A população de Taiwan

Taiwan é um país insular que fica no leste da China continental, entre as latitudes correspondentes das cidades de Hong Kong e Xangai, pouco acima das Filipinas e abaixo da Coreia e do Japão. A história de Taiwan possui mais de 5 mil anos, mas no passado havia uma população muito rarefeita na ilha.

A China começou a colonização de Taiwan no século XIV. Por volta de 1600, os portugueses criaram um entreposto comercial que foi chamado de Formosa. Mas os chineses reconquistaram a ilha em 1661. Em 1895, após a derrota na guerra Sino-Japonesa, a China cedeu Taiwan ao Japão. Depois das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaqui e da derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, a ilha voltou à soberania chinesa. Naquela época, o país era governado pelo partido Nacionalista (Kuomintang) de Chiang Kai-shek. Em 1949, após a vitória da Revolução Comunista, liderada por Mao Tsé-tung, cerca de 2 milhões de pessoas das forças nacionalistas e capitalistas de Chiang Kai-shek se refugiaram em Taiwan.

Após os acordos Nixon-Mao, em 1971, os Estados Unidos da América alteraram a sua posição de apoio diplomático à Taiwan e passaram a reconhecer a República Popular da China como o único governo legítimo da China (por conta disto, por exemplo, a divisão de população da ONU não faz projeções populacionais para Taiwan).

A população de Taiwan chegou a 7,9 milhões de habitantes em 1950 e praticamente dobrou de tamanho até 1970, quando atingiu 14,6 milhões de habitantes. Em 2000, atingiu 22 milhões, em 2010 chegou a 23,1 milhões de habitantes e deve apresentar um pequeno declínio até 2050 com 20,8 milhões de habitantes, segundo dados do Census Bureau dos EUA (de onde foram retirados os dados e as pirâmides desse artigo).

Estima-se que a taxa de fecundidade total (TFT) de Taiwan, tal como na China continental, estava em torno de 6 filhos por mulher em 1950. Porém, com a rápida urbanização, industrialização e universalização da educação e da saúde, a TFT caiu para 1,8 filho por mulher no início da década de 1990, chegou a 1,1 filho por mulher em 2005 e atingiu o nível mais baixo do mundo em 2011, com apenas 0,9 filho por mulher. Ou seja, mesmo sem políticas controlistas (como a política do filho único na china) a fecundidade de Taiwan atingiu uma queda histórica e sem precedentes.

Isto significa que o país vai passar por um processo de envelhecimento muito forte e, posteriormente, deve apresentar um grande declínio da população (na segunda metade do século XXI).

Taiwan é considerado um dos Tigres Asiáticos, isto é, um dos países que apresentaram maior crescimento econômico e avanços no desenvolvimento social do mundo nas últimas décadas. Atualmente, Taiwan tem uma renda per capita de 38.200 dólares (2011), com um Índice de Gini de 0,326 (baixa concentração de renda), mortalidade infantil de 5,1 mortes de crianças até 1 ano de idade para cada mil nascimentos, esperança de vida de 78,5 anos, apenas 1% da população abaixo da linha da pobreza, além de baixo desemprego e baixa inflação.

Um dos motivos do sucesso do desenvolvimento econômico e social de Taiwan foi o forte investimento em educação, saúde, empregos decentes e ciência e tecnologia, juntamente com a transição demográfica. Nestes aspectos, “Formosa” pode ser um bom exemplo para outros países do mundo.

Especismo e ecocídio: a ameaça de extinção dos rinocerontes

Enquanto a população humana cresce, a população de rinocerontes decresce. Atualmente, existe cerca de um milhão de indivíduos humanos para cada rinoceronte do mundo. Ou seja, um rinoceronte para cada cidade do tamanho de Nova Iguaçu ou Campinas.

Mas ao invés de estar sendo protegidos e com seus direitos reprodutivos garantidos, os rinocerontes estão ameaçados de extinção devido a caça predatória para a retirada do chifre, que é considerado afrodisíaco no incentivo das relações sexuais humanas.

Os rinocerontes vivem na Terra há milhões de anos e sobreviveram à diferentes eras glaciais. Porém, não estão conseguindo sobreviver à era do dinheiro, pois estão sendo mortos (mesmo com a existência do Viagra) para viabilizar o sonho de noites selvagens de paixão e sexo da elite humana, sem compaixão.

Centenas de rinocerontes são abatidos covardemente todos os anos para alimentar o comércio apenas do chifre, cujo preço no mercado negro vale mais que o ouro, chegando a 50.000 euros por quilo. Os criminosos cortam os chifres dos animais e vendem como remédio para diversos tipos de doença ou como porções afrodisíacas na China e no Sudeste Asiático.

Esta prática que trata os rinocerontes como se fosse uma espécie à disposição do deleite humano precisa ser classifica como um crime especista e deve ser condenada pelas leis internacionais contra o ecocídio.

Homem, Mulher Girafa ou Mulher Satélite?

“Entre um homem e uma mulher não é possível haver amizade. É possível haver paixão, hostilidade, veneração, amor, mas amizade, não.”  (Oscar Wilde)

O homem precisava de uma mulher indubitável para o ofício do amor. Havia a necessidade de distinguimos o macho da fêmea. No período, os princípios religiosos e éticos determinavam que a presença de um homem perante as mulheres culminava no sexo fora do casamento ou na supremacia da tirania do mais fraco sobre o mais forte. Penso que era um argumento totalmente racional para a época, visto que uma das discussões recorrentes era a motivação hormonal masculina para traição, lascívia, mentira, desejo de privacidade ou mesmo a irredutível incomunicabilidade entre os gêneros.

Claro que os certames dos livros de filosofia  ajudavam a promover os mitos, em especial,  que o homem não gostava de encontros com mulheres que não fossem as suas esposas; exceto quando esses encontros fossem casuais, visto que o gênero era um autêntico equilibrista entre afeto e limites.

Por um lado,  a questão das diferenças pode ter sido o elemento de desconforto para o surgimento do feminismo, principalmente frente à cultura de que o homem projeta a mulher  ideal para ser a mãe dos filhos. Isso baseado no mito de que ela não deve apresentar sinais de instabilidade e lembrar o conforto do seio materno.

Na falta de evidências empíricas, essa condição se aplicaria a cultura coletiva que reforça a atribuição às mulheres, das fragilidades e complicações da relação. Mas será que tudo se resume ao instinto maternal, assegurar uma família composta de padrões e ceticismo morfológico ou a lógica em que tudo se resume as contas pagas, a casa construída e ao amor do “Esse cara sou eu”.

Por outro lado, para compreender a profundidade das diferenças, é preciso também entender um pouco de conceitos avessos sobre o acasalamento, religião e biologia. A bíblia  apresenta a mulher como parte da costela de Adão, mas a ciência apresenta o feto masculino como o fruto de um esforço genético à medida que concorre contra o desenvolvimento do feminino e só após seis semanas de concepção, se o cromossomo Y não produzir uma determinada proteína, um feto feminino terá presença garantida. Ironicamente, seria o homem gerado a partir da obra do destino feminino.

Essas questões deixam claro que desde os primórdios dos nossos antepassados, busca-se identificar diferenças entre os gêneros, seja pela crítica ao essencialismo feminismo que descreve que há uma natureza específica da mulher, seja pelo fato de se afirmar que os meninos são inclinados a comportamentos típicos do gênero masculino, principalmente os que maximizam as necessidades de intelectualidade, competitividade e sentimentalidade.

Sem a possibilidade de escolha, meninos deveriam escolher brincar com meninos e acreditarem que não há sentido nos momentos de amizades intersexuais. Menina teria que comprar esmaltes com glitter, determinado, assim, uma espécie de Código da Vinci dos encontros e desencontros entre gêneros.

Carlos Drummond de Andrade pontuou em certa ocasião a questão da apreciação e julgamento dessas diferenças em “A solidão do Girafo”: “[…]não resta dúvida que, democraticamente, a moça girafa tem direito de escolha, e pode não ir contigo e com teu focinho…”

Penso que mesmo que não existam muitos homens girafos, a mulher girafo não quer privilégios. Mesmo calada, não é sigilosa.  E mesmo na solidão, a moça girafo entende que “cada um de nós há de sentir-se estimulado a crescer no mínimo alguns centímetros em dignidade cívica, abnegação, amor à verdade”.

Não poderia deixar destacar que a ditadura dos mitos lembra a Cinderela e a busca pelo príncipe que assume a perfeição nos seus sonhos platônicos. Por um lado, assume uma postura Nietzscheniana quando afirma que não deveríamos tentar deter a pedra abaixo. Por outro, a coletividade prefere o padrão de mulher Cinderela e esquece que cada indivíduo é uno e que não há singularidade.

Prefiro pensar que toda mãe nunca deveria vestir uma filha de Cinderela, com vestido de armação azul em dois tons e tiara na cabeça, ou seja, estabelecendo para menina todos os pré-requisitos do mito idealizado. Seria uma compra sem direito a troca e cheio de regras, com cara de coração, perfeita forma de bombom serenata do amor. Seria invalidar que cada um é motorista do seu ônibus. Seria a transferência de responsabilidade sem aviso prévio.

Conheço mulheres independentes, resolvidas, defensoras de suas idéias, mães adoráveis, mas que sonham com um grande amor e terminam insistindo nos mitos. Algumas delas vão ao cinema, viajam ou almoçam sozinha, mas sempre duvidam que o conto não é verdadeiro e terminam a noite com a verdade individual e solitária: “ele se apaixonou”. Talvez a grande verdade é que é melhor acreditar em um mito do que verdadeiramente duvidar de que ele não existe.

Na última semana, ouvi a definição da nova mulher Cinderela, que seria a mulher-satélite que vive na órbita alheia e encontra o homem sol. Quando recebe a primeira mentira, não pergunta pelo fim, apenas fica presa a uma relação inexistente e termina amando mais a ausência do homem do que a sua presença. Seria o mito moderno de viver e girar em mudanças radicais pelo sol alheio.

Diferenças existirão no pensamento, anatomicamente, mas antes de se frisar os mitos entre sexos, deve-se pensar em diferenças entre vidas e conviver com a proposta de Aristófanes: “será ele uma figura andrógina, com uma metade feminina e outra masculina.” Penso que devemos ter um pé firme na vida, entendendo as mudanças e quebrando os mitos que os apostos se atraem, independente de diferenças entre os gêneros.

Assim, “qualquer tentativa de negar a existência de uma essência no homem ou na mulher deixa-nos num beco sem saída para o sexo que estiver no lado oposto (Robert Scholes, in Naomi Schor e Elizabeth Weed, 1944, p.127)”.

Uma família plural, complexa e diversa

Censo 2010. Uma família plural, complexa e diversa. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi

Entrevistas IHU – Segunda, 29 de outubro de 2012
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/515013

“A sociedade brasileira mudou em termos demográficos e na composição plural das relações familiares. Os diferenciais de gênero e de geração são fundamentais para se compreender a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo”, afirmam o/a pesquisador/a.

Indagados a respeito das principais conclusões a que chegaram em relação à família brasileira no estudo recente que realizaram com base no censo de 2010, José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, dizem que a primeira grande mudança foi a redução do arranjo majoritário formado por casais (núcleo duplo) com filhos. “Em números aproximados, este tipo de família estava presente em cerca de dois terços (66%) dos domicílios, em 1980, mas caiu para algo próximo de 50% em 2010. Isso aconteceu porque os pais, tendo menor número de filhos e maior esperança de vida, vivem mais tempo na fase do ‘ninho vazio’, pois os filhos tendem a sair da casa de seus progenitores para formar uma nova família, para morar sozinhos ou para formar arranjos domiciliares com pessoas não parentes”, frisam.

Para eles, o casamento é praticamente um evento universal no Brasil, mas somente se considerarmos todos os tipos de matrimônio. “Em 1970, 65% dos casamentos aconteciam no civil e no religioso, 14% somente no civil, 14% só no religioso e 7% eram uniões consensuais. Em 2010, o casamento no civil e religioso caiu para 43%, só no civil aumentou para 17%, só no religioso caiu para 3% e as uniões consensuais subiram para 37%”.

José Eustáquio Diniz Alves é doutor em Demografia e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.

Suzana Cavenaghi é doutora em Demografia e professora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. Os entrevistados esclarecem que nesta entrevista apresentam seus pontos de vista em caráter pessoal.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais foram as principais mudanças ocorridas na sociedade brasileira nas últimas décadas?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O Brasil passou por grandes transformações econômicas e sociais no século XX, deixando de ser uma sociedade predominantemente rural e agrária, para se tornar uma sociedade urbana com predominância econômica da indústria e do setor de serviços. Nas últimas décadas, houve mobilidade ocupacional, espacial e social, assim como a construção de uma sociedade de consumo de massa. As relações entre as classes mudaram e o Brasil se tornou uma democracia política e cultural (mesmo com as diversas limitações). A transição demográfica reduziu as taxas de mortalidade infantil, aumentou a esperança de vida e reduziu as taxas de fecundidade. Isso provocou uma mudança da estrutura etária e o Brasil está deixando de ser um país com alta predominância de jovens para se tornar um país com elevada proporção de idosos. Houve também uma mudança das relações de gênero com maior empoderamento das mulheres e um lento, mas contínuo, processo de despatriarcalização da sociedade. Tais transformações tiveram um grande impacto sobre a forma de estruturação das famílias e sobre a dinâmica dos arranjos domiciliares.

IHU On-Line – Como essas transformações econômicas, sociais e demográficas afetaram a organização das famílias brasileiras?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O primeiro e maior impacto foi sobre o tamanho dos arranjos familiares. A família numerosa, que era muito adaptada às condições da sociedade rural, quando havia ampla disponibilidade de terras, deixou de ser funcional na sociedade urbana, onde a inserção dos filhos na produção econômica passa pela intermediação do mercado de trabalho e pelos filtros das exigências educacionais e dos padrões de produtividade da economia urbano-industrial. A formalização do emprego ocorreu juntamente com a ampliação da cobertura da previdência social. Neste processo de mudança do modelo centrado na família ao sistema de inserção produtiva e proteção social público e institucional, há uma tendência de aumento do custo dos filhos e de redução dos seus benefícios. Como teoriza o demógrafo australiano John Caldwell, estas transformações provocam uma reversão do “fluxo intergeracional de riqueza”. Os filhos deixam de ser “a galinha dos ovos de ouro” dos pais e passam a acumular maiores custos econômicos e a reduzir os benefícios. Isso modifica o regime de fecundidade e a dinâmica entre as velhas e as jovens gerações. Também abre espaço para novas formas de organização dos arranjos domiciliares, ao mesmo tempo em que diminui o peso social das famílias tradicionais.

IHU On-Line – Quais as principais conclusões a que vocês chegaram em relação à família brasileira no estudo recente que realizaram com base no censo de 2010?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – A primeira grande mudança foi a redução do arranjo majoritário formado por casais (núcleo duplo) com filhos. Em números aproximados, esse tipo de família estava presente em cerca de dois terços (66%) dos domicílios, em 1980, mas caiu para algo próximo de 50% em 2010. Isso aconteceu porque os pais, tendo menor número de filhos e maior esperança de vida, vivem mais tempo na fase do “ninho vazio”, pois os filhos tendem a sair da casa de seus progenitores para formar uma nova família, para morar sozinhos ou para formar arranjos domiciliares com pessoas não parentes.

Casais sem filhos

A segunda mudança – de maneira complementar à primeira – foi o aumento do arranjo formado apenaspelos casais sem filhos e sem outros parentes, que passou de 12% em 1980 para 15% em 2010.

Arranjo monoparental feminino

A terceira alteração foi o aumento do arranjo monoparental feminino (núcleo simples, formado por mães com filhos), que passou de 11,5% em 1980 para 15,3% em 2010.

Arranjo monoparental masculino

A quarta modificação foi também o aumento – ainda que de uma base menor – do arranjo monoparental masculino (núcleo simples, formado por homens com filhos), que passou de 0,8% em 1980 para 2,2% em 2010.

Mulheres morando sozinhas

A quinta transformação foi o crescimento do número de mulheres morando sozinhas, que passou de 2,8% em 1980 para 6,2% em 2010.

Homens morando sozinhos

A sexta foi o crescimento do número de homens morando sozinhos, que passou de 3% em 1980 para 6,5% em 2010. E, finalmente, a sétima mudança aconteceu com a redução do percentual de famílias compostas e extensas (casais, filhos, parentes e agregados) que caiu de 4,8% para 2,2% no mesmo período.

IHU On-Line – As famílias unipessoais são as que mais crescem?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Sim. Mas não é correto usar o termo “famílias unipessoais”, pois, de acordo com a definição das Organizações das Nações Unidas – ONU, uma família é formada por pelo menos duas pessoas e seus membros devem estar relacionados por meio de relações de consanguinidade (parentesco), adoção ou casamento. Dessa forma, pessoas morando sozinhas podem ser definidas como “arranjo unipessoal”, “domicílio unipessoal” ou simplesmente “pessoas morando sozinhas”.

Solidão

De fato, o número de pessoas morando sozinhas tem crescido e deve aumentar ainda mais com o processo de envelhecimento da população. Houve também certa mudança de perfil. No passado, havia uma clara diferenciação geracional e de gênero entre as pessoas morando sozinhas no Brasil, pois entre os homens predominavam aqueles com idade entre 30 e 59 anos, enquanto entre as mulheres em domicílios unipessoais predominavam aquelas acima de 60 anos. Atualmente tem crescido o número de mulheres entre 30 e 59 anos morando sozinhas. Geralmente são as que optam por uma carreira profissional e declinam ou retardam a “carreira” da maternidade.

IHU On-Line – Famílias e domicílios são conceitos equivalentes?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Não. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE define o domicílio como o local estruturalmente separado e independente que serve de habitação a uma ou mais pessoas. Existem vários tipos de habitação, como os domicílios particulares e coletivos, domicílios permanentes e improvisados, etc. A maior parte dos dados coletados do censo se refere aos domicílios particulares permanentes ocupados. Nestes domicílios pode haver famílias nucleares (com núcleo duplo ou núcleo simples), famílias estendidas (com um ou mais de um núcleo familiar e outros parentes) ou famílias compostas (núcleo familiar com parentes e outras pessoas não aparentadas). Pessoas sem laços de parentesco e sem relacionamento afetivo, mas morando juntas (tipo uma república de estudantes), são classificadas como arranjo não familiar pela metodologia da ONU. O número de arranjos não familiares é pequeno, mas cresceu na última década no Brasil. Deve-se ressaltar que até o censo 2000 era possível identificar diretamente as chamadas famílias conviventes, por meio das perguntas sobre as relações de parentesco dos moradores com os responsáveis do domicílio e da família. Mas, no censo 2010, a convivência só pode ser obtida de forma indireta e aproximada.

IHU On-Line – Qual é o tipo de família que mais sofre com as situações de pobreza?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Sem dúvida são as famílias monoparentais femininas, especialmente aquelas com filhos pequenos. Por exemplo, a maioria dos beneficiados do programa Bolsa Família é constituída por este tipo de arranjo. Isso acontece porque é muito difícil para uma mãe combinar, ao mesmo tempo, as funções de provedora e cuidadora. As mães com filhos menores de 15 anos e sem cônjuge não conseguem ter uma inserção integral e permanente no mercado de trabalho, pois precisam dedicar muito tempo às questões de alimentação, saúde, educação e cuidados dos filhos e da moradia. Como resultado, recebem salários mais baixos e precisam dividir uma renda baixa com seus dependentes. Acabam caindo na “armadilha da pobreza” e não conseguem romper com o ciclo intergeracional da pobreza. Nesses casos, além dos direitos básicos de cidadania, o governo deveria promover políticas de conciliação entre trabalho e família, intermediando condições de emprego mais favoráveis e equipamentos públicos para o cuidado dos filhos, como creches, restaurantes e lavanderias coletivos, escola em tempo integral, etc.

IHU On-Line – Que tipo de realidade social se reflete diante do crescimento de casos em que os membros do casal trabalham e decidem não ter filhos?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – De regra, são os casais sem filhos que apresentam renda média domiciliar per capita mais elevada. Um caso particular são os casais sem filhos com marido e esposa participando do mercado de trabalho. Nos Estados Unidos, esses tipos de casais são chamados de Dinc (sigla para Double Income No Children); no Brasil esse acrônimo significa: Duplo Ingresso Nenhuma Criança. O número de famílias Dinc estava em torno de um milhão de casais em 2000 e chegou a 2,8 milhões de casais. Portanto, em 2011 os Dincs somavam 5 milhões e 600 mil pessoas no Brasil. Eles possuem maior poder de consumo e, proporcionalmente, optam por morar em apartamentos nas grandes metrópoles. Praticamente não existem casais Dinc entre os beneficiários do Bolsa Família, pois duas pessoas com renda de um salário mínimo cada um, morando juntas, são classificadas como membros da “nova classe média”. Em geral, o casal Dinc apresenta alta mobilidade social, mas é um tipo de família não procriativa, que reforça a tendência nacional para uma taxa de fecundidade média abaixo do nível de reposição.

IHU On-Line – Como entender que quanto maior o número de filhos, menor o tempo que os maridos dedicam aos afazeres domésticos?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Os dados mostram que existe um forte descompromisso dos homens com o trabalho doméstico. Isso vem desde a época em que Paulo Prado definiu a família patriarcal brasileira como “Pai soturno, mulher submissa, filhos aterrados”. Na divisão do uso do tempo entre os cônjuges, em geral os homens se dedicam mais às atividades produtivas (e remuneradas) e as mulheres se dedicam mais às atividades reprodutivas (e não remuneradas). Isso acontece mesmo nas famílias em que as mulheres trabalham fora e são penalizadas com a dupla jornada. A alocação desigual do tempo é mais acentuada nas famílias tradicionais onde existe uma rígida divisão sexual do trabalho, onde os homens fazem o papel de provedores e as mulheres o papel de cuidadoras. Paradoxalmente, quando o trabalho doméstico diminui a contribuição relativa do esposo aumenta, mas quando os afazeres da reprodução aumentam muito o custo recai sobre as esposas. Isso indica que o maior número de filhos reforça a tradicional divisão sexual do trabalho, com o homem se concentrando na luta pelo “ganha pão” e a mulher assumindo os encargos da casa, da cozinha e dos cuidados dos filhos.

IHU On-Line – O casamento ainda pode ser considerado um anseio universal e um evento para toda a vida?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O casamento é praticamente um evento universal no Brasil, mas somente se considerarmos todos os tipos de matrimônio. Em 1970, 65% dos casamentos aconteciam no civil e no religioso, 14% somente no civil, 14% só no religioso e 7% eram uniões consensuais. Em 2010, o casamento no civil e religioso caiu para 43%, só no civil aumentou para 17%, só no religioso caiu para 3% e as uniões consensuais subiram para 37%.

Casamentos inconstantes

Mas os casamentos ficaram mais instáveis. Nos últimos 40 anos cresceu o número de separações e divórcios. Consequentemente, cresceu o número de recasamentos, especialmente para o caso dos homens. Na pirâmide brasileira existe um superávit de mulheres acima dos 25 anos, pois há uma sobremortalidade masculina por causas externas entre os jovens (especialmente homicídios e acidentes de trânsito). No total, há um excedente de mais de 5 milhões de mulheres na população brasileira e a proporção daquelas sem um companheiro aumenta com a idade, pois, para agravar o desequilíbrio, os homens se casam com mulheres mais jovens. Existe, portanto, um diferencial de gênero e de idade no chamado “mercado matrimonial” brasileiro e um número muito grande de mulheres não encontra companheiro de outro sexo para casamento.

IHU On-Line – Em que medida o aumento das separações e dos divórcios interfere nas mudanças das estruturas familiares?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Interfere, por exemplo, na formação das chamadas famílias reconstituídas, que são cada vez mais frequentes no cenário nacional. Crescem as famílias em que tanto o marido como a esposa trazem para a nova união os filhos de casamentos anteriores, vindo a se somar com novos filhos que surgem do novo enlace. De repente se juntam filhos, enteados, irmãos, madrasta, padrasto, ex-esposo, ex-esposa e diversos avós. Costuma-se dar o nome de “família mosaico” ao arranjo familiar em que os filhos do casal compõem um quadro formado por irmãos, meio-irmãos e não irmãos, pois os filhos de união (ou uniões) anteriores do marido e da esposa não são irmãos, mas ambos são meio-irmãos dos novos filhos do casal. Dessa forma, nem todos os membros da “família mosaico” são parentes entre si, mas todos têm um grau de parentesco com a prole resultante da união do casal reconstituído. A “família mosaico” é apenas mais um tipo de arranjo familiar dentre o leque de arranjos possíveis, em uma sociedade cada vez mais marcada pela pluralidade e por dinâmicas inovadores, que vão além do modelo padrão.

IHU On-Line – E os novos arranjos, tais como famílias homoafetivas e famílias poliafetivas?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O Brasil ainda não possui dados suficientes para traçar a evolução destes arranjos. O censo demográfico de 2010, conduzido pelo IBGE, abriu, pela primeira vez, a possibilidade dos casais do mesmo sexo, que moram no mesmo domicilio, serem considerados um núcleo familiar. Os dados indicaram a presença de cerca de 60 mil casais formados por pessoas do mesmo sexo e um deles se declarou como chefe. Mas, se os casais moram em casas diferentes ou nenhum deles se declarou como chefe, não foram identificados pelo censo. As mulheres são maioria nos arranjos homoafetivos, inclusive na homoparentalidade. Portanto, já existem crianças com dupla “maternidade” ou dupla “paternidade”. Também não foi levantada a informação sobre orientação sexual.

Famílias poliafetivas

As famílias poliafetivas se referem aos arranjos familiares cujo núcleo não é monogâmico. São os “casais de 3” ou o “casal de n pessoas”. Pode ser um arranjo formado por um homem e duas mulheres, uma mulher e dois homens (Uma Dona Flor de verdade) ou qualquer outro tipo de arranjo envolvendo mais de duas pessoas no núcleo familiar. Mas o censo não levantou múltiplos relacionamentos. A história mostra que a poligamia e a poliandria sempre existiram de forma mais ou menos velada. A novidade agora é que estes tipos de arranjos estão sendo visibilizados e estão sendo objeto de busca de base legal para serem reconhecidos na legislação brasileira. Existem, inclusive, as famílias poliafetivas cujos membros possuem poliorientação sexual.

IHU On-Line – Em que consiste “a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo”?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – De modo geral, pode-se afirmar que o modelo hegemônico de família nuclear era formado por um homem e uma mulher que se uniam em um matrimônio por toda a vida e praticavam sexo com finalidade generativa. Esse modelo de família tinha como base o casal heterossexual, ele mais alto e um pouco mais velho, com maior escolaridade, já com um emprego ou independência financeira e ela mais baixa, mais jovem, com menor escolaridade e voltada para a vida privada de dona de casa ou com emprego extradoméstico com flexibilidade e tempo parcial. Esse modelo de família trazia embutida uma forte desigualdade de gênero. A menor autonomia das mulheres na família era geralmente reforçada pela desigualdade social, em especial pela baixa taxa de atividade laboral e pela segregação no mercado de trabalho. O menor poder, a autoridade e o prestígio feminino decorriam da desigualdade de acesso e de controle sobre os diversos recursos econômicos, sociais e culturais. Contudo, esta “família padrão” começou a ruir na mesma época do fim da padronização fordista de produção, ou seja, com a revolução sexual dos anos de 1960, com a disponibilidade de métodos contraceptivos, a entrada crescente da mulher no mercado de trabalho, a reversão do hiato de gênero na educação e a aceitação mais ampla de novos arranjos familiares. Cresceu o número de domicílios comandados por mulheres. Em grande parte, isso se deve ao processo de empoderamento feminino, mas, em outros casos, a chefia feminina é decorrência da ausência do cônjuge e da falta de responsabilização dos pais (homens) com os filhos.

Mudança da sociedade brasileira

As transformações socioeconômicas e as mudanças ideacionais ocorridas nos campos ético, religioso e cultural levaram a uma maior autonomia individual e a uma mudança na relação custo/benefício entre as gerações. A idade média da primeira relação sexual diminuiu e moças e rapazes passaram a ter relações sexuais com mais frequência antes do casamento. Cresceu o número de filhos nascidos fora do casamento (inclusive na gravidez na adolescência). Aumentaram a guarda compartilhada e o número de crianças que vivem em duas casas. Cresceram as famílias homoafetivas e tem entrado na discussão a formalização dos arranjos poliafetivos. Sem dúvida, a sociedade brasileira mudou em termos demográficos e na composição plural das relações familiares. Os diferenciais de gênero e de geração são fundamentais para se compreender a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo.

Uma família plural, complexa e diversa

Censo 2010. Uma família plural, complexa e diversa. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi

Entrevistas IHU – Segunda, 29 de outubro de 2012
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/515013

“A sociedade brasileira mudou em termos demográficos e na composição plural das relações familiares. Os diferenciais de gênero e de geração são fundamentais para se compreender a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo”, afirmam o/a pesquisador/a.

Indagados a respeito das principais conclusões a que chegaram em relação à família brasileira no estudo recente que realizaram com base no censo de 2010, José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, dizem que a primeira grande mudança foi a redução do arranjo majoritário formado por casais (núcleo duplo) com filhos. “Em números aproximados, este tipo de família estava presente em cerca de dois terços (66%) dos domicílios, em 1980, mas caiu para algo próximo de 50% em 2010. Isso aconteceu porque os pais, tendo menor número de filhos e maior esperança de vida, vivem mais tempo na fase do ‘ninho vazio’, pois os filhos tendem a sair da casa de seus progenitores para formar uma nova família, para morar sozinhos ou para formar arranjos domiciliares com pessoas não parentes”, frisam.

Para eles, o casamento é praticamente um evento universal no Brasil, mas somente se considerarmos todos os tipos de matrimônio. “Em 1970, 65% dos casamentos aconteciam no civil e no religioso, 14% somente no civil, 14% só no religioso e 7% eram uniões consensuais. Em 2010, o casamento no civil e religioso caiu para 43%, só no civil aumentou para 17%, só no religioso caiu para 3% e as uniões consensuais subiram para 37%”.

José Eustáquio Diniz Alves é doutor em Demografia e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.

Suzana Cavenaghi é doutora em Demografia e professora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. Os entrevistados esclarecem que nesta entrevista apresentam seus pontos de vista em caráter pessoal.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais foram as principais mudanças ocorridas na sociedade brasileira nas últimas décadas?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O Brasil passou por grandes transformações econômicas e sociais no século XX, deixando de ser uma sociedade predominantemente rural e agrária, para se tornar uma sociedade urbana com predominância econômica da indústria e do setor de serviços. Nas últimas décadas, houve mobilidade ocupacional, espacial e social, assim como a construção de uma sociedade de consumo de massa. As relações entre as classes mudaram e o Brasil se tornou uma democracia política e cultural (mesmo com as diversas limitações). A transição demográfica reduziu as taxas de mortalidade infantil, aumentou a esperança de vida e reduziu as taxas de fecundidade. Isso provocou uma mudança da estrutura etária e o Brasil está deixando de ser um país com alta predominância de jovens para se tornar um país com elevada proporção de idosos. Houve também uma mudança das relações de gênero com maior empoderamento das mulheres e um lento, mas contínuo, processo de despatriarcalização da sociedade. Tais transformações tiveram um grande impacto sobre a forma de estruturação das famílias e sobre a dinâmica dos arranjos domiciliares.

IHU On-Line – Como essas transformações econômicas, sociais e demográficas afetaram a organização das famílias brasileiras?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O primeiro e maior impacto foi sobre o tamanho dos arranjos familiares. A família numerosa, que era muito adaptada às condições da sociedade rural, quando havia ampla disponibilidade de terras, deixou de ser funcional na sociedade urbana, onde a inserção dos filhos na produção econômica passa pela intermediação do mercado de trabalho e pelos filtros das exigências educacionais e dos padrões de produtividade da economia urbano-industrial. A formalização do emprego ocorreu juntamente com a ampliação da cobertura da previdência social. Neste processo de mudança do modelo centrado na família ao sistema de inserção produtiva e proteção social público e institucional, há uma tendência de aumento do custo dos filhos e de redução dos seus benefícios. Como teoriza o demógrafo australiano John Caldwell, estas transformações provocam uma reversão do “fluxo intergeracional de riqueza”. Os filhos deixam de ser “a galinha dos ovos de ouro” dos pais e passam a acumular maiores custos econômicos e a reduzir os benefícios. Isso modifica o regime de fecundidade e a dinâmica entre as velhas e as jovens gerações. Também abre espaço para novas formas de organização dos arranjos domiciliares, ao mesmo tempo em que diminui o peso social das famílias tradicionais.

IHU On-Line – Quais as principais conclusões a que vocês chegaram em relação à família brasileira no estudo recente que realizaram com base no censo de 2010?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – A primeira grande mudança foi a redução do arranjo majoritário formado por casais (núcleo duplo) com filhos. Em números aproximados, esse tipo de família estava presente em cerca de dois terços (66%) dos domicílios, em 1980, mas caiu para algo próximo de 50% em 2010. Isso aconteceu porque os pais, tendo menor número de filhos e maior esperança de vida, vivem mais tempo na fase do “ninho vazio”, pois os filhos tendem a sair da casa de seus progenitores para formar uma nova família, para morar sozinhos ou para formar arranjos domiciliares com pessoas não parentes.

Casais sem filhos

A segunda mudança – de maneira complementar à primeira – foi o aumento do arranjo formado apenaspelos casais sem filhos e sem outros parentes, que passou de 12% em 1980 para 15% em 2010.

Arranjo monoparental feminino

A terceira alteração foi o aumento do arranjo monoparental feminino (núcleo simples, formado por mães com filhos), que passou de 11,5% em 1980 para 15,3% em 2010.

Arranjo monoparental masculino

A quarta modificação foi também o aumento – ainda que de uma base menor – do arranjo monoparental masculino (núcleo simples, formado por homens com filhos), que passou de 0,8% em 1980 para 2,2% em 2010.

Mulheres morando sozinhas

A quinta transformação foi o crescimento do número de mulheres morando sozinhas, que passou de 2,8% em 1980 para 6,2% em 2010.

Homens morando sozinhos

A sexta foi o crescimento do número de homens morando sozinhos, que passou de 3% em 1980 para 6,5% em 2010. E, finalmente, a sétima mudança aconteceu com a redução do percentual de famílias compostas e extensas (casais, filhos, parentes e agregados) que caiu de 4,8% para 2,2% no mesmo período.

IHU On-Line – As famílias unipessoais são as que mais crescem?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Sim. Mas não é correto usar o termo “famílias unipessoais”, pois, de acordo com a definição das Organizações das Nações Unidas – ONU, uma família é formada por pelo menos duas pessoas e seus membros devem estar relacionados por meio de relações de consanguinidade (parentesco), adoção ou casamento. Dessa forma, pessoas morando sozinhas podem ser definidas como “arranjo unipessoal”, “domicílio unipessoal” ou simplesmente “pessoas morando sozinhas”.

Solidão

De fato, o número de pessoas morando sozinhas tem crescido e deve aumentar ainda mais com o processo de envelhecimento da população. Houve também certa mudança de perfil. No passado, havia uma clara diferenciação geracional e de gênero entre as pessoas morando sozinhas no Brasil, pois entre os homens predominavam aqueles com idade entre 30 e 59 anos, enquanto entre as mulheres em domicílios unipessoais predominavam aquelas acima de 60 anos. Atualmente tem crescido o número de mulheres entre 30 e 59 anos morando sozinhas. Geralmente são as que optam por uma carreira profissional e declinam ou retardam a “carreira” da maternidade.

IHU On-Line – Famílias e domicílios são conceitos equivalentes?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Não. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE define o domicílio como o local estruturalmente separado e independente que serve de habitação a uma ou mais pessoas. Existem vários tipos de habitação, como os domicílios particulares e coletivos, domicílios permanentes e improvisados, etc. A maior parte dos dados coletados do censo se refere aos domicílios particulares permanentes ocupados. Nestes domicílios pode haver famílias nucleares (com núcleo duplo ou núcleo simples), famílias estendidas (com um ou mais de um núcleo familiar e outros parentes) ou famílias compostas (núcleo familiar com parentes e outras pessoas não aparentadas). Pessoas sem laços de parentesco e sem relacionamento afetivo, mas morando juntas (tipo uma república de estudantes), são classificadas como arranjo não familiar pela metodologia da ONU. O número de arranjos não familiares é pequeno, mas cresceu na última década no Brasil. Deve-se ressaltar que até o censo 2000 era possível identificar diretamente as chamadas famílias conviventes, por meio das perguntas sobre as relações de parentesco dos moradores com os responsáveis do domicílio e da família. Mas, no censo 2010, a convivência só pode ser obtida de forma indireta e aproximada.

IHU On-Line – Qual é o tipo de família que mais sofre com as situações de pobreza?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Sem dúvida são as famílias monoparentais femininas, especialmente aquelas com filhos pequenos. Por exemplo, a maioria dos beneficiados do programa Bolsa Família é constituída por este tipo de arranjo. Isso acontece porque é muito difícil para uma mãe combinar, ao mesmo tempo, as funções de provedora e cuidadora. As mães com filhos menores de 15 anos e sem cônjuge não conseguem ter uma inserção integral e permanente no mercado de trabalho, pois precisam dedicar muito tempo às questões de alimentação, saúde, educação e cuidados dos filhos e da moradia. Como resultado, recebem salários mais baixos e precisam dividir uma renda baixa com seus dependentes. Acabam caindo na “armadilha da pobreza” e não conseguem romper com o ciclo intergeracional da pobreza. Nesses casos, além dos direitos básicos de cidadania, o governo deveria promover políticas de conciliação entre trabalho e família, intermediando condições de emprego mais favoráveis e equipamentos públicos para o cuidado dos filhos, como creches, restaurantes e lavanderias coletivos, escola em tempo integral, etc.

IHU On-Line – Que tipo de realidade social se reflete diante do crescimento de casos em que os membros do casal trabalham e decidem não ter filhos?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – De regra, são os casais sem filhos que apresentam renda média domiciliar per capita mais elevada. Um caso particular são os casais sem filhos com marido e esposa participando do mercado de trabalho. Nos Estados Unidos, esses tipos de casais são chamados de Dinc (sigla para Double Income No Children); no Brasil esse acrônimo significa: Duplo Ingresso Nenhuma Criança. O número de famílias Dinc estava em torno de um milhão de casais em 2000 e chegou a 2,8 milhões de casais. Portanto, em 2011 os Dincs somavam 5 milhões e 600 mil pessoas no Brasil. Eles possuem maior poder de consumo e, proporcionalmente, optam por morar em apartamentos nas grandes metrópoles. Praticamente não existem casais Dinc entre os beneficiários do Bolsa Família, pois duas pessoas com renda de um salário mínimo cada um, morando juntas, são classificadas como membros da “nova classe média”. Em geral, o casal Dinc apresenta alta mobilidade social, mas é um tipo de família não procriativa, que reforça a tendência nacional para uma taxa de fecundidade média abaixo do nível de reposição.

IHU On-Line – Como entender que quanto maior o número de filhos, menor o tempo que os maridos dedicam aos afazeres domésticos?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Os dados mostram que existe um forte descompromisso dos homens com o trabalho doméstico. Isso vem desde a época em que Paulo Prado definiu a família patriarcal brasileira como “Pai soturno, mulher submissa, filhos aterrados”. Na divisão do uso do tempo entre os cônjuges, em geral os homens se dedicam mais às atividades produtivas (e remuneradas) e as mulheres se dedicam mais às atividades reprodutivas (e não remuneradas). Isso acontece mesmo nas famílias em que as mulheres trabalham fora e são penalizadas com a dupla jornada. A alocação desigual do tempo é mais acentuada nas famílias tradicionais onde existe uma rígida divisão sexual do trabalho, onde os homens fazem o papel de provedores e as mulheres o papel de cuidadoras. Paradoxalmente, quando o trabalho doméstico diminui a contribuição relativa do esposo aumenta, mas quando os afazeres da reprodução aumentam muito o custo recai sobre as esposas. Isso indica que o maior número de filhos reforça a tradicional divisão sexual do trabalho, com o homem se concentrando na luta pelo “ganha pão” e a mulher assumindo os encargos da casa, da cozinha e dos cuidados dos filhos.

IHU On-Line – O casamento ainda pode ser considerado um anseio universal e um evento para toda a vida?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O casamento é praticamente um evento universal no Brasil, mas somente se considerarmos todos os tipos de matrimônio. Em 1970, 65% dos casamentos aconteciam no civil e no religioso, 14% somente no civil, 14% só no religioso e 7% eram uniões consensuais. Em 2010, o casamento no civil e religioso caiu para 43%, só no civil aumentou para 17%, só no religioso caiu para 3% e as uniões consensuais subiram para 37%.

Casamentos inconstantes

Mas os casamentos ficaram mais instáveis. Nos últimos 40 anos cresceu o número de separações e divórcios. Consequentemente, cresceu o número de recasamentos, especialmente para o caso dos homens. Na pirâmide brasileira existe um superávit de mulheres acima dos 25 anos, pois há uma sobremortalidade masculina por causas externas entre os jovens (especialmente homicídios e acidentes de trânsito). No total, há um excedente de mais de 5 milhões de mulheres na população brasileira e a proporção daquelas sem um companheiro aumenta com a idade, pois, para agravar o desequilíbrio, os homens se casam com mulheres mais jovens. Existe, portanto, um diferencial de gênero e de idade no chamado “mercado matrimonial” brasileiro e um número muito grande de mulheres não encontra companheiro de outro sexo para casamento.

IHU On-Line – Em que medida o aumento das separações e dos divórcios interfere nas mudanças das estruturas familiares?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Interfere, por exemplo, na formação das chamadas famílias reconstituídas, que são cada vez mais frequentes no cenário nacional. Crescem as famílias em que tanto o marido como a esposa trazem para a nova união os filhos de casamentos anteriores, vindo a se somar com novos filhos que surgem do novo enlace. De repente se juntam filhos, enteados, irmãos, madrasta, padrasto, ex-esposo, ex-esposa e diversos avós. Costuma-se dar o nome de “família mosaico” ao arranjo familiar em que os filhos do casal compõem um quadro formado por irmãos, meio-irmãos e não irmãos, pois os filhos de união (ou uniões) anteriores do marido e da esposa não são irmãos, mas ambos são meio-irmãos dos novos filhos do casal. Dessa forma, nem todos os membros da “família mosaico” são parentes entre si, mas todos têm um grau de parentesco com a prole resultante da união do casal reconstituído. A “família mosaico” é apenas mais um tipo de arranjo familiar dentre o leque de arranjos possíveis, em uma sociedade cada vez mais marcada pela pluralidade e por dinâmicas inovadores, que vão além do modelo padrão.

IHU On-Line – E os novos arranjos, tais como famílias homoafetivas e famílias poliafetivas?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O Brasil ainda não possui dados suficientes para traçar a evolução destes arranjos. O censo demográfico de 2010, conduzido pelo IBGE, abriu, pela primeira vez, a possibilidade dos casais do mesmo sexo, que moram no mesmo domicilio, serem considerados um núcleo familiar. Os dados indicaram a presença de cerca de 60 mil casais formados por pessoas do mesmo sexo e um deles se declarou como chefe. Mas, se os casais moram em casas diferentes ou nenhum deles se declarou como chefe, não foram identificados pelo censo. As mulheres são maioria nos arranjos homoafetivos, inclusive na homoparentalidade. Portanto, já existem crianças com dupla “maternidade” ou dupla “paternidade”. Também não foi levantada a informação sobre orientação sexual.

Famílias poliafetivas

As famílias poliafetivas se referem aos arranjos familiares cujo núcleo não é monogâmico. São os “casais de 3” ou o “casal de n pessoas”. Pode ser um arranjo formado por um homem e duas mulheres, uma mulher e dois homens (Uma Dona Flor de verdade) ou qualquer outro tipo de arranjo envolvendo mais de duas pessoas no núcleo familiar. Mas o censo não levantou múltiplos relacionamentos. A história mostra que a poligamia e a poliandria sempre existiram de forma mais ou menos velada. A novidade agora é que estes tipos de arranjos estão sendo visibilizados e estão sendo objeto de busca de base legal para serem reconhecidos na legislação brasileira. Existem, inclusive, as famílias poliafetivas cujos membros possuem poliorientação sexual.

IHU On-Line – Em que consiste “a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo”?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – De modo geral, pode-se afirmar que o modelo hegemônico de família nuclear era formado por um homem e uma mulher que se uniam em um matrimônio por toda a vida e praticavam sexo com finalidade generativa. Esse modelo de família tinha como base o casal heterossexual, ele mais alto e um pouco mais velho, com maior escolaridade, já com um emprego ou independência financeira e ela mais baixa, mais jovem, com menor escolaridade e voltada para a vida privada de dona de casa ou com emprego extradoméstico com flexibilidade e tempo parcial. Esse modelo de família trazia embutida uma forte desigualdade de gênero. A menor autonomia das mulheres na família era geralmente reforçada pela desigualdade social, em especial pela baixa taxa de atividade laboral e pela segregação no mercado de trabalho. O menor poder, a autoridade e o prestígio feminino decorriam da desigualdade de acesso e de controle sobre os diversos recursos econômicos, sociais e culturais. Contudo, esta “família padrão” começou a ruir na mesma época do fim da padronização fordista de produção, ou seja, com a revolução sexual dos anos de 1960, com a disponibilidade de métodos contraceptivos, a entrada crescente da mulher no mercado de trabalho, a reversão do hiato de gênero na educação e a aceitação mais ampla de novos arranjos familiares. Cresceu o número de domicílios comandados por mulheres. Em grande parte, isso se deve ao processo de empoderamento feminino, mas, em outros casos, a chefia feminina é decorrência da ausência do cônjuge e da falta de responsabilização dos pais (homens) com os filhos.

Mudança da sociedade brasileira

As transformações socioeconômicas e as mudanças ideacionais ocorridas nos campos ético, religioso e cultural levaram a uma maior autonomia individual e a uma mudança na relação custo/benefício entre as gerações. A idade média da primeira relação sexual diminuiu e moças e rapazes passaram a ter relações sexuais com mais frequência antes do casamento. Cresceu o número de filhos nascidos fora do casamento (inclusive na gravidez na adolescência). Aumentaram a guarda compartilhada e o número de crianças que vivem em duas casas. Cresceram as famílias homoafetivas e tem entrado na discussão a formalização dos arranjos poliafetivos. Sem dúvida, a sociedade brasileira mudou em termos demográficos e na composição plural das relações familiares. Os diferenciais de gênero e de geração são fundamentais para se compreender a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo.

A população da China em 2100

A China tem a maior população nacional entre todos os países do mundo, desde o início dos registros históricos das civilizações. O “Império do Meio” foi também a maior economia do mundo até o século XVIII. Agora, no século XXI, a China volta, em um patamar mais elevado, a disputar a hegemonia econômica mundial.

A população da China era de 550,8 milhões de habitantes em 1950 e chegou a 1,34 bilhão em 2010. Mas não deve ultrapassar 1,4 bilhão de habitantes e, provavelmente, será ultrapassada pela Índia a partir do ano 2025. A divisão de população da ONU estima, para o ano de 2050, uma população de quase 1,5 bilhão de habitantes na hipótese alta, de 1,29 bilhão na hipótese média e de 1,13 bilhão na hipótese baixa. Para o final do século as hipóteses são: 1,59 bilhões de habitantes, na alta, de 941 milhões, na média, e somente 506 milhões na hipótese baixa.

Ou seja, a população da China pode variar entre 506 milhões e 1,59 bilhão de habitantes em 2100, dependendo fundamentalmente do comportamento das taxas de fecundidade e um pouco menos da migração. No caso da hipótese baixa, a China pode chegar em 2100 com uma população menor do que a que tinha em 1950.

A China tem uma área de 9.596.960 km2, maior do que a área territorial do Brasil. A densidade demográfica em 2010 era de 140 habitantes por km2, bem superior do que a densidade brasileira de 23 hab/km2, mas bem abaixo da densidade demográfica da Índia que estava em 373 hab/km2 em 2010.

Depois de um longo período de declínio econômico, de invasão estrangeira e de guerra civil que empobreceu o país, o Partido Comunista tomou o poder na China continental em 1º de outubro de 1949, enquanto o partido Kuomintang (KMT), que estava no poder desde a instauração da República, migrou para a ilha de Formosa (Taiwan).

No quinquênio 1950-55 a taxa de fecundidade total (TFT) estava em 6,1 filhos por mulher e caiu para 5,4 filhos por mulher no quinquênio seguinte. Porém, com a desorganização econômica e política da Revolução Cultural a TFT voltou a crescer e ficou em 6 filhos por mulher no quinquênio 1965-70. O timoneiro Mao Tsé-Tung chegou a dar várias declarações favoráveis ao crescimento demográfico e à utilização da população como uma arma do poderio do país.

Porém, o alto crescimento populacional se tornou insustentável. Como dizem os chineses: “Ren tai duo!” (demasiada gente!). No iníco dos anos 70 – ainda na época de Mao Tsé-Tung – o governo adotou uma política para incentivar a a redução do número de nascimentos por meio de três objetivos: a) uma fecundidade menor, b) retardar o nascimento do primeiro filho e c) aumentar o espaçamento entre os nascimentos. Esta política ficou conhecida como: “fecundidade menor, mais tardia e com maior espaçamento entre os filhos” (fewer, later, longer). Com isto, a TFT caiu para 4,8 filhos por mulher em 1970-75 e para 2,9 filhos por mulher em 1975-80.

Mas a despeito da grande queda da fecundidade nos anos 70, o governo comunista adotou a política de controle da natalidade mais draconia já adotada no mundo. A política do filho único, começou em 1979, e a taxa de fecundidade caiu para 2 filhos por mulher em 1990-95 e chegou a 1,6 filhos em 2005-10. O resultado é que a população continuou aumentando apenas porque a estrutura etária era jovem (crescimento pela inércia demográfica), mas o ritmo de incremento tem se desacelerado rapidamente e a população deve começar a diminuir antes de 2030. Segundo a Agencia official Xinhua, o 18o Congresso do PCC, de novembro de 2012, dicutiu um relatório propondo mudanças na política populacional, pois os dirigentes estão preocupados com o rápido processo de envelhecimento do país.

A divisão de população da ONU estima, na hipótese média, que a TFT vai ficar em 1,8 filhos por mulher em 2050 e em 2 filhos em 2100. Na hipótese alta se acrescenta 0,5 filho para cima e na hipótese baixa se reduz 0,5 filho. Ou seja, se a TFT chinesa ficar em torno de 1,5 ou 1,6 filho por mulher nas próximas décadas, a população da China pode seguir a hipótese baixa e ficar com um montante na casa dos 500 milhões de habitantes em 2100.

A redução da fecundidade na china possibilitou uma mudança na estrutura etária gerando um bônus demográfico que foi bem aproveitado e criou as condições para se retirar cerca de 600 milhões de chineses da situação de pobreza extrema. Porém, a política de filho desrespeita os direitos reprodutivos e gerou um grande desequilíbrio na razão de sexo, pois como a população tem preferência por filhos do sexo masculino, exite muito fetocídio feminino (e femicídio), tendo como resultado um superávit de 52 milhões de homens a mais do que mulheres. Na idade de casar, o excesso de homens (ou a falta de mulheres) torna inviável todos encontrarem uma parceira para casamento. Não é raro homens comprarem ou sequestrarem uma esposa, reforçando as desigualdades de gênero no país.

A china tem sido o país que apresentou o maior crescimento econômico da história, com uma taxa anual de variação do PIB em torno de 10% entre 1980 e 2011. A taxa de mortalidade infantil caiu de 122 mortes por mil nascimentos em 1950-55 para 22 por mil em 2005-10 e a esperança de vida subiu de 44,6 anos para 73 anos no mesmo período. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) subiu de 0,4 em 1980 para 0,68 em 2010. Mas a China, que já disputa o título de primeira potencia econômica mundial, ainda tem muito que avançar na área social.

Em termos ambientais os desafios são ainda maiores, pois o país sofre com a desertificação, a poluição dos rios e lagos, a falta de saneamento básico e a poluição do ar nas cidades. Segundo o relatório Planeta Vivo 2012, da WWF, a China possui uma pegada ecológica per capita de 2,13 hectares globais (gha), mas possui uma biocapacidade per capita muito menor, de somente 0,87 gha. Portanto, o déficit ambiental do país era superior a 200%, em 2008.

Ou seja, a pegada ecológica era mais de 3 vezes a biocapacidade do país. A pegada ecológica total da China (2,13 gha per capita vezes 1,359 bilhão de habitantes) é de 2,89 bilhões de hectares globais (gha), enquanto a pegada ecológica total dos Estados Unidos (7,19 gha per capita vezes 305 milhões de habitantes) é de 2,19 bilhões de gha. A China era responsável pela emissão de 2,4 bilhões de toneladas de CO2 em 1990, passou para 8,3 bilhões em 2010 e 8,9 bilhões em 2011, sendo o maior emissor de gases de efeito estufa do mundo.

Por isto, a China é atualmente o país que mais impacta o meio ambiente global e tem investido no mercado de commodities e comprado alimentos e matérias-primas de outros países do mundo com maior biocapacidade e com superávits ambientais. Portanto, o país mais populoso do mundo afeta não só o seu próprio meio ambiente, mas tem um impacto negativo no resto do mundo.

O decrescimento da população da China nas próximas décadas vai aliviar um pouco a pressão ambiental, mesmo porque os níveis de poluição tornam impossível manter o crescimento dos últimos anos. Mas o país terá que fazer um esforço muito maior para mudar o padrão de produção e consumo no sentido de fazer a pegada ecológica caber dentro da disponibilidade de sua biocapacidade, respeitando as fronteiras planetárias da China e da Terra.

Especismo e ecocídio: o massacre de elefantes e o comércio de marfim

Milhares de elefantes são mortos cruelmente todos os anos para que alguns poucos humanos possam lucrar com o comércio de marfim e outros tantos humanos possam lucrar com a compra e venda de jóias e objetos de decorração fabricados a partir das presas e do sacrifício de um dos animais mais fantásticos do Planeta.

Segundo os dicionários, marfim é uma substância dura, rica em sais de cálcio, que forma a maior parte dos dentes, em geral, e as presas dos elefantes, em particular. A expressão “Deixar correr o marfim” significa não se importar com coisa alguma, ser indiferente a tudo. Especialmente ser indiferente ao crime de ecocídio, que, em termos de espécies, equivale ao crime de genocídio.

Portanto, para quem se preocupa com a vida, com a biodiversidade e sobrevivência das espécies vivas da Terra não é possível “deixar correr o marfim”. Mas apesar da proibição mundial, a venda do marfim tem continuado de forma clandestina, estimulando o massacre de elefantes no mundo e, em especial, na África. Os animais são assassinados a tiros por caçadores antes de terem suas presas arrancadas. A matança é impulsionada pela demanda da matéria-prima pelos países do Oriente e pela riqueza que se acumula nas novas classes média e rica na China, assim como por turistas do mundo todo que compram os objetos fabricados com marfim.

Existem dezenas de denúncias contra o comércio ilegal de marfim. Na África os comerciantes já aprenderam a palavra chinesa para o marfim (xiangya). Milhares de presas de elefantes são apreendidas pela polícia, mas sem resolver o problema. Porém, como o marfim tem demanda crescente na China, tem sido virtualmente impossível rastrear o comécio legalizado no mundo. Na China existem salas de exibição de marfim de alta qualidade, com esculturas que são vendidas por valores que podem ultrapassar US$ 400 mil dólares. Cada jóia e escultura leva meses para ser finalizada e são muito apreciadas como símbolo de status pelos novos ricos da China e pelas elites econômicas do globo.

O jogador de basquete Yao Ming, ídolo esportista da China e na altura dos seus 2,29 metros, tem participado de uma campanha mundial contra o assassinato de elefantes na África. Ele aceitou participar e se tornar o rosto de uma ambiciosa campanha destinada à rica elite chinesa, no sentido de despertar o interesse pela vida selvagem africana e pela preservação dos elefantes em seu habitat natural e não como lembranças esculpidas e expostas nas prateleiras da sala de estar.

Na medida em que a proibição do comércio de marfim não tem sido suficiente para evitar a matança de elefantes, existe um movimento mundial pela proibição da venda e comercialização de objetos fabricados a partir do marfim. Dinheiro nenhum deste mundo vale a morte cruel de um elefante. Só a proibição total da venda do marfim pode interromper o crime de ecocídio e o massacre contra uma das espécies mais fortes, bonitas e inteligentes que a evolução gerou no útero da Mãe Terra.

O fim é dono da liberdade e dos protocolos

“Fazemos seguro de tanta coisa… do carro, da casa, de vida, mas não nos preparamos para os últimos anos de nossas vidas.” (Jeanne no filme francês “E se vivêssemos todos juntos?”, dirigido por Stéphane Robelin)

Mais do que uma obra de caráter intimista, essa frase expressa não só o ciclo da vida ou alguém atormentado por seu passado ou pleno da desilusão de nil admirari, mas reconhece a própria fragilidade de que não encontraremos um sentido nos últimos anos na vida se a concebemos apenas sob o aspecto de um único propósito, sem novas perspectivas.

O filme “E se vivêssemos todos juntos?” apresenta o contexto da chegada do envelhecimento em que cinco amigos há 40 anos – Annie (Geraldine Chaplin), Jean (Guy Bedos), Claude (Claude Rich), Albert (Pierre Richard) e Jeanne (Jane Fonda) – decidem passar os últimos dias de sua vida juntos, após encontrarem Claude internado em uma casa de repouso. Juntos decidem refletir sobre os que os move à medida que não se trata de se ocuparem diretamente com suas próprias ideias ou sentimentos, mas de se protegerem sobre o que virá, ou seja, da ameaça do perecer.

Expõe o fraquejar, a sensibilidade e o sofrimento que vem à tona, contrariando a lógica que quando o melhor que um homem pode ser, apresenta sê-lo necessariamente por si mesmo.  Freia a tese de que é possível percorrer a vida do modo mais agradável possível, sem a lembrança do futuro previsível que é a morte.

Sempre penso no paradoxo do resgaste da dignidade quando há tanto limites físicos quanto emocionais, quando há a dor, há a traição e há a fragilidade da memória. Penso, também, na opção do que é importante lembrar e o que é decisivo esquecer no fim.

Ao pensar no fim, se poderá compreender que é possível eliminar da varanda aqueles pegadores antigos que não prendem mais e só proporcionam ferrugem. Talvez, exigir esclarecimento do tempo, mas desejando ou não, o recuo da incerteza deveria ser possível e com chance para desfazer  o irreversível.

Penso que viver não tem sido fácil e não se torna simples esperar pelo inevitável, visto que, mesmo confinados à nossa própria consciência, uma existência inteira pode se reduzir aos fantasmas do passado ou as mãos do destino, dependendo daquilo que somos ou da nossa individualidade. Particularmente das reflexões serenas em meio a sentimentos fúteis.

Desse modo, o problema da expectativa da morte é que ela não dá um tempo. Ela não se esforça para chamar atenção, mas está sempre presente. Ela entra sem pedir licença e sai sem despedir. Ela quer existir e tenta prolongar o seu domínio no dia. Ela é totalmente descontrolada com os seus horários. Ela não manda recado ou permite um tempo para se acostumar. A morte não quer saber as nossas respostas e despreza as nossas avaliações ou justificativas.

Essa é exatamente a diferença descrita por Schopenhauer no livro “Aforismos para a Sabedoria de Vida”, em que a única coisa que permanece ao nosso alcance é tirar o máximo proveito possível de nossa personalidade e, portanto, seguir apenas aquelas tendências com as quais está de acordo, lutando pelo tipo de desenvolvimento apropriado, evitando todo o mais; consequentemente, todo o resto lhe é insignificante.  Ele explica que na velhice “o tempo corre mais rapidamente e traço fundamental e característico da velhice é a desilusão;pois desapareceram as ilusões que até então davam à vida seu encanto e à atividade seu aguilhão”.

Assim, veríamos confirmadas as palavras de Shopenhauer: “[…]a vida humana, propriamente falando, não pode chamar-se nem longa nem curta, porque, no fundo, é a escala com que medimos todas as demais dimensões de tempo. Para andar pelo mundo é útil levar consigo uma ampla provisão de circunspeção e de indulgência; a primeira nos protege contra os prejuízos e as perdas, a segunda contra disputas e querelas”.

Penso também que ao reconhecermos as nossas debilidades, evidenciamos um elogio à vida, que deve ser a glória e o mérito pelo qual a alcançamos, vivida da melhor forma possível, até o inevitável fim. Por um lado, o tempo não tem piedade e não é justo, pois  não auxilia na espera do amor ideal e não ajuda na esperança do esquecimento antecipado. Ele não dá espaço para a repetição. Ele não permite que as ondas da solidão se retraiam para encontrar no tempo o que realmente se precisa. O tempo não permite um fim de semana com caráter de anuidade.

Por outro,  o tempo não permite a possibilidade do diálogo quando o outro simplesmente não quer ter nem um segundo para se despedir. Estranho, mas o tempo cobra a decisão sem remorso e não volta pedindo perdão pelo o que passou ou se foi. Exatamente assim, sem se comprometer, sem criar vínculos, sem encarar as vítimas do atraso.

Não bastam as metáforas. O fim é um protegido de Deus, está sempre na frente e sem querer, ultrapassa o momento e deseja decidir a minha e a sua vida. Ele não permite ser ator coadjuvante. O fim não se limita a ser uma medida, de ser marcado ou de ser esquecido. Ele é sempre a referência.

O fim não permite isenção ou desculpa de esquecimento. O fim não permite a primavera chegar primeiro e não avisa ao inverno que não é mais o tempo do frio e da chuva. O fim não permite o verão continuar e o outono se ampliar. A verdade é que existimos para lhe dar satisfações. Ele dono da liberdade e dos protocolos. Afinal, passado, presente e futuro são irmãos gêmeos, sem erros ou coincidências.

O fim não permite a chance de escolher. Penso em uma existência sem recorrer a uma medida falsa e isso concorda com a passagem de  Aquarela de Toquinho:”… o futuro é uma astronave que tentamos pilotar. Não tem tempo, nem piedade. Nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar…”

E parodiando Mário Quintana: “[…] quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado… Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas… “

A inteligência humana e a “unanimidade burra de Solomon Asch”

A Terra tem cerca de 4,7 bilhões de anos. A vida no Planeta surgiu há cerca de 3,5 bilhões de anos no período Arqueano, mas se ampliou e diversificou nos últimos 550 milhões de anos. Os dinossauros, por exemplo, povoaram a Terra entre 250 e 65 milhões de anos atrás. Diversas formas de vida surgiram e desapareceram, mas a riqueza da diversidade está em torno de 9 milhões de espécies atualmente. O ser humano (homo sapiens) é uma das espécies caçulas do Planeta e adquiriu sua compleição física e mental há cerca de 200 mil anos.

Mas a despeito de ser uma espécie “caloura” na Terra, o ser humano se acha superior às demais espécies e se considera o dono do mundo. O raciocínio e a inteligência são as armas do poderio humano. Mesmo que de maneira heterogênea, alguns seres humanos, especialmente os mais egoístas, simplesmente se acham no direito de dominar  e explorar a natureza e as demais espécies. Outros, mais altruístas, se consideram apenas como “guardiães e cuidadores de toda a criação”. Em geral, a idéia de “superioridade humana” varia de grau, mas é amplamente aceita e é um fenômeno generalizado.

Porém, a vida no planeta Terra se desenvolveu de maneira espetacular independentemente da inteligência humana. A biodiversidade se expandiu e se contraiu de acordo com as condições climáticas e as eras geológicas. Cada continente criou suas próprias formas de vida e cada região possibilitou o desenvolvimento de espécies endêmicas, com suas belezas particulares. Durante milhões de anos, a vida seguiu o seu ciclo e o resultado da evolução das espécies foi de uma riqueza incalculável.

Todavia, o homo sapiens com sua inteligência e raciocínio instrumental conquistou todo o Planeta, mas se importar com os direitos de existência dos ecossistemas e a estabilidade do clima da Terra. O ser humano está criando uma nova era geológica, o Antropoceno. Nesta nova era geológica a civilização humana cresce e ocupa todos os espaços, mas a diversidade da vida se reduz e se restringe no espaço. No rumo atual, a inteligência humana está criando, de maneira não antecipada, uma estrada para o ecocídio

No geral, a progressão humana tem significado regressão ambiental. Mesmo assim, a maioria das pessoas continua louvando a inteligência humana e ignorando os danos que nossa espécie tem causado à Mãe Terra e às demais espécies nossas parentes. Sem dúvida, a humanidade construiu lindas obras arquetetônicas, desenvolveu a ciência, a teconologia e criou muitos objetos de consumo que são atraentes e desejados. Mas o modelo de desenvolvimento da humanidade não é sustentável e deveríamos questionar até que ponto somos inteligentes, ou vivemos uma grande ilusão coletiva? Somos inteligentes ou nos auto-enganamos? Estamos presos ao Espírito de corpo e ao comportamento de manada?

Para dar uma resposta a estas perguntas é bom recorrer ao estudo de conformidade ao grupo de Solomon Asch, que surgiu a partir do questionamento sobre a capacidade de raciocínio lógico diante das forças sociais que moldam as opiniões e as atitudes das pessoas. O psicólogo Solomon Asch (1907-1996) quis mostrar com seus estudos que os indivíduos tendem a aceitar o errado por conformidade ao grupo.

Os termos “O estudo de conformidade de Solomon Asch” ou “A unanimidade burra de Solomon Asch” surgiram em função de experimentos onde um grupo de pessoas era mantido em uma sala para responder perguntas – em voz alta. Porém, do grupo, apenas uma pessoa desconhecia as condições do teste e tinha que responder por último, enquanto os demais participantes eram atores que estavam no experimento para dar uma resposta incorreta ou contra o raciocínio lógico. Os resultados mostraram que o desejo de pertencer a um grupo fizeram os indivíduos abrirem mão de suas convicções, do pensamento lógico ou da respostas que julgavam certas. No conjunto dos experimentos, três quartos dos participantes escolheram a alternatisva errada pelo menos uma vez,  cerca de um terço erraram a maioria das respostas e 5% dos voluntários escolheram a opção incorreta todas as vezes.

Desta forma, “A unanimidade burra de Solomon Asch” questiona a capacidade do ser humano utilizar sua inteligência de maneira independente e racionalmente neutra. Ou seja, o desejo e a necessidade de se integrar ao ambiente homogêneo faz com que as pessoas abram mão da capacidade de raciocínio e passem a agir de maneira burra.

Isto é tanto mais verdade quando se considera as ideologias, as religiões, as culturas e, principalmente, a máquina mundial de propaganda de estilos de vida consumistas. As pessoas abrem mão dos seus princípios para copiar o padrão hegemônico de consumo. Os indivíduos se deixam levar pelas opções da maioria e adotam as preferências induzidas pela sociedade do espetáculo e pelo inconcisente coletivo.

Se extrapolarmos as conclusões de Solomon Asch, não é dificil imaginar que ao invés de espécie inteligente e sábia, o ser humano simplesmente segue o efeito manada, se iludindo com o poder do consumismo, mas continuando com um modelo econômico insustentável. Certamente não é uma opção inteligente ignorar todas as consequências negativas da destruição humana na era do Antropoceno.

A inteligência de Victor Frankestein criou um monstro, assim como a inteligência científica criou a bomba atômica. A inteligência humana criou o desenvolvimento econômico e o progresso, mas a generalização de um modelo insustentável está gerando um outro Frankestein, com resustados que podem ser desastrosos.

Porém, nos experimentos de Solomon Asch, 25% das pessoas deram respostas consideradas certas e não se importaram com as alternativas erradas apontadas pelo grupo majoritário. Portanto, existe um percentual relevante de indivíduos que podem ser consideradas independentes e não se constrangem em contrariar as respostas da maioria, permacendo fiéis à lógica do raciocínio e das opiniões independentes da maioria.

É burrice considerar que a inteligência dá direitos excepcionais aos seres humanos, mesmo quando seus efeitos está destruindo o único lar habitável. A maioria das pessoas – configuradas pelas agências de propaganda e publicidade – estão seguindo o comportamento de manada que pode resultar na destruição do Planeta. O Homo sapiens está se tornando Homo burrus. O modelo de desenvolvimento atual tem usado a inteligência humana para produzir grandes obras e objetos, mas, ao mesmo tempo, estimula a cequeira e a ignorância quanto aos seus resultados ambientais. Portanto, não é inteligente seguir a “unanimidade burra”.

O poder não eleito

Há tempos que penso na questão de o Poder Judiciário ser um poder não eleito. O tema tem sido, por sinal, bastante comentado atualmente, tendo em vista o julgamento da AP470, o mensalão do PT.
 
Um dos argumentos básicos utilizados, pelos não satisfeitos com as condenações, é ter o STF feito um julgamento político, sem que tenha recebido a devida representação para assim fazer.
 
Uma primeira questão é: ok, não foi eleito diretamente, mas indiretamente sim. Escolhemos o presidente e damos a ele o aval para suas decisões. E ele escolhe os ministros. Escolhemos o congresso e damos aos congressistas o aval para suas decisões. E o congresso sabatina os indicados podendo, inclusive, reprovar a indicação. E todos os eleitores sabem disso, ou ao menos deveriam saber. Pensando assim, não vejo fundamento para as reclamações quanto ao STF julgar politicamente. Mais ainda se considerarmos que os crimes julgados possuem um viés político. Se foram cometidos, o foram por pessoas políticas no exercício da função política.
 
E lembremos: o SFT só foi acionado em razão das denúncias de um político contra outros, ou seja, o mensalão é, na sua origem e natureza, um caso político.
 
Entrando no campo da imaginação, uma segunda questão é: como seriam os julgamentos caso as cortes fossem escolhidas pelo voto direto? (Claro que as questões operacionais para que isso acontecesse assustam qualquer um). Como seriam os longos julgamentos se a cada quatro anos a corte suprema seria trocada?
 
Mesmo com a maioria dos ministros escolhidos por Lula e Dilma – e alguns deles declarando sua opção política pelo PT – o STF não deixou de condenar o chamado “núcleo político”, a cúpula do PT. Seria isso um sinal de que, mesmo escolhidos diretamente, os ministros poderiam não ser fiéis aos seus mandatos?
 
Exigimos do STF que se metesse num caso político e agora reclamam que ele julga politicamente? Certo, certo, é só a parcela dos descontentes. A dos contentes não reclama da atuação política do STF. Ok! No próximo mensalão, o do PSDB, com certeza os papéis se inverterão.
 
Não é o STF que criminaliza a política, como andam dizendo; é a política que tenta imputar ao STF o falso crime de “ser político”. Se não o querem político, que o Congresso faça melhor o seu trabalho de sabatinar os indicados pelos presidentes. Assim, quem sabe, não precisemos eleger os ministros diretamente.
 
Se o STF fez um julgamento técnico-jurídico, com base em provas cabais e não em ilações, associações de ideias, desencavando teorias alienígenas são outros quinhentos. Para isso, nosso sistema jurídico tem seus remédios. Inclusive os internacionais. Mas essa é uma batalha para advogados e não para políticos, jornalistas e achistas de todo gênero.
 
É! Talvez seja melhor deixar que o Poder Judiciário seja um poder não eleito. Não evitaremos a hipocrisia dos contentes e dos descontentes, mas a mantemos em um nível aceitável.