O decrescimento do ritmo do crescimento econômico

O século XX vai ficar conhecido como o momento de maior crescimento demo-econômico de todos os tempos. O período que vai do final da Segunda Guerra Mundial até o final da década de 1970 é conhecido como os “30 anos gloriosos”, pois foi o período de maior crescimento populacional e econômico, não só do século, mas de toda a história humana. Segundo cálculos de Angus Maddison e do Fundo Monetário Internacional, o PIB mundial cresceu por volta de 4,8% ao ano, a população cresceu em média quase 2% e a renda per capita aumentou 2,8% ao ano entre 1950 e 1980. Este período “extra-ordináro” contou com o investimento dos avanços científicos e tecnológicos acontecidos na primeira metade do século XX, com uma grande expansão da fronteira agrícola e econômica e com os baixos preços dos combustíveis fósseis.

O Brasil, por exemplo, foi um dos países que mais cresceu durante o boom internacional e apresentou uma das melhores performances econômicas do mundo. O PIB brasileiro cresceu em média 7% ao ano, entre 1950 e 1980, a população cresceu 2,8% ao ano e a renda per capita teve um expressivo aumento de 4,2% na média anual das 3 décadas. Os países ocidentais e o Japão (chamadas de economias avançadas pelo FMI) cresceram, em média, 4,6% ao ano, neste período. O conjunto das economias emergentes (também chamadas de Terceiro Mundo) cresceu em média 5% ao ano, entre 1950 e 1980.

Contudo, o modelo de produção taylorista-fordista, com administração macroeconômica de inspiração keynesiana, entrou em crise no final dos anos de 1970. Entre 1981 e 1990 o crescimento médio anual das economias avançadas caiu para 3,3%, das economias emergentes para 3,4% e do Brasil caiu para somente 1,6% ao ano (menor que o crescimento da população no período). Nos anos de 1990, as economias avançadas continuaram o processo de declínio (para 2,8% ao ano) e houve uma pequena recuperação do conjunto das economias emergentes (crescimento anual de 3,8%) e do Brasil (crescimento de 2,7% ao ano).

A novidade pós-1980 foi o impressionante crescimento da China que manteve uma média de variação do PIB próxima de 10%, ao ano, entre 1980 e 2010. Não há nada parecido na história. Na década de 1990 houve também o reerguimento da Índia. Os dois países mais populosos do mundo puxaram a média de crescimento das economia emergentes nos anos 1990 e lideraram o mundo no início do novo milênio. Mas este desempenho extraordinário tem seus limites e não há como crescer ilimitadamente.

Entre 2001 e 2010 as economias avançadas cresceram apenas 1,6% ao ano. Mas o conjunto das economias emergentes cresceu 6,2% ao ano, sendo que até o Brasil apresentou crescimento de 3,7% ao ano no período. A China cresceu cerca de 10% e a Índia cerca de 8% ao ano. Como a China e a Índia possuem quase 40% da população mundial, o crescimento econômico destes dois países fez crescer a chamada “classe média emergente”, ampliou o mercado de consumo no mundo, contribuindo para elevar o preço dos alimentos e das commodities.

Parecia que a primeira década do século XXI iria inaugurar um período de grande divergência nas taxas de crescimento do PIB e de grande convergência da renda entre as economias avançadas e as emergentes. Já havia muitas pessoas comemorando o excepcional crescimento das economias periféricas. Porém, o início da segunda década do atual século está apontando para uma redução geral do crescimento econômico no mundo. As economias avançadas já estão no caminho da estagnação e o Japão é apenas um exemplo.

Relatório publicado em 23 de janeiro de 2013, pelo FMI  (World Economic Outlook – WEO), mostra que nos 3 primeiros anos da segunda década do corrente século houve uma desaceleração tanto das economias avançadas quanto das economias emergentes. O Brasil tinha ensaiado uma recuperação econômica, pois depois de um crescimento pífio de 1,6% na chamada década perdida (não houve crescimento da renda per capita brasileira nos anos de 1980), cresceu 2,7% na década de 1990 e 3,7% entre 2001 e 2010. Porém, os 3 primeiros anos da atual década apontam para um crescimento de apenas 2,4%, inferior àquele do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Ou seja, o Brasil voltou a crescer abaixo da média mundial e abaixo da média da América Latina, embora o governo tenha tomado diversas medidas para estimular o consumo, mas não conseguiu, por enquanto, vencer o “pibinho”.

O fato, é que a desaceleração do crescimento econômico é um fenômeno mundial. Diversos analistas indicam que também a China e a Índia já começaram a desacelerar suas economias, que possuem desequilíbrios de diversas ordens. Na China, em 2013, teve início o declínio da população em idade ativa e dentro de 10 anos começa a diminuição demográfica, além de uma aceleração do envelhecimento populacional. Indubitavelmente, uma desaceleração da economia chinesa vai afetar todos os países em desenvolvimento.

Além disto, a poluição do ar das grandes cidades da China e a poluicão das águas do rio Ganges na Índia, aumentam o custo ambiental de maneira exponencial. A elevação do preço dos combustíveis fósseis e das commodiites, aliado à depleção dos recursos naturais e às mudanças climáticas está colocando um limite à capacidade de expansão econômica do mundo. O economista, Joseph E. Stiglitz, prêmio nobel de economia, disse que a grande ameaça para a economia mundial nas próximas décadas é o aquecimento global e as mudanças climáticas.

Tudo indica que a era do crescimento econômico acelerado está chegando ao fim. Ainda é cedo para se ter uma visão mais completa, mas o século XXI pode estar consolidando o caminho da redução continuada do ritmo de incremento das economias nacionais e internacional. O mundo vai ter que começar a pensar em uma situação sem crescimento ou até mesmo, em alguns casos, na até hoje impensável situação de uma economia com decrescimento.

A lei, o estrito descumprimento da lei e a morte pela lei.

A prudência, dizia-se antigamente, é uma “virtude que faz prever e procura evitar as inconveniências e os perigos; cautela, precaução”. E digo antigamente, pois essa virtude há muito anda esquecida pela sociedade.
 
Algumas leis e normas técnicas, editadas com base na prudência, procuram evitar os riscos, os perigos. É o caso das leis que regulamentam o funcionamento de espaços públicos de convivência. A Lei 3.301/1991, do Município de Santa Maria, assim como em tantos outros municípios Brasil afora, estabelece claramente as regras de prudência. Prevê, no seu artigo 17, inciso I:
 
“Art. 17 É vedado o emprego de material de fácil combustão e/ou que desprenda gases tóxicos em caso de incêndio, em divisórias, revestimento e acabamentos seguintes:
I – estabelecimentos de reunião de público, cinemas, teatros, boates e assemelhados;”
 
A lei é extensa e clara quanto à prudência.  Ponto. Qualquer outra declaração, mas qualquer outra mesmo, atenta contra a prudência. Já foi atestado que a grande parte dos jovens morreram asfixiados pela fumaça tóxica liberada pela queima do isolamento acústico feito com espuma que desprendia gases tóxicos. A leitura dos demais artigos da lei mostra claramente que a boate não apresentava os requisitos exigidos quanto à saída de emergência e sinalização. Quiçá quanto a muitos outros requisitos, situação que, infelizmente, somente a perícia poderá demonstrar. O que é muito triste, pois aquilo que deveria ser demonstrado previamente, acaba sendo realizado post mortem.
 
Outras normas (e aqui e aqui) regulamentam quase tudo, inclusive o uso de fogos de artifício em ambientes fechados e dizem claramente que estes tem seu uso proibido nestes locais.
 
Quando tudo está absolutamente errado desde o início, é só questão de esperar a fagulha que dará início à tragédia.
 
Há a quem culpar? Sim, a todos nós.
 
A lei foi estritamente descumprida pelo poder público, pelos donos da boate e pela banda. O que se vê, nesses dias, com cada parte tentando escusar-se é a parte que nos toca de culpa como cidadãos coniventes com a falta de prudência generalizada.
 
E é essa mesma prudência que deveríamos recuperar e exigir que sejam todos exemplarmente punidos: corpo de bombeiros, prefeitura donos da boate e banda. Outra saída não há, sob pena de assistirmos, em breve, aos filmes Santa Maria II, III, IV… E assim por diante, em qualquer outra cidade brasileira.
 
Se tragédias não acontecem por fatos isolados, que sejam punidos todos os envolvidos na cadeia de fatos que a consumou.
 
Se não fomos prudentes antes, que Santa Maria nos sirva de exemplo para que reaprendamos a ser.
 
Caso contrário, continuaremos a ver jovens mortos pela lei.

Dilma versus Marina no segundo turno em 2014?

Nas eleições presidenciais de 2014 a grande novidade pode ser uma disputa feminina no segundo turno, pela primeira vez na história. Dilma e Marina tiveram, juntas, dois terços (67%) dos votos do primeiro turno das eleições presidenciais de 2010. Nas próximas eleições este percentual pode aumentar ainda mais, tornando as mulheres brasileiras verdadeiras protagonistas das eleições presidenciais.

O Instituto de opinião Ipesp fez (por encomenda do PV) uma pesquisa sobre as intenções de voto para a a sucessão presidencial em 2014, considerando três cenários. No primeiro deu: Dilma (PT), 57%; Aécio Neves (PSDB) 18%; e, Fernando Gabeira (PV), 10%. No segundo cenário deu: Dilma, 42%; Marina Silva (sem partido), 32%; Aécio, 12%; e, Gabeira, 4%. O terceiro cenário ficou assim: Dilma, 39%; Marina, 35%; Aécio, 12%; e, Eduardo Campos (PSB), 4%.

No início de 2013 houve um grande debate nacional sobre quem seria @ candidat@ do PT para as eleições de 2014, se Dilma Roussef ou Luiz Inácio Lula da Silva. Várias lideranças petistas confirmaram a candidatura de Dilma e a própria presidenta assumiu a candidatura, por meio de várias iniciativas.

Porém, a grande novidade das pesquisas tem sido o expressivo desempenho eleitoral da candidatura de Marina Silva, que ainda nem tem um partido para se candidatar. Marina surpreendeu em 2010 obtendo quase 20 milhões de votos. Mas para muitos analistas este fato não teria passado de uma bolha momentânea que iria estourar assim como desapareceram do palco central alguns meteoros ciclicos, como as candidaturas de Ciro Gomes e Heloisa Helena.

Se os cenários do IPESP se confirmarem – com o forte apelo eleitoral de Osmarina Silva (nome de batismo de Marina) – as eleições de 2014 serão as primeiras nos últimos 20 anos em que a disputa não vai se dar entre o PT e o PSDB. Será também uma oportunidade ímpar para aprofundar o debate das desigualdades de gênero e dos problemas da degradação ambiental no Brasil.

O que você sabe sobre cooperativismo?

Do site da OCB

Cooperativismo é um movimento, filosofia de vida e modelo socioeconômico capaz de unir desenvolvimento econômico e bem-estar social. Seus referenciais fundamentais são: participação democrática, solidariedade, independência e autonomia.

É o sistema fundamentado na reunião de pessoas e não no capital. Visa às necessidades do grupo e não do lucro. Busca prosperidade conjunta e não individual. Estas diferenças fazem do cooperativismo a alternativa socioeconômica que leva ao sucesso com equilíbrio e justiça entre os participantes. Associado a valores universais, o cooperativismo se desenvolve independentemente de território, língua, credo ou nacionalidade.

 

No século 18 aconteceu a Revolução Industrial na Inglaterra. A mão-de-obra perdeu grande poder de troca. Os baixos salários e a longa jornada de trabalho trouxeram muitas dificuldades socioeconômicas para a população. Diante desta crise surgiram, entre a classe operária, lideranças que criaram associações de caráter assistencial. Esta experiência não teve resultado positivo

Com base em experiências anteriores buscaram novas formas e concluíram que, com a organização formal chamada cooperativa era possível superar as dificuldades. Isso desde que fossem respeitados os valores do ser humano e praticadas regras, normas e princípios próprios.

Então, 28 operários, em sua maioria tecelões, se reuniram para avaliar suas idéias. Respeitaram seus costumes, tradições e estabeleceram normas e metas para a organização de uma cooperativa. Após um ano de trabalho acumularam um capital de 28 libras e conseguiram abrir as portas de um pequeno armazém cooperativo, em 21-12-1844, no bairro de Rochdale-Manchester (Inglaterra).

Nascia a Sociedade dos Probos de Rochdale, conhecida como a primeira cooperativa moderna do mundo. Ela criou os princípios morais e a conduta que são considerados, até hoje, a base do cooperativismo autêntico. Em 1848, já eram 140 membros e, doze anos depois chegou a 3.450 sócios com um capital de 152 mil libras.

 

A infundada resenha racial de Forastieri e o Living Colour.

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Jornalistas têm a nobre característica de serem capazes de falar sobre tudo. Vide o corporativismo de classe para restringir o acesso de não diplomados na área. Isso é outra questão. André Forastieri é um jornalista, especificamente de cultura e mais ainda especificamente, de música, e mais afundo ainda de rock. Esse jornalista trabalhou durante muitos anos na revista Showbizz, junto com outros numa ótima safra de críticos de música. Seus textos são razoáveis, não excelentes. Além de sempre escrever com um certo deboche nas palavras, o que nem sempre é uma qualidade. Entretanto há algum tempo eu passei a vê-lo com certa desconfiança, isso por causa de um texto escrito em 1993 nessa revista. O texto em questão é uma resenha do disco “Stain” da banda Living Colour. Eu como historiador, logo tenho no passado (assim como no presente) uma fonte rica de análise para compreender o mundo. Sou ávido colecionador de revistas antigas, livros, artigos de jornais velhos, entre outros papéis sem importância para a maioria. Já têm um tempo que relendo a edição 93 da revista acima citada, número 4, de abril de 1993, me deparei com esse texto que considerei de um gosto mais do que duvidoso (para não dizer outra coisa). Já citei essa ideia em outros textos, de que as pessoas de uma maneira geral não sabem lidar com negatividades relacionadas às coisas de que gostam. Não recebem bem o fato de um disco de uma banda de predileção não ser bom na opinião de um crítico. Mas também têm o outro lado. O crítico não é aquela figura imune a tudo e a todos, que pode dizer o que quiser da forma que quiser. Há certos limites que permeiam essa atividade [ou não]. Forastieri só para citar, é dito branco[1], olhos azuis e cabelos grisalhos – e na foto que estampa seu site, ostenta um olhar confiante numa pose bastante portentosa [não que aja algum problema nisso]. Não sei o que ele pensa sobre o assunto, mas no texto em questão (a resenha do disco do Living Colour), deu-me uma pista elucidativa. O jornalista inicia o texto assim: “Enciclopédia musical pessoal, capítulo 176: preto não sabe fazer rock”. Muito embora eu saiba que esse é o pensamento corrente, Forastieri assume para ele ao fazer a referência “pessoal”. Ou seja, essa é a forma que ele pessoalmente pensa. No decorrer do texto ele vai cometendo uma série de erros grotescos, inaceitáveis para um jornalista que a época já contava com 5 anos de experiência. Segue: “Espera aí, ‘preto’ é ofensivo agora? Perdão, na minha infância negro é que era xingamento”. Preto é uma forma pejorativa de se referir a pessoas de pele escura. Embora existam níveis diferentes de pigmentação, mesmo o mais escuro dos negros não chega a ser preto, portanto chamar um negro de preto é ilógico. Isso sem contar a concepção binária do cristianismo[2] de opor bem e mal, branco e preto, onde o branco é o bem e o preto o mal. Tanto que expressões como “a coisa está preta” é uma alusão ao fato de a cor preta ser ruim[3]. Negro não é ofensivo (óbivo), e nem nunca foi. Ofensivo é um negro se ofender por ser chamado assim. Outro esclarecimento, negro não é raça. A raça é humana, e negro e branco (entre outros) são apenas classificações por características físicas eletivas dentro da raça humana [e um dos elementos do se caracteriza como etnia]. Portanto todos somos da mesma raça, divididos por grupos genéticos de aspecto físico, não mental – o que derruba teses de inferioridade entre brancos e negros [uma vez que todos temos somos feitos de carbono, temos DNA, metabolismo, proteínas, entre outras coisas]. Quanto a preto não sabe fazer rock, eu não sei, mas que negro sabe fazer isso sabe. Tanto sabe que ajudou a inventar o gênero, mas também sei que a predominância é branca, o que também não quer dizer nada. Tal afirmação é o mesmo que dizer que branco não sabe fazer samba, Noel Rosa e Adoniran Barbosa derrubam tal hipótese, porém o samba é um ritmo de predominância negra. André Forastieri diz que raramente gente negra faz rock e ainda rock que preste, cita as exceções de praxe, Jimi Hendrix e Chuck Berry [orra]. Ele então se esqueceu de Bad Brains, Little Richard e Fishbone [só pra citar alguns].

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 O jornalista cita no texto uma experiência pessoal, diz que quando foi ao exército, o cabo era um mulato que chamava a todos os negros presentes de crioulo e urubu. Mulato é a pior das ofensas. Mulato é o filho da mula, e a mula em questão é a mãe negra violentada pelo branco (a época portugueses senhores de escravos). Urubu cai no mesmo que preto, ofensivo, já criolo ou crioulo, vêm da língua mestiça falada pelos negros africanos aportuguesados, normal [em outras partes da América, a designação crioulo tem outro significado]. Em uma coisa eu concordo com o jornalista, é quanto ao termo afro-americano e afro-brasileiro. Tanto Brasil quanto os Estados Unidos são frutos do mesmo processo de colonização no sentido populacional, não econômico. Ambos os territórios eram povoados por nativos (chamados índios), que misturados com europeus (no caso portugueses no Brasil e ingleses e escoceses e outros nos Estados Unidos) e com negros da África, formaram o que hoje são os respectivos países. Então é balela esse termo afro-americano, já que norte-americano por si só já têm engendrado o elemento negro em sua concepção (não aceitam mas também são oriundos da mistura). Quanto à análise do disco feita pelo jornalista, não vou entrar nos méritos opinativos dele. Cada um têm uma visão. Não concordo com muito do que ele diz ali, mas até aí onde está escrito que temos que concordar? Porém me senti profundamente desapontado com o fato dele usar um espaço destinado para analisar o disco (é claro que apoio as análises macro), e se enveredar por áreas que não domina [não que eu domine], e ainda mais da forma infundada que fez e com contornos tão duvidosos como esses. O som do Living Colour desse disco difere um pouco dos seus discos anteriores. Os músicos estão mais consistentes, e cientes do que estão fazendo (não que não estivessem antes). As linhas de baixo estão muito poderosas nesse disco, com menos groove do que o natural, mas há no fundo um suingue, porém é contido pelo peso das guitarras. O vocal de Corey Glover continua o mesmo, firme e convicto, ideal para o tipo de som que faz o Living Colour. O som não tem nada de progressivo como levanta Forastieri, mas sim faz um fusion entre metal e alternativo, até porque não é ortodoxo como o metal tradicional. É um tipo de rock engajado, não apenas na questão negra, mas também política e social, além de divagações existenciais. O jornalista critica tal iniciativa, porém considero melhor um esforço nessa direção do que apenas se limitar a bebedeiras, sexismo e ao machismo ególatra das bandas de metal da virada dos anos oitenta para os noventa (os ditos farofas[4]). As músicas de “Stain” seguem uma linha concreta onde baixo e bateria dão a direção, as guitarras preenchem o espaço com ruídos, efeitos e muitos fraseados inspirados no jazz e no hard rock anos setenta. “Stain” é um disco alinhado como o seu tempo. O estabilishment do rock pesado é quebrado por bandas como Living Colour, Faith No More, Ministry, Helmet, Primus, Jane´s Addiction e Tool (entre outras), que resolveram trazer ao rock pesado novos elementos, tirá-lo da redoma de vidro e da mesmice que estava. A mídia logo se apressou em classificá-los como funk metal, o que não corresponde à verdade, essas bandas não têm e não precisam de um rótulo, apenas nadaram contra a corrente vigente e abriram a mente de muita gente disposta a expandir horizontes, usando samples, experimentalismos e muita qualidade instrumental.

 

PS. Considero legítima a liberdade de expressão, mas considero igualmente legítima a coerência e a consciência de entender que certas coisas devem ser faladas no momento e local apropriado.

 

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[1] Dito branco, porque eu não considero as pessoas brancas ou pretas, como cores. Uma pessoa dita branca não é branca de fato como a cor do papel, mesmo a muito branca, mesmo os albinos. A pele é mais para bege e no caso dos albinos há um certo tom rosa. Mas branco é a forma convencional.

[2] Concepção inspirada na filosofia de Platão, que adaptada ao cristianismo deu origem a Patrística.

[3] Em culturas antigas no Oriente, a cor preta era associada à fertilidade (algo positivo). Em cultos, alguns povos adeptos dessa concepção, era comum o uso de vestes dessa cor.

[4] Metal farofa ou glam metal, é um subgênero dentro do heavy metal, caracterizado por cores fortes, roupas de couro apertadas, cabelos cheios e temas banais. São também chamados de posers.

 

 

 

 

 

Cooperativismo de Crédito: Você fora do sistema

 08/01/2013 às 00h00

Cooperativas de crédito crescem mais que bancos

Por Mônica Izaguirre | De Brasília

O ano de 2012 foi bom para as cooperativas de crédito no Brasil. Os ativos dessas instituições romperam a marca histórica da centena de bilhões, alcançando R$ 103,15 bilhões em setembro, segundo consolidação dos balanços enviados no último trimestre ao Banco Central. Com mais de seis milhões de associados, linha ultrapassada em junho, e um estoque de empréstimos e financiamentos que cresceu mais de 600% nos últimos dez anos, se formassem um banco, o conjunto das cooperativas corresponderia ao oitavo maior conglomerado financeiro do país em ativos totais. Em rede própria de atendimento, seriam o terceiro maior conglomerado, com mais de 5 mil pontos atingidos em novembro, atrás apenas de Banco do Brasil e Bradesco.

A participação nas operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) está em torno de 2%. O percentual sobe em alguns nichos, como financiamentos rurais com recursos livres e empréstimos mediante desconto de títulos, dos quais elas respondiam, respectivamente, por 17,5% e 8,6% do saldo em junho.

Os números foram fornecidos pelo diretor de relações institucionais do BC, Luiz Edson Feltrim, em entrevista ao Valor. Os dados mostram que em 2012, até setembro, o cooperativismo cresceu num ritmo mais forte que o do conjunto do SFN, tanto em ativos totais quanto em saldo de operações de crédito. A velocidade de avanço do patrimônio líquido e dos depósitos captados também superou a média.

Considerando-se apenas as instituições bancárias, universo do qual fazem parte como captadoras de depósitos à vista, as cooperativas também vêm crescendo mais rápido que o conjunto já há vários anos. Com isso, a participação no sistema tem aumentado em relação a diversos indicadores.

O segmento tem crescido em operações, rede e universo de depositantes (necessariamente os próprios associados) apesar da queda do número de cooperativas singulares (que não são cooperativas de cooperativas, estas chamadas de cooperativas centrais).

Após atingir o número de 1.427 no fim de 2007, ano em que ainda houve aumento de cooperativas, a quantidade de instituições caiu nos anos seguintes. Houve redução mesmo com o surgimento de novas cooperativas, pois as que desapareceram foram em maior número. No fim de setembro de 2012, restavam em atividade 1.231, 196 a menos que no fim de 2007.

Um “saudável” processo de concentração para ganhar escala explica o descompasso entre a evolução do número de cooperativas singulares e o crescimento dos demais indicadores do segmento, disse Feltrim. Ao fazer tal afirmação, ele apresentou um levantamento sobre os motivos de desaparecimento de cooperativas entre 2010 e setembro de 2012.

Nesses quase três anos, 172 instituições deixaram de existir, provocando redução líquida de 135 no número total de cooperativas. Precisamente 89, mais da metade, sumiram porque foram incorporadas a outras, informou o diretor do BC, destacando que há um esforço para ganhar escala e, assim, reduzir custos.

Somente três saíram do mercado porque sofreram liquidação extrajudicial pelo BC nesse período. Os cancelamentos de ofício, que somaram 21, também são iniciativa do BC. Mas o diretor explicou que referem-se a cooperativas que desistem de operar sem avisar antes a autoridade supervisora, que vai atrás para saber o que houve, por exemplo, quando deixa de receber relatórios contábeis obrigatórios e regulares.

O restante das 172 saiu do mercado por decisão dos próprios cooperados, mediante processos como liquidação ordinária, mudança de objeto social, extinção, ou por falência (um caso apenas desde 2010).

Chefe do departamento de organização do sistema financeiro por mais de 12 anos, até maio de 2011, Luiz Edson Feltrim integrou o grupo de especialistas do governo cujos estudos se desdobraram, desde 2003, numa profunda mudança no arcabouço normativo do crédito cooperativo no Brasil. Na opinião do diretor, as regras prudenciais adotadas, semelhantes às aplicáveis aos bancos, como a limitação de operações em função do capital, foram um importante fator de crescimento sustentado do segmento nos últimos anos.

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População e desenvolvimento (in)sustentável

A discussão sobre população e desenvolvimento teve início no século XVIII, durante e após as Revoluções Sociais da Inglaterra (Revolução Gloriosa de 1688-89), dos Estados Unidos (Independência em 1776), da França (Revolução Francesa de 1789) e da Revolução Industrial e Energética. O fato é que, pela primeira vez na história da humanidade, abriu-se a possibilidade de um rápido crescimento dos fatores de produção (capital e trabalho, para além das disponibilidades de terra agricultável), junto a um processo que possibilitou o aumento continuado e de longo prazo da renda nacional per capita (significando maior produção por trabalhador).

Os iluministas do século das luzes eram defensores da idéia de progresso e o desenvolvimento econômico dos séculos XIX e XX foi a maneira em que se materializou o avanço das forças produtivas. O “sucesso” de alguns países tornou o desenvolvimento um ideal a ser atingido por todos os povos. O crescimento econômico passou a ser considerado uma meta altamente desejável e um objetivo nacional inquestionável. Mas as visões sobre o crescimento populacional jamais tiveram a mesma unanimidade.

Ainda no século XVIII, alguns autores, como Adam Smith, William Godwin, o Marquês de Condorcet e David Ricardo viam o crescimento populacional como positivo para o crescimento econômico, enquanto Thomas Malthus achava que o crescimento populacional inviabilizaria qualquer idéia de desenvolvimento e crescimento da renda per capita (Malthus não enxergava a possibilidade de redução da pobreza no longo prazo).

Karl Marx também acreditava no desenvolvimento e não se preocupava com o problema populacional, pois defendia uma revolução nas relações sociais para que a população revolucionária (o proletariado) liderasse o progresso das forças produtivas e a melhoria da qualidade de vida das classes trabalhadoras. Este foi o caminho tentado na prática por Vladimir Lenin na Rússia e que serviu de inspiração para outras experiências socialistas. Lenin dizia que desenvolver é eletrificar e construir uma industria pesada. As experiências socialistas tiveram sucesso na mudança das relações de produção, mas foram um fracasso na implementação de uma nova base técnica mais amigável ao meio ambiente.

Os economistas Alfred Marshall, John Maynard Keynes e Gunnar Myrdal, dentre outros, defendiam a idéia de desenvolvimento capitalista com inclusão social e expansão das políticas públicas, o que foi colocado em prática após a Segunda Guerra Mundial em partes da Europa, no chamado Estado do Bem-Estar Social (Welfare State).

Nos países desenvolvidos e nos países socialistas o crescimento econômico e o aumento da renda per capita (juntamente com o aumento da urbanização, da educação, das condições de moradia, saúde, etc.) vieram acompanhados da transição demográfica, que é o processo de redução das taxas brutas de mortalidade e natalidade. Num primeiro momento, taxas de fecundidade próximas do nível de reposição (2,1 filhos por mulher) fizeram desaparecer as preocupações com o chamado “problema populacional” nos países desenvolvidos. A ideia era que o desenvolvimento resolveria os desafios populacionais. Porém, a população continuou sendo vista como um entrave nos países pobres, ou do Terceiro Mundo (na denominação de Alfred Sauvy), também chamados de países subdesenvolvidos, em desenvolvimento ou emergentes.

Os economistas e demógrafos W.W. Rostow, Arthur Lewis, Edgar Hoover e Ansley Coale escreveram sobre o processo de desenvolvimento no Terceiro Mundo e todos consideravam que o rápido crescimento populacional poderia ser um entrave ao desenvolvimento, na medida em que a alta carga de dependência demográfica das crianças e jovens seria concorrente do processo de formação da poupança agregada, indispensável para a elevação das taxas de investimento. Portanto, estes autores consideram que o caminho para o desenvolvimento no Terceiro Mundo estaria na redução do crescimento populacional e na manutenção de altas taxas de formação bruta de capital fixo, necessárias para a decolagem (take off) do desenvolvimento e a geração de emprego produtivo, com o consequente aumento da renda per capita.

Foi para resolver o problema populacional que se difundiu as prescrições neomalthusianas. Registra-se que, ao contrário de Malthus, os neomalthusianos propunham o freio da população por meio da limitação da fecundidade e não do aumento da mortalidade. Malthus achava que era impossível acabar com a pobreza. Os neomalthusianos acreditavam que seria possível acabar com a pobreza e avançar com o desenvolvimento econômico promovendo a transição da fecundidade.

Este debate, ganhou destaque nas décadas de 1960 e 1970 e esteve no centro das discussões da Conferência sobre População de Bucareste, em 1974. Os países ricos queriam promover o controle da natalidade, enquanto os países pobres queriam impulsionar o desenvolvimento. Venceram os segundos, com a seguinte palavra de ordem: “O desenvolvimento é o melhor contraceptivo”. Nota-se que, mais uma vez, o desenvolvimento foi apresentado e assumido como a solução para os problemas populacionais.

Todavia, as taxas de fecundidade cairam para níveis muito baixos (lowest-low fertility) na maioria dos países com alto nível de renda per capita, colocando em dúvidas a capacidade de reposição das gerações e acirrando os prognósticos sombrios sobre o envelhecimento da estrutura etária. Desta forma, por vias inversas, o “problema populacional” volta à cena dos países desenvolvidos. Mas ao invés da “explosão populacional” o desafio agora é a “implosão populacional”.

Por outro lado, a idéia de desenvolvimento já começava a ser questionada de maneira mais forte no início da década de 1970. O alerta foi dado pelo Clube de Roma e pelo relatório “Os limites do Crescimento” de Dennis e Donella Meadows, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Com a crise do petróleo nos anos 1970 e o agravamento das condições ambientais no mundo, foi lançado o estudo “Nosso Futuro Comum” (Our Common Future), também conhecido como relatório Brundland, publicado pela ONU em 1987. É a partir do relatório Brundland que se adota a clássica definição de “Desenvolvimento sustentável”: “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.

O relatório aponta para as seguintes medidas que devem ser tomadas pelos países para promover o desenvolvimento sustentável: limitação do crescimento populacional; garantia de recursos básicos;     preservação da biodiversidade e dos ecossistemas; diminuição do consumo de energia e desenvolvimento de tecnologias com uso de fontes energéticas renováveis; aumento da produção industrial nos países não-industrializados com base em tecnologias ecologicamente adaptadas; atendimento das necessidades básicas (saúde, escola, moradia), etc.

De certa forma estas medidas foram contempladas no documento da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Cúpula da Terra, ou Rio/92. Porém, duas décadas adiante, durante a Rio + 20, diversos estudos mostraram que o “desenvolvimento sustentável” não tem sido nada mais do que uma maquiagem verde que mantem os fundamentos da degradação ambiental. A chamada “Curva ambiental de Kuznets” tem servido apenas como um instrumento ideológico que tenta justificar a necessidade de aprofundamento do desenvolvimento econômico, pois a degradação ambiental só aumenta com o crescimento econômico.

Na verdade, tem avolumado o número de pessoas que consideram o desenvolvimento não como uma solução, mas como um problema, pois existe uma alta correlação entre crescimento econômico e destruição das fontes naturais da vida e da biodiversidade. Mesmo quando se vinculam os aspectos humano, social e qualidade de vida, o padrão de produção e consumo continua tendo um impacto negativo sobre os recursos ambientais. O problema não está apenas no desenvolvimento econômico e social, mas também no chamado desenvolvimento sustentável.

É claro que um desenvolvimento humano e “sustentável” é melhor do que o desenvolvimento selvagem e insustentável. Porém, a idéia de desenvolvimento socialmente justo e ambientalmente sustentável tem sido incapaz de resolver os graves problemas que estão se acumulando no mundo, tais como o aquecimento global e a depleção dos ecosistemas. O capitalismo não consegue ser ao mesmo tempo socialmente inclusivo,  justo e ambientalmente sustentável. Adicionalmente, a idéia de desenvolvimento humano acaba por reforçar o viés antropocêntrico que coloca o bem-estar do homo sapiens acima do bem-estar dos demais seres vivos e do Planeta.

Desta forma, cresce, em todo o mundo, a percepção de que todo e qualquer tipo de desenvolvimento é prejudicial ao meio ambiente, na medida em que é baseado no modelo de aumento do consumo e da produção material. Por conta disto, alguns autores falam em desenvolvimento sem crescimento, como Tim Jackson no livro: “Prosperity without growth? The transition to a sustainable economy”, enquanto outros falam em Decrescimento, como Serge Latouche no  livro “Pequeno tratado do decrescimento sereno” (Martins Fontes, 2009). A expressão “desenvolvimento sustentável” passou a ser vista como um oximoro. O mesmo acontece com o conceito de “economia verde” que também é visto como uma contradição em termos.

O certo é que as formulações envolvendo o crescimento econômico, o desenvolvimento social e a dinâmica populacional não estão livres de críticas. O desenvolvimento é um processo complexo, com diversos efeitos indesejáveis, não estando, portanto, livre e acima das considerações minuciosas e da repreensão explícita. A única certeza atual é que os conceitos de população e desenvolvimento precisam ser mais debatidos e problematizados, especialmente quando se leva em conta o paradigma ecocêntrico.

Singularidade

 

‘Próximo Facebook pode nascer no Brasil’, diz fundador da Universidade da Singularidade

YURI GONZAGA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O indiano Salim Ismail, 47, é um dos fundadores da Universidade da Singularidade, organização encravada em um campus da Nasa, a agência espacial dos EUA, no Vale do Silício.

Anualmente, 80 estudantes do mundo todo vão à instituição, em Mountain View (Califórnia), para um curso de dez semanas em que, como define a própria universidade, “aprendem a resolver os maiores problemas globais”, como a fome e os desastres climáticos.

  Rodrigo Sepulveda Schulz/Creative Commons  
Salim Ismail, fundador da Universidade da Singularidade, um dos palestrantes da Campus Party 2013
Salim Ismail, fundador da Universidade da Singularidade, um dos palestrantes da Campus Party 2013

Para Ismail, empresário que hoje coordena o processo de expansão global da escola, o próximo Facebook pode ser fundado no Brasil. “Não há motivo para isso não acontecer”, disse em e-mail à Folha o diretor da universidade norte-americana.

Ele estará em São Paulo na semana que vem, para realizar uma palestra na sexta edição da Campus Party, evento de tecnologia que começa na próxima segunda. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

ia central [da Universidade da Singularidade] é estudar as áreas da tecnologia que estão se transformando mais rapidamente, como a computação, a robótica e a biotecnologia, para resolver os maiores problemas globais, como a crise financeira, pandemias e outras questões exponenciais.

Soluções exponenciais

Estamos acostumados a uma forma de pensamento linear, enquanto os maiores problemas do mundo são exponenciais -no caso de uma doença contagiosa, por exemplo, eu posso transmiti-la para duas pessoas, essas duas pessoas para mais quatro, e assim por diante. Nós estamos preparando os estudantes para encontrar soluções que também sejam exponenciais, em especial ligadas a áreas como a computação, que se aceleram por conta própria.

Pensar diferente

Estamos verificando o crescimento de organizações como o TED e o X Prize [fundações que apoiam o surgimento de ideais e projetos sociais e humanitários]. Nelas, quando uma pessoa é adicionada ao grupo, há um salto de produtividade muito superior ao do que aconteceria em uma empresa tradicional. São colaborativas, conectadas, usam “crowdsourcing” e têm uma visão de propósito que cria um novo tipo de estrutura.

Voz estrangeira

Cerca de 85% dos nossos estudantes não são dos EUA. Os cerca de 4.000 candidatos anuais vêm de 120 países. Não poderíamos querer resolver problemas globais sentados no Vale do Silício. As diferentes formas de pensamento são importantes para nós.

Poder do Brasil

Somos muito otimistas em relação ao Brasil, porque há muito entusiasmo e empreendedorismo natos. Quando isso é exposto a tecnologias poderosas, pode ter resultados extraordinários. Acredito que, por isso, o Brasil será um dos mais importantes países para as próximas gerações.

Por causa do advento dos celulares e da democratização da tecnologia pessoal, acho que o próximo Facebook deve nascer no Brasil ou em outro país emergente. Não há razão para que isso não aconteça. O Facebook foi criado em um notebook de US$ 1.000; o próximo deverá ser feito em um celular de US$ 100.

A Nasa e o Vale do Silício

É essencial [para a universidade] que estejamos na Nasa e, mais importante, no Vale do Silício. Em um raio de 50 km, podemos entrar em contato com os maiores pensadores do mundo nas áreas da tecnologia que nos interessam.

O campus Ames é responsável pela parte de supercomputação de toda a Nasa, o que nos dá acesso ao trabalho de mais de 4.000 pesquisadores nesse tema essencial.

Nunca poderíamos estar dentro de Berkeley ou de Stanford, porque gastaríamos muito tempo combatendo suas maneiras velhas de pensar.

Humanos x máquinas

Muitas vezes, o conceito de singularidade [que dá nome à instituição] é posto como um momento mágico no tempo em que a inteligência artificial superará a dos seres humanos.

Não acredito nisso porque nem sequer entendemos perfeitamente ou sabemos mensurar a inteligência.

Temos a inteligência humana como parte de um processo criativo e cheio de nuances, algo que não sei se poderíamos replicar com inteligência de máquinas.

*

RAIO-X
SALIM ISMAIL, 47

QUEM É
Nascido em Mumbai, formado em física pela Universidade de Waterloo (Canadá), é cofundador da Universidade da Singularidade

O QUE JÁ FEZ
Foi vice-presidente do Yahoo!, onde criou a encubadora Brickhouse (2007-2008).
Em 2010, sua empresa Angstro, que compilava informações na web sobre os contatos de seus usuários, foi comprada pelo Google

O pico dos combustíveis fósseis: colapso ou transição para a energia limpa?

O uso controlado do fogo foi uma das maiores conquistas da humanidade. O ser humano aprendeu a usar as propriedades da queima da madeira (lenha) e do carvão vegetal, para dar um grande impulso ao processo civilizatório. O fogo foi usado para a proteção contra predadores, para aquecimento diante do frio e para cozimento dos alimentos, especialmente a carne de outros animais usados na dieta como fonte de proteína. A antropologia divide a cultura humana entre o antes e o depois do cru e do cozido.

O antropólogo e professor de Harvard, Richard Wrangham, em “Catching Fire: How Cooking Made Us Human”, vê evidências da evolução do ser humano na adaptação a uma dieta a base de alimentos cozidos, o que possibilitou dentes e vísceras menores do que em espécies antecessoras e o cérebro ficasse maior. Ele especula que a energia que ia para a digestão foi direcionada para o desenvolvimento do cérebro. Desta forma, o uso do fogo, enquanto combustível, foi fundamental para a evolução humana.

O outro grande salto do “processo civilizatório” se deu quando o ser humano passou a usar os combustíveis fósseis (carvão mineral, petróleo e gás) como fonte de energia para a produção agrícola, para turbinar a industria, para a iluminação elétrica, para movimentar o transporte e para sustentar todas as atividades humanas, incluindo educação, saúde e lazer.

Foi graças aos combustíveis fósseis que a população passou de 1 bilhão de habitantes em 1800 para 7 bilhões em 2011, crescimento de 7 vezes, enquanto a economia mundial cresceu 90 vezes em termos reais, no mesmo período (dados de Angus Maddison). Sem energia barata e abundante não haveria como gerar empregos, produzir tantos bens de consumo e alimentar tanta gente.

Alguns dados indicam que, em nível global, o pico do petróleo e o pico do carvão vão ser alcançados em duas ou três décadas. O pico do gás (especialmente o gás de xisto) pode demorar mais 50 ou 100 anos. Isto significa que a era do petróleo e carvão abundantes e baratos chegou ao fim e o preço destes produtos vai subir nas próximas décadas na medida em que fica mais caro a produção deste tipo de energia. Quando o pico do gás for alcançado, será o início do fim da era dos combustíveis fósseis.

Porém, a IEA (International Energy Agency) divulgou o relatório World Energy Outlook, em novembro de 2012, mostrando que vai haver um crescimento da produção de combustíveis fósseis nas próximas décadas e os EUA podem se tornar uma nova Arabia Saudita na produção de energia fóssil. Porém, além de atrasar a transição para uma matriz de energia limpa, a maior produção de petróleo, carvão e gás vai agravar os problemas do aquecimento global e, como disse Robert Kuttner, em The American Prospect: “Saudi America is unintended irony. This country is becoming an oligarchy – make that oilagarchy”.

Contudo, mais cedo ou mais tarde, o fim dos combustíveis fósseis poderá representar um regresso da civilização humana, tal com conhecemos hoje. Existem pelo menos 3 grandes grupos de visões: 1) as pessimistas; 2) as práticas; e 3) as otimistas. Sem pretender apresentar os argumentos de maneira exaustiva, vamos esboçar rapidamente algumas formulações destas 3 alternativas.

Primeiro. As visões pessimistas consideram que será impossível manter o atual padrão de crescimento da população e da economia. O fim dos combustíveis fósseis deve provocar um colapso da economia mundial, com aumento da fome e redução significativa do padrão de vida da população mundial.

No texto “Life After The Oil Crash”, Matt Savinar considera que chegando na parte descendente da curva de Hubbert os preços dos combustíveis fósseis vão disparar e afetar a agricultura, a geração de emprego, o abastecimento de água, etc. O autor diz que, nos EUA, são necessárias aproximadamente 10 calorias de combustível fóssil para produzir 1 caloria de comida. A maioria dos pesticidas é obtida a partir do petróleo e todos os fertilizantes comerciais são baseados no amoníaco. O petróleo permitiu a existência de ferramentas agrícolas como os tractores, sistemas de armazenamento de alimentos como as câmaras frigoríficas, e os sistemas de transporte de mantimentos como os caminhões de distribuição. A agricultura baseada no petróleo é o factor principal que permitiu o aumento exponencial da população mundial. Assim, no espaço de poucos anos após ocorrer o “Peak Oil”, o preço dos alimentos vai disparar, assim como os preços de produção, armazenamento, transporte e embalagem, que também terão de subir.

Savinar considera que o petróleo também é necessário para a distribuição da quase totalidade da nossa água potável. O petróleo é usado para construir e conservar aquedutos, barragens, canalizações, poços, bem como para bombear a água que chega às nossas torneiras. Tal como com os mantimentos, o custo da água potável vai subir com a subida do preço do petróleo. O petróleo foi também responsável pelos avanços efectuados pela medicina nos últimos 150 anos, permitindo a fabricação em massa das drogas farmacêuticas, equipamentos cirúrgicos e o desenvolvimento de infraestruturas de saúde pública como os hospitais, as ambulâncias, as estradas, etc. O petróleo é ainda necessário para quase todos os aspectos do consumo, desde os sistemas de esgotos, tratamento de lixos, manutenção de estradas, mobilidade da polícia, serviços de bombeiros e a defesa nacional.

Neste sentido, Matt Savinar  acredita que as consequências do “Peak Oil” terão efeitos muito além do preço da gasolina. De maneira pessimista, ele considera que o fim da energia barata e a escassez de combutíveis fósseis pode provocar “um colapso econômico, guerras, fome generalizada e um decréscimo maciço da população mundial”.

Representando a segunda alternativa, a pesquisadora Gail Tverberg, de maneira prática, no texto “Reaching financial limits–What kinds of solutions are available?” parte da constação de que vivemos em um mundo finito e que já ultrapassamos os limites planetários em vários pontos. Para ela, os principais desafios da atualidade são:

•    O petróleo barato não é mais um cenário viável para os próximos anos e décadas;
•    A água doce é fundamental para beber, para o cultivo de alimentos, para a produção de petróleo e gás, e para a criação de energia elétrica, entre outras coisas. Em muitas partes do mundo, estamos usando água doce mais rápido do que os aqüíferos podem repor.
•    As mudança climáticas,  sejam elas causadas pelo homem ou não, são um problema crescente;
•    A fertilidade do solo depende teor de húmus, das bactérias adequadas, do equilíbrio mineral, etc. O maior uso de fertilizantes, pesticidas e irrigação não são correções permanentes.
•    A poluição é um problema tanto no que diz respeito ao dióxido de carbono em excesso, quanto ao mercúrio em fontes alimentares e a interferentes endócrinos para a proliferação de algas.
•    A população humana está fora de equilíbrio com os ecossistemas do mundo e continua crescendo, em cerca de 76 milhões de habitantes, ano após ano.
•    O sistema financeiro depende do crescimento, mas o crescimento em um sistema de mundo finito não pode continuar para sempre. Altos preços do petróleo tendem a reduzir o crescimento econômico e provocar recessão.

O que podemos fazer para enfrentar estes desafios? Embora não se possa resolver definitivamente estes problemas,  Gail Tverberg sugere várias acões práticas para mitigar a situação:

1.    Gerenciar as finanças pessoais para tentar evitar o impacto de uma crise mais severa;
2.    Planejar o tamanho da família. A maioria das pessoas ainda quer ter filhos, mas uma boa escolha seria parar em dois. Seria ainda melhor parar em um;
3.    Diante da crise econômica, seria do interesse geral fortalecer os laços com a família e amigos;
4.    Plantar árvores com frutos comestíveis;
5.    Procurar maneiras mais simples e mais barato de fazer as coisas;
6.    Aprecie o que você tem;
7.    Não pensar demais em coisas ruins que podem acontecer;
8.    Fortalecer o aprendizado de habilidades que podem ser úteis para o longo prazo;
9.    Esteja preparado para os reveses econômicos e os momentos de crise.

Terceiro, o físico e presidente do Instituto das Montanhas Rochosas, Amory Lovins apresenta uma visão otimista, no livro “Reinventing Fire: Bold Business Solutions for the New Energy Era”.  Ele considera que foi explorando e queimando os depósitos de combustíveis fósseis (material orgânico que a luz solar armazenou) que tornou possível a civilização urbana e industrial.

Mas o custo da dependência da energia fóssil tem sido alto. Somente os Estados Unidos tem gasto 1/6 do PIB para pagar os custos macroeconômicos, os custos microeconômicos da volatilidade do preço do petróleo e os custos militares cuja principal função é garantir os interesses americanos no Golfo Pérsico (as despesas militares são cerca de dez vezes o preço para comprar petróleo).

Amory Lovins acredita, contudo, que os Estados Unidos podem ficar livres do petróleo e do carvão até 2050, economizando US$ 5 trilhões, por meio da inovação, da maior eficiência e da mudança da matriz energética. O livro “Reinventando o fogo” não propõe aumento de impostos, maiores subsídios para o uso de energias renováveis ou uma postura ideológica que reconheça as mudanças climáticas antrópicas.

Um exemplo simples pode ser mostrado pela lâmpada LED (Light Emitting Diode) que funciona de maneira oposta à “obsolescência programada”. A lâmpada incandescente padrão, alimentada por uma usina elétrica a carvão (que apresenta 33% de eficiência na média dos Estados Unidos), apresenta 3% de eficiência, sendo a conversão líquida de energia em luz de apenas 1%. Já uma lâmpada LED, alimentada por uma turbina a gás natural eficiente, converte 20% da energia total em luz – um aumento de 20 vezes. Se funcionar com energia renovável (eólica ou solar) estará livre da emissão de carbono. Para o autor, estas mudanças podem ser feitas pelo setor privado, investindo em eficiência, segurança, fim dos desperdicios, geração de empregos verdes e uma política energética inteligente.

Em síntese, o que as 3 visões tratam é do fenômeno de que o pico dos combustíveis fósseis vai acontecer um dia. Porém, ninguém sabe como e quando virá o pico dos combustíveis fósseis e não existe consenso sobre as consequências e impactos deste fenômeno. Os cenários variam de um colapso total da economia internacional até visões otimistas de um mundo pós-petróleo, organizado com base na eficiência energética e nos combustíveis limpos e renováveis (solar, eólica, geotérmica, ondas, etc.) e na economia verde.

Mas toda esta discussão deixa pelo menos uma certeza: o mundo nas próximas décadas será bastante diferente da realidade atual, embora não saibamos, com certeza, se as mudanças virão para pior ou para melhor. Cada dia surgem mais pessoas questionando a noção de desenvolvimento econômico, inclusive o mito do “desenvolvimento sustentável verde”.

Referências:

Matt Savinar, Life After The Oil Crash, 2005
http://peakoil.com/forums/post160024.html

Gail Tverberg, Reaching financial limits–What kinds of solutions are available?, 2012
http://ourfiniteworld.com/2012/08/07/reaching-financial-limits-what-kinds-of-solutions-are-available/

Amory Lovins, Reinventing Fire: Bold Business Solutions for the New Energy Era, 2012
http://www.rmi.org/rfexecutivesummary

A ferrari e as expectativas inventadas

“Nada humano é verdadeiramente incondicional, eterno e completamente bom. Essa é uma forma de amor que só Deus pode ter. Esse entendimento gera expectativas altas, que relacionamentos cotidianos não são capazes de suprir”. (Simon May, professor do King’s College, em entrevista em 08/01/13 para Folha de São Paulo)

Na área de negócios, existe um termo chamado “expectativas adaptativas” que significa que as pessoas formam suas expectativas sobre o que irá acontecer no futuro com base no que aconteceu no passado. E outro que se chama “expectativas racionais” que se caracteriza na hipótese de utilização de informação sobre o atual comportamento dos fatos e com base nessa disponibilidade, antecipa-se racionalmente as atitudes futuras e reage-se no presente de acordo com as expectativas formadas, anulando-se, em algum grau, a efetividade do que se pensa.

Tenho pensado que a maior parte das nossas expectativas são adaptativas e pouco racionais. Talvez inventadas. No meu entendimento, prevalece-se o íntimo do mundo individual e quase sempre elas são formadas por meio de situações mal resolvidas.

Tenho pensado nessa procura interminável por sentimentos incondicionais que nos move. Tenho pensado em caminhos em que o volume das expectativas desvia a rota do navio e no lugar de se chegar ao destino, chega-se a um lugar incerto. Tenho pensado na culpa atribuída ao destino quando se fluí, apenas, contra a correnteza.

Percebo, assim, um descompasso dos personagens criados e dos presentes caros em busca da felicidade permanente, que por si só já é uma expectativa inventada. Seria, assim, a paixão pelas relações platônicas e não pelo sentimentos reais que nos leva aos dramas do cotidiano.

Claro que também um dia pedi demais. Penso nessa questão, inclusive, porque já achei que o mundo estava contra mim quando as situações não eram resolvidas ao meu favor. E quando perdia, surtava, pois a cultura do incondicional gerava altas expectativas. Isso assustava a qualquer mortal. Afinal a minha realidade era diferente da realidade de qualquer um. E nesse caso não bastava a Lei da Atração.

Tenho cada vez mais ignorado o poder que a minha expectativa tem sobre o comportamento de quem mora ao lado. Isso seria ignorar o que psicologia chama de “Conduta Pigmaleão”, originada, segundo a mitologia grega, pelo escultor Pigmaleão que acreditava que todas as mulheres tinham muitos defeitos e, assim, procurou esculpir o um padrão feminino perfeito. Após a conclusão, apaixonou-se pela obra perfeita e passou a referenciá-la até que a deusa Afrodite transformou Galateia em uma mulher de verdade.

Se isso fosse o real, a vida e o nosso entorno de parceiros, amigos e trabalho se tornaria aquilo que pensamos sobre eles. O que descarto, pois ao exigir que o outro faça a mesma escolha, ordenamos uma trava do destino de uma realidade que só é nossa. E depois os nossos monstros terminam culpando o outro por não manter o que esperamos de conduta.

Na atualidade, embora já tenha ferrado no passado várias relações pela pressão, tenho caminhado por um mundo que tento viver sem colocar as demandas ou carências nos outros. Afinal, já sofri por um grande amor, reneguei projetos profissionais ou achei que tinha encontrado a melhor amiga.

Todavia, aprendi a duras penas que a ideia de alguém ou o cenário de paraíso desejado só pode levar a extinção de qualquer relação por pura cena hipotética ou imaginária. A título de exemplo, descrevo as expectativas de uma pessoa com a outra no momento inusitado da paixão. Quando se acredita na perfeição e em todas as qualidades pensadas que o outro tem, mas o fim vira um tormento do resgaste ao passado, visto que na verdade era só um comportamento, uma leitura inicial. Seria a leitura da sinopse ou da primeira página.

Não duvido que quando se deseja que o movimento se transforme em padrão, a pressão sufoca, o interesse se desvia do caminho. Talvez se justifique como a pressa da resposta, a pressa do amor. Mas quem poderá no contraponto intervir para que o amanhã tenha pressa. Seria andar na ferrari quando se exige o pare, escute e atenção.

Penso que seja necessário dar um basta no amor que esperamos para aceitarmos o que o outro pode e desejar dar. Seria mais ou menos o desenho de um personagem que gostaríamos na nossa vida. Seria o fim do emprego perfeito, da amiga perfeita, do filho perfeito e do amor exclusivo. Seria a encenação aceita fora do quadro único que criamos.

Diria que ao exigir do outro a tomada de decisão ou falta dela, provocamos ações que nem sempre o outro está com vontade para tomá-las. E, nessa direção, a ansiedade só caminha para a dor, seria como brincar de ladrão e bandido quando as culpas só poderiam ser nossas, já que o tesouro está no nosso eu.

Por um lado, expectativa demais é fazer o caminho de Santiago esperando encontrar a razão por viver. É levar uma mala pesada em uma viagem de final de semana, esperando encontrar no caminho a certeza do amanhã. Penso que não existe amizade, amor, relação incondicional. Existem trocas que se perpetuam até quando é válida a satisfação e o momento. Quando tem que acontecer, acontece e ponto.

Por outro, talvez haja entusiasmo demais nos casamentos, nas viagens, nas formaturas ou no primeiro emprego. E quando não, no futuro de nossos filhos. E o pior no amor incondicional que teremos na velhice. Talvez haja amor platônico em excesso ou quem sabe cenas com finais felizes o tempo inteiro que nos distancia da frase de Quintana que pontua que as pessoas não se precisam, elas se completam… não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.

E no final, nos banhamos em lágrimas quando o amor se vai, quando a amizade não aguenta ou quando o emprego se despede. Talvez se existisse um remédio que anestesiasse as nossas necessidades, a frustação poderia ser bem menor. Todavia o ideal é compreender como é errado infernizar a vida do outro para atender a nossa necessidade ou frustação.

Penso que destruindo esse querer de dar fim a solidão, de querer ter o melhor amigo do mundo, o melhor amor da vida, o cotidiano poderia ser menos penoso. Quem nunca se apaixonou por alguém que manteve apenas um olhar ou mesmo entendeu que tinha encontrado o melhor amigo para sempre? E quando não, quantos não viram na entrevista de emprego a razão de sua aposentadoria. Guiados por segundos frente uma vida inteira.

Acredito que não existe o engano, apenas a certeza de que a expectativa não é o mundo do outro. E poderíamos com um jeitinho não antecipar o fim, apenas por não ser o tempo para corresponder.

Claro que é difícil colocar a vida no ponto morto. Uma simples falta de elogio, um email não respondido, vira frustração. E a necessidade de ligar a Ferrari só confirma que o outro está em um tempo diferente. Isso acontece a todo momento e, por isso, se torna tão importante reduzirmos a nossa sensibilidade e velocidade.

Penso que sentimento e espaço bom é o que não pressiona, o que não exige. Só que é um contraponto, pois só fazemos pressão em sentimentos frágeis que não são incondicionais. Então como fazer pra não criamos expectativas? impossível. E quem sabe deve ser assim: joga-se o dado, se der seis ótimo, se der zero, também deve ser bom pelo efeito da ação, independente da velocidade.

E, assim, a vida que querermos não pode ser um vício acima do real, pois o que fica no final é a possibilidade do ir e vir, sem colocar a intensidade dos dias de bater o ponto. E aí quem sabe poderemos chamar as nossas expectativas de racionais ao usarmos o fusca no lugar da ferrari.

E como Simon destaca: “Precisamos mudar nossas expectativas, não reduzi-las. É preciso abandonar a ideia de que amor implica em intimidade incondicional, benevolência e altruísmo. Para mim, amor é algo completamente condicional. Ele só existe enquanto a outra pessoa parece dar sentido à nossa existência”.