“Democracia não é no grito”

Estamos assistindo a nação ser tomada, como se fôramos “impávidos colossos”, pelo fundamentalismo, ora sob a égide da religião, mas que, a qualquer momento, abertos os precedentes, será de qualquer grupo que se arvore o direito de sair repetindo, por aí, as palavras do vice-presidente do PSC – Partido Social Cristão, Everaldo Pereira, ao referir-se à posição do partido pela manutenção do deputado Feliciano na presidência da CDHM:

O PSC não abre mão da indicação. Democracia não é no grito”.

 
Democracia não é no grito”, repito.
 
Para completar o quadro, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou, em 27/3/12, a Proposta de Emenda Constitucional – da lavra do deputado João Campos (PSDB-GO) – que acrescenta o inciso X ao artigo 103 da Constituição Federal, para nele incluir as “associações religiosas de âmbito nacional (aqui a íntegra da proposta, com a justificação), a já apelidade “Emenda Evangélica”.
 
Democracia não é no grito”, repito.
 
Também em 27/3/2013, foi entregue ao PSC um abaixo-assinado com mais de 455 mil assinaturas pedindo a saída do deputado Feliciano da CDHM. O texto linkado oferece uma versão do que teria dito Pereira: “Democracia é voto. Democracia não é grito, nem ditadura”.
 
Democracia é voto! Democracia não é grito, nem ditadura”, repito, com as atualizações.
 
Não importa a forma, mas o conteúdo do dito. Sim, democracia é voto, mas também é grito.
 
E quando alguém esquece isso, ultrapassa os limites do bom senso e nada mais faz do que expressar uma forma de fundamentalismo. Ultrapassa o bom senso que deve permear o convívio social, aquele valor que todos pensamos ser mínimo para a manutenção da sociedade.
 
Não é por menos que a bancada evangélica houve por bem – e se colocando na condição de  representantes das “associações religiosas” propuseram a PEC 99/11. É por sentirem que o “impávido colosso” não é mais “aquilo tudo”, que, afinal, não grita tanto assim.
 
Será?
 
Democracia é grito”, digo eu!
 
É e será o grito de tantos quantos estão não concordam com isso. E é também o grito do silêncio de tantos quantos que, por alguma impossibilidade, não se manifestam.
 
Mas bons olhos veem além do simples enxergar. Veem, por exemplo, o que se contém no parágrafo introdutório da “justificação”:
 
Após bom debate, a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional deliberou por apresentar proposta de Emenda à Constituição objetivando inserir Associações Religiosas de caráter nacional (exemplo: CGADB – Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, CONAMAD – Convenção Nacional das Assembléias de Deus no Brasil Ministério Madureira, CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do  Brasil, Convenção Batista Nacional, Colégio Episcopal da Igreja Metodista , etc.) no rol do art. 103 da Constituição Federal…
 
Ora, o que faz a CNBB no rol de exemplos se quem se reuniu foi a “Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional”? “Pega ratão”, como se diz na gíria?
 
Sem dúvida!
 
Há mais a observar no texto. O último parágrafo explcita: “legitimando as Associações Religiosas para eventual propositura de ações de controle de constitucionalidade, naquilo que for pertinente”.
 
Naquilo que for pertinente”, repito.
 
O que é pertinente, no caso? E se é pertinente, por que não constou expressamente no texto proposto para o inciso X a ser acrescentado?
 
O pior cego é aquele que não quer ver, diz o velho ditado. Não constou por que aí se dá a maracutaia toda: da forma como redigido, qualquer tema será pertinente!
 
Qualquer tema será pertinente, repito!
 
Um pastor evangélico – com o currículo sobejamente exposto a quem queira ver – como presidente da CDHM e com uma emenda dessas, alguém tem dúvidas de que a nação está sendo tomada pelo fundamentalismo?
 
Alguém tem dúvida? Repito!
 
Amanhã poderá ser a torcida do Flamengo…

Deus é brasileiro?

A presidente Dilma Rousseff, primeira chefe de Estado a ser recebida pelo papa Francisco após a missa inaugural do pontífice, dia 20 de março de 2013, brincou que os argentinos têm sorte pela escolha de um papa de seu país. Contudo, disse: “mas Deus é brasileiro”.

Esta brincadeira faz parte de uma idéia geral, amplamente difundida na sociedade brasileira, de que o Brasil é um país abençoado por Deus, não só pelas suas riquezas e belezas naturais, mas também pelo alegria e espírito cordial de seu povo. Ou melhor, se diz que “Deus é brasileiro”, como se o “Criador do Universo” tivesse nascido em terras tupiniquins e tivesse predileção por este cantinho do Universo.

De modo nada humilde, os brasileiros ao invés de se mostrarem fiéis para com Deus e “servos do Senhor”, de acordo com os princípios da mística cristã, simplesmente consideram que Deus é um conterâneo que está aí para proteger o Brasil e os brasileiros.

Esta inversão do dogma, reflete uma postura brasileira de que as necessidades do povo vão ser atendidas por um Pai misericordioso e que o esforço individual e a responsabilidade pessoal  são atitudes secundárias diante da abundância de recursos naturais e da bondade divina. Afinal somos da mesma família, ou no máximo vizinhos, de Deus.

Não deixa de ser uma brincadeira ridícula. Mas está concepção brasileira perde para a postura argentina onde, mesmo antes de terem o primeiro Papa das Américas, as pessoas achavam que se não são deuses, pelo menos possuem um Deus vivo, que se chama Diego Armando.

 

A população de Singapura em 2100

Singapura é um pequeno país tropical, mas economicamente rico e com excelente qualidade de vida de seus cidadãos. O país é uma Cidade-Estado, de 700 km2 (menor do que o tamanho da cidade do Rio de Janeiro) composta por 63 ilhas, separado da Malásia pelo Estreito de Johor e separado da Indonésia pelo Estreito de Singapura. A maior parte da população é composta por chineses, seguidos de malaios e indianos.

O país foi criado como entreposto comercial da Companhia das Índias Orientais por Sir Stamford Raffles em 1819 e se tornou um colônia britânica.  Durante a Segunda Guerra Mundial foi invadido pelo Japão, mas voltou ao domínio britânico após a derrota japonesa. Conseguiu a independência em 1959 (mesmo ano da Revolução Cubana), mas se juntou à Malasia e só se tornou um Estado totalmente independente em 1965.

Embora nunca tenha sido um país miserável, Singapura era bastante pobre e tinha, no quinquênio 1950-55, uma mortalidade infantil de 61 por mil, uma esperança de vida ao nascer de 60 anos e Taxa de Fecundidade Total (TFT) de 6,6 filhos por mulher. Mas em poucas décadas Singapura deu a volta por cima e atualmente apresenta indicadores econômicos e sociais melhores, por exemplo, do que os dos Estados Unidos. Segundo dados do FMI a renda per capita de Singapura (em poder de paridade de compra – ppp), em 2012, era de 61,5 mil dólares, contra 50,2 mil dólares dos EUA.

No quinquênio 2005-10 Singapura tinha uma mortalidade infantil de somente 1,6 por mil e uma esperança de vida ao nascer de 81 anos, contra números respectivos de 6,8 por mil e 78 anos, nos Estados Unidos. Em 2012 o desemprego estava em 2% em Singapura contra 8% nos EUA, além do primeiro ter altos superávits comerciais e baixo endivadamento. O Banco Mundial considera Singapura como o melhor lugar no mundo para se fazer negócios, superando, desta forma, os EUA e os países da Europa.

Singapura tem algumas semelhanças pontuais com Cuba, pois ambos são países insulares, com populações relativamente pequenas, foram governadas por partido único, com regimes autoritários, tiveram forte presença do Estado e fizeram suas “revoluções” em 1959. Porém, para os ideólogos do desenvolvimentismo, o sucesso econômico e social de Singapura é sem igual.

A população de Singapura era de 1 milhão de habitantes em 1950, chegou a 5 milhões em 2010. A divisão de população da ONU estima, na hipotese média, uma população de 6,1 milhões de pessoas em 2050 e 5,6 milhões em 2100. Na hipótese baixa, Singapura teria 5,4  milhões em 2050 e 3,6 milhões em 2100. Nos últimos 50 anos a maior parte do crescimento demográfico ocorreu devido à imigração. Em 1950, a densidade demográfica de Singapura era de 1.496 habitantes por km2, passando para  7.447 hab/km2, em 2010 e podendo ultrapassar 8 mil hab/km2,  na segunda metade do século XXI.

A taxa de fecundidade total (TFT) era de 6,6 filhos por mulher no quinquênio 1950-55 e em menos de 25 anos já apresentava taxas abaixo do nível de reposição. Em 2005-10 a TFT estava em somente 1,25 filhos por mulher. Mesmo que esta taxa suba um pouco nas próximas décadas o crescimento populacional só será mantido com o fluxo positivo de migrantes. O número anual de nascimentos estava em 54 mil no início da década de 1950 e caiu para 41 mil no quinquênio 2005-10, número muito baixo para o tamanho da população. A esperança de vida era de 60 anos em 1950, passou para 81 anos em 2010 e deve ultrapassar 90 anos em 2100 (uma das maiores do mundo).

Embora Singapura seja um local altamente urbanizado, metade do seu território é coberto por vegetação e o país tem investido no planejamento urbano, no transporte coletivo, na agricultura urbana e em projetos verdes, como o aterro sanitário de Pulau Semakau que é considerado um dos mais modernos do mundo.

Mas o modelo econômico e social de Singapura, com seu alto nível de consumo – embora promova alto padrão de vida e educação para seus habitantes – não é generalizável para o resto do globo, pois o país possui um grande déficit ecológico. Segundo o relatório Planeta Vivo, da WWF, a pegada ecológica per capita era de 6,1 hectares globais (gha) para uma biocapacidade de apenas 0,02 gha. Portanto, Singapura depende da biocapacidade excedente de alguns país do mundo.

Singapura soube tirar proveito de suas vantagens comparativas e construir um país altamente eficiente em termos econômicos e com Índice de Gini (47,3) da distribuição de renda menor do que a maioria dos países em desenvolvimento. Mas o estilo de vida do povo de Singapura não é auto sustentável em termos ambientais. Muitos países querem copiar o modelo da pequena ilha asiática, mas este alto padrão de vida não é generalizável, sendo inatingível para os mais de 7 bilhões de habitantes do mundo.

 

Desenvolvimento econômico: mito ou realidade?

O eminente economista brasileiro Celso Furtado, no livro “O mito do desenvolvimento econômico”, considerava que os países da periferia do sistema capitalista seriam incapazes de reproduzir o padrão de consumo dos países ricos, pois o padrão de desenvolvimento afluente não seria generalizável para a maioria da população mundial:

(…) que acontecerá se o desenvolvimento econômico, para o qual estão sendo mobilizados todos os povos da terra, chegar         efetivamente a concretizar-se, isto é, se as atuais formas de vida dos povos ricos chegam efetivamente a universalizar-se? A resposta a essa pergunta é clara, sem ambiguidades: se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem (ou alternativamente, o custo do controle da poluição seria tão elevado) que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso (Furtado,1974, p. 19).

O custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida, é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana. (…)  a ideia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente irrealizável. Sabemos agora de forma irrefutável que as economias da periferia nunca serão desenvolvidas, no sentido de similares às economias que formam o atual centro do sistema capitalista. (…)  Cabe, portanto, afirmar que a ideia de desenvolvimento econômico é um simples mito (Furtado, 1974, p. 75).

Estas palavras foram publicadas em 1974, ano em que a população mundial atingiu 4 bilhões de pessoas e os países desenvolvidos tinham menos de um bilhão de habitantes. Para Celso Furtado, o desenvolvimento seria uma realidade para os países do Primeiro Mundo, mas um mito inalcançavel para os países do Terceiro Mundo, pois com a pressão sobre os recursos naturais não haveria como satisfazer toda a demanda global.

Contudo, o desenvolvimento econômico – baseado na ampliação dos níveis de consumo conspícuo –continuou crescendo e se ampliando, mesmo depois da crise do petróleo da década de 1970. De 1974 a 2012 o PIB mundial cresceu 3,5 vezes (dados de Angus Maddison), enquanto a população mundial passou de 4 bilhões para 7,1 bilhões de habitantes, sendo que a “novidade dos anos 2000 foi o crescimento mais rápido dos países emergentes” (Alves, 2013). Nos países em desenvolvimento a esperança de vida ao nascer passou de 55 anos em 1970 para 66 anos em 2010 e a mortalidade infantil caiu de 105 mortes por mil nascimentos para 50 por mil, no mesmo período. Houve também avanços na educação e nas moradias.

Desta forma, o crescimento econômico mais acelerado dos países em desenvolvimento tem possibilitado o crescimento da chamada “nova classe média emergente”. Por exemplo, o estudo da firma de consultoria Mckinsey “Winning the $30 trillion decathlon: going for gold in emerging markets” (2012) mostra os avanços no aumento do mercado consumidor global, tendo sido publicado para mostrar para as empresas produtoras de bens industrializados e serviços como conquistar os novos consumidores das novas classes com poder de compra no mundo.

Utilizando o critério de renda mínima de 10 dólares diários (em poder de paridade de compra – ppp), a McKinsey calcula que a “classe consumidora” era de 300 milhões de pessoas, em 1950, representando 12% da população mundial de 2,5 bilhões de habitantes. Em 1970 – pouco antes da publicação do livro de Celso Furtado, a “classe consumidora” era de 900 milhões de pessoas, representando 25% da população mundial de 3,7 bilhões de habitantes. Em 2010, a “classe consumidora” chegou a 2,4 bilhões de pessoas (quase o tamanho de toda a população mundial em 1950), representando 35% da população mundial de 6,8 bilhões de habitantes. Em 1974 havia pouco mais de 300 milhões de automóveis (carros, caminhões e ônibus) no mundo, passando para 1 bilhão em 2010 e devendo chegar a 1,5 bilhão de automóveis em 2025, cinco vezes mais veículos nas ruas e estradas em 50 anos.

Para 2025, a projeção da McKinsey é que a “classe consumidora” atinja 4,2 bilhões de pessoas, representando 53% da população mundial projetada para 7,9 bilhões de habitantes. Portanto, as estimativas apontam para uma “nova classe média mundial” superior a 50% da população global de 2025, número maior do que toda a população do Planeta em 1974, quando Celso Furtado escreveu o seu livro sobre o mito do desenvolvimento econômico.

Em termos de valores, o consumo mundial em 2010, calculado pela McKinsey, era de 38 trilhões de dólares, sendo 26 trilhões nos países desenvolvidos e 12 trilhões nos países emergentes. Mas para 2025, estima-se o consumo mundial de 64 trilhões de dólares sendo quase a metade (30 trilhões) para os países em desenvolvimento. Portanto, a “nova classe média emergente”, dos países antigamente definidos como Terceiro Mundo, terá um poder de consumo maior do que o montante atual da capacidade de compra dos consumidores dos países desenvolvidos. Os 30 trilhões de dólares das “classes consumidoras” dos países periféricos, previstos para 2025, será maior do que todo o PIB mundial em 1974.

As grandes empresas dos Estados Unidos, Europa, Japão e Coreia do Sul estão de olho neste amplo mercado consumidor. Mesmo as empresas dos BRICS também estão lutando para conquistar fatias crescentes deste mercado. A China tem usado parte de suas reservas internacionais de 3,3 trilhões de dólares para apoiar a expansão de suas empresas. A Índia tem dado todo o apoio aos seus grandes conglomerados – como a Tata Motors.

Ou seja, a competição é grande para abocanhar pedaços desta multidão de consumidores, ávidos por comprar habitação, água potável, banheiro, saneamento e produtos de limpeza e higiene, luz elétrica, geladeira, TV, DVD, CD, TV-HD, fogão, máquina de lavar roupa, móveis, microonda, moto, bicicleta, carro, relógio, roupa, comida industrializada, telefone, celular, TV a cabo, internet, educação, saude, lazer, viagens, etc.

Portanto, parece que Celso Furtado estava errado ao considerar o desenvolvimento econômico mundial e o acesso ao consumo conspícuo um fato inalcançavel e um mito. O relatório do Índice de Desenvolvimento Humano 2013, do PNUD, mostra que foram os países do sul que mais tiveram ganhos no IDH. A parcela da população mundial que vive na situação de extrema pobreza caiu pela metade – de 43% em 1990 para 21% em 2010. O relatório também prevê que até o final da próxima década a maior parte das pessoas de classe média estarão vivendo em países antes considerados pobres.

A expansão do capitalismo chegou a níveis inimagináveis e a “classe consumidora” deverá ser maioria da população mundial até 2025 (não só a McKinsey, mas outras firmas de consultoria internacional, como a Goldman Sachs e a PwC, também fazem projeções semelhantes). A expansão do consumo mundial em países como China, Índia, Indonésia, Vietnam e Turquia já é uma realidade e só tende a crescer, pois une o desejo de lucro das empresas com a vontade de consumir das pessoas.

Todavia, parece que, infelizmente, Celso Furtado estava certo ao dizer: “se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem (ou alternativamente, o custo do controle da poluição seria tão elevado) que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso”. O progresso humano tem provocado o regresso ambiental. Assim, a realidade tem sido mais forte do que o mito, para a tristeza da Mãe Natureza que tem pagado um preço muito alto para sustentar a generalização do consumo entre setores crescentes da crescente população mundial.

Referências:

FURTADO, C.  O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974

ALVES, J.E.D. Progresso humano e regresso ambiental. Ecodebate, Rio de Janeiro, 2012

http://www.ecodebate.com.br/2012/06/20/progresso-humano-e-regresso-ambiental-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, J.E.D. Países ricos perdem a maioria no PIB mundial em 2013, Ecodebate, Rio de Janeiro, 2013

http://www.ecodebate.com.br/2013/01/09/paises-ricos-perdem-a-maioria-no-pib-mundial-em-2013-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, J.E.D.  G7 versus E7: a vez dos países emergentes? Ecodebate, Rio de Janeiro, 2013

http://www.ecodebate.com.br/2013/03/06/g7-versus-e7-a-vez-dos-paises-emergentes-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, J.E.D. A redução das desigualdades de renda entre as regiões do mundo. Ecodebate, RJ, 2013

http://www.ecodebate.com.br/2013/03/15/a-reducao-das-desigualdades-e-a-convergencia-de-renda-entre-as-regioes-do-mundo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

McKINSEY. Winning the $30 trillion decathlon: going for gold in emerging markets, 2012.

http://www.mckinseyquarterly.com/Winning_the_30_trillion_decathlon_Going_for_gold_in_emerging_markets_3002

 

A redução das desigualdades e a convergência de renda entre as regiões do mundo

Existem muitos conflitos e muitas injustiças no mundo. São tantas as dificuldades e os problemas, especialmente na área ambiental, que algumas novas tendências positivas ficam ofuscadas. No plano internacional, a novidade recente é que o hiato de renda entre as economias avançadas (desenvolvidas ou Primeiro Mundo) e as economias emergentes (em desenvolvimento ou Terceiro Mundo) está diminuindo.

Nos anos de 1980, a crise econômica internacional e o aumento dos juros nos Estados Unidos (durante o governo Ronald Reagan) provocou um declínio da renda per capita na maioria dos países pobres do mundo. Em consequência, houve aumento das desigualdades de renda entre as nações. Em 1989, a renda per capita (em poder de paridade de compra – ppp) dos países desenvolvidos era mais de 10 vezes superior à renda per capita dos países em desenvolvimento, segundo dados do Fundo Monetário Internacional – FMI.

Porém, desde o início dos anos de 1990, houve um processo de redução das desigualdades, pois o fator de multiplicação caiu para pouco mais de 8 vezes na última década do século XX. Este fator chegou pela primeira vez abaixo de 8 vezes em 2005 e caiu rapidamente nos anos seguintes, ficando abaixo de 6 vezes em 2012. Esta tendência de desconcentração deve prosseguir em 2013 e nos próximos anos, pois as economias maduras estão em crise e economias emergentes – como China e Índia – ainda continuam crescendo num ritmo bem superior.

É claro que existem extremos, quando se compara, por exemplo, a renda per capita dos EUA e de alguns países ao Sul do Sahara. Mas com o maior crescimento dos países em desenvolvimento a renda mundial apresenta um processo de convergência, embora a igualdade, provavelmente, nunca seja alcançada. Estas novas tendências foram tratadas no livro The Next Convergence: The Future of Economic Growth in a Multispeed World, do prêmio Nobel de economia de 2001, Michael Spence. Na mesma linha foi escrito o livro de Kishore Mahbubani, em 2013.

Um dos lados positivos deste processo de convergência da renda é a redução da pobreza do mundo. Segundo dados do Banco Mundial – que utiliza como referência uma linha de renda de 1,25 dólares por dia (em poder de paridade de compra – ppp)- houve uma redução absoluta e relativa da extrema pobreza no mundo. Em 1981, existiam quase dois bilhões (1,938 bilhão) de pessoas pobres (representando 52,2% da população), caindo para 1,909 bilhão, em 1990 (43,1% da população), para 1,743 bilhão (34%) em 1999 e para 1,289 bilhão de pessoas em 2008, representando 22,4% da população dos países em desenvolvimento.

A maior redução da pobreza aconteceu exatamente entre 2003 e 2008, quando também houve redução das desigualdades internacionais de renda. Mas como os países em desenvolvimento (ou emergentes ou do Terceiro Mundo) continuam crescendo em ritmo mais elevado, a probreza continua caindo na segunda década do século XXI, como aponta o programa do governo Dilma: “O fim da miséria é só um começo”. Embora pobreza extrema seja considerado apenas R$ 70,00 per capita por mês ou US$ 1,25 por dia.

Um outro lado, muito comemorado pelos governos, pelas empresas e pelas consultorias internacionais é o aumento da classe média e do poder de consumo de parcelas crescentes da população mundial. Estudo da McKinsey Global Institute, de 2012, mostra que a classe média mundial (aquela com mais de 10 dólares diários, chamada de “classe consumidora”) era de 0,3 bilhão de pessoas em 1950, de  1,2 bilhão de pessoas em 1990, passou para 2,4 bilhões em 2010 e deve chegar a 4,2 bilhões de pessoas, em 2025. Nesta data, o percentual de consumidores da “classe média” mundial será maior, pela primeira vez, do que a parcela dos menos consumidores (aqueles com renda inferior a US$ 10 diários).

A redução da pobreza e o crescimento da classe média mundial poderiam ser fatores de grande comemoração se acontecesse fora do quadro de reprodução do padrão de produção de bens materiais e descartáveis que só reforçam a cultura consumista no mundo. Evidentemente que as populações pobres do mundo devem ter o direito de escolher o que comprar e consumir. As Conferências Internacionais da ONU consideram o Desenvolvimento um direito dos povos.

Mas o que tem acontecido é desenvolvimento tem sido usado como sinônimo de consumo e o predomínio da produção de bens industrializados das grandes corporações internacionais visam muito mais o lucro do que a qualidade de vida das populações e do meio ambiente. Por meio de campanhas de publicidade milionárias as principais marcas de produtos internacionais vão impondo o seu domínio pelo mundo afora. Porém, o consumo de 4,2 bilhões de pessoas, com renda igual ou superior a US$ 10 por dia, exige uma quantidade de matérias-primas e energia que é incompatível com a sustentabilidade ambiental.

O ideal é que houvesse crescimento da renda com mudança no padrão de consumo, pois, se os países emergentes simplesmente mimetizarem o estilo de vida das economias avançadas, os limites da natureza serão ultrapassados e a perda será geral. Em termos de justiça social, não basta apenas ampliar o padrão de consumo. É preciso reduzir o impacto das atividades antrópicas.

O desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo e a redução das desigualdades internacionais de renda poderia ser uma novidade alvissareira se houvesse um relacionamento harmônico com o meio ambiente. Porém, tem acontecido o contrário, pois a ampliação da renda e do mercado de consumo tem ocorrido no sentido de ampliar a compra de produtos que geram mais lucros e poluição do que satisfação para a sociedade e proteção para o meio ambiente.

O crescimento da concentração de CO2 e as mudanças climáticas

Em 2008, o ambientalista Bill McKibben fundou a 350.org, um movimento internacional para unir o mundo em torno de soluções para a crise climática. A idéia da 350.org é estimular um conjunto de ações coordenadas que possa pressionar as autoridades mundiais sobre a necessidade do comprometimento político com a redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE). A cifra 350 é uma referência a 350 ppm (partes por milhão) de CO2.  O número é considerado o limiar de segurança para a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, um índice capaz de evitar uma mudança climática galopante.

As Conferências Internacionais sobre mudanças climáticas (as COPs) chegaram ao consenso de que  2o C (dois graus centígrados) é o nível de aquecimento global considerado “suportável”, segundo análises científicas. Para tanto, seria necessário reduzir os níveis de emissão de GEE e reduzir a concentração de CO2 na atmosfera para 350 ppm.

Porém, não é isto que está acontecendo. Segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos, os níveis de dióxido de carbono na atmosfera saltaram 2,67 partes por milhão (ppm) em 2012, para o montante récorde de 395 ppm. O registro do ano passado só ficou atrás do aumento de 2,93 ppm ocorrido em 1998. Tudo indica que chegaremos a 400 ppm até 2015, o que é um número extremamente crítico.

O principal fator para o crescimento da concentração de CO2 na biosfera foi o aumento do uso de combustíveis fósseis, especialmente nos países em desenvolvimento, como a China e a Índia. As queimadas na Amazônia também contribuiram. Desta forma, as perspectivas da 350.org e as possibilidades de manter o aquecimento global abaixo de 2º C  estão desaparecendo.

Um trabalho publicado na revista Science estimou a temperatura global no período geológico chamado de Holoceno, que teve início há cerca de 11 mil anos. Neste período de estabilidade do clima a população mundial passou de menos de 5 milhões de habitantes, no começo do Holoceno, para 1 bilhão de habitantes por volta de 1800. Todavia, o impacto das atividades antrópicas foi pequeno nestes milênios.

Segundo o estudo, a Terra passou por um período de aquecimento que começou há cerca de 11 mil anos e durante 1,5 mil anos, o planeta esquentou cerca de 0,6º C, para se estabilizar durante cerca de 5.000 anos. Todavia, 5,5 mil anos atrás, começou um novo processo de esfriamento, o que ficou conhecido como a “pequena era do gelo”, quando o Planeta ficou 0,7º C mais frio.

Contudo, as tendências se inverteram há 200 anos, com o início da Revolução Industrial e Energética (uso de combustíveis fósseis). O aumento da emissão de GEE fez o Planeta se esquentar nos últimos 200 anos, quando a população passou de 1 bilhão para mais de 7 bilhões de habitantes e a economia cresceu cerca de 90 vezes neste período. Por conta disto, já existem cientistas dizendo que começamos uma nova era geológica, chamada de Antropoceno, ou seja, uma época em que o ser humano passou a influir na composição química da atmosfera e dos oceanos, consequentemente, alterando o equilíbrio dos ecossistemas da Terra.

Há muitas incertezas sobre a magnitude das projeções das mudanças climáticas. De qualquer forma, se nada for feito e se as COPs (Conferências das Partes) não chegarem a um acordo viável, o aquecimento global vai continuar nas próximas décadas, elevando a probabilidade de atingiremos, até 2100, o período mais quente dos últimos 11 mil anos. As consequências podem ser catastróficas. Segundo o princípio da precaução é melhor prevenir do que remediar no futuro. As futuras gerações e a biodiversidade não vão perdoar os erros e o egoísmo das gerações atuais.

Referências:
The Guardian. Large rise in CO2 emissions sounds climate change alarm, 08/03/2013
http://www.guardian.co.uk/environment/2013/mar/08/hawaii-climate-change-second-greatest-annual-rise-emissions
Joe Romm. Bombshell: Recent Warming Is ‘Amazing And Atypical’ And Poised To Destroy Stable Climate That Enabled Civilization, 8/03/2013
http://thinkprogress.org/climate/2013/03/08/1691411/bombshell-recent-warming-is-amazing-and-atypical-and-poised-to-destroy-stable-climate-that-made-civilization-possible/?mobile=nc
350.org
http://350.org/en/mission

Aumento da longevidade, eutanásia e maus tratos aos idosos

Por séculos o ser humano busca o elixir da juventude. Mas só nos últimos 200 anos a esperança de vida da humanidade vem crescendo de maneiro consistente. A esperança de vida média do mundo estava por volta de 30 anos em 1900. Em 1950 chegou a 47 anos e atingiu 68 anos em 2010. Foi um ganho de 28 anos na esperança de vida em 110 anos. Ou seja, houve em média, um ganho de um ano na esperança de vida a cada 3 anos no calendário. Ou seja, entre 1900 e 2010 houve um ganho de 3,4 anos na esperança de vida a cada década.

Porém, os ganhos na esperança de vida ocorreram devido à diminuição da mortalidade infantil e ao aumeno da longevidade devido à redução da mortalidade em idades adultas. Os ganhos de mortaliade infantil tendem a ser cada vez menores, pois as taxas já estão baixas na maior parte dos países de renda média e alta. Nestes países, os ganhos na esperança de vida só podem ocorrer predominantemente nas idades mais avançadas. As apostas são na evolução da medicina.

Estudo publicado por cientistas dos Estados Unidos na revista Nature Cell Biology, em 2013, sugere que uma proteína originalmente associada à divisão celular pode estender a longevidade em mamíferos. Durante a divisão de uma célula, o material genético compactado sob a forma de cromossomos precisa ser duplicado e distribuído em partes iguais entre as duas células que estão sendo geradas. Para que a distribuição dos cromossomos ocorra sem erros, os mamíferos desenvolveram um mecanismo de vigilância, chamado de ‘checkpoint mitótico’. BubR1 é um dos componentes desse ponto de checagem e ajuda a orquestrar a separação dos cromossomos durante a mitose. A partir destes estudos, levantou-se a hipótese de que a ausência de BubR1 poderia contribuir para o envelhecimento biológico. Desta forma, o estudo sugere que a alta presença de BubR1 protege contra o câncer, atenua a deterioração relacionada com a idade de tecidos específicos e prolonga a vida, muito provavelmente por atenuar a instabilidade cromossômica.

Esta foi a lógica que prevaleceu durante os séculos XIX e XX, pois o desenvolvimento econômico e os avanços médicos garantiram uma grande redução da mortalidade infantil e um grande aumento da esperança de vida. O aumento da longevidade das pessoas é fundamental para o aumento da produtividade econômica, pois o aumento da experiência e o retorno dos níveis mais elevados de educação só acontecem com a elevação do tempo de vida dedicado ao trabalho e ao avanço social.

Porém, os avanços da longevidade no século XXI tem ocorrido em idades muito avançadas, por exemplo, acima de 80 anos. São avanços em uma população já aposentada e que não vai se traduzir necessariamente em retornos sociais. O aumento do custo dos tratamentos de saúde da população idosa já tem se traduzido em situações constrangedoras.

Em janeiro de 2013 o ministro das finanças do Japão, Taro Aso, disse que: “os idosos deveriam morrer mais cedo, para reduzir os custos que o Estado têm para que cuidar deles”. Evidentemente, depois da repercussão negativa, teve que pedir desculpas.

No Brasil, ganhou grande repercussão o caso da médica Virginia Soares, que foi presa e acusada de homicídio qualificado enquanto trabalhava na UTI do Hospital Evangélico de Curitiba. A ordem era esvaziar os leitos da UTI e acelerar a morte dos pacientes. Parece que este caso está associado com a obtenção de lucro em hospitais que funcionam com máquinas geradoras de receitas financeiras e não de cuidado dos pacientes.

Além deste caso, existem diversas matérias divulgadas na mídia mostrando casos de violência contra os idosos por parte de filhos e de cuidadores. Sem falar, da falta de boas instituições de permanência de longo prazo para os idosos. O número de domicílios coletivos para idosos é muito pequeno no Brasil.

Evidentemente, existem casos de pacientes crônicos em que se justifica o desligamento dos aparelhos e a adoção da eutanásia. Mas isto precisa ser bem regulamentado e discutido na sociedade e nas famílias, sendo uma questão delicada na relação entre as gerações.

Todavia, o envelhecimento populacional e o aumento da razão de dependência de idosos coloca a questão de como cuidar das velhas gerações e de como lidar com os impactos econômicos de uma população cada vez mais idosa, mas fora das atividades econômicas mais produtivas.

O fato concreto é que os ganhos da esperança de vida estão diminuindo e o custo social do envelhecimento populacional está aumentando. O futuro pode estar apontando para uma estagnação da esperança de vida e para uma redução do crescimento econômico e até mesmo da qualidade de vida em uma sociedade com dificuldades de incrementar a produtividade do trabalho.

 

A população da Alemanha em 2100

A população da atual Alemanha (Oriental e Ocidental) era de 68,4 milhões de habitantes em 1950 (enquanto havia 52 milhões de brasileiros) e chegou ao seu pico máximo de 82,54 milhões em 2005. Portanto, teve um pequeno crescimento depois da derrota na Segunda Guerra Mundial e iniciou uma fase de decrescimento a partir de 2005, pois em 2010 a população alemã caiu ligeiramente para 82,3 milhões de habitantes. A divisão de população da ONU estima, para o ano de 2050, uma população de 84 milhões na hipótese alta, de 74,8 milhões na hipótese média e de 66,2 milhões na hipótese baixa. Para o final do século as hipóteses são: 108,6 milhões de habitantes, na hipótese alta, de 70,4 milhões, na média, e somente 43 milhões na hipótese baixa. Ou seja, a Alemanha pode ter uma população em 2100 bem menor do que aquela que possuia em 1950.

A densidade demográfica da Alemanha era de 192 habitantes por km2, em 1950, passou para 231 hab/km2 em 2010 e deve cair para 197 hab/km2, na projeção média para 2100.

O declínio da população alemã decorre das baixas taxas de fecundidade total (TFT). Durante a Segunda Guerra, o nazismo  incentivou o aumento da fecundidade por meio da sigla “KKK”: Kinder, Küche, Kirche (crianças, cozinha, igreja). Mas depois da derrota alemã, o tamanho das famílias caiu e as mulheres já apresentavam uma média de somente 2,2 filhos no quinquênio 1950-55. Vinte anos depois a fecundidade já estava abaixo do nível de reposição e continuou caindo até o limite mínimo de 1,3 filho por mulher no quinquênio 1990-95. No quinquênio 2005-10 a TFT alemã estava em 1,4 filho por mulher. A divisão de população da ONU acredita que as taxas de fecundidade vão voltar a aumentar até atingir o nível de reposição (2,1 filhos por mulher) no final do atual século. Mas mesmo com as taxas de fecundidade voltando a subir, a população vai continuar caindo, porém, pode cair mais ou menos dependendo da recuperação do número de filhos das famílias. O número de nascimentos caiu de 1,1 milhão em 1950 para 690 mil em 2010.

A Alemanha, juntamente com o Japão, foi um dos países que apresentaram uma das maiores taxas de crescimento econômico e social após 1950, aproveitando de forma exemplar a fase propícia da estrutura etária que, em geral, fornece um bônus demográfico, quando há investimentos corretos em educação, saúde e mercado de trabalho. Mas também passou por um rápido processo de envelhecimento, pois a idade mediana da população estava em 35 anos em 1950, passou para 44 anos em 2010 e deve chegar a 50 anos em 2050, um recorde histórico de baixa, pois nunca houve tão poucos nascimentos anuais.

A Alemanha tinha uma taxa de mortalidade infantil de 51 mortes de crianças antes de completar um ano de idade por mil nascimentos, no quinquênio 1950-55 e conseguiu fazer um feito histórico com a redução para 3,7 mortes para cada mil nascimentos, uma das mais baixas do mundo. Para o quinquênio 2045-50 estima-se uma taxa de 2,5 por mil. Esta espetacular queda da mortalidade infantil teve papel fundamental para tornar a esperança de vida da população alelmã uma das maiores do mundo. No quinquênio 1950-55 os moradores da alemanhã viviam em média 67,5 anos e atingiram uma esperança de vida de 79,8 anos no quinquênio 2005-10.

Segundo o relatório Planeta Vivo de 2012, da WWF, a população alemã tinha uma pegada ecológica de 4,57 hectares globais (gha) em 2008, para uma biocapacidade de somente 1,95 gha. Isto quer dizer que o país do Portão de Brandeburgo tem um déficit ambiental de cerca de 150%.

Neste sentido, uma diminuição da população alemã no século XXI pode ser muito positivo para a redução do déficit ambiental do país. Mas apenas a diminuição do número de ambitantes não resolve o problema da pegada ecológica. O país tem feito um esforço muito grande para mudar a matriz energética para fontes limpas e renováveis. A Alemanha, que é a base econômica da União Europeia, pode dar um bom exemplo se conseguir liderar o caminho para uma economia de baixo carbono.

 

A hipocrisia do extremo, ou o extremo da hipocrisia? O caso da CDHM

Toda civilização traz em si o germe (“agente causador de; causa, origem”)(1) da sua própria destruição. Não seria diferente com a “civilização brasileira”. Algumas civilizações, principalmente as antigas, duravam alguns séculos para ruir. Não é o caso da “brasileira”, que caminha a passos largos para um final nem um pouco feliz.

Até pouco tempo, ainda tentava interpretar o momento atual da sociedade com base no I Ching, quando fala do “Ponto de Mutação”:

Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força… O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano” (2)

A redemocratização do país; uma nova constituição; a assunção de que as até então chamadas, ofensivamente, “minorias” nada mais eram que cidadãos que poderiam exercer seus direitos e cumprir suas obrigações em igualdade com a “maioria”; e tantas outras transformações havidas a partir do final do século passado e início deste, levava a crer que estávamos a caminho do nosso ponto de mutação, do ponto em que haveríamos de descartar definitivamente o velho; que a luz poderosa tornar-se-ia permanente; e, principalmente, que seríamos uma sociedade a passar por tudo isso sem dano.

Ledo engano. Decepcionante engano!

Ver o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), escolhido para presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias apenas mostra o quão longe ainda estamos do ponto de mutação. O quão fraca era a luz que ressurgia. Tão fraca que as trevas do fundamentalismo religioso retoma seu lugar. Tão fraca que a homofobia e o racismo, que pensávamos – esses sim – banidos, retomam seus lugares. Há movimento, mas gerado pela força e não natural, como prediz o I Ching. O velho retoma seu lugar.

Não há como harmonizar essas medidas. O dano começará a ser feito em pouco tempo. Como dizia meu falecido padrinho para minha falecida madrinha: “pobre humanidade, Zulminha, pobre humanidade!”.

Que o pastor-deputado tenha eleitores é natural e saudável em uma democracia. Que ainda existam pessoas racistas, homofóbicas, fundamentalistas, é parte da evolução da “civilização”. Esperava-se que ao atingir o tal ponto de mutação a questão estaria resolvida, pela natural e evolutiva transformação dessas pessoas.

Mas outra coisa bastante distante é seus pares – em total desrespeito com seus eleitores – terem escolhido a escuridão para presidir uma comissão encarregada de trazer luz para a cidadania.

Infelizmente sequer posso chamar isso de hipocrisia, pois ultrapassa qualquer limite imaginável. Mesmo porque, jamais imaginaríamos que as trevas retornassem sobre nós.

(1) Houaiss

(2) Conforme consta no livro “O Ponto de Mutação”, de Fritjof Capra

Mulher Celta ou Mulher Ficção?

Diz um texto desconhecido e que tenho dúvida quanto a sua veracidade, denominado Código de Honra da Mulher Celta: “(…) Jamais permitas que o teu coração sofra em nome do amor. Amar é um ato de felicidade, por quê sofrer? Jamais permitas que teus olhos derramem lágrimas por alguém que nunca te fará sorrir. (…) Jamais permitas que o teu tempo seja desperdiçado com alguém que nunca terá tempo para ti. (…) Jamais permitas que paixões desenfreadas te transportem de um mundo real para outro que nunca existiu. E, sobretudo, jamais permitas que tu mesma percas a dignidade de ser mulher”.

Não quero no Dia Internacional da Mulher, dedicar um backing vocal, ser diva da dor feminina ou “vaticanizar” homenagens ilusórias, mas duvido que se exista esse tal Código de Honra da Sociedade Celta, ele consiga ocupar primeira posição no New York Times, principalmente, no entendimento do que é ser mulher nos dias atuais.

Segundo os clássicos gregos e romanos, as mulheres celtas não se desfaziam em lágrimas quando as crises chegavam. Penso que essas mulheres não tinham que pagar as contas todos os meses, não tinham que suportam o dia enfadonho de criar solitariamente os filhos ou mesmo se manterem magras para assinarem um contrato cheio de regras para o Miss Universo.  Não tinham, talvez, que fraudar o bilhete do desespero da crise de pânico noturna ou mesmo invejar as silhuetas do BBB.

Para Philip Freeman (2006), as mulheres da Gália possuíam igualdade ou mesmo superioridade em relação aos homens, independente de períodos de paz ou de guerra. Não duvido que naquele período, o cansaço do ônibus, as fofocas da vizinha, a inveja da cunhada, a indireta de roubo do chefe ou a certidão negativa vencida da receita federal não a levassem diretamente do barraco ao botequim.

Isso significa que não havia poder terapêutico para se escrever uma tese científica, bastava apenas procriar homens que nem mesmo precisariam aprender a escrever. Aliás, muito menos manter segredo dos vestígios da enxaqueca, antecipar a secagem do único uniforme escolar do filho ou corrigir silenciosamente o jeans do lado errado quando o outro esquece até as datas comemorativas frente ao videogame. Talvez, não precisasse desculpar os eternos “não me lembro” ou não cometer exuberâncias no desejo do outro para sexo a cada turno. Não precisavam nem entender de mulher melancia ou dieta da sopa.

Em um universo inteiro de possibilidades feministas, se remetidas às mulheres gregas e romanas, as mães, esposas e filhas dos celtas refutavam de uma posição impar de glória e responsabilidade. Há sutilezas que reforçam como era fácil ser uma mulher celta, seja pelo cartão de crédito que não levava a perda do sono ou pela prestação da casa que não conduzia ao mosteiro do parcelamento vitalício.

Penso que não tinham que ter sabedoria emocional para comentários sarcásticos da sogra insana ou mesmo ter que refazer a vida após o terceiro divórcio ou traição após 20 anos de casamento.Não precisavam tomar emprestada a renúncia da TPM no domingo em meio ao Faustão. Não precisavam se fingir de mosca morta quando os pseudos amigos ironizassem a sua fala.

Na sociedade celta, as mulheres se casavam cedo e não existiam ninfas, lobas, coroas e até infiéis casadas, dispostas a seduzir o parceiro alheio. E, se houvesse essas mulheres solteiras não eram lindas, turbinadas com silicone, malhadas, analisadas by Freud e Jung, viajadas, com emprego estável e, algumas delas, investidoras da bolsa. Não havia modelo recente da Louis Vitton.

Não acho que a mulher celta teria uma sobrevida nos dias atuais, mesmo se fossem as grandes rainhas históricas (Boudicca e Cartimandua), bem como as mitológicas (Maedbh e Rhiannon),  pois se naquele tempo era possível atestar a supremacia política e social da mulher entre os celtas, hoje a mulher não tem direito à repescagem, pois a lei da oferta e procura não permite a menor cobrança do seu papel  e a substituta da mesa vizinha do trabalho dá conta  da rotina, seja doméstica ou sexual. Aliás, sexo frágil perdeu espaço para sexo Cinquenta Tons de Cinza.

Por outro lado, as mulheres celtas como Fedelm e Niamh apresentam sua força como sacerdotisas. Talvez eu pense racionalmente, mas a segunda chance não vem mais escrita nas estrelas do tarô, pois hoje o homem  não suporta a intuição feminina, principalmente, quando se descobre a mentira do dia do futebol ou do não retorno da ligação. Olhar para o relento lembrará a pressão e a pedida da saída à noite desengana a paciência de um amor fora da realidade. Paixão incondicional virou sinônimo de porta-retrato afetivo.

Outro dia li um artigo do psicólogo James MacKillop, um dos maiores conhecedores da cultura celta, que contemplava a seguinte mensagem: “As deusas celtas são o retrato fiel da complexidade humana tangida pela imortalidade”. Em seus escritos, existe a tríplice da deusa na referência de Macha, Badb e Morrighan, divindades que espelham, concomitantemente, fertilidade e soberania.

Essa tese acima me permite mais uma vez desassociar as sutis diferenças em relação às mulheres celtas à medida que clinicas de fertilidade desorganizam o tapete vermelho da fama feminina, sem martini e azeitona, sobrando apenas Red Bull e Absolut nas baladas ao som do sertanejo universitário.

Outros autores destacam, ainda, que os direitos das mulheres celtas marcaram,  principalmente,  as leis irlandesas e, destacam que a união de um casal poderia ocorrer de diversas formas, inclusive, a mulher podendo exercitar a bigamia.Nunca conseguiríamos essa moleza, nem com leis, pois já existe seleção natural na espécie masculina.

Todavia o ponto maior da cultura estava na beleza das mulheres celtas, pelo ar elegante, roupas e adereços, joias preciosas, que a título de exemplo lembra o mito da Rainha Maedbh, em que “jamais teria se deitado com um homem sem que houvesse outro a esperá-la na sombra”. Talvez, hoje seria sinônimo de efemeridade e distração felina que estraçalha a vida com a distância dos versos de Vinicius: “que seja infinito enquanto dure”.

Pensando na mais fiel definição da mulher, me pego indagando que tantas metáforas para o dia da mulher levam a tese de  que a mulher deveria nascer pra ser valente como Joana d’Arc, crescer para ser bela como Marilyn Monroe, viver para ganhar um Nobel da Paz como Madre Teresa de Calcutá, estudar para ser feminista como Maria Montessori, escrever para ingressar na Academia Brasileira de Letras como Raquel de Queirós  e morrer para ser  imortal como Evita Perón.

E parodiando  Simone de Beauvoir:  “Se a mulher foi, muitas vezes, comparada à água, é entre outros motivos porque é o espelho em que o Narciso macho se contempla; debruça-se sobre ela de boa ou de má-fé. Mas o que, em todo caso, ele lhe pede é que seja fora dele tudo o que não pode apreender em si, pois a interioridade do existente não passa de nada e, para se atingir, ele precisa projetar-se em um objeto. A mulher é para ele a suprema recompensa porque é sob uma forma exterior que ele pode possuir, em sua carne, sua própria apoteose”.