhecer a todas que puderem.

 

Abaixo seguem alguns links que podem ser úteis nesses caminhos:

 

CIMI – Conselho Indigenista Missionário (www.cimi.org.br)

OPAN – Operação Amazônia Nativa (www.amazonianativa.org.br)

ISA – Instituto Socioambiental (www.socioambiental.org)

CTI – Centro de Trabalho Indigenista (www.trabalhoindigenista.org.br)

Survival International (www.survivalinternational.org)

Portal Kaingang (www.portalkaingang.org)

Casa da Cultura do Urubuí (urubui.blogspot.com.br)

 

* Gilberto Machel (o Gil) é permacultor, linguista e indigenista. Atualmente trabalha e vive com os Guarani Kaiowá de MS, onde desenvolve um trabalho (com sua companheira) em agroecologia e permacultura junto a este povo indígena, através do CIMI-MS. Como autor desta humilde e absolutamente pessoal contribuição, responsabilizo-me inteiramente por toda e qualquer ideia expressa neste texto, assim como por todos os eventuais equivocos de qualquer espécie e estou a disposição para conversar mais sobre o assunto: machel.g@gmail.com

 

O fim do crescimento econômico

 

O mundo se acostumou com dois séculos de crescimento econômico. A despeito dos ciclos recessivos, os países ficaram viciados no crescimento e no aumento continuado do Produto Interno Bruto (PIB). Mas o que pode acontecer se a máquina de produção e consumo emperrar? E se o crescimento econômico acabar?

O fim do crescimento econômico é o tema de dois livros recentes. O primeiro, The End of Growth: Adapting to Our New Economic Reality de Richard Heinberg apresenta uma defesa clara em favor de um desenvolvimento mais qualitativo do que um crescimento quantitativo. Ele argumenta que o crescimento das últimas décadas tem sido muito dependente de dois fatores: 1) endividamento cada vez maior e 2) combustíveis fósseis abundantes e baratos.

Porém, o mundo está esgotando rapidamente ambas as alternativas e é pouco provável que consiga substitutos no futuro imediato. A recessão de 2008, da qual ainda o mundo não se recuperou totalmente, parece não ser um fenômeno temporário, mas sim o fim do crescimento como o conhecemos. Para Heinberg a possibilidade de crescimento econômico deverá ser impedida por: a) o esgotamento de recursos importantes, incluindo combustíveis fósseis e minérios; b) a proliferação de impactos ambientais causados pela extração e uso de recursos (incluindo a queima dos combustíveis fósseis) – levando a custos crescentes causados por esses próprios impactos e pelos esforços feitos para evitá-los e anulá-los; e c) distúrbios financeiros causados pela incapacidade de nossos atuais sistemas monetários, bancários e de investimentos de se ajustarem à escassez de recursos e aos crescentes custos ambientais – e por sua incapacidade (no contexto de uma economia em recessão) de fazer frente às enormes dívidas públicas e privadas que foram geradas nas últimas décadas.

Portanto, o crescimento econômico nos anos vindouros deverá ser limitado pelo esgotamento dos recursos naturais críticos, do aumento dos custos de extração do petróleo (e seus associados impactos ambientais negativos) e aumento das dívidas. Confiar na tecnologia e na inovação não deve resolver o problema, pois o cresceimento desenfreado não pode derrubar as leis da física e garantir o crescimento perpétuo. Desta forma, Heinberg considera que estamos chegando à fase do “fim do crescimento”.

O segundo livro, The End of Growth,  de Jeff Rubin não é mais um título alarmante, mas sim um alerta sobre os rumos do modelo econômico atual. Rubin era um executivo do sistema financeiro que depois da crise internacional de 2008 se voltou para o questionamento dos rumos da sociedade industrial e sua dependência do petróleo. O Pico de Hubbert (pico do petróleo) vai significar um grande aumento de custos que vai exigir um grande ajuste da economia internacional.

Além disto o envelhecimento populacional também vai representar aumento de custos devido aos maiores gastos com saúde da população idosa e aumento da razão de dependência. Estes dois fatores vão aumentar a pressão sobre os problemas fiscais e reduzir a margem de investimentos produtivos e em infra-estrutura.

Por outro lado, mesmo considerando o fim do crescimento do PIB, Rubin é otimista em relação ao decrescimento da população e à difusão tecnológica – Internet, informação digital, impressão 3-D etc – que oferecem oportunidades realistas para impulsionar a desmaterialização da economia e a redução da emissão de carbono. O autor considera que as mudanças são inevitáveis e que o crescimento qualitativo deve substituir o crescimento quantitativo.

De maneira sintética, podemos dizer que existem cinco forças que devem influir para apressar o fim do crescimento econômico mundial, tal como tem sido o padrão dos últimos 200 anos:

– O pico do petróleo e o fim da energia abundante e barata;

– A perda da biodiversidade, a escassez de água potável e a diminuição de outros recusos naturais essenciais;

– O aquecimento global e as mudanças climáticas extremas que vão encarecer a disponibilidade de alimentos e aumentar o custo decorrentes dos desastres ambientais;

– A estagnação dos ganhos da esperança de vida, paralelamente ao processo de envelhecimento da população que vai colocar em xeque os sistemas previdenciários e de saúde e aumentar a razão de dependência demográfica (o fim do bônus demográfico nos países desenvolvidos);

–  O alto endividamento público e das famílias, que está inviabilizando a continuidade do consumismo desregrado e vai dificultar os investimentos na transformação do modelo de produção e consumo que tem aumentado a pegada ecológica e diminuido a produtividade e a biocapacidade ambiental.

No vazio das relações e da intimidade

“ […] As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a atividade da alma. […] (PESSOA, F. Livro de Desassossego, São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 119).

Casualmente algumas pessoas podem entrar pela janela da vida e se tornarem intensamente íntimas. Nesses encontros é fácil a percepção se elas serão relevantes ou não à medida que podemos compará-las às pessoas que já estão em nossa vida há muito tempo e não alcançaram tal relevância, acompanhando-nos, apenas, no agir do tempo e não no agir da nossa alma.

Por um lado, talvez a carência nos leve a crença em relações duradoras no primeiro contato, sem percebermos as diferenças ou mesmo a necessidade de nos relacionarmos intimamente sem nos machucarmos, apenas deixando o outro livre para bater as suas asas ou se afastar em direção oposta.
Por outro, não poderíamos esquecer o que Luís Fernando Veríssimo declama que “as pessoas só se definem no seu relacionamento com as outras”. Nesse sentido, somos o que somos não por nós mesmos, mas pelo que construímos em nós nos relacionamentos com os outros. Frisando Veríssimo, “ou seja, ninguém é nada sozinho, somos o nosso comportamento com o outro”.

Nesses insights raros e efêmeros, elas ganham espaço em todos sentidos, seja na convivência, seja na prioridade, seja na dedicação de tempo, seja na constância de ações ou mesmo no pensamento em comum. Torna-se normal desejar o cotidiano do almoço, do jantar, do cinema ou mesmo do desejo de comer pipoca no sofá. Parece um encontro de alma ou de razões. É normal falar sem motivo, perder a vergonha de falar de si, contar os segredos ou mesmo comemorar o dia. Parece que essas pessoas se mostram como anjo de confiança.

Sentimos fortalecidos quando a intimidade está no instigante jogo da sedução frente à severa forma do vazio. Sempre quando temos essa percepção, ainda que momentânea, o sentimento é que é essas pessoas são parte do nosso eu, principalmente, porque a intimidade é tão intensa que começamos a partir das semelhanças, minimizar as diferenças, esquecer os agravos, relevar as falhas e valorizar o que o outro tem de melhor.

Mencione-se que algumas pessoas podem chegar e ficar em nossa vida por um século ou apenas por uma estação. Em geral, se sentimos o mesmo valor do encontro de intimidade, sorrimos do passado, comemoramos o presente e sinalizamos um futuro, com um pensamento comum de certeza.

No entanto, existem outras adjetivações da intimidade, principalmente quando ela é confundida como forma de se posicionar na sociedade e garante apenas um tipo de audiência exterior. Nesse caso se confunde como as lágrimas na chuva ou mesmo se perde ou se desqualifica como as motivações dos encontros casuais. Estranho essa contradição ou paradoxo sobre intimidade? Entendo que não, apenas que a certeza da intimidade emocional pode também gerar a incerteza da intimidade física.

Mas o que significa essa intimidade, já que sempre mudamos o formato das nossas relações quando o tão aclamado ”tempo que passa” passa a ser a nossa maior justificativa para as nossas posições perante o outro. Tempo esse que pode ser de uma noite, de um ano, de uma década ou mesmo de uma vida.

Quem poderia desconsiderar que o normal e até aceitável, é o termo da ”síndrome do dia seguinte”. Quem poderia desconsiderar que na nossa busca por intimidade com amores, família e amigos, desejamos a solução de resposta para o dia, ou mesmo para o ontem, inserindo essa pessoas em memórias ou histórias que não são comuns.

Um das certezas é que sempre queremos memórias instantâneas e gratificantes e esquecemos que à noção de avanço da intimidade é sempre uma via de mão dupla, pois dependendo da urgência da nossa necessidade, sejam físicas ou emocionais, fabricamos o melhor amor ou o amigo ou, na maioria dos casos, o melhor desamor ou desafeto. O termo pode ser estranho “fábrica”, mas a pressão contemporânea de estamos envoltos em relações, a fugacidade e as soluções temporárias de companhia parecem ser o caminho mais fácil para a continuidade e para aceitação do nosso eu perante a sociedade.

Todavia, me parece que a intimidade física é muito mais fácil de alcançar, seja pela convivência, pelos laços familiares, profissões e planos comuns ou mesmo pelas coincidências do cotidiano. Intimidade física pode-se exigir pouca dedicação emocional e, assim, se torna mais fácil a permanência, afinal não há cobrança. Poderia dizer que encontramos até na balada. Essa intimidade é contemporânea, aceitável e fácil de lidar, pois não exige tempo, dedicação e a escuta.

No entanto, o que fazer quando vem o desejo de estender a intimidade física para emocional, ou seja, para ser ter no outro à companhia duradora, mesmo sabendo que quanto maior seja a intimidade ou de se chegar ao outro, maior passa a ser possibilidade da perda.

Devemos lembrar que a paixão e o encantamento podem ser passageiros e que o normal em qualquer relação é construir uma muralha envolta à medida que o outro evolui e procura a atender novas necessidades, principalmente se o que encantou anteriormente passa agora ser despercebido ou cai de moda.

Logo, a grande questão do avanço de intimidade é o fato de que quanto mais íntimo, maior é a possibilidade da dor da perda. Sem dúvida, a cobrança incondicional pela atenção é uma dos grandes riscos, principalmente, se o outro cansa facilmente dessa intimidade.
Penso que as pessoas entram por alguma razão na nossa vida e saem por inúmeros motivos, seja pelo desencantamento, decepção, divergências ou mesmo projetos diferentes. Todavia o que tenho aprendido é que não basta a razão querer discutir quando o sentimento não está com vontade de diálogo.

Quando isso acontece, um vai e o outro fica. E o que fica da intimidade do dia-a-dia os fatos revelam apenas o seu lado negativo, ou seja, o excesso do poder em convencer o outro a respeito de sua individualidade. E como diz José Saramago: “No coração da mina mais secreta, no interior do fruto mais distante, na vibração da nota mais discreta, no búzio mais convolto e ressoante, no silêncio mais fundo desta pausa, em que a vida se fez perenidade, procuro a tua mão, decifro a causa de querer e não crer, final, intimidade.

Vamos privatizar os gregos?

Pensei que morreria tendo visto, sentido, provado, intuído, ouvido e lido de tudo quanto fosse necessário para passar dessa para a outra “numa boa”. Mas não! O que me impressiona é a minha capacidade de ainda me impressionar com certas coisas que acontecem – ou são ditas/escritas – por aí.
 
Percebam por si:
 
“O uso excessivo da marca dilui o poder de distinção. Se eu começar a colocar o nome de Biblioteca Nacional em todos os estados, daqui a pouco as pessoas não vão mais relacioná-lo à biblioteca no Rio. É a mesma coisa”.
 
“Os patrocinadores bancam esses grandes eventos em troca do direito de usar as palavras associadas a eles. Se for permitido que todo mundo use essas palavras, por que as empresas vão querer patrocinar? Estamos agindo de forma muito branda aqui no Brasil. Nos Jogos Olímpicos de Londres a lei foi muito mais restritiva”.
 
Não imaginava a incrível capacidade que alguns advogados, orientados pelos seus clientes, têm de defender a pátria. A dos outros, claro.
A colocação acima é parte do processo que o Comitê Olímpico Brasileiro – COB move contra as escolas pelo uso da palavra “olimpíada” (ver aqui). Que o COB seja uma instituição privada, tudo bem (“O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) é uma organização não governamental de direito privado”). Será? Essa página do site do COB nos informa:
 
“A Lei Agnelo/Piva, sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em 16 de julho de 2001, destina 2% da arrecadação bruta das loterias federais do país em favor do COB (85%) e do Comitê Paralímpico Brasileiro (15%). Dos 85% que lhe cabe, o COB investe obrigatoriamente por lei 10% no Esporte Escolar e 5% no Esporte Universitário, e o restante é aplicado nos programas das Confederações e do COB. Outros recursos são obtidos a partir de patrocinadores privados, doações e de convênio com os três níveis de Governo, viabilizando alguns dos projetos de desenvolvimento esportivo”.
 
Mais:
 
“Dos recursos para o esporte hoje no país, cabe ao COB administrar somente as verbas oriundas da Lei Agnelo/Piva, de seus próprios patrocinadores e de convênios firmados diretamente com governos”.
 
Interessante a colocação da palavra “somente” nessa última frase. Talvez queiram dizer que não aceitam doações de particulares. Porque do resto, aceitam qualquer coisa. Assim como, para defender seus “próprios patrocinadores” ATIRAM sem dó nem piedade nos patrocinadores públicos.
A causa em questão é o uso de palavras “capturadas” pelo COB: “olimpíadas”, “Jogos Paraolímpicos”, “tocha”, “chama”, etc. A mídia e os organizadores do evento foram obrigados a usar um absurdo neologismo tão somente porque não poderiam usar a palavra “olímpicos”. Temos, agora, os jogos “paralímpicos”.
 
Eu disse: morro e não vejo tudo! Mas até aí tudo bem. Afinal, são instituições privadas (já vimos que nem tanto assim). Que se matem por nomes. É problema delas. Mas daí a querer exigir que se mude o nome de competições que nada têm a ver com os jogos gregos?
Quer queiram ou não, COB, CBF e tantas outras, dizem defender o Brasil nas competições. É a bandeira do Brasil que é hasteada e o nosso hino que é cantado quando ganhamos uma competição.
 
Se é o Brasil que está em jogo, por que o Brasil não pode usar livremente o nome “olimpíada”? A resposta é clara para todo mundo, menos para os engenhosos advogados e dirigentes do nosso “privado” esporte: querem privatizar – e qualquer dia desses conseguem – o nome “Brasil”. Brasil há de virar uma marca da Coca Cola, do MacDonalds, da Nike, ou de quem pagar mais para os comitês.
 
Já não bastasse o que tem sido feito (aqui), agora mais essa: minha filha não poderá participar da “Olimpíada Nacional de História do Brasil” porque alguns donos das palavras não querem. Essa e tantas outras, tão importantes quanto às olimpíadas esportivas.
Mas vamos aos argumentos da venda: “Estamos agindo de forma muito branda aqui no Brasil. Nos Jogos Olímpicos de Londres a lei foi muito mais restritiva”. Confesso que não encontro outra palavra para definir esse tipo de comparação, a não ser “imbecil”. Coisa de demente pensar que só porque em Londres foi assim, o Brasil deve ser igual ao “melhor”. Como alguém pode, em pleno século XXI, ainda se valer desse tipo de comparação? Em outras palavras, nosso destino é ser como os ingleses? Serão eles o parâmetro que mede o mundo? Será porque Greenwich fica lá? Será porque esses advogados e o COB pensam que não temos identidade própria e que, por isso, podemos ser submetidos ao bel prazer dos nossos “patrocinadores”?
 
Vamos indo: “Se for permitido que todo mundo use essas palavras, por que as empresas vão querer patrocinar?”. O suprassumo da submissão! A língua pátria proibida de uso pelo próprio povo e suas instituições, tão somente porque algumas poucas empresas querem lucrar com elas. E com total apoio do COB, QUE RECEBE DINHEIRO PÚBLICO!
 
Sequer pasmo fico. Deveria ficar?
 
Pasmo mesmo, fico com mais essa pérola de argumento comparativo: “O uso excessivo da marca dilui o poder de distinção. Se eu começar a colocar o nome de Biblioteca Nacional em todos os estados, daqui a pouco as pessoas não vão mais relacioná-lo à biblioteca no Rio. É a mesma coisa”.
Isso! Tomemos o povo como ignorante. Afinal, temos certeza que é.
 
Sem comentários!
 
Juro que não sei o que é pior: se o nível da defesa; se o nível dos dirigentes do COB; se o nosso nível ou se o nível das “patrocinadoras” nossas donas. Ao fim e ao cabo, dou razão às últimas. Por isso mandam e desmandam no que bem entendem nesse nosso varonil país.
Estamos chegando a um perigoso limite: estamos vendendo nossa soberania em troca de bugigangas trazidas pelos “homens brancos”. É assim que se faz um povo servil: proíbe-se o uso da língua. Fizemos isso com os índios.
 

Hipocrisia barata, nese caso, essa de defender “marca”.

Os simplismos do pensamento organizacional quanto à sustentabilidade

Shrivastava (1994) apontava para uma ‘castração’ de assuntos ligados ao meio ambiente nos estudos organizacionais, no sentido de que a natureza não era levada em consideração nas pesquisas organizacionais. Apesar do reconhecimento de que os estudos organizacionais até então haviam dado pouca importância às questões da relação homem-natureza no sentido de ambiente biológico, as propostas de solução oferecidas por este autor e outros de correntes mainstream do pensamento em gestão e teoria organizacional, são prescritivas e simplistas. 

 Lentamente no início e com grande impulso posterior, as preocupações com o meio ambiente e com a miséria de largas partes da população começaram a descer do nível macro, do planeta e da sociedade, para o nível das organizações. Como exemplo pode-se citar a visão baseada em recursos (VBR), que no final do século passado estabelecia suas bases como pensamento estratégico dominante. Hart (1995) propunha incluir as questões ambientais neste escopo estratégico das organizações, criando uma VBR Natural, como uma solução para os problemas ligados à sustentabilidade. O autor afirmava que os próximos 40 anos, a partir de então, apresentavam um desafio sem precedentes, pois neste período, a partir de 1995, a população mundial iria dobrar aritmeticamente e o uso de recursos naturais tendia a aumentar em proporção geométrica. “Ou se altera a natureza das atividades econômicas ou se arrisca causar danos irreversíveis aos sistemas ecológicos básicos do planeta” (HART, 1995, p. 991). O autor usava aqui a palavra ‘natureza’ em outra acepção, mas este uso mostra a profunda ligação da mesma com o que há de mais essencial e ontológico no homem.

No quadro de ações abaixo, no entanto, o autor sugere como escopo conceitual para a implementação destas medidas ‘soluções paliativas’, pouco concretas e absolutamente dentro dos padrões de atuação das empresas da época, sem maiores desafios e com um linguajar absolutamente digerível pelas grandes corporações.

Quadro 3– Uma Visão Baseada em Recursos – Escopo Conceitual

Capabilidades Estratégicas

Forças Ambientais – Minimizar

Recursos-Chave

Vantagem Competitiva

Prevenção à Poluição

Emissões, efluentes e desperdício.

Melhoria contínua

Custos mais baixos

Liderança em Produtos

Custo do ciclo de vida dos produtos

Integração dos stakeholders

Bloqueio de competidores

Desenvolvimento Sustentável

Impacto do crescimento da empresa

Visão Compartilhada

Posições futuras

                                                                                                Fonte: Adaptado de Hart (1995)

 Pode-se observar que as palavras-chave e ideias mais frequentes que aparecem no leque de soluções apresentadas por Hart (1995) acima são ‘minimizar e melhorar’. Remetem aos trabalhos da mesma época, ligados à Qualidade Total ou melhoria contínua. Não há propostas radicais nem ameaçadoras para as organizações. Este texto pode ser tomado como base para entender a percepção vigente no mundo corporativo sobre o tema e serve de base para outros trabalhos posteriores deste autor que, de forma funcionalista, pragmática e inofensiva – para as grandes empresas – propõe o que chama de Portfólio de Sustentabilidade (HART, 2000, p. 113).

Como aponta Snell (2000), estudos realizados nos anos 80, nos Estados Unidos da América, mostram que algumas organizações parecem dirigidas internamente por forças que divergem consideravelmente dos valores esposados pela sociedade. De algumas, poder-se-ia dizer que, sob a superfície, suas normas são “[…] a desonestidade, a injustiça, o saque, a brutalidade psicológica e a instrumentalidade a serviço dos próprios interesses (SNELL, 2000, p. 269)”. A utopia e o desejo de que haja hoje organizações seriamente esforçadas em mudar a situação e se colocar a serviço desta definição acima e da realização do sonho de um mundo melhor não deve, no entanto, ser descartado cedo demais. Existem hoje casos considerados exemplares de organizações e de políticas, consideradas sustentáveis para a sociedade como um todo. São casos que levam em consideração os saberes atuais, mesmo com o risco intrínseco de que as propostas de ação um dia se revelem infrutíferas ou insuficientes.

Uma das dificuldades que as organizações enfrentam é que no sistema capitalista tradicional são usados princípios contábeis dogmáticos para definir o que é lucro e sustentabilidade econômica, princípios estes pouco acessíveis aos leigos. É usada uma contabilidade que não atribui valor a alguns dos maiores volumes de recursos que as empresas usam na produção, como é o caso de custos indiretos de recursos naturais, oxigênio consumido e ar devolvido sujo, depleção de aquíferos etc. Entende-se hoje que é irreal atribuir a estes insumos apenas os valores de mercado, associados à sua colocação à disposição, como no caso da água, sem considerar, por exemplo, o custo do esgotamento futuro ou outros custos ambientais envolvidos na sua produção, como a liberação de metano em determinados reservatórios. Em uma experiência conduzida entre 1991-93, no Arizona, chamada Biosphere 2, os cientistas descobriram que não podiam manter os níveis de oxigênio necessários para a vida de oito pessoas que viviam no projeto de US$ 200 milhões, enquanto a Terra faz isso sem nada cobrar (HAWKEN et. al., 1999). A tecnologia parece não poder substituir alguns dos serviços oferecidos pelos sistemas biofísicos do planeta, da mesma forma que máquinas vêm se mostrando incapazes de substituir plenamente a inteligência, o conhecimento, a sabedoria, a cultura e as habilidades organizacionais dos seres humanos.

Muitas vezes, no nível organizacional, o discurso da sustentabilidade é, por vezes, extremamente focado na questão da inovação tecnológica como solução para todos os problemas. A ‘inovação sustentável’ é aquela “[…] que traz benefícios econômicos, sociais e ambientais, comparados com alternativas pertinentes” (BARBIERI et al. 2010, p. 151) e aparece segundo o autor hoje como preocupação de muitas organizações sempre que ocorre a introdução, produção, assimilação ou exploração de produtos, processos produtivos ou ainda métodos de gestão.

Springett (2005), no entanto, afirma que muitas das estratégias de gestão empresarial chamadas de sustentáveis são focadas no ‘o que fazer’ e ‘como fazer’: produção mais limpa, operações ecoeficientes e supostamente benignas e organizações e ações socialmente responsáveis. Apesar de fornecerem respostas ao que os empreendimentos devem fazer, carecem de sugestões sobre o que os negócios devem ser na sociedade em que queremos viver.

A proposta de Murdoch e Clark (1994) é a de que o conhecimento local deve ser investigado e, se possível, estudado na ação em suas consequencias práticas nas comunidades e suas organizações. Formas locais de conhecimento, mesmo que originárias das comunidades e do bom senso, ainda sem fundamentação científica, devem ser consideradas  com seriedade. Podem, à primeira vista, parecer em desarmonia com o meio ambiente ou insustentáveis em termos econômicos tradicionais, mas podem ser sob outros aspectos, vitais para aquela comunidade e as organizações que dela fazem parte e sustentáveis para a sociedade como um todo. Práticas culturais, sociais, políticas e suas manifestações agrícolas, industriais e tecnológicas em geral, não devem ser imediatamente descartadas em detrimento de alternativas ‘verdes’ criadas em centros de estudos distantes e de ‘manejo’ proposto pela ciência tradicional e que seguem uma lógica baseada, em primeiro lugar, na ‘verdade’ econômica predominante.

A ciência tradicional valeu-se sempre da busca por aplicações práticas e esta afirmação deve valer para a ciência social, precisando esta ser passada por severo escrutínio antes de ser aplicada em qualquer ambiente, seja este econômico, social, cultural, político, tecnológico e biológico. Este escrutínio deve sempre buscar os interesses que podem estar por trás de seus postulados, prescrições e possíveis consequencias para as populações envolvidas.

 Referências (a serem colocadas)

BARBIERI. J.C; ANDREASSI, VASCONCELOS, F.C.; VASCONCELOS, I.F.G. Inovação e sustentabilidade: novos modelos e proposições, RAE Revista de Administração de Empresas, v. 50, n. 2, p.146-154, 2010

HART, S. L.  A Natural-Resource-Based View of the Firm, The Academy of Management Review, v. 20, n. 4, p. 986-1014, oct. 1995

_________. Beyond Greening: Strategies for a Sustainable World, In: Harvard Business Review on Business and the Environment. Boston MA: Harvard Business School Press, 2000, p. 105-130

HAWKEN, P.;  LOVINS, A.; HUNTER-LOVINS, L. Natural Capitalism. New York, Boston: Back Bay Books / Little Brown, 1999

MURDOCH, J.; CLARK, J. Sustainable Knowledge, Geoforum, v. 25, n. 2, p. 115-132, 1994

SHRIVASTAVA, P.  Castrated environment: Greening organizational studies, Organization Studies, v. 15, n. 5, p. 705-726, 1994

SNELL, R. S. Studying moral ethos using an adapted Kohlbergian model, Organization Studies, v. 21 n. 1, p. 267–295, 2000

SPRINGETT, D. ‘Education for Sustainability’ in the Business Studies Curriculum: a Callfor a Critical Agenda, Business Strategy and Environment, v. 14, 146–159, 2005

 

A população da Indonésia em 2100

map indonesia

A Indonésia é o quarto país mais populoso do globo e o maior país muçulmano do mundo. A população da Indonésia era de 74,8 milhões de habitantes em 1950 e passou para 240 milhões em 2010. As projeções da ONU indicam uma população, em 2050, de 339 milhões na hipotese alta, de 293 milhões na hipótese média e de 253 milhões na hipótese baixa. Para 2100 as três hipóteses são: 422 milhões, 254 milhões e apenas 141 milhões na hipótese baixa.

A Indonésia (cujo nome significa arquipélago indígena) possui uma área de 1.904.569 km2, compreendendo 17.508 ilhas, localizadas entre a Índia, o Sudeste Asiático e a Austrália. A densidade demográfica, em 2010, era de 126 habitantes por km2. A título de comparação, o Brasil tinha apenas 23 hab/km2.

A taxa de fecundidade total (TFT) estava em 5,5 filhos por mulher no no quinquênio 1950-55 e caiu para 2,2 filhos por mulher no quinquênio 2005-10. A divisão de população da ONU estima que as taxas de fecundidade vão ficar abaixo do nível de reposição no quinquênio 2045-50, devendo chegar a 1,7 filhos por mulher, podendo subir ligeiramente para 1,95 filhos por mulher em 2095-00.

A redução da fecundidade tem contribuido para a ampliação do bônus demográfico e para a redução das taxas de mortalidade infantil e de mortalidade materna. As taxas de mortalidade infantil estavam em 192 por mil no quinquênio 1950-55, passaram para 29 por mil no quinquênio 2005-10 e devem atingir 14,6 por mil no quinquênio 2045-50 e 8,6 por em 2095-00. Já a esperança de vida subiu de 38,8 anos, para 67,9 anos, devendo atingir 77,6 anos e 83,1 anos, nos mesmos quinquênios.

Como o Brasil, a Indonésia vai passar por um rápido processo de envelhecimento. A idade mediana da população era de 20 anos em 1950, passou para 27,8 anos em 2010 e deve chegar a 41,6 anos em 2050 e a 46 anos em 2100.

A pegada ecológica per capita do país era de 1,13 hectares globais (gha) em 2008 e a biocapacidade de 1,32 gha per capita, de acordo com o relatório Planeta Vivo, da WWF. Portanto, o país possui um superávit ambiental. Mas assim como o Brasil, a Indonésia enfrenta o problema do desmatamento de suas florestas e a perda de biodiversidade.

A continuidade da queda das taxas de fecundidade pode ajudar ao maior país muçulmano do mundo avançar na qualidade de vida de sua população. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) passou de 0,42 em 1980 para 0,61 em 2010. Para as próximas décadas o desafio é continuar avançando nos direitos de cidadania com respeito ao meio ambiente e a proteção de uma das maiores  e mais ricas áreas de biodiversidade do globo.