Maçãs, Coca-Cola e Pink Floyd: uma ligação & The Final Cut – 30 anos!

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I.

O que o tempo não faz não é? O tempo envelhece, distancia, muda. Mas o tempo também é capaz de tornar as coisas mais palatáveis. Sim, também do ponto de vista gastronômico mais simplificado. Essa semana depois de alguns anos, eu comi metade de uma maça. E não é que eu achei saborosa. O último gosto de maça que eu me lembrava, trazia consigo um doce opaco e uma sensação de envelhecimento, como aquelas maças velhas da cesta, já fofas. Depois dessa eu comi outras nos dias seguintes, e o gosto bom foi o mesmo. Mas como eu me conheço, sei que se continuar comendo maças vou logo desgostar. Não sei o porquê isso acontece com maças, parece até que banaliza. O mesmo ocorre com a Coca-Cola. Eu nunca fui lá muito fã da mais americana das bebidas, mas confesso que até gostava em um certo nível de quase vício. Não tinha horário para saboreá-la, em substituição ao leite antes de ir ao trabalho, antes de dormir como uma última água noturna, no almoço, no jantar, em suma, onipresença. Porém chegou um momento que eu já não achava mais graça em Coca-Cola. Acho que banalizou aquele gosto, meu cérebro já não a percebia mais como um refresco, mas como um remédio [sic]. Aquilo ficou travoso em minha boca, e como conseqüência disso passei a rejeitar. Não sei se os pomares já não dão mais maças como antes, mas no caso da Coca-Cola há diferenciação na fabricação com o passar do tempo. Há quem defenda a tese de que a Coca-Cola média de garrafa de vidro é mais saborosa quando comparada hoje com a de garrafa plástica. Recentemente eu estava almoçando fora e quase que inconscientemente eu peguei o copo de minha acompanhante e tomei um pouco do negro líquido de seu copo. E não é que eu gostei. Depois de muito tempo e tomava novamente Coca-Cola com algum entusiasmo, e digo mais, com satisfação de saborear algo bom. O tempo fez com que meu paladar aceitasse com naturalidade tanto a Coca-Cola quanto a maça, quase como se fosse sabores novos ou até mais precisamente redescobertos. Mas aonde entra o Pink Floyd nessa história? Entra justamente nesse mesmo raciocínio. Muitos punks dizem até hoje que Pink Floyd é monótono, chato e dá sono. E eles dizem isso da fase áurea floydiana, que vai de Dark Side Of The Moon de 73 á The Wall de 79 – segundo alguns é claro. Eu discordo muito dos punks nesse aspecto, porém também não considero que Pink Floyd seja um tipo de música – assim como o rock progressivo em geral, um tipo de música cotidiana, que possa ser apreciada no dia-a-dia – embora alguns achem. Eu gosto muito do Pink Floyd, mas acho que sua audição a exaustão causa enjôo e saturação. E é nisso que o comparo com maças e Coca-Cola. Para que eu aprecie toda a grandeza do grupo inglês, eu preciso da distância do tempo. Eu preciso ficar algum tempo sem ouvi-los, para que eu renove meus sentidos – nesse caso aqui a audição, para que eu redescubra as músicas, os discos e até detalhes que se revelam a cada nova audição. E justamente por ser uma música altamente técnica, cada vez que se ouve se descobre coisas novas [principalmente se for em alta fidelidade], a mesma sonoridade ganha ares diferentes, porque o ouvido se desacostumou, o mesmo acontece comigo em relação a certos alimentos e bebidas. 

 

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II.

Se os punks e afins já consideram a fase áurea do Pink Floyd intragável, imagine o que acham do disco que é considerado – inclusive por fãs da banda, como sendo o pior de sua carreira. Refiro-me a The Final Cut de 1983. É quase um disco solo de Roger Waters, pois a ideia é dele, todas as letras são dele, quase todas as músicas também, além de assinar a produção, deixando Manson e Gilmour apenas como músicos de apoio – na contracapa do disco lê-se “uma obra de Roger Waters executada por Pink Floyd”. É o primeiro (e único) disco sem qualquer participação de Richard Wright, demitido da banda que ajudou a fundar. Falam muito mal do disco, seja em revistas ou em conversas, mas não acho que é bem assim. O disco é bem tocado, porém esbarra em duas coisas: é um álbum conceitual, e mais, sobre o tema da guerra – obsessão de Waters, e as canções são muito parecidas, dando a impressão de ouvir uma única canção partida em várias. O disco traz muitos efeitos sonoros, ambientações de guerra, vozes, além do rico instrumental de apoio, com cordas e belos sopros. O álbum é bastante requintado, disso não podem reclamar. Mas é um disco triste, como tons baixos e um tanto minimalista. O tema da perda do pai na guerra faz com o disco traga certos tons carregados de melancolia e tristeza. A faixa título é extremamente linda, assim como a sua antecessora “Southampton Dock”, quase pastoril. Embora o disco pareça monótono, não é. O que faz The Final Cut ser monótono é a proximidade do tempo, em contraponto a distância. Quanto menos se ouvir Pink Floyd melhor, e quanto menos ainda se ouvir The Final Cut melhor ainda, pois só assim se poderá ouvi-lo melhor. O disco é bom, em contraponto aos que dizem que é ruim, mas é monótono sim quando ouvido a exaustão. Mas esse disco é diferente dos demais (é claro), e a adjetivação negativa que o dão (sic), se dá também pela comparação com os discos clássicos. A receita básica para aceitar The Final Cut é: demore a ouvi-lo e não o compare com os demais discos. Para quem gosta de ambientações – não necessariamente de guerra, é um prato cheio, onde os violinos dão um toque todo especial, isso sem contar a grandiosa classe da guitarra de David Gilmour. Vale à pena ouvir o disco, desde que você o ouça a cada seis meses ou a cada um ano.

 

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“The Final Cut pode ser considerado a personificação da melancolia. Instrumentalmente, o álbum conta com uma orquestração muito bem planejada, com muito uso de sintetizadores, um piano fantástico e um saxofone que em muitas músicas parece ter tomado o lugar da guitarra […]”  

http://medaumla.wordpress.com

 

“Os discos “The Wall” e “The Final Cut” são uma espécie de autobiografia de Waters. Os temas nos dois discos referem-se claramente à ausência de seu pai, que morreu na 2ª Guerra Mundial”.

http://filosofiapinkfloyd.blogspot.com.br/

 

“The final cut recebeu críticas que falavam do “egocentrismo” de Waters, e que seriam “restos” de composições do álbum anterior “The wall”, mas para muitos fãs é considerado um dos melhores trabalhos, com excelentes músicas […]”

http://reinaldokramer.wordpress.com

 

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Pink Floyd – The Final Cut (Capitol, 1983). 

 

 

 

 

 

 

Primeiro Fragmento de uma vida cotidiana

 (Isto aqui é uma crônica. Basta você acreditar!)

 

Observo detalhes. Existe grandiosidade nos gestos mínimos, nas sutilezas. Não cabe na palma da mão. Nem deveria caber. Talvez tentássemos colocá-lo no bolso, e o deixássemos cair, em qualquer canto sujo, do qual não lembraríamos. Olho para fora e vejo conceitos sendo redefinidos, absurdos sendo transformados em ideias, um desmoronar constante de certezas que me sufocavam. 
Todos os meus limites testados: descubro que a vida é mesmo maior que a gente. Bem maior que o futuro. 
 
Ele estava em movimento. Um desconhecido assumindo o papel de qualquer coisa que eu não conseguia ser ali completamente. A festa tinha mãos pequenas e não conseguia me segurar. A delicadeza dos gestos que se repetiam me fazia pensar que eu era parte de uma coreografia livre.
 
Gosto de “festas gay” pela liberdade expressa. Pelas gargalhadas soltas. Pelas cores carregadas dos olhos. Infelizmente, ainda na “comunidade” existem os que se intitulam “um pouquinho melhores”; preconceito dentro do preconceito que se sustenta numa crença mais que distorcida de que somos melhores porque somos bem diferentes. Mas a diferença, penso eu, é só diferença. (E o óbvio faz doer meus ossos!). Não me torna melhor ou pior. É só um detalhe que me diferencia de você. Apenas um detalhe. O singular que ainda assim me insere dentro da pluralidade. A diferença tem gosto de pôr-do-sol, de lua cheia, de neblina vinda do fim do mundo, de sorrisos tempestuosos, de abraços reconfortantes, de amizades duradouras. A singularidade (a minha, a sua) é um novo mundo. E isso não quer dizer que meu mundo seja maior que o seu.
 
Sem dúvidas, uma festa gay é recheada de pormenores. É um universo inteiro de possibilidades que não experimento em outras festas. Ok! Trata-se de um rótulo (festa gay), pois os heteros estão lá, satisfeitos. Como é apenas uma questão de nomear, e as nomeações são frutos (podres?) de conceitos, chamo festa gay aquela que te recebe sem reprovação, onde os homens se beijam, as mulheres se acarinham, e ninguém condena ninguém pela diferença, o que não aconteceria numa “festa hetero”: homem beijando homem? Em Teresina? Numa “festa para heteros”?
 
Uma festa colorida numa casa amarela. Poderia ser um pedaço do céu se eu quisesse. Mas no meu céu os homens não se criticam; os homens não passam por você fazendo de conta que seu sorriso é além-mundo, como se você fosse uma sombra que coubesse dentro dos erros ou no fundo de uma habilidade que o torna cheio de si. Também não era o inferno; embora no inferno que eu penso existir as mentiras voam descontroladas e entorpecidas pela inconsciência de homens que acreditam na sua diferença como a marca que os salva do fim do mundo, do preconceito. Apenas uma festa então, como as outras.
 
Eu estava sóbrio, com luzes fortes de uma certeza destrambelhada de que o mundo é amigável, de que os homens me receberiam como um fragmento cotidiano de uma vida sem mistérios. Ele segurava uma garrafa com líquido verde morto, com álcool provavelmente. Frases compridas numa boca desconhecida, ele se lançava equilibrado para frente, como se o futuro próspero estive no corpo, no ouvido, de outro homem. Senti uma mentira crescendo em mim, a de que eu precisava daquilo, ouvi-lo, sabê-lo inteiro, conhecê-lo. Primeiro pensei em Deus, nos detalhes que salvam, depois acreditei em mim, nas minúcias que redimem, e só depois pensei no que existia de real na minha espera. Ele estava entregue, sim, a outro. Seu nome é quase um mês do ano, de tão cheio de aparentes compromissos. E o aviso veio sóbrio: Ele já disse que está acima das belezas daqui.
 
Ele limpava o suor dos ombros com o queixo. Limpava uma, duas, três vezes. Depois mais duas. E continuava. Era um exercício de existência. Aquele homem se conhecia. E fiquei tentando aprimorar minhas sutilezas, ou minha forma de tentar entendê-lo. Poderia ser uma mania, um tique, algo bem escroto, ou apenas um breve cálculo para ser notado dentro de sua estranheza. Mas me forcei a acreditar que não seria nada bom confiar num homem que usa o queixo para se afirmar. Prefiro aqueles que usam as mãos e sabem sustentar o desamparo de qualquer sujeito. 
 
Como eu. 
 
Mas que também não sabe usar as mãos nem para preparar a própria vida.
 
Deus deve estar rindo de você, de mim. Está ouvindo? Provavelmente não. Mas se você acredita Nele, por que Ele não acreditaria em você? Digo isso baseado na ideia de que você acha incrível qualquer detalhe cotidiano que te persegue no dia-a-dia. Falo de detalhes pequenos, mínimos. Como sentir o vento sussurrar nada em seus ouvidos; então você abre um sorriso como se Deus estivesse falando algo bom para você. O que ele disse? Shhhhhhhhhhhhh! Foi isso? Isso significa o quê? Ora, e se o vento soprando mansidão no tempo, fazendo as folhas de todas as árvores ao redor gargalharem, for apenas um sopro de esperança, aquele barulho alegre que o verde das folhas sempre provoca? 
 
Você é realista? Eu também.
 
Mas o amor pra mim é maior que isso. E Deus mora dentro.
 
Do lado de fora vive o mundo inventado.