Portas fechadas, e uma janela aberta. Pode chegar!

 (Trata-se de um pedido de desculpas vestido de agradecimento)

 
 
Nasci do avesso de um desejo, de uma reprimenda. Nunca soube esperar nada de bom que minha cabeça pudesse realizar. Aos quatro anos, aprendi a ler, sozinho. Aos oito, comecei a desenhar e roteirizar ridículas e curtas estórias de fantasia. As palavras eram soltas dentro de casa, mas escondidas. A escrita sempre veio antes. E eu nunca fui capaz de imaginar até onde ela me levaria. Cheguei a um lugar-momento, sem dúvidas, estranho.

Quando comecei o blog, era pura pretensão. Descabimento. Como eu vivia aqui sozinho, deixei de me preocupar com o que pensariam sobre a ficção que eu tentava, com muito sacrifício – Nunca foi fácil escrever, pra mim -, elaborar neste espaço.

Mais e mais pessoas chegaram. Entravam no espaço mirrado que construí e diziam: “Eu leio o que você escreve. Recomendo. Meu escritor”. Abraçavam-me sem saber. E eu nunca sabia o que ofertar em troca. Talvez mais contos. Mais autoficção, talvez. Mais pessoas chegavam.

Leitores especiais me procuravam. Alguns disseram “Você salvou meu dia”, ou “Chorei litros ao ler o conto tal”. Eu só conseguia me desesperar. Você idolatra o céu claro que cega suas sombras; agora imagina que esse céu cheio de esperança resolve despencar sobre você: algo imensamente lindo que vai te destruir.
Foi assim comigo.

Um crítico chegou e disse: “Os diamantes brilham solitários no vazio da escuridão bruta dos carvões. É preciso lembrar que ‘Geração Zero Zero’ é uma coletânea organizada por uma pessoa que admira os escritores nela publicados. Nelson de Oliveira disse em uma entrevista que escolheu 21 escritores e não seus contos, encomendados após a seleção, o que mostra sua indiferença pelo leitor, pela receptividade crítica e editorial, um demasiado interesse em realçar a panelinha que deu origem à coletânea. Também é preciso lembrar que uma geração não é construída com 21 escritores. Também que eu sou um leitor crítico e que por isso não aceito que se encerre num único livro a ideia de “melhores ficcionistas brasileiros” deste novo século. Carol Bensimon, Eduardo Baszczyn, Raimundo Neto, Marcia Tiburi e Rafael Bán Jacobsen são alguns dos nomes que poderiam estar neste livro, mas que não estão porque sua literatura não se resume a uma seleção, não se carimba pelo gosto daquele ou deste — felizmente, por enquanto.” http://acervo.revistabula.com/posts/livros/geracao-zero-a-esquerda
 
Foi como ganhar na loteria. Salvou um pedaço da minha esperança.”

Um escritor “famoso” fez uma proposta de um romance escrito a quatro mãos. Emprestou-me conselhos.

Amigos de bom gosto literário disseram “Publica!” ou “Quero publicar você!”.

Uma moça com dores de morte e vida espalhadas pelo corpo escreveu um e-mail em que explicava “Seus escritos têm me salvado aqui no hospital.”

O que eu dizia?

Não sei escrever como vocês dizem.
Não sei pra onde vou nessas linhas.
Não tenho esse talento todo.
Que bom que gostaram, mas penso muito na palavra “farsa” quando penso em mim como escritor.
Meus escritos não possuem a consistência que vejo por aí, nos grandes escritores contemporâneos, aqueles que fazem diferença.
É que são tantos que se nominam escritores que um medo de me tornar um pedaço ridículo morde as pontas do meu bom-senso.

E eles, os leitores, como assim se denominam, continuaram conversando comigo, por e-mail, whatsapp, encontros corridos em Cafés teresinenses.

Sempre precisei dos outros para produzir sentido. Embora a solidão fosse um exercício diário, foi no contato com as pessoas que me entendi. Penso que só é possível produzir sentidos (escrevendo-os também) se houver o outro que te abra para descoberta.

Então, pensei: Deve haver algo que é uma grande verdade em tudo que eles dizem.

E entendi que eu era aquela verdade. Que não seria tão pretensioso assim aceitar que os significados expressos nas minhas linhas mal articuladas fizessem sentido para algumas poucas pessoas.

Sei fazer muitas outras coisas, mesmo que porcamente: separar a gema da clara, dedicar-me à hipertrofia muscular, pesquisar na internet a vida de atores pornô estrangeiros, escolher e indicar excelente livros aos outros, escolher os caras errados para me relacionar, prestar apoio discreto a quem precisa de um exagero de cuidados, morar sozinho e deixar o apartamento viver livre em sua imundice natural. 

Mas é a literatura que enche minha vida de sentido. Os livros. A escrita me castiga e me salva. O céu que despenca depois de um dia admirável de sol e azul amarrados em salvação.

Vou praticar a minha escrita. Vou perder-me nesse mistério capaz de ser compreendido. Um concurso literário, contos, um romance. Algumas amigas me ajudarão com a seleção das obras. Outra amiga querida me ajudará a montar um portfólio caprichado. Não serão mais rabiscos. Sempre foi um compromisso, então por que vou fugir disso?

Precisarei fechar o blog. Tudo que aqui está precisará soar como inédito nesses meus projetos. Continuarei apenas com as crônicas d’OPensador Selvagem (algumas retirarei do ar). Tenho visto alguns trechos, que escrevi e publiquei no facebook e twitter , reproduzidos por algumas pessoas sem menção de referência. 

Por isso a medida extrema. Necessária, sim.

Voltarei.

Tentarei confiar no que vocês disseram durante esses anos todos.

E só me resta agradecer e agradecer e agradecer.

Não pretendo fazer sentido para ninguém. Mas quero existir escrito. Um dia, um dia.

Fui chamado pela escrita e não pretendo desperdiçar quaisquer novas oportunidades de produzir novos sentidos.

(Não que eu vá me tornar um escritor. Não mesmo.)
 
Um Mundo Novo Aos Corações Corajosos. (E que ninguém use essa “marca” como se ela não fosse minha.


 
“Don DeLillo disse uma vez: ‘Ninguém escreve um primeiro livro. Simplesmente acontece.’ Em um certo ponto, você acha que a impressora, sabe, todas essas páginas estão saindo. Você pensa: ” Oh meu Deus, não acredito que fiz isso!” Eu acredito nisso. Talvez seja um pouco diferente se você começar mais tarde e se você estiver incubando uma ideia há muito tempo. Mas  a maioria das pessoas, quando escrevem o primeiro livro,percebem, em algum momento, que têm um livro em mãos. (…) E cada pessoa tem seu próprio senso de beleza. E de uma forma ou outra, escrever se resume em perguntar para si mesmo, repetidamente: isso é belo, ou não é? Algo belo pode significar algo doloroso. Não quer dizer que seja algo feliz e bonito. Pode ser feio, pode ser engraçado, pode ser sério, trágico, cômico. Eu acho que o belo significa, de certo modo, o que é autêntico e excepcional para você.”

 

Jonathan Safran Foer, em entrevista ao Louisiana Channel: http://channel.louisiana.dk/
 

“Se você convencer  o leitor, com seu romance, de que uma só pessoa é um mundo que não existia antes, e que nunca vai existir de novo, e que essa única vida tem um valor infinito, eu acho que isso é por si só muito. (…)“Para mim é lindo abrir o livro de um escritor que amo. De repente, todo o barulho da vida, os papos-furados, e a mesquinhes, e todas as coisas que não são essenciais, desaparecem rapidamente. (…) Tudo o que não importa se vai, num instante. E então você entra num mundo onde tudo é importante, da maneira mais crítica possível. Eu descobri que queria viver ali. Eu queria construir uma vida ali, e acho que foi por isso que tentei me tornar uma escritora.” Nicole Krauss, em entrevista ao Louisiana Channel: http://channel.louisiana.dk/

 
 
 
 

Algo mudou ou já estava escrito?

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Você acredita em destino? Realmente é de se pensar. Mas com quem nunca aconteceu um fato incrível a ponto de pensar em obra do destino? Pensar em encontrar alguém e essa pessoa aparecer, ou como uma lei de Murphy ao contrário, onde tudo dá certo como se as coisas fossem alinhadas previamente para acontecer exatamente assim. “Something Changed” é uma canção que trata justamente disso. Jarvis Cocker é não apenas um excelente cantor, mas também é um ótimo letrista, e um cara de muito bom gosto musical. O Pulp – banda do qual é egresso, é uma daquelas bandas que entram pelo coração, justamente porque as músicas tocam esse músculo diretamente. Sonoramente é um encanto. Como eu já disse em outro artigo – “Fronteiras Emocionais”, para uma música emocionar ela precisa ter alguns elementos: refrão lindo, instrumental pomposo e uma grande voz – e é claro, há quem discorde [ainda bem]. E “Something Changed” possui todos esses elementos. Voltando a parte instrumental, o que posso dizer é que é irretocável. Guitarras suaves, acompanhamento também tranqüilo e cordas, no próprio clipe da canção, vê-se ao fundo uma pequena orquestra de violinos que dão esse tom encantador para a canção. Jarvis canta sussurrando, é elegante, têm a convicção britânica de saber o que está fazendo, e esse ar blasé torna a canção ainda melhor. 

Isso é o destino: você tenta fugir, tenta escapar, mas se é isso que tem que acontecer, vai acontecer. É só lembrarmos da história bíblica de Jonas e a Baleia. Ele não quis ir pregar em Nínive, mas foi engolido pelo grande peixe e cuspido nessa cidade. Ou até da postura dos deuses gregos: interferentes na realidade humana a todo instante, fazendo das pessoas marionetes. É claro que é uma metáfora. E parece coisa de filme, lembra até “Escrito nas Estrelas” ou aquelas histórias de natal americanas, onde um cara esbarra em uma garota, derruba suas coisas no chão e ao ajudá-la eles se entreolham e ali surge um amor. Jarvis deixa isso claro ao dizer que não sabia o nome dela e nem como ela era, sua aparência, sua voz. Um amor platônico que tornou-se real e isso talvez faça o protagonista da canção se questionar sobre como tudo isso aconteceu. Foi como uma premonição, a canção foi escrita duas horas antes de tudo acontecer – do encontro, e também evidencia que num espaço curto de tempo tudo pode mudar. Você está no ponto, vem seu ônibus, ele está cheio. Você decide pegá-lo mesmo assim. Um minuto depois você olha para trás e chega outro vazio. 

 

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Um minuto pode fazer a diferença, assim como num dia onde uma chuva acabou de cessar, no mesmo ponto de ônibus, você espera o próximo ônibus e um carro passa na poça e molha todo mundo. O autor explora bem isso: “eu poderia ter ficado em casa”, e elucubra várias situações, ter ido dormir ou ido ao cinema, e ela também poderia ter saído com os amigos, ou ido para casa, ou ter feito qualquer outra coisa. Mas porque foram ao mesmo local? Aí ele diz: “a vida poderia ter sido bem diferente, mas algo mudou”. Quem mudou esse algo? O autor aponta para Deus, que ele chama de “alguém acima de nós” que nos move como peças de xadrez. Essa é a concepção grega de divindade, deuses passionais, atuando diretamente na realidade e no destino das pessoas. O Deus judaico-cristão não é assim, nos deu o livre-arbítrio, mas isso não significa que ele não possa interceder, dar uma força para que as coisas se acertem. “Direcionando atos de amor”, essa é a interferência que o narrado se refere, como que movendo as pessoas e as colocando nas direções certas nas horas certas. A garota então diz a ele para parar de pensar nessas questões complexas, aparentemente sem respostas, e sutilmente pede um beijo como celebração, como marca do real. Pois ele ainda pensa que é um sonho, ela quer desfrutar o momento, “celebrar hoje”. O hoje. É a filosofia do Carpe Diem, pois viver o momento presente é importante porque tudo pode mudar, é o eterno devir dos pré-socráticos ou a concepção presenteísta de Schopenhauer. A vida é tão boa assim, sem sabermos o que vai acontecer. Por isso projetamos, por isso existem os sonhos.

O protagonista diz: “Quando acordamos de manhã nós não temos meios de saber que em questão de horas mudaremos o jeito que estávamos vivendo”, ou seja, é viver um dia após o outro, sem muitos apegos, meio que a deriva da sorte e do destino. Uma rua diferente que você entra, um caminho diferente pode fazer toda diferença na seqüência de eventos que virá no futuro das próximas horas. Prazos são perdidos, encontros são perdidos e a interrogação fatalmente ficará na mente, e se eu tivesse feito assim, ou desse jeito[Sartre diz que somos livres e por isso responsáveis por nossas escolhas e conseqüências]. E se eles não tivesse se encontrado o que teria acontecido? Ele se questiona: “onde eu estaria agora”, “se a gente nunca tivesse se encontrado?”; “estaria cantando essa questão para outra pessoa?” Ele só não pensou que poderia não ter encontrado alguém. Às vezes o destino reserva a solidão para algumas pessoas, mas será que elas não poderiam interferir em suas próprias vidas? Essas são questões que todos nós fazemos em algum ponto da vida. Outros acreditam que se aconteceu era para ter acontecido, ou que se não aconteceu de um jeito vai acontecer de outro. Uns dizem ainda sobre não era (ou era) a hora de acontecer. A grande verdade é que devemos aproveitar as chances que nos aparecem na vida. É importante dizer sobre o que se sente para as pessoas enquanto há tempo para isso, pois pode ser tarde demais. Quando falamos em “destino” em “futuro”, jogamos tudo isso para muitos anos na frente, mas às vezes nós é que não conseguimos decifrar as pistas que a vida nos dá, do momento, da hora, do minuto certo, quando aquela pessoa especial estava em sua frente, mas hoje ela se mudou e você nunca mais teve a chance de dizer. Mas quem decide? Será que há alguém por trás de tudo isso, fazendo as coisas funcionarem? Não sei, só sei que as coisas mudam, a sorte muda, e a bola pode bater na trave e entrar ou correr pela linha e caprichosamente sair. Deus joga dados, perguntou Einstein para Niels Bohr, ele disse: não sei.

 

 

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[Islands, 1995]

 

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Algo Mudou. 

(Jarvis Cocker) 

 

Eu escrevi esta canção duas horas antes da gente se encontrar.

Eu não sabia o seu nome ou como você se parecia.

Oh, eu poderia ter ficado em casa e ido para cama.

Ou eu poderia ter saído para ver um filme.

Você poderia ter mudado de idéia e visto seus amigos.

A Vida poderia ter sido bem diferente, mas então

algo mudou.

Você acredita que existe Alguém acima de nós?

E que Ele tem um cronograma direcionando atos de amor?

Por que eu escrevi uma canção como esta um dia?

Por que você tocou minha mão e disse suavemente:

“Pare de fazer perguntas que não importam

só nos dê um beijo para celebrar hoje,

algo mudou”.

Quando acordamos de manhã nós não temos meios de saber

que em questão de horas mudaremos o jeito que estávamos vivendo.

Onde eu estaria agora, onde eu estaria agora

se a gente nunca tivesse se encontrado?

Eu estaria cantando esta canção para outra pessoa?

Eu não sei, mas como você disse,

algo mudou.

 
 

http://www.youtube.com/watch?v=uvpEOFy8oQg