UMA VISÃO DE MUNDO, APENAS ISSO!

 

Derrubamos uma árvore aqui, plantamos outra acolá e zeramos a equação da natureza. Lidar com a natureza é simples assim!
 
Nem tão simples assim, porém, é lidar com gente repleta de interesses escusos. O prefeito de Porto Alegre já deu mostras suficientes de que o interesse privado está acima do interesse da população. E nisso há transparência. Mas não no caso das árvores!
 
O atual prefeito entregou o Largo Glênio Peres para a Coca Cola. Lá colocou um chafariz patrocinado. E lá colocou o boneco da Copa, outro símbolo patrocinado.
 
 
Há quem confunda – por conta da mídia – ter o futebol, público, com ser res publica, coisa pública e, portanto, bancado e alardeado pelo governo.
Vistos e analisados os autos da questão; ponderados os prós e contras, resta-me apenas uma questão, velha e em forma de chavão: a visão de mundo.
 
Os romanos impuseram a sua visão de mundo até que os cristãos os fizeram ver o quanto estavam errados: a dominação não deveria se dar pela força dos exércitos, mas pela força da fé.
 
Os cristãos impuseram a sua visão de mundo até que a razão os fez ver o quanto estavam errados: a dominação não deveria se dar pela força da fé, mas pela força da razão!
 
Resultado? Romanos, cristãos e donos da razão convivem sem harmonia até hoje. Acompanhados de perto por chineses, crentes em geral e loucos de todo gênero.
 
Romanos desenvolveram o Direito que ainda hoje usamos; cristãos aplicam-no, adaptado, no tribunal do céu, onde os darwinianos e os loucos de todo gênero são barrados.
 
No fundo, razão assiste àquele macaco do filme 2001, o que descobriu que poderia usar um osso contra tudo e contra todos. E assim regredimos aos tempos das cavernas: as autoridades de Porto Alegre levantam o osso contra tudo e contra quase todos.
 
E, como não poderia deixar de ser, conta com o apoio dos macacos mais fracos (os que pensam usar de certa razão, a Justiça) para fazer valer a sua visão de mundo.
 
E apelam para o raso argumento de que foram eleitos por ampla maioria da população. Mas pergunto: sabia essa maioria, ao tempo da campanha, que fazia parte dos planos do prefeito vender parte de Porto Alegre para a iniciativa privada?
 
Alguém que votou na atual configuração do governo de Porto Alegre, de sã consciência, concorda não com a derrubada de árvores, mas com o “progresso” acima de qualquer coisa?
 
Seria arrogância, da minha parte, afirmar que pouquíssimos teriam votado se soubessem disso?
 
Escusos já eram os interesses ao tempo da eleição.
 
Alguém sabia, por exemplo, que a duplicação da Avenida Tronco prevê a derrubada de mais de 1500 árvores? (aqui)
 
Por um mundo sem macacos e seus ossos.
 
Uma visão de mundo, apenas isso.

 

UM DIREITO NEM TÃO FUNDAMENTAL ASSIM

Assistimos, e com raras exceções levantamos a voz para reclamar, a um movimento típico de guerrilha: pipocam, aqui e acolá, decisões judiciais que simplesmente põem por terra o inciso IX do Art. 5º da Constituição Federal. O artigo que diz ser um direito fundamental a livre “expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença”.

Sob o pretexto de que opiniões ferem a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas (inciso X), o Poder Judiciário invariavelmente tem dado ganho de causa a esses últimos. Uma perigosa situação.

O campo oposto, dos que não podem mais se manifestar livremente e nosso – os que em breve teremos nosso direito fundamental solapado – trava uma luta com a arma errada (e tem sido a única utilizada): insiste em chamar tudo isso de censura, quando não é. 

É algo bem pior que censura: é a formação de uma jurisprudência que terminará por impedir o direito de quem se vê processado, de usar o artigo 5º como defesa. É a ponderação dos direitos fundamentais pendendo, rapidamente, para o lado mais forte, o lado financeira e economicamente capaz de sustentar suas causas.

Não é por menos que a maioria dessas causas são patrocinadas pela mídia ou por empresas que são “livremente expostas” no seu comportamento diante dos consumidores.

O Poder Judiciário mostra apenas que segue firme como bastião do patrimonialismo, característica da nossa sociedade que tantos lutam para mudar. Os casos são inúmeros, envolvem até ministro do STF.

Temos que parar de bradar contra a censura e voltar a voz e as letras contra a guerrilha das ações judiciais, antes que virem súmula vinculante no STF. Se isso acontecer, teremos perdido uma guerra sem sequer ter entrado nela. 

E muitos de nós já teremos caído, com a boca selada para sempre.

A Comissão da Mentira!

O PIG comete o mais sério dos seus pecados.
 
Que tenha partido e defenda interesses é justo e democrático. Que seja o porta-voz de uma direita que quer fazer o Brasil retroceder e entregá-lo de volta para uns poucos, vá lá, é justo e democrático. Há, no entanto,  uma séria e preocupante confusão que o PIG propositadamente anda fazendo por aí: uma coisa é o golpe ter sido dado, como dizem, para afastar o “perigo comunista” (como se isso fosse o único motivo para o golpe), o que, por si só, já é uma barbaridade, outra é negar os crimes cometidos pela ditadura, muitos dos quais já reconhecidos como reais e não produtos de mentes vingativas, como o PIG sói divulgar.
 
Propagar quem se esconde na negativa dos crimes cometidos não tem nada a ver com ideologia, tem a ver com tirar da sociedade o que de mais precioso uma sociedade tem: aprender e crescer com os próprios erros.  Ao fim e ao cabo, destruir a sociedade.
 
E mais, tira dos jovens que um dia comandarão o país a oportunidade de não cometerem novamente erros já cometidos.
 
É muito grave o que a mídia PIG vem fazendo ao não ser isenta, como se espera que a Comissão da Verdade seja, e, ao invés de apenas noticiar os fatos apurados, torna-se, ela mesmo, uma Comissão da Mentira.

A influência da Bauhaus e das formas da arte abstrata na música do Kraftwerk e do New Order.

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A precisão das linhas, a pujança das formas e a sobriedade das cores, impressionam quando observamos obras como o edifício Seagram em Nova York, do arquiteto Mies van der Rohe. O mesmo impacto se tem quando se vê também na geometria de Gropius ou nas formas centradas de Piet Mondrian. Há ali, um certo ordenamento, um sentido de confiança, uma tranqüilidade interna externando-se, absorvendo-nos aos poucos,organicamente como os quadros de Kandinsky. Quando eu observo essas obras, tenho imediatamente os sentidos tomados por uma “essencialidade”. Um dos grandes legados da escola Bauhaus é a ideia de que a arte não é apenas condicionada a estética, mas que pode servir a humanidade sendo útil, sendo funcional.[1] Uma coisa bela pode ser inútil, assim como uma coisa feia pode ser útil, sendo que esse paradoxo se dá de acordo com que você espera da arte, de como você aplica a arte em sua vida. Embora críticos de peso, como o jornalista Tom Wolfe reduzam a importância da Bauhaus, sem dúvida sua influência é acentuada sobre diversas áreas do conhecimento, da psicanálise á medicina, da física á música.[2] É notável a influência da escola alemã na obra dos também alemães do Kraftwerk e dos ingleses do New Order, sobretudo no que diz respeito a forma, função e padrões. Musicalmente falando, o Kraftwerk utiliza repetição de sons e combinações sobrepostas, criando texturas e ambientações geométricas. A mesma estrutura vista por exemplo em obras do pintor Lyonel Feininger.[3] As combinações rítmicas do Kraftwerk são perfeitas, criando harmonia e sentido, como nas obras de Gropius e outros arquitetos da Bauhaus. A música eletrônica recria justamente esse conceito de ordenação, na música “The Man Machine”, nota-se os encaixes perfeitos, sente-se as engrenagens internas funcionarem perfeitamente como num motor de automóvel. É tudo muito calculado, há simetria, como nas obras de Paul Klee, o equilíbrio em diálogo com a forma, o controle a serviço do olhar, e no caso do grupo alemão, o controle e o equilíbrio que se tem em Klee para o espírito através dos olhos, se dá através dos ouvidos.[4]

 

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Embora o Kraftwerk utilize moderna aparelhagem eletrônica e insira em seus shows performances com robôs e telões, sua música, que é o que nos chega mais cotidianamente, é minimalista. Utilizam-se de poucas estruturas num processo de multiplicação, são pontos de força, são sonoridades que criam sonoridades, no mesmo processo pictórico de Kandinsky, onde o mais importante não é a elaboração processual, mas sim o resultado último da obra, e em ambos os casos – como nas obras funcionalistas da Bauhaus – o que se destaca é justamente o quanto nos toca. A mesma estrutura é vista também no New Order, embora mais pop do que o Kraftwerk, mas há nas canções do grupo inglês a mesma retórica musical, a mesma estrutura geometral, a mesma repetição de acordes. Alguns críticos enxergam no Kraftwerk um grande ponto de renovação na música pop mundial. Sua influência começou a se acentuar após a decadência do punk no final dos anos setenta. E parte dessa influência é vista na obra do New Order, e alguns momentos mais intensa do que em outros, mas nunca deixando de ser notada.[5] O som do New Order é mais orgânico, mas próximo de Kandinsky, enquanto que o Kraftwerk é mais próximo de Mondrian. As texturas usadas pelo New Order são menos densas, mas segue a receita kraftwerkiana de “variações de minutos nos temas percussivos repetitivos”.[6] Outro ponto importante na obra do New Order é a objetividade. Embora não seja crua como a música punk e nem tão elaborada como o rock progressivo, a música feita pelo New Order cumpre de forma excelente o que se propõe fazer: entreter. O New Order não é um grupo político ou de crítica social, é um grupo dançante, e dentro dessa concepção de música, ignoram a complexidade das letras, enquanto que o som é privilegiado, multiplicando variações, como em “Sooner Than You Think”.[7] Já o Kraftwerk, além de crítico é irônico. Ridicularizam a sociedade tecnológica e caótica, principalmente sobre o medo nuclear instalado a partir da difusão das armas nucleares no pós-guerra. E assim como o NewOrder, também o fazem com exímia competência o que se propõem. 

 

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Ambos seguem o mesmo princípio das obras de Walter Gropious, uma interpretação da nova civilização metropolitana e tecnológica do século XX.[8] Cada um em um ponto do século XX, cada um cumprindo sua função, cada um fazendo a leitura exata do momento histórico ao qual está inserido, e da Bauhaus para os eletrônicos a lição, “a economia dos meios e a funcionalidade da arte”.[9]A mesma coesão das linhas e sobriedade, o mesmo colorido de Klee eu vejo e sinto no New Order. Canções ordenadas, máquinas trabalhando em linha de produção, seqüências idênticas, mas ordenadas, insistentemente ordenadas. Já o Kraftwerk é mais escuro, mais condensado, como a “Igreja de Domburg” de Mondrian. As mesmas linhas presentes nos trabalhos de Albers por exemplo, vê-se na dureza da música do Kraftwerk. Linhas de sonoridades estáticas – é só comparar “The Man Machine” com “Face Up” do New Order, as batidas mesmo secas do New Order são mais quentes do que som do Kraftwerk. Lembram imensos icebergs sonoros, prédios de gelo e de forma, como os edifícios de Marcel Breuer, quadrados, formas concretas e coesas, estruturadas como se o mundo fosse governado pelas formas figurativas dos sonhos de Kandinsky. A influência da Bauhaus continua viva mesmo após noventa anos desde sua criação. O funcionalismo se adéqua bem aos dias de hoje, essa ideia é de suma importância hoje, uma vez que o mundo atual é mais pautado pela aparência do que pela essência e funcionalidade. A indústria da moda é um exemplo disso, termos como elegância e beleza a serviço de quê? Kraftwerk e New Order são provas da adequação e da interação entre vários tipos de arte. A obra dessas duas grandes bandas, fazem com que os críticos da música eletrônica enxerguem que há musicalidade e expressividade nessa forma de música. A música nos remete as emoções, e também há evocações visuais, e essa conexão pode ser vista e ouvida num puro exercício de alimento para o espírito.

 

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[1] GOMBRICH, E.H. A história da Arte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1981. p.445.

[2] GONÇALVES FILHO, Antonio. O eterno fascínio da velha escola. O Estado de São Paulo, São Paulo, 17 maio. 2009. Caderno de Cultura. p. D1.

[3] GOMBRICH, E.H. Idem. p. 462.

[4] Idem.

[5] GORDIRRO, André. Robôs emocionantes. Show Bizz. São Paulo, n. 11, p. 70, novembro. 1998.

[6] DALTON, Stephen. Kraftwerk – The Man-machine. In: DIMERY, Robert. 1001 Discos para ouvir antes de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2007. p. 397.

[7] UEHARA, Helena. Joy Division/ New Order. São Paulo: Landy Editora, 2006. p. 104.

[8] PEVSNER, Nikolaus. Os pioneiros do desenho moderno. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p.212.

[9] GONÇALVES FILHO, Antonio. Idem. p. D2.

 

 

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Notas das imagens.

 

1. Edifício Seagram [Nova York – EUA] – Mies Van Der Rohe, .

2. Flora And The Sand – Paul Klee, 1927.

3. Church Near Domburg – Piet Mondrian, 1910-1911.

4. Yachten – Lyonel Feininger, 1929.

5. Composition IV – Wassily Kandinsky, 1911.

6. Gropius House [Massachusetts – EUA] – Walter Gropius, 1938.

7. Armstrong Rubber Co. Headquarters [Connecticut – EUA] – Marcel Breuer, 1968-1970.

 

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Kraftwerk – The Man Machine [Emd Int´l, 1978].

New Order – Low Life [Qwest/ WEA, 1985].