Eles são apenas corporativistas defendendo os seus!

 altNo dia 09 de julho o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul publicou apedido acusando a Presidenta Dilma de fazer demagogia com o programa Mais Médicos, visando apenas a reeleição. Elencaram alguns tópicos e, dentre eles, aparece o que eles realmente querem:

“2. […] Falta uma carreira de estado a semelhança de juízes e promotores para interiorizá-los.

No dia 3, durante o programa Conversas Cruzadas, da TVCOM, o presidente já havia se manifestado nesse sentido:

“Argollo lembrou que entregou em mãos ao governador Tarso Genro proposta de projeto de lei criando de carreira de Estado para médicos há mais de um ano, semelhante à carreira de juiz e promotor.“A proposta do SIMERS é que o ingresso seja por concurso público; com plano de cargos, carreira e vencimentos; e salário digno. “O juiz não escolhe para onde vai, ele é mandado para uma cidade pequena e sabe disso quando faz o concurso. O mesmo ocorrerá com o médico, que será remetido para um município distante. A gente tem dito, não é preciso inventar a roda. Não precisa trazer banana do Paraguai para fazer merenda escolar”, afirmou. “

Não quero crer que o presidente do Simers não saiba o que é uma carreira de estado. Em todos os casos, vamos recordar:

“As Carreiras Típicas de Estado são aquelas que exercem atribuições relacionadas à expressão do Poder Estatal, não possuindo, portanto, correspondência no setor privado. Integram o núcleo estratégico do Estado, requerendo, por isso, maior capacitação e responsabilidade. Estão previstas no artigo 247 da Constituição Federal.

“As carreiras consideradas típicas de Estado são as relacionadas às atividades de Fiscalização Agropecuária, Tributária e de Relação de Trabalho, Arrecadação, Finanças e Controle, Gestão Pública, Segurança Pública, Diplomacia, Advocacia Pública, Defensoria Pública, Regulação, Política Monetária, Planejamento e Orçamento Federal, Magistratura e o Ministério Público.”

Partindo da hipótese do absurdo, de que o exercício da medicina, por via estatal, pode ser considerada uma carreira relacionada “à expressão do Poder Estatal”, por que não poderão poderão, também, as carreiras do magistério, dos profissionais do meio ambiente, dos psicólogos, dos enfermeiros… E, quiçá, até a minha, a dos administradores?

Por que não querem aceitar os R$10.000,00 oferecidos? Por algumas razões muito simples. A primeira delas é que, querendo a equiparação com magistrados e promotores, ganhariam bem mais do que isso.

A segunda, que não tem aparecido, são as chamadas PRERROGATIVAS: inamovibilidade, vitaliciedade, irredutibilidade de vencimentos e perda do cargo apenas por sentença judicial transitada em julgado.

A experiência que conheço, como servidor público, é que médicos concursados acabam por conseguir redução de horário para poderem continuar com seus consultórios e atendimentos em hospitais.

Eis o ponto: na verdade, aproveitam-se do momento para alçar bocas às tetas do Estado.

Razão assiste ao sindicato, convenhamos. Afinal, é para isso que eles existem, para serem corporativistas e defenderem os seus!

(fontes: página do simers e do Fonacate)

“PODE, O PT?” Considerações sobre um texto do Governador Tarso Genro.

 O governador Tarso Genro, em artigo publicado hoje, 13/07/13, no blog “rsurgente” (http://rsurgente.wordpress.com/2013/07/13/para-o-gigante-ja-acordado-caminhar-melhor/) faz algumas considerações acerca de questões de ordem programática, como possível composição para o próximo governo (“Hoje seria necessário, portanto – para que o próximo governo não seja um governo de crise – desenhar as alianças a partir de um programa claro, não confeccionar as alianças para daí resolver o que fazer”).

Termina o texto perguntando: “Pode, o PT?”

Estivesse eu na pele do governador e outra teria sido a minha pergunta: o que é, afinal, o PT?

A pergunta me parece pertinente em vista do que escrevi em 27/12/2012: “Quando uma ideologia perde os jovens, quem perde é a ideologia” (http://ochato.opsblog.org/2012/12/27/quando-uma-ideologia-perde-os-jovens-quem-perde-e-a-ideologia/), nem antes, inclusive, de que alguém pudesse imaginar que o Junho2013 fosse acontecer.

O próprio governador aponta, mesmo que brevemente, a questão ao dizer que “As mobilizações ocorrem quando têm bases na vida diária das pessoas e no seu anseio efetivo por mudanças”. 

Quem mantém a existência do PT é o governo com suas ações. E mesmo que se diga que as ações de governo são aquelas previstas no programa do PT, o povo apenas percebe as mudanças ocorridas e, por isso, segue votando, no governo.

Se a oposição conservadora e neoliberal resolver abraçar a causa social, o governo atual perde. Com ou sem PT. Se o governo se dá ao direito de ser pragmático na governabilidade, o povo também. Qualquer um que mantenha a atual situação do país, ganha as eleições de 2014.

E com mais facilidade, ainda, se pensarmos na ponta oposta: os abandonados pela ideologia, os jovens e os não tão jovens que estão nas ruas protestando. A “base da vida diária” dessas pessoas tem sido uma total indiferenciação entre o que seja uma ideologia de esquerda e uma de direita.

O Partido dos Trabalhadores nasceu maior que a classe dos trabalhadores. Também nasceu como partido da vanguarda intelectual, partido dos estudantes, partido de todos quantos, na base da vida diária, enxergava nele um norte ideológico, o possível mundo novo melhor.

Havia amor, porque havia identificação. Quem hoje se identifica? Não os que estão na rua. 

O governador fala em “Formar as alianças com um programa capaz de dar um novo impulso ao iniciado em 2002: fundos específicos e vinculados para a reforma agrária; para a mobilidade e o transporte coletivo urbano; para a saúde pública e a educação, com os percentuais do PIB respectivos – crescendo ano a ano – para cada setor, vislumbrando o ponto ótimo à médio prazo. Colocar, assim, explicitamente em lugar dependente, os demais compromissos orçamentários e inverter, desta forma, a hierarquia orçamentária atual, que tem na dívida e não no povo, o seu fator determinante”.

Com o devido respeito, mas um típico discurso que qualquer um pode fazer. É um discurso programático e não ideológico. E é pela falta de uma ideologia que as pessoas vêm abandonando o PT.

Se perguntarmos a quem está nas ruas o que significa ser de esquerda, garanto que um mínimo, dentre os milhões, saberia explicar. 

A esquerda se perdeu. O PT parece estar se perdendo da esquerda. O mundo está perdendo a esquerda. Torna-se imperioso o que diz o governador: “É preciso, para que isso ocorra, que o PT como partido majoritário da esquerda, volte a ser um partido-sujeito, de governo, de luta e de movimento.”

Que volte a ter uma ideologia clara para todos, não apenas para os seus membros. A juventude está perdida e pragmática? Quando o maior partido de esquerda se perde e se torna pragmático, não se pode esperar outra coisa!

Pode, o PT? No andar da carruagem, temo em aceitar e dizer que não, não poderá o PT!

Por que ainda somos um país subdesenvolvido?

Quando era criança, ouvia dizer que o Brasil era um país do Terceiro Mundo. As crianças de hoje talvez não aprendam isso na escola, então vale recordar que o mundo era dividido em 3 grandes “mundos”: o primeiro, formado pelos países capitalistas desenvolvidos; o segundo, pelos países comunistas que integravam – por bem ou por mal – a também famosa Cortina de Ferro. E havia o resto. E nós éramos o resto.  Os subdesenvolvidos e os totalmente pobres, longe de qualquer tipo de desenvolvimento. Seja lá qual fosse o critério.
 
Mais tarde, já um jovem “jovem”, vi o Brasil ser chamado de “país em desenvolvimento”. Foi um tempo de orgulho. Afinal, deixamos de ser subdesenvolvidos e passamos a ter esperança, pois “em desenvolvimento” nos passa a ideia de que um dia seremos desenvolvidos.
 
Agora, um jovem “senhor” (se me permitem a auto classificação), ouço dizer que o Brasil é um país “emergente”.
 
Afinal, o que será necessário fazer para que recebamos, em definitivo, o título de “país desenvolvido”, se já somos a sexta maior economia do mundo?
 
Falta uma coisa tão simples, mas que parece ser de difícil aplicação. Falta que sejamos donos do Brasil. Mas como ser dono de algo que não existe? E aí entendo porque até hoje ainda somos um país subdesenvolvido.
 
Insistimos muito em usar a expressão “sociedade”, como se fossemos uma. Não somos. Sociedade, por definição, implica na existência de um conjunto mínimo de objetivos comuns entre as pessoas que (com)partilham o espaço e o tempo. O que chamamos de Brasil não passa de um amontoado de grupos, cada qual defendendo os seus objetivos. Objetivos esses, via de regra, antagônicos.
 
Traduzindo para o português castiço: nunca na história tivemos uma agenda comum.
 
Falei em amontoado de grupos, mas na realidade existem apenas dois: os donos e o resto. E o que nos torna subdesenvolvidos é que, em meio ao resto, existe uma porção, que mesmo sabendo que nunca chegará a ser dona, insiste em comportar-se como tal. E uma das características mais importantes desse comportamento, é que alardeiam, aos quatro cantos, que não existem mais classes e que, portanto, não pode existir luta de classes no Brasil. Bobinhos. Perguntem aos donos se eles não se consideram uma classe.
 
O que vemos hoje nada mais é do que aquilo que sempre aconteceu na história: quem deveria ter uma agenda comum, o resto, segue dividido. E agora mais ainda, depois que os últimos dois governos deram início a uma política de “engrossar” essa camada do resto, que também pretende ser “dona”. Os donos seguem fazendo o que sempre fizeram: jogando o resto contra o resto.
 
Quem está nas ruas é a tal da classe média. E o resto do resto! Alguma dúvida? A expressão “estudantes” traduz tudo: foram estudantes os “cara pintada” do Collor; são estudantes que reclamam da passagem do transporte.
 
E vejam que coincidência: é aos estudantes que está sendo oferecido o passe livre! Ao resto do resto, os donos oferecem cacetes e gás lacrimogêneo. São gangues, dizem. Vileiros e favelados que se aproveitam da ocasião para furtar tênis e roupas de grife (!). Ainda não chegaram nos supermercados. Sinal que, ao menos, fome parece não existir nas vilas e favelas.
 
Que retorno a sexta maior economia do mundo dá para os seus cidadãos? Não poderá jamais dar algum, enquanto os donos forem os donos dos serviços públicos a serem oferecidos ao resto. Os serviços públicos brasileiros são de péssima qualidade? São! E por uma única razão: o serviço público brasileiro tem dono.  Mas a tal classe média do resto prefere falar mal dos servidores, esquecendo que grande parte dessa classe é formada por servidores públicos. Sequer nisso há uma agenda comum.
 
Enquanto a classe média brasileira não entender e aceitar que é o resto, seguiremos sendo um “país” subdesenvolvido!

Brasil, um país hediondo?

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Segundo o Houaiss, hediondo é um adjetivo que significa: “que apresenta deformidade; que causa horror; repulsivo, horrível”; pode, por derivação, adquirir um sentido figurado: “que provoca reação de grande indignação moral; ignóbil, pavoroso, repulsivo”; pode, ainda, representar algo “que é sórdido, depravado, imundo”.
 
Na esteira das ações que estão sendo tomadas de afogadilho para satisfazer o clamor popular, o Senado acaba de aprovar projeto de lei que torna a corrupção um crime hediondo.
 
Foram definidos, com tal, os crimes de corrupção ativa e passiva, concussão (obter vantagem indevida em razão da função exercida), peculato (funcionário público que se apropria de dinheiro ou bens públicos ou particulares em razão do cargo) e excesso de exação (funcionário público que cobra indevidamente impostos ou serviços oferecidos gratuitamente pelo Estado).
 
Mas a coisa não parou por aí. Segundo as notícias, o relator do projeto, Senador Álvaro Dias acatou emenda do senador José Sarney (PMDB-AP) para incluir homicídio simples na categoria de crimes hediondos. A alegação do Senador é de que crimes praticados contra a vida estão entre os mais graves, não podendo ficar de fora.
 
Já não estava 100% convencido da hediondez da corrupção e correlatos, mesmo se tomada a acepção derivada de que esses crimes provocam uma grande indignação moral. Tenho que já existem leis suficientes para punir esses crimes. Torná-los hediondos não terá o condão de afastar as duas questões mais graves:
 
(1) sob os pretextos constitucionais da “ampla defesa” e do “devido processo legal”, o sistema processual brasileiro é cheio de falhas, de modo que, hediondo ou não, os corruptos, hediondos ou não, continuarão livres;
 
(2) o sistema de controles administrativos é absolutamente inoperante contra quem pretenda exercer a corrupção, seja ela ativa ou passiva.
 
Qualificar esses crimes como hediondos não significa mudar a lei, não significa mudar o sistema processual e, menos ainda, mudar o sistema de controle administrativo.
 
Precisamos, mais que soluções de conjuntura – aquelas ditadas pelo horror que nos causa a morte de mais de 200 pessoas em um incêndio, ou pela ânsia de ver políticos presos -, precisamos de soluções estruturais.
 
Precisamos reformar o ESTADO brasileiro. A estrutura do nosso país. E estrutura política, a estrutura tributária, a estrutura social, a estrutura administrativa.
 
Pena que somos um país onde até homicídio simples será crime hediondo. Não temos sequer estrutura para dar conta desse crime, mesmo ele não sendo hediondo, imagina na copa!

Meus 20 centavos sobre o discurso da Dilma

Critiquei a todos quantos, segundos após o pronunciamento da Presidenta Dilma, e sequer sem se dar o devido tempo para análise, saíram criticando o discurso. Gente que adora bravatas e que é do contra tão somente por achar bonito ser do contra.
 
“Hay gobierno? Soy contra!”
 
Claro que recebi críticas por isso. Defendi, diversas vezes, que a Presidenta não deveria se manifestar. E havia duas razões para pensar assim: a primeira, é que grande parte da pauta de reivindicações dos manifestantes era local; a segunda, é que as manifestações também eram localizadas em poucas grandes cidades.
 
Traduzo. Aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre (onde tudo começou) e, depois, em São Paulo.
 
Mas também havia quem não quisesse que permanecesse assim. Ardilosamente, como sói acontecer nesses momentos, a extrema direita conservadora, que só se manifesta pela mídia reacionária, deixou claro que tomaria para si o movimento.
 
Editoriais em jornais incitaram a violência policial, sabendo bem que isso seria o estopim para a ampliação do movimento. Jabor, em uma participação memorável, joga a gota que faltava.
 
Pronto. O que era local transforma-se, como queriam, em nacional. O que era passagem de ônibus vira um sem número de cartazes vazios de conteúdo. Bem ao gosto de quem pretende ver o povo nas ruas, sabendo que povo nas ruas sempre foi a grande oportunidade para todo tipo de desclassificado esconder o rosto e praticar vandalismo.
 
O passo seguinte foi tão claro, que assusta ver gente que não percebeu a manobra. Dali pra frente, a mídia começa a elogiar o movimento como “pacífico” e a dizer que os atos de vandalismo eram praticados por uma minoria. #sóquenão
 
Ao mesmo tempo em que mostravam um discurso, a prática era outra. As imagens continuavam mostrando apenas o “patrimônio público” sendo depredado.  Qualquer criança sabe que essa é uma arma poderosa: apelar para o patrimônio público. Seja de forma direta (pelo discurso), ou indireta (pela imagem), esse tipo de apelo tem o condão de unir as pessoas em torno daquilo que de mais instável o ser humano tem: suas emoções.
 
E nada melhor, para eles, do que pessoas comandadas pela emoção. A técnica foi muito utilizada em meados do século passado. Qualquer semelhança com “somos apartidários” não terá sido mera coincidência. Qualquer semelhança com “Somos Brasil” não terá sido mera coincidência. Nacionalismo e emoção andam de mãos dadas.
 
E é justamente nesse momento que se faz presente a voz de comando para trazer a razão de volta ao cenário nacional. Se feito antes, seria prato cheio para a mídia fascista, dos “não queremos partidos”, aplicarem o golpe. Uma intervenção da Presidenta fora de hora seria propagandeada como algo inaceitável em uma democracia, diriam. Era um passo para o “impeachment” que, por sinal, estava expresso em alguns cartazes. Se feito depois, seria acusada – mais do que já estava sendo – de inanição, de não cumprir com seus deveres de proteger a nação contra vândalos e, quiçá, contra o comunismo (!).
 
A Presidenta fez o discurso necessário. E somente o necessário. Começou por tomar o cuidado (muito criticado, por sinal) de usar roupas de cores neutras. Entendeu que não era o momento para seu tradicional traje vermelho. Inteligentemente, buscou neutralizar emoções.
 
Dilma mostrou que não estava ali para defender o programa de governo do PT. Não havia porque prestar contas do que tenha ou não realizado. O momento exigia uma postura de aproximação, de dizer exatamente o que ela disse:
 
“Como presidenta, eu tenho a obrigação tanto de ouvir a voz das ruas, como dialogar com todos os segmentos, mas tudo dentro dos primados da lei e da ordem, indispensáveis para a democracia. […] Eu quero repetir que o meu governo está ouvindo as vozes democráticas que pedem mudança. Eu quero dizer a vocês que foram pacificamente às ruas: eu estou ouvindo vocês!”
 
Ouvir, dialogar e ordem. Nenhuma solução poderá ser encontrada sem a disposição para usar essas três palavras.
 
Apesar da insistência havida em dizer que o discurso foi vazio, a Presidenta abordou os temas mais importantes:
 
– 100% dos royalties do petróleo para a Educação.
– Plano Nacional de Mobilidade Urbana.
– Reforma Política.
– Médicos de fora.
– Participação popular.
– Abertura ao diálogo.
– Combate à corrupção.
 
E o que significa “abordar”? Significa mostrar disposição para enfrentar os problemas. Mesmo sabendo o quanto alguns deles são combatidos por corporações que não querem mudanças, como os royalties do petróleo para a educação, como a vinda de médicos estrangeiros para atendimento de populações que não são atendidas, como a reforma política.
 
Não são palavras vazias, são ações sendo tomadas há já algum tempo. Mas é a ela que acusam, quando, na realidade, deveriam acusar os outros poderes por muitas dessas propostas ainda não terem se concretizado.
 
O maior problema que temos, no entanto, não foi abordado: um povo que está acostumado a jogar as suas responsabilidades para o governo. Existem políticos corruptos? A culpa é do governo, nunca nossa, que elegemos os políticos. Os corruptos não estão presos? A culpa é do governo e não do Poder Judiciário.
 
“Há governo? Problema dele!”

PROPOSIÇÃO: “Há mais coisas entre o Céu e a Terra…

… do que ousa sonha nossa vã filosofia.“

COROLÁRIO 1: De onde menos se espera, é de onde não sai nada mesmo!

COROLÁRIO 2: “Apenas duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. E eu não tenho certeza se isso é verdadeiro para o primeiro.” (Einstein)

DEMONSTRAÇÃO: “Isto é evidente!” (Espinosa). Basta ver o tal projeto de lei que circula no Congresso Nacional, apelidado de “Bolsa Estupro”.

ESCOLIO 1: Que vivamos em tempos difíceis, em termos de assentamento de uma identidade nacional, faz parte da evolução. Nada mais é do que uma natural exacerbação de uma continentalidade forjada pela força. E, claro, por circunstâncias que hoje fogem ao nosso alcance, posto que ocorridas fora dos discursos da maioria dos historiadores.

Não vi, confesso, de quem é a autoria do tal projeto. E justifico o que alguns poderiam chamar de “falha minha”, com o simples argumento de que não é o autor de uma obra que faz dela uma boa obra. Fora esse tipo de crítica unânime na humanidade, sequer Deus passaria no teste. Afinal, há os que, como eu, prescindem da existência de Deus. Logo, não há como qualificar uma obra produzida por quem não existe.

Não é o caso, nesse caso, da obra produzida por quem se qualifica como humano. Que haja autoria não é de espantar ao mais despreparado, socialmente falando, dos cidadãos. (assim deveria ser, ao menos).

ESCOLIO 2: Há uma diferença, talvez pequena para alguns (e para uma boa parcela, nenhuma diferença há), mas muito grande para quem se dá tempo para pensar, entre o exercício filosófico de ter e expressar ideias e o existir na realidade social e humana.

Sói acontecer – com mais frequência que a devida – no nosso ínfimo mundinho mental, que julguemos serem nossas ideias e convicções as mais adequadas para todos os nossos semelhantes.

Apesar de fenômeno natural e pertinente aos seres humanos, esse tipo de pensamento peca por várias razões. Cito algumas poucas, dentre tantas:

– o que impomos aos outros, via de regra, jamais pensamos será imposto a nós;

– se fui eleito representante de determinada parcela da população, estou livre do meu compromisso com a Nação. Devo obrigações apenas para aqueles que me elegeram;

– Estou livre para esquecer que apenas uma minoria me elegeu – frente a imensa maioria da população do país – e propor/votar leis que favoreçam apenas essa pequena minoria;

– Estou livre para esquecer que pertenço a um poder que é Nacional e que, portanto, deveria pensar em todos e não apenas nos meus eleitores…

E por aí vai… E vai longe!

ESCOLIO 3: Não serei eu a ter que ingressar com uma ação na Justiça por falta de pagamento da pensão!

Se assassinos confessos não vão para a cadeia – ou são soltos por falta de espaço -, alguém de sã consciência poderá me garantir que o estuprador que gerou meu filho vá por não pagar a pensão? Jamais haverá limites para o que a sociedade deverá pagar aos criminosos? Sim, pois ao teor do texto, não havendo quem pague, caberá ao Estado o pagamento!

ESCOLIO FINAL: Não há mais nesse país defesa dos direitos humanos. Há, sim, a defesa de uma campanha pela eliminação da dignidade humana!

Há quem tente sobrepor interesses e crenças pessoais ao que de mais caro temos: a dignidade humana.

E, no caso, a dignidade de quem homem algum jamais saberá o que significa: ter que carregar no ventre o fruto da violência.

Não a vida, como defendem, pois não haverá vida digna fruto da violência. Essa é a realidade que ninguém quer encarar: depois de nascido, representante algum, ou qualquer um que defenda essa vida, com palavras e bravatas, vai estar por perto pelos próximos oitenta ou mais anos para sustentá-la; para dar-lhe emprego; para dar-lhe condições de ultrapassar a condição de nascituro e viver!

Vou dormir com vergonha de pertencer a uma espécie que ainda produz gente que propõe esse tipo de “lei”.

Mas vou acordar com mais vergonha ainda por saber que vou continuar a conviver com gente que apoia esse tipo de ideia.

Jamais esperei viver esse tempo todo para ver isso!

 

DE CÍRCULOS E ESPIRAIS

Alguém já falou – e não recordo nesse momento quem foi – que governar é fazer escolhas.
 
Em termos de governos, só existem duas opções: ou se governa em um círculo vicioso ou em uma espiral virtuosa.
 
O mesmo vale para a forma como as pessoas encaram as ações dos governos: ou ficam no fácil plano – ocupado pelo círculo – da crítica rasa, ou procuram ascender na espiral e fazer uma análise mais profunda.
 
Claro que a mídia, interessada que é em que as pessoas não sejam capazes de ir além de uma manchete, instiga nas pessoas o raso “ser contra”.
O caso da realização da Copa do Mundo (e da consequente Copa das Confederações) no Brasil tem sido, usando da velha e batida expressão, paradigmático dessa oposição entre o pensar no plano do círculo e o pensar em espiral virtuosa, ascendente.
 
O pensamento raso é: há tanto por fazer em termos de saúde, de educação, de segurança e outras necessidades do povo, e os governos gastam bilhões na construção de estádios de futebol. Quantos leitos em hospitais poderiam ser disponibilizados com esse dinheiro, quantos hospitais, escolas e prisões poderiam ser construídos com esse dinheiro.
 
E por aí vai… Raso, extremamente raso.
 
Não seria de se exigir que as pessoas que pensam dessa forma tivessem um mínimo conhecimento de economia. Impossível, é claro, em um país onde até pessoas com nível superior de educação formal são consideradas como analfabetas funcionais (apenas 62% das pessoas com nível de escolaridade superior são considerados alfabetizados plenamente. (Veja aqui).
 
Admito que seja complicado explicar, para essas pessoas, a opção tomada pelos governos Lula e Dilma e o quanto eles diferem dos governos anteriores.
 
Há momentos no desenvolvimento do país. Houve, nos governos militares, o entendimento de que o Brasil necessitava de infraestrutura para crescer. Energia, estradas, telecomunicações e uma variedade de investimentos foram feitos para dar o necessário suporte ao desenvolvimento da indústria e, como consequência, do comércio e dos serviços.
 
Claro que tivemos erros estratégicos, como a tentativa de desenvolver a indústria de informática pelo fechamento do país. A intenção era boa, mas a execução foi péssima. Por sinal, um segundo momento no desenvolvimento veio quando o governo Fernando Collor “abriu a economia”. Posta a infraestrutura, era necessário confrontar nossa indústria com o mundo, dar-lhes competitividade e oportunidade para aperfeiçoar aqui que era feito sob a reserva de mercado e que mostra-se, a todos, de péssima qualidade.
 
Um terceiro momento, consequência direta dos dois anteriores, necessitava de uma urgente intervenção: a inflação. Verdadeiro monstro a atormentar a vida de todos. Décadas de investimento em infraestrutura e aprimoramento da indústria foi parar, literalmente, no o saco, no saco da ciranda financeira.
 
E viva FHC! Construída a infraestrutura, aperfeiçoada a indústria, controlada a inflação, estava pavimentada a estrada para os próximos passos. Mas só isso não bastava.
 
Vamos recordar que foi nos governos militares que se deu a reforma da educação e onde começou o desinvestimento nessa área. Os governos seguintes nada fizeram. E em outras a mesma situação. A isso damos o nome de escolha.
 
Dois problemas, no entanto, nunca foram tratados por todos esses governos. O desenvolvimento não era para todos. O bolo crescia mas, diferente do que pregava Delfim Neto, continuava a ser repartido entre os mesmos. Afinal, quem parte, reparte, fica com a melhor parte.
 
E assim como os presidentes anteriores puderam fazer suas escolhas, Lula fez a sua. E fez tão somente porque era o restava fazer: incluir os que até então nunca haviam se beneficiado de tudo quanto fora feito.
 
Mas incluir no quê? Incluir onde?
 
Seguir a falácia de fazer o bolo crescer? Já vimos que quem parte, reparte… Não podemos nos iludir que para tirar pessoas da miséria bastam um punhado de teorias econômicas e um balde cheio de boas intenções.
 
Há que fazer o bolo crescer? Sim. Mas antes há que dar parte desse bolo, do tamanho que estiver para quem nunca recebeu.
Mas basta tirar as pessoas da miséria? Se bastasse, razão teriam os que acusam os programas do governo de serem meramente assistencialistas (e, pior, eleitoreiros).
 
Havia a necessidade de algo muito mais premente: emprego.
 
Emprego significa economia se desenvolvendo. Mas de uma forma diferente das anteriores: é um desenvolvimento com inclusão.
 
Novamente os críticos rasos aparecem: miseráveis foram transformados em consumidores e, em futuro breve, em devedores inadimplentes!
Um dos primeiros efeitos resultantes de ter trabalho é o retorno da consciência da dignidade (antes inexistente, ou quase perdida). O segundo, sem dúvida, é colocar milhões de pessoas no mercado consumidor. Mas isso é positivo, embora as críticas feitas.
 
Esse é o objetivo da Copa: gerar trabalho, emprego e dignidade. E consumo, que gera demanda para as indústrias, que cria mais emprego, que gera mais dignidade… E, assim, coloca-se a espiral a ascender…  
 
Pessoas com emprego e dignidade exigem mais educação, saúde, segurança e, por terem renda, estão contribuindo para que o governo possa dar a eles mais educação, mais saúde e mais segurança… É a espiral rodando e subindo…
 
É tão básico que espanta ver pessoas “esclarecidas” fazendo as críticas que fazem. E, pelo geral, de pessoas que não perderam a sua fatia no bolo. Ao contrário, só lucram com isso.
 
Um próximo momento está a surgir e para ele o governo deve se preparar: acabadas as obras da Copa, o que fazer com os incluídos? O que fazer com o servente de obra que, depois de dois ou três anos trabalhando sustentou sua família?
 
Essa escolha é nossa!
 
Ou seguimos subindo na espiral virtuosa ou retornamos para o círculo vicioso.

UMA VISÃO DE MUNDO, APENAS ISSO!

 

Derrubamos uma árvore aqui, plantamos outra acolá e zeramos a equação da natureza. Lidar com a natureza é simples assim!
 
Nem tão simples assim, porém, é lidar com gente repleta de interesses escusos. O prefeito de Porto Alegre já deu mostras suficientes de que o interesse privado está acima do interesse da população. E nisso há transparência. Mas não no caso das árvores!
 
O atual prefeito entregou o Largo Glênio Peres para a Coca Cola. Lá colocou um chafariz patrocinado. E lá colocou o boneco da Copa, outro símbolo patrocinado.
 
 
Há quem confunda – por conta da mídia – ter o futebol, público, com ser res publica, coisa pública e, portanto, bancado e alardeado pelo governo.
Vistos e analisados os autos da questão; ponderados os prós e contras, resta-me apenas uma questão, velha e em forma de chavão: a visão de mundo.
 
Os romanos impuseram a sua visão de mundo até que os cristãos os fizeram ver o quanto estavam errados: a dominação não deveria se dar pela força dos exércitos, mas pela força da fé.
 
Os cristãos impuseram a sua visão de mundo até que a razão os fez ver o quanto estavam errados: a dominação não deveria se dar pela força da fé, mas pela força da razão!
 
Resultado? Romanos, cristãos e donos da razão convivem sem harmonia até hoje. Acompanhados de perto por chineses, crentes em geral e loucos de todo gênero.
 
Romanos desenvolveram o Direito que ainda hoje usamos; cristãos aplicam-no, adaptado, no tribunal do céu, onde os darwinianos e os loucos de todo gênero são barrados.
 
No fundo, razão assiste àquele macaco do filme 2001, o que descobriu que poderia usar um osso contra tudo e contra todos. E assim regredimos aos tempos das cavernas: as autoridades de Porto Alegre levantam o osso contra tudo e contra quase todos.
 
E, como não poderia deixar de ser, conta com o apoio dos macacos mais fracos (os que pensam usar de certa razão, a Justiça) para fazer valer a sua visão de mundo.
 
E apelam para o raso argumento de que foram eleitos por ampla maioria da população. Mas pergunto: sabia essa maioria, ao tempo da campanha, que fazia parte dos planos do prefeito vender parte de Porto Alegre para a iniciativa privada?
 
Alguém que votou na atual configuração do governo de Porto Alegre, de sã consciência, concorda não com a derrubada de árvores, mas com o “progresso” acima de qualquer coisa?
 
Seria arrogância, da minha parte, afirmar que pouquíssimos teriam votado se soubessem disso?
 
Escusos já eram os interesses ao tempo da eleição.
 
Alguém sabia, por exemplo, que a duplicação da Avenida Tronco prevê a derrubada de mais de 1500 árvores? (aqui)
 
Por um mundo sem macacos e seus ossos.
 
Uma visão de mundo, apenas isso.

 

UM DIREITO NEM TÃO FUNDAMENTAL ASSIM

Assistimos, e com raras exceções levantamos a voz para reclamar, a um movimento típico de guerrilha: pipocam, aqui e acolá, decisões judiciais que simplesmente põem por terra o inciso IX do Art. 5º da Constituição Federal. O artigo que diz ser um direito fundamental a livre “expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença”.

Sob o pretexto de que opiniões ferem a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas (inciso X), o Poder Judiciário invariavelmente tem dado ganho de causa a esses últimos. Uma perigosa situação.

O campo oposto, dos que não podem mais se manifestar livremente e nosso – os que em breve teremos nosso direito fundamental solapado – trava uma luta com a arma errada (e tem sido a única utilizada): insiste em chamar tudo isso de censura, quando não é. 

É algo bem pior que censura: é a formação de uma jurisprudência que terminará por impedir o direito de quem se vê processado, de usar o artigo 5º como defesa. É a ponderação dos direitos fundamentais pendendo, rapidamente, para o lado mais forte, o lado financeira e economicamente capaz de sustentar suas causas.

Não é por menos que a maioria dessas causas são patrocinadas pela mídia ou por empresas que são “livremente expostas” no seu comportamento diante dos consumidores.

O Poder Judiciário mostra apenas que segue firme como bastião do patrimonialismo, característica da nossa sociedade que tantos lutam para mudar. Os casos são inúmeros, envolvem até ministro do STF.

Temos que parar de bradar contra a censura e voltar a voz e as letras contra a guerrilha das ações judiciais, antes que virem súmula vinculante no STF. Se isso acontecer, teremos perdido uma guerra sem sequer ter entrado nela. 

E muitos de nós já teremos caído, com a boca selada para sempre.

A Comissão da Mentira!

O PIG comete o mais sério dos seus pecados.
 
Que tenha partido e defenda interesses é justo e democrático. Que seja o porta-voz de uma direita que quer fazer o Brasil retroceder e entregá-lo de volta para uns poucos, vá lá, é justo e democrático. Há, no entanto,  uma séria e preocupante confusão que o PIG propositadamente anda fazendo por aí: uma coisa é o golpe ter sido dado, como dizem, para afastar o “perigo comunista” (como se isso fosse o único motivo para o golpe), o que, por si só, já é uma barbaridade, outra é negar os crimes cometidos pela ditadura, muitos dos quais já reconhecidos como reais e não produtos de mentes vingativas, como o PIG sói divulgar.
 
Propagar quem se esconde na negativa dos crimes cometidos não tem nada a ver com ideologia, tem a ver com tirar da sociedade o que de mais precioso uma sociedade tem: aprender e crescer com os próprios erros.  Ao fim e ao cabo, destruir a sociedade.
 
E mais, tira dos jovens que um dia comandarão o país a oportunidade de não cometerem novamente erros já cometidos.
 
É muito grave o que a mídia PIG vem fazendo ao não ser isenta, como se espera que a Comissão da Verdade seja, e, ao invés de apenas noticiar os fatos apurados, torna-se, ela mesmo, uma Comissão da Mentira.