Algo mudou ou já estava escrito?

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Você acredita em destino? Realmente é de se pensar. Mas com quem nunca aconteceu um fato incrível a ponto de pensar em obra do destino? Pensar em encontrar alguém e essa pessoa aparecer, ou como uma lei de Murphy ao contrário, onde tudo dá certo como se as coisas fossem alinhadas previamente para acontecer exatamente assim. “Something Changed” é uma canção que trata justamente disso. Jarvis Cocker é não apenas um excelente cantor, mas também é um ótimo letrista, e um cara de muito bom gosto musical. O Pulp – banda do qual é egresso, é uma daquelas bandas que entram pelo coração, justamente porque as músicas tocam esse músculo diretamente. Sonoramente é um encanto. Como eu já disse em outro artigo – “Fronteiras Emocionais”, para uma música emocionar ela precisa ter alguns elementos: refrão lindo, instrumental pomposo e uma grande voz – e é claro, há quem discorde [ainda bem]. E “Something Changed” possui todos esses elementos. Voltando a parte instrumental, o que posso dizer é que é irretocável. Guitarras suaves, acompanhamento também tranqüilo e cordas, no próprio clipe da canção, vê-se ao fundo uma pequena orquestra de violinos que dão esse tom encantador para a canção. Jarvis canta sussurrando, é elegante, têm a convicção britânica de saber o que está fazendo, e esse ar blasé torna a canção ainda melhor. 

Isso é o destino: você tenta fugir, tenta escapar, mas se é isso que tem que acontecer, vai acontecer. É só lembrarmos da história bíblica de Jonas e a Baleia. Ele não quis ir pregar em Nínive, mas foi engolido pelo grande peixe e cuspido nessa cidade. Ou até da postura dos deuses gregos: interferentes na realidade humana a todo instante, fazendo das pessoas marionetes. É claro que é uma metáfora. E parece coisa de filme, lembra até “Escrito nas Estrelas” ou aquelas histórias de natal americanas, onde um cara esbarra em uma garota, derruba suas coisas no chão e ao ajudá-la eles se entreolham e ali surge um amor. Jarvis deixa isso claro ao dizer que não sabia o nome dela e nem como ela era, sua aparência, sua voz. Um amor platônico que tornou-se real e isso talvez faça o protagonista da canção se questionar sobre como tudo isso aconteceu. Foi como uma premonição, a canção foi escrita duas horas antes de tudo acontecer – do encontro, e também evidencia que num espaço curto de tempo tudo pode mudar. Você está no ponto, vem seu ônibus, ele está cheio. Você decide pegá-lo mesmo assim. Um minuto depois você olha para trás e chega outro vazio. 

 

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Um minuto pode fazer a diferença, assim como num dia onde uma chuva acabou de cessar, no mesmo ponto de ônibus, você espera o próximo ônibus e um carro passa na poça e molha todo mundo. O autor explora bem isso: “eu poderia ter ficado em casa”, e elucubra várias situações, ter ido dormir ou ido ao cinema, e ela também poderia ter saído com os amigos, ou ido para casa, ou ter feito qualquer outra coisa. Mas porque foram ao mesmo local? Aí ele diz: “a vida poderia ter sido bem diferente, mas algo mudou”. Quem mudou esse algo? O autor aponta para Deus, que ele chama de “alguém acima de nós” que nos move como peças de xadrez. Essa é a concepção grega de divindade, deuses passionais, atuando diretamente na realidade e no destino das pessoas. O Deus judaico-cristão não é assim, nos deu o livre-arbítrio, mas isso não significa que ele não possa interceder, dar uma força para que as coisas se acertem. “Direcionando atos de amor”, essa é a interferência que o narrado se refere, como que movendo as pessoas e as colocando nas direções certas nas horas certas. A garota então diz a ele para parar de pensar nessas questões complexas, aparentemente sem respostas, e sutilmente pede um beijo como celebração, como marca do real. Pois ele ainda pensa que é um sonho, ela quer desfrutar o momento, “celebrar hoje”. O hoje. É a filosofia do Carpe Diem, pois viver o momento presente é importante porque tudo pode mudar, é o eterno devir dos pré-socráticos ou a concepção presenteísta de Schopenhauer. A vida é tão boa assim, sem sabermos o que vai acontecer. Por isso projetamos, por isso existem os sonhos.

O protagonista diz: “Quando acordamos de manhã nós não temos meios de saber que em questão de horas mudaremos o jeito que estávamos vivendo”, ou seja, é viver um dia após o outro, sem muitos apegos, meio que a deriva da sorte e do destino. Uma rua diferente que você entra, um caminho diferente pode fazer toda diferença na seqüência de eventos que virá no futuro das próximas horas. Prazos são perdidos, encontros são perdidos e a interrogação fatalmente ficará na mente, e se eu tivesse feito assim, ou desse jeito[Sartre diz que somos livres e por isso responsáveis por nossas escolhas e conseqüências]. E se eles não tivesse se encontrado o que teria acontecido? Ele se questiona: “onde eu estaria agora”, “se a gente nunca tivesse se encontrado?”; “estaria cantando essa questão para outra pessoa?” Ele só não pensou que poderia não ter encontrado alguém. Às vezes o destino reserva a solidão para algumas pessoas, mas será que elas não poderiam interferir em suas próprias vidas? Essas são questões que todos nós fazemos em algum ponto da vida. Outros acreditam que se aconteceu era para ter acontecido, ou que se não aconteceu de um jeito vai acontecer de outro. Uns dizem ainda sobre não era (ou era) a hora de acontecer. A grande verdade é que devemos aproveitar as chances que nos aparecem na vida. É importante dizer sobre o que se sente para as pessoas enquanto há tempo para isso, pois pode ser tarde demais. Quando falamos em “destino” em “futuro”, jogamos tudo isso para muitos anos na frente, mas às vezes nós é que não conseguimos decifrar as pistas que a vida nos dá, do momento, da hora, do minuto certo, quando aquela pessoa especial estava em sua frente, mas hoje ela se mudou e você nunca mais teve a chance de dizer. Mas quem decide? Será que há alguém por trás de tudo isso, fazendo as coisas funcionarem? Não sei, só sei que as coisas mudam, a sorte muda, e a bola pode bater na trave e entrar ou correr pela linha e caprichosamente sair. Deus joga dados, perguntou Einstein para Niels Bohr, ele disse: não sei.

 

 

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[Islands, 1995]

 

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Algo Mudou. 

(Jarvis Cocker) 

 

Eu escrevi esta canção duas horas antes da gente se encontrar.

Eu não sabia o seu nome ou como você se parecia.

Oh, eu poderia ter ficado em casa e ido para cama.

Ou eu poderia ter saído para ver um filme.

Você poderia ter mudado de idéia e visto seus amigos.

A Vida poderia ter sido bem diferente, mas então

algo mudou.

Você acredita que existe Alguém acima de nós?

E que Ele tem um cronograma direcionando atos de amor?

Por que eu escrevi uma canção como esta um dia?

Por que você tocou minha mão e disse suavemente:

“Pare de fazer perguntas que não importam

só nos dê um beijo para celebrar hoje,

algo mudou”.

Quando acordamos de manhã nós não temos meios de saber

que em questão de horas mudaremos o jeito que estávamos vivendo.

Onde eu estaria agora, onde eu estaria agora

se a gente nunca tivesse se encontrado?

Eu estaria cantando esta canção para outra pessoa?

Eu não sei, mas como você disse,

algo mudou.

 
 

http://www.youtube.com/watch?v=uvpEOFy8oQg

 

 

Os ateus e o preconceito

Li na Zero Hora há uns dias, uma crônica da Martha Medeiros comentando a campanha da ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos contra o preconceito à Ateus. A campanha está circulando por ai, na traseira dos ônibus de algumas capitais, como Porto Alegre e Salvador. A iniciativa surge num contexto inédito, em que o Ministério Público ajuizou ação civil pública contra o apresentador José Luiz Datena, por ter dito algumas pérolas do tipo:

 “Ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades. Pois elas acham que são seu próprio Deus.”

 “É só perguntar para esses bandidos que cometem essas barbaridades pra ver que eles não acreditam em Deus.”

Como nós temos mais de mil ateus? Aposto que muitos desses estão ligando da cadeia.”


Merecido o processo, não é mesmo? É educativo coibir este tipo de manifestação pública, principalmente por atentar contra a verdade histórica. Todo mundo sabe que nada matou mais no mundo do que o “nome de Deus”. 

Mas voltando a campanha da ATEA. Ela não é fato isolado. Em Nova York, católicos e ateus estão se matando à olhos vistos, pelos outdoors da cidade. Enquanto a American Atheists espalha pelos quatro cantos a campanha “You know it´s a myth – This Season celebrate reason” (Você sabe que é um mito – Nesta temporada celebre a razão) a Catholic League contra-ataca em letras garrafais: “You know it´s real – this season celebrate jesus” (Você sabe que é real – nesta temporada celebre jesus).
 
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É tão novidade este tipo de manifestação, que confesso não ter um veredicto final para a coisa toda. Mas creio ser possível fazer alguns apontamentos.

Primeiramente, acredito que estas campanhas podem ter um efeito cultural bastante positivo. 2010 foi um ano inesquecível para os brasileiros em termos de religão e, principalmente, em termos de preconceito. Nos Estados Unidos, a mistura de religião com política é regra e atinge proporções assustadoras. Aí está o documentário “Jesus Camp” (clique aqui para fazer o download com legenda) para não me deixar mentir. No filme, vemos como funcionam os acampamentos evangélicos para crianças, basicamente escolas militares para a formação de quadros e eleitores do Partido Republicano. Coisa para deixar o Tea Party orgulhoso e confiante no futuro da América.

Mas, apesar de todo o potencial, acho que as campanhas pecam pelo enfoque, demasiado individual, das mensagens. Por exemplo, tem sentido discutir o “mito do natal” e não discutir aborto? A união civil de casais do mesmo sexo? As declarações machistas e absurdas do papa sobre o uso da camisinha?

Mesmo no que se refere à libertação dos grilhões da fé, acho que as campanhas não acertam no alvo. Compare por exemplo, a campanha de 2009 da The British Humanist Association com a campanha canadense do “pé-grande”:
 
 
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Acho a campanha briânica extremamente simpática e produtiva. A mensagem toca justamente na experiência opressora da fé. Ela diz: relaxe, não module o seu comportamento por medo ou para ser aprovado por algo que você nem sabe se existe mesmo. “Seja feliz”, diz a campanha britânica. Esta é, de fato, uma grande campanha. Se dirige à milhões de pessoas que se impõem uma série de restrições e pergunta: Você já pensou que poderia ser bem mais feliz de outra maneira?

Já a campanha canadense se aproxima muito da campanha americana sobre o mito do natal. Sei que sou voz dissonante neste aspecto, mas lá vai: para mim, insistir na não existência de Deus é tão estúpido quanto insistir na sua existência. É tão fé quanto o contrário e, logo, igualmente sem razão. Assim, não vejo benefício na campanha canadense, uma campanha que é inegavelmente ridicularizante. Ainda que perguntar “Por que acreditar no Pé Grande é considerado delírio, mas a crença em Deus e em Cristo é respeitada e reverenciada?” faça sentido, acho uma grande perda de tempo. A experiência coletiva da fé e os seus impactos nos costumes e na hegemonia cultural vêm muito antes destas discussões filosóficas sobre a lógica de uma crença ou de outra. Penso que se o elemento restritivo da experiência religiosa fosse eliminado, acreditar em Deus passaria a ser tão inofensivo quanto acreditar no Pé Grande. Para mim, já estava de bom tamanho.

Para finalizar, acredito que a campanha brasileira seja melhor que a americana e que a canadense. Não sei se entendi bem o cartaz que diz: “Se Deus existe, tudo é permitido”. Mas os outros três são muito bons, o que é um saldo positivo para uma campanha que é novidade no Brasil, um país latino e bastante religioso. Vamos ver se as próximas campanhas conseguem evoluir para o que de fato interessa. E torcer para que consigam evoluir, já que na Itália a campanha foi proibida e no Brasil há relatos de prefeituras que se negaram a veicular as mensagens. E olha que o Estado é laico.
 
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Primeiro Fragmento de uma vida cotidiana

 (Isto aqui é uma crônica. Basta você acreditar!)

 

Observo detalhes. Existe grandiosidade nos gestos mínimos, nas sutilezas. Não cabe na palma da mão. Nem deveria caber. Talvez tentássemos colocá-lo no bolso, e o deixássemos cair, em qualquer canto sujo, do qual não lembraríamos. Olho para fora e vejo conceitos sendo redefinidos, absurdos sendo transformados em ideias, um desmoronar constante de certezas que me sufocavam. 
Todos os meus limites testados: descubro que a vida é mesmo maior que a gente. Bem maior que o futuro. 
 
Ele estava em movimento. Um desconhecido assumindo o papel de qualquer coisa que eu não conseguia ser ali completamente. A festa tinha mãos pequenas e não conseguia me segurar. A delicadeza dos gestos que se repetiam me fazia pensar que eu era parte de uma coreografia livre.
 
Gosto de “festas gay” pela liberdade expressa. Pelas gargalhadas soltas. Pelas cores carregadas dos olhos. Infelizmente, ainda na “comunidade” existem os que se intitulam “um pouquinho melhores”; preconceito dentro do preconceito que se sustenta numa crença mais que distorcida de que somos melhores porque somos bem diferentes. Mas a diferença, penso eu, é só diferença. (E o óbvio faz doer meus ossos!). Não me torna melhor ou pior. É só um detalhe que me diferencia de você. Apenas um detalhe. O singular que ainda assim me insere dentro da pluralidade. A diferença tem gosto de pôr-do-sol, de lua cheia, de neblina vinda do fim do mundo, de sorrisos tempestuosos, de abraços reconfortantes, de amizades duradouras. A singularidade (a minha, a sua) é um novo mundo. E isso não quer dizer que meu mundo seja maior que o seu.
 
Sem dúvidas, uma festa gay é recheada de pormenores. É um universo inteiro de possibilidades que não experimento em outras festas. Ok! Trata-se de um rótulo (festa gay), pois os heteros estão lá, satisfeitos. Como é apenas uma questão de nomear, e as nomeações são frutos (podres?) de conceitos, chamo festa gay aquela que te recebe sem reprovação, onde os homens se beijam, as mulheres se acarinham, e ninguém condena ninguém pela diferença, o que não aconteceria numa “festa hetero”: homem beijando homem? Em Teresina? Numa “festa para heteros”?
 
Uma festa colorida numa casa amarela. Poderia ser um pedaço do céu se eu quisesse. Mas no meu céu os homens não se criticam; os homens não passam por você fazendo de conta que seu sorriso é além-mundo, como se você fosse uma sombra que coubesse dentro dos erros ou no fundo de uma habilidade que o torna cheio de si. Também não era o inferno; embora no inferno que eu penso existir as mentiras voam descontroladas e entorpecidas pela inconsciência de homens que acreditam na sua diferença como a marca que os salva do fim do mundo, do preconceito. Apenas uma festa então, como as outras.
 
Eu estava sóbrio, com luzes fortes de uma certeza destrambelhada de que o mundo é amigável, de que os homens me receberiam como um fragmento cotidiano de uma vida sem mistérios. Ele segurava uma garrafa com líquido verde morto, com álcool provavelmente. Frases compridas numa boca desconhecida, ele se lançava equilibrado para frente, como se o futuro próspero estive no corpo, no ouvido, de outro homem. Senti uma mentira crescendo em mim, a de que eu precisava daquilo, ouvi-lo, sabê-lo inteiro, conhecê-lo. Primeiro pensei em Deus, nos detalhes que salvam, depois acreditei em mim, nas minúcias que redimem, e só depois pensei no que existia de real na minha espera. Ele estava entregue, sim, a outro. Seu nome é quase um mês do ano, de tão cheio de aparentes compromissos. E o aviso veio sóbrio: Ele já disse que está acima das belezas daqui.
 
Ele limpava o suor dos ombros com o queixo. Limpava uma, duas, três vezes. Depois mais duas. E continuava. Era um exercício de existência. Aquele homem se conhecia. E fiquei tentando aprimorar minhas sutilezas, ou minha forma de tentar entendê-lo. Poderia ser uma mania, um tique, algo bem escroto, ou apenas um breve cálculo para ser notado dentro de sua estranheza. Mas me forcei a acreditar que não seria nada bom confiar num homem que usa o queixo para se afirmar. Prefiro aqueles que usam as mãos e sabem sustentar o desamparo de qualquer sujeito. 
 
Como eu. 
 
Mas que também não sabe usar as mãos nem para preparar a própria vida.
 
Deus deve estar rindo de você, de mim. Está ouvindo? Provavelmente não. Mas se você acredita Nele, por que Ele não acreditaria em você? Digo isso baseado na ideia de que você acha incrível qualquer detalhe cotidiano que te persegue no dia-a-dia. Falo de detalhes pequenos, mínimos. Como sentir o vento sussurrar nada em seus ouvidos; então você abre um sorriso como se Deus estivesse falando algo bom para você. O que ele disse? Shhhhhhhhhhhhh! Foi isso? Isso significa o quê? Ora, e se o vento soprando mansidão no tempo, fazendo as folhas de todas as árvores ao redor gargalharem, for apenas um sopro de esperança, aquele barulho alegre que o verde das folhas sempre provoca? 
 
Você é realista? Eu também.
 
Mas o amor pra mim é maior que isso. E Deus mora dentro.
 
Do lado de fora vive o mundo inventado.
 
 

Deus, à imagem e semelhança do homem

Os estados teocráticos e a falsa moralidade religiosa invadindo  temas laicos, trazem à tona um tema que permeia a sociedade desde que o homem tentou entender a natureza. A chuva com seus trovões, a seca, a passagem do dia e da noite, os astros, a morte. Alguém deveria entender e tentar intermediar a relação do invisível com o concreto. E, claro, quem dispunha deste privilégio de entender-se com o que ninguém conseguia entender despertava o respeito e o temor dos demais.

Certamente o primeiro homem que deduziu que estes sinais da natureza eram manifestações divinas imaginou também formas de contentar a estes deuses para que os problemas causados pelos deuses não tivessem tanto impacto na materialidade. Agradando aos deuses imaginava-se possível reverter seus acessos de ira, responsáveis por tantos estragos de tempos em tempo.

 

Mas não era toda a coletividade que possuía esta condição, a de intermediar e comunicar-se com os seres divinos. Era necessário que o coletivo se resguardasse das ameaças, que providenciasse alimentação, havia ainda o cuidado com a estrutura que protegesse do clima e tempo.

 

A existência de um excedente de alimentos a partir da agricultura permite que a sociedade se divida em tarefas diferentes. As funções básicas das sociedades primitivas, produção, arrecadação  previam que deste excedente alimentasse o contingente destinado à segurança, e também os dirigentes destas comunidades. E claro que aquele que possuía o dom de agradar aos deuses geralmente interferiam no poder diretivo, por respeito ou medo, a acabavam decidindo os rumos de suas comunidades, respaldados pelos deuses que diziam representar.

 

Neste contexto as religiões e seus representantes tinham como principal função a obtenção de ganhos ou benefícios. A necessidade de entender a natureza e a própria natureza humana ficava em segundo plano. Os rituais, a destinação de locais próprios para cultos, a criação das artes adivinhatórias criavam a aura de mistério e respeito necessária para garantir que os sacerdotes fossem considerados semi-divindades.

 

Nesta situação a fusão entre decisões humanas e desejos divinos era providencial para os governantes. O temor aos deuses, estes obviamente criados a partir do modelo humano, com amores, paixões e ódios de formato humano, mas com poderes ilimitados facilitava que decisões terrenas fossem justificadas por desígnios divinos. Homens podem ser contrariados, deuses jamais. E desta forma, desde as primeiras sociedades a religião permeia o poder terreno, chegando mesmo a eleger como deuses alguns de seus governantes, tornando-os deus na terra, portanto com poderes ilimitados.

 

Quanto a população, restava-lhe sustentar com seu trabalho governantes e sacerdotes, seguir suas regras opressoras e temer a ira de suas  vingativas e cruéis  divindades temendo, além de todo o tormento terreno os tormentos de outra vida além da morte.

 

 

Mas de que perguntas estamos falando?


No segundo texto da coluna, paramos para investigar o que é a pergunta filosófica. O que ela tem de particular? Como pode ser mais importante que a resposta? Como exemplos, Deleuze, Pascal e Sartre.

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