Maçãs, Coca-Cola e Pink Floyd: uma ligação & The Final Cut – 30 anos!

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I.

O que o tempo não faz não é? O tempo envelhece, distancia, muda. Mas o tempo também é capaz de tornar as coisas mais palatáveis. Sim, também do ponto de vista gastronômico mais simplificado. Essa semana depois de alguns anos, eu comi metade de uma maça. E não é que eu achei saborosa. O último gosto de maça que eu me lembrava, trazia consigo um doce opaco e uma sensação de envelhecimento, como aquelas maças velhas da cesta, já fofas. Depois dessa eu comi outras nos dias seguintes, e o gosto bom foi o mesmo. Mas como eu me conheço, sei que se continuar comendo maças vou logo desgostar. Não sei o porquê isso acontece com maças, parece até que banaliza. O mesmo ocorre com a Coca-Cola. Eu nunca fui lá muito fã da mais americana das bebidas, mas confesso que até gostava em um certo nível de quase vício. Não tinha horário para saboreá-la, em substituição ao leite antes de ir ao trabalho, antes de dormir como uma última água noturna, no almoço, no jantar, em suma, onipresença. Porém chegou um momento que eu já não achava mais graça em Coca-Cola. Acho que banalizou aquele gosto, meu cérebro já não a percebia mais como um refresco, mas como um remédio [sic]. Aquilo ficou travoso em minha boca, e como conseqüência disso passei a rejeitar. Não sei se os pomares já não dão mais maças como antes, mas no caso da Coca-Cola há diferenciação na fabricação com o passar do tempo. Há quem defenda a tese de que a Coca-Cola média de garrafa de vidro é mais saborosa quando comparada hoje com a de garrafa plástica. Recentemente eu estava almoçando fora e quase que inconscientemente eu peguei o copo de minha acompanhante e tomei um pouco do negro líquido de seu copo. E não é que eu gostei. Depois de muito tempo e tomava novamente Coca-Cola com algum entusiasmo, e digo mais, com satisfação de saborear algo bom. O tempo fez com que meu paladar aceitasse com naturalidade tanto a Coca-Cola quanto a maça, quase como se fosse sabores novos ou até mais precisamente redescobertos. Mas aonde entra o Pink Floyd nessa história? Entra justamente nesse mesmo raciocínio. Muitos punks dizem até hoje que Pink Floyd é monótono, chato e dá sono. E eles dizem isso da fase áurea floydiana, que vai de Dark Side Of The Moon de 73 á The Wall de 79 – segundo alguns é claro. Eu discordo muito dos punks nesse aspecto, porém também não considero que Pink Floyd seja um tipo de música – assim como o rock progressivo em geral, um tipo de música cotidiana, que possa ser apreciada no dia-a-dia – embora alguns achem. Eu gosto muito do Pink Floyd, mas acho que sua audição a exaustão causa enjôo e saturação. E é nisso que o comparo com maças e Coca-Cola. Para que eu aprecie toda a grandeza do grupo inglês, eu preciso da distância do tempo. Eu preciso ficar algum tempo sem ouvi-los, para que eu renove meus sentidos – nesse caso aqui a audição, para que eu redescubra as músicas, os discos e até detalhes que se revelam a cada nova audição. E justamente por ser uma música altamente técnica, cada vez que se ouve se descobre coisas novas [principalmente se for em alta fidelidade], a mesma sonoridade ganha ares diferentes, porque o ouvido se desacostumou, o mesmo acontece comigo em relação a certos alimentos e bebidas. 

 

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II.

Se os punks e afins já consideram a fase áurea do Pink Floyd intragável, imagine o que acham do disco que é considerado – inclusive por fãs da banda, como sendo o pior de sua carreira. Refiro-me a The Final Cut de 1983. É quase um disco solo de Roger Waters, pois a ideia é dele, todas as letras são dele, quase todas as músicas também, além de assinar a produção, deixando Manson e Gilmour apenas como músicos de apoio – na contracapa do disco lê-se “uma obra de Roger Waters executada por Pink Floyd”. É o primeiro (e único) disco sem qualquer participação de Richard Wright, demitido da banda que ajudou a fundar. Falam muito mal do disco, seja em revistas ou em conversas, mas não acho que é bem assim. O disco é bem tocado, porém esbarra em duas coisas: é um álbum conceitual, e mais, sobre o tema da guerra – obsessão de Waters, e as canções são muito parecidas, dando a impressão de ouvir uma única canção partida em várias. O disco traz muitos efeitos sonoros, ambientações de guerra, vozes, além do rico instrumental de apoio, com cordas e belos sopros. O álbum é bastante requintado, disso não podem reclamar. Mas é um disco triste, como tons baixos e um tanto minimalista. O tema da perda do pai na guerra faz com o disco traga certos tons carregados de melancolia e tristeza. A faixa título é extremamente linda, assim como a sua antecessora “Southampton Dock”, quase pastoril. Embora o disco pareça monótono, não é. O que faz The Final Cut ser monótono é a proximidade do tempo, em contraponto a distância. Quanto menos se ouvir Pink Floyd melhor, e quanto menos ainda se ouvir The Final Cut melhor ainda, pois só assim se poderá ouvi-lo melhor. O disco é bom, em contraponto aos que dizem que é ruim, mas é monótono sim quando ouvido a exaustão. Mas esse disco é diferente dos demais (é claro), e a adjetivação negativa que o dão (sic), se dá também pela comparação com os discos clássicos. A receita básica para aceitar The Final Cut é: demore a ouvi-lo e não o compare com os demais discos. Para quem gosta de ambientações – não necessariamente de guerra, é um prato cheio, onde os violinos dão um toque todo especial, isso sem contar a grandiosa classe da guitarra de David Gilmour. Vale à pena ouvir o disco, desde que você o ouça a cada seis meses ou a cada um ano.

 

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“The Final Cut pode ser considerado a personificação da melancolia. Instrumentalmente, o álbum conta com uma orquestração muito bem planejada, com muito uso de sintetizadores, um piano fantástico e um saxofone que em muitas músicas parece ter tomado o lugar da guitarra […]”  

http://medaumla.wordpress.com

 

“Os discos “The Wall” e “The Final Cut” são uma espécie de autobiografia de Waters. Os temas nos dois discos referem-se claramente à ausência de seu pai, que morreu na 2ª Guerra Mundial”.

http://filosofiapinkfloyd.blogspot.com.br/

 

“The final cut recebeu críticas que falavam do “egocentrismo” de Waters, e que seriam “restos” de composições do álbum anterior “The wall”, mas para muitos fãs é considerado um dos melhores trabalhos, com excelentes músicas […]”

http://reinaldokramer.wordpress.com

 

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Pink Floyd – The Final Cut (Capitol, 1983). 

 

 

 

 

 

 

A pedra no caminho do tempo

O que é passado, presente ou futuro, só o tempo atestará. Pois se existe mesmo esse vidro-hoje a separar fatos e pessoas, existe o vidro-afeto a ser quebrado a qualquer momento, não aceitando nem ser refratário, para se tornar apenas pleno em sua invisibilidade.” [ROMEU, A. C. Passado, presente e futuro. Jornal Diário Popular, Pelotas, 21 de jul. de 2012]


Não lembro a fonte do conto “a pedra no caminho”, mas independente do tamanho e tempo da pedra, no decorrer da vida, penso que não existe uma, que não seja possível aproveitá-la para o próprio crescimento espiritual. Acredito que, independente do tempo, a diferença em seguir sonhando, nunca esteve na pedra, mas na capacidade de autorenovação do homem.

Parece claro que existe similitude da pedra no caminho à ideia de um tempo retilíneo, acomodado pela repetição dos fatos, que se movem em torno do mesmo centro e se  encontram partir dos mesmos princípios e eventos ortodoxos. Sob esse olhar platônico, há impossibilidade do movimento e alteração da pedra, ou seja, é inútil mudar a natureza humana, pois não há tempo no qual possa se alterar.  Nunca haverá restauração do tempo.

Qual é sentido de tudo isso? A questão de forma abstrata pode receber várias respostas.  Diria que o homem sempre teve, desde os primórdios, a necessidade de se defender, enquanto a pedra aceita a guerra como um fato da vida. Assim, se contarmos a ligação da pedra e do tempo, poderemos perceber que partes das pedras encontradas no caminho já possuíam legitimidade no tempo das cavernas, mas a vida humana ainda segue curso para o futuro.

Sebastian de Grazia escreveu no livro “Maquiavel no Inferno” que feliz é aquele que se adequa ao modo de proceder ao tempo. Para ele, a ambição que não se entende com o tempo, é uma paixão tão forte no coração do ser humano que, mesmo que galguemos as mais altas posições, nunca nos sentiremos satisfeitos.

Segundo Maquiavel,  “as vezes, nos corpos que giram no céu, em torno da terra, se produz um desvio ou paralaxe.  E com intervalos de tempo muito espaçados, tudo o que há sobre a terra morre em  função do excesso de fogo”. Como tal, a destruição causada determina não somente o fim de uma era, mas o início de um novo ciclo, renovado pelos sobreviventes da erupção que gera as pedras: “quando isso acontece esses povos voltam novamente a ser jovens”.

Existe na minha gaveta uma pedra que me acompanha há vários anos, serve de amuleto para pensar que posso ser tão forte ou manter-me livre. Não é nenhuma jade (pedra associada à imortalidade), mas tem um sentimento de quartzo azul (poder) que domina as minhas inquietações. Sempre que penso que o meu orgulho estar sendo roubado, procuro-a como meio de pensar que o chão nunca pode desmoronar sobre os meus pés.

Mas com tantas pedras no caminho em um tempo em que  eu não posso comandar, sobra pouco espaço para ”vencer sem lutar”. Só que no fundo essa pedra é parte do meu passado, em outro espaço que é o presente, mas que mesmo, assim, tento me agarrar e materializar.

Li, em certa ocasião, no livro “Paz Guerreira” de Talal Husseini que um guerreiro, fundamentalmente, conquista, avança e domina, sendo um eterno inconformado com a injustiça, falsidade e ilusão e que por meio de virtudes, ao se confrontar com vilões, trava a verdadeira guerra, apenas, no interior.

Sob esse prisma, tenho aberto um umbral de grandes proporções, muitas vezes por não saber em quem confiar, mas tentando usar a paz guerreira com desejo de presente e futuro na minha essência de passado. Talvez, tenha o desejo de viver o que Jorge Luís Borges menciona: “O absoluto deseja manifestar-se e manifesta-se no tempo”.

Quando penso em batalhas, não me passa pela cabeça a concepção de campo de guerra que leva os homens aos sentidos mais grotescos e brutais, mas desmitifico uma concepção do homem e do mundo que fica no vão da porta, bloqueando o caminho, além do nosso comando. Seria comandar um Ipad com o controle do desenho dos Flintstones.

Tenho aprendido a ter atitudes de não encanar por nada e controlar os níveis de cortisol nas experiências negativas. Lembro, assim, que algumas batalhas não valem a pena, nem mesmo os sapatos novos que nos machucam, fugindo de autoflagelo ou de episódios semelhantes a série Dexter.

Já usei a teoria Playmobil que alguns chamam de filosofia e eu chamo de resistência. Não tenho dúvidas que o sorriso diante da pedra é a soma das nossas escolhas, cantada e exposta como oráculo da felicidade. Mas, tenho nesses dias pensando nessa teoria como uma armadura. Talvez não uma armadura de ferro ou blindagem, tipo usada por nossos célebres cavaleiros, mas,  um refúgio do bom combate à vida. O sorriso, mesmo debaixo de um mar de lágrimas, revela algo nosso, uma propriedade que não demanda seguro ou ferraduras.

E pergunto como sobrevivemos? Talvez, considerando uma pesquisa que li na Revista Superinteressante, impedindo o mundo de virar monstro ou exercitando a  capacidade de nos adaptarmos aos outros e alinharmos nossas opiniões, pelo menos em parte, como uma questão estrutural: “dependendo do nosso hardware (a estrutura do nosso cérebro), e não tanto do software (o processamento das informações que ocorre ali)”.

Talvez, haja vitória do tempo ao esconder a dor, quando não depositamos todas às fichas em um único local, pertinentes a qualquer tipo de relação profissional, amorosa, pessoal ou de amizade, pois quando a batalha tortura, o tempo parece não passar pelas pedras.

E no final seremos, sempre, solitários, como no filme Natureza Selvagem: “E também sei como é importante na vida, não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte.”

[…] Nós temos uma ambição que concordamos. E você pensa que tem que querer mais do que precisa. Até você ter tudo, você não estará livre. Sociedade, sua raça louca. Espero que não esteja solitária sem mim. Acho que preciso encontrar um lugar maior […] (Society interpretada por Eddie Vedder)

Um espaço de tempos e contratempos

A elaboração de conceitos definidores da natureza é um exercício antigo para a humanidade, desde os mitos mais remotos revividos cada vez que são contados, ou até a ciência moderna ocidental capaz de definir a natureza em discursos filosóficos, fórmulas matemáticas e partículas orbitantes em formatos entrópicos. Neste aspecto vê-se, ainda, a invenção constante dos elementos formadores dessa natureza, ou melhor, a reinvenção em novas formas, propriedades e argumentos simbólicos e/ou lógicos.


Quando o assunto é a construção de realidades, dois aspectos são importantes, o tempo e o espaço. Inúmeros estudos se apresentam como forma concisa de explicação dos limites, contagens e justificativas do traçado temporal e do perímetro espacial. Se a natureza observada for considerada concreta, como aquela definida nas ciências exatas ou nas lógicas aristotélicas das humanidades, a possibilidade de mensurar, descrever em detalhes e definir utilizando sistemas e modelos de complexidade científica, existe; porém nem todas as explicações se apresentam de forma metódica aos olhos ocidentais, como os mitos regionais.


No mundo concreto a possibilidade de descrição do tempo e do espaço se aproxima do fantástico, seja na tentativa de explicar o surgimento do mundo – ponto no qual o espaço e o tempo se apresentam secundariamente – ou na explicação destes conceitos em separados. Muitas culturas só conhecem o tempo e o espaço por mitos, outras nem os descrevem, apenas convivem com sua existência, dispensando a necessidade de explicar ou justificar suas presenças.


A precisão da relação com ambas, as ferramentas definidoras de uma natureza, nem sempre se apresenta crucial para a consciência de suas existências, ou seja, há povos cujo o tempo e o espaço são mais amplos que o concreto, e a partir dessa irrelevância comunitária a solidez da natureza se esvai como a de sua mensuração. Exemplos destes povos, são aqueles nos quais o totemismo é empregado, ou os nômades que caminham com o dilatar e contrair da natureza ao seu redor, a mudança das chuvas, o movimentos das manadas entre outros fenômenos.


Como nas realidades místicas, espirituais ou não, o tempo fora do concreto é diferenciado, independente da correria cotidiana ou da fluidez da vida bucólica. Essa particularidade se apresenta também em realidades criadas pelo próprio homem, como a cibernética. Na natureza acessada por humanos adaptados com fios, luzes e silício, tanto o espaço quanto o tempo se distorceram como numa fenda: o homem criou o lugar infinito de tempo instantâneo e eterno. Mas como o tempo poderia ser paradoxal ao ponto de ser instantâneo e eterno, ou o espaço não possuir limites?


Para criar a realidade digital, – a cibernética – a humanidade empregou os minerais, idéias, filosofias, plásticos e eletricidades; ferramentas obtidas pela dominação da natureza concreta – intra e extracorpórea – usufruída por anos quase que com exclusivamente. Entretanto a dominação de um espaço definível e palpável possibilitou ao ser humano criar sua própria realidade; não apenas modificar aquela já conhecida. Diante da elaboração do ‘novo mundo’ habitável, novos paradigmas se estruturam, não apenas para dar conta do espaço – ainda indefinido – mas para decidir formas e uso, governo e conexão neste novo universo.


Conexões podem ser definidas, nas ciências sociais, como as relações do indivíduo com o exterior ou com os valores, morais e culturas que interiorizou. Assim, toda vez que o sujeito se depara com opiniões, desejos, interpretações ou outros elementos que geralmente caracterizam a socialização primária e secundária, bem como o concreto, ele se vê diante do que o torna parte integrante da realidade, ou seja, a conexão que permite a afirmação da existência do mundo no qual o ser humano se insere, seja ele qual for, tal qual dele mesmo enquanto ser humano. Isso se apresenta como parte fundamental para a conformação de uma natureza para o homem; e no digital não é diferente.


Quando alguém se conecta ao universo digital apresentado na internet recebe os estímulos necessários para se sentir parte deste universo paralelo, os sentidos são alertados e o homem por trás da máquina deixou de ser um humano, agora é um ciborgue vivente no mundo cibernético. Consequentemente, além da mudança da ‘natureza’ existencial este alguém é alvo das novas possiblidades compreendidas neste mundo, a identificação, o espaço, o tempo, e a organização social em todos os níveis.


Sabe-se que as mídias sociais são populares e sempre procuram reproduzir as lógicas e valores da realidade externa, no entanto este espaço delimitado é apenas uma ínfima parte do ciberespaço. Quando se trata de internet a definição de espaço esbarra na limitação, ou melhor, ilimitação tecnológica empregada. O avanço das tecnologias de armazenamento, de processamento e velocidades de transmissão de dados se amplia dia-a-dia, assim como as possibilidades de se conectar a ela. Isso tudo permite que a delimitação do espaço, nessa realidade, não exista, ou seja, ele é infinito. Para compreender a ausência de fim é preciso relembrar a constante estruturação que a cibernética sofre: aumentos de capacidade de armazenamento de sítios determinados – como e-mails, discos virtuais e blogs – representando uma espécie de dobra do espaço sem que haja, necessariamente, perda dos dados ou informações compartilhados ou arquivados.


Por outro lado, o acesso ao digital, além de possibilitar o contato com um espaço infinito, proporciona uma dúbia relação com o tempo: a vida instantânea e a eternidade. A ausência da linearidade, ciclização ou até mesmo mensuração do tempo no universo ciber, é apresentada em várias análises, sempre valorizando o instantâneo da informação muitas vezes sem considerar o imediato por completo.


O tempo cibernético discutido como elemento singularmente instantâneo é exemplificado pela superação de distâncias geográficas presentes no mundo concreto, porém não se limita a isso. Ao acessar um sítio na internet, o que se obtém são informações ou elementos disponíveis até aquele momento. O navegar leva o habitante até o caminho que deseja, sem considerar a temporalidade até aquele momento, é o viver o instante, como se o mundo acessado se criasse cada vez que é aberto aos olhos de um ciborgue, tal qual o mito escutado.


Apesar disso, a temporalidade se apresenta em sítios específicos, como nos portais de notícia ou de periódicos, sempre apresentando o mesmo impacto sobre o visitante: a sensação de novidade persiste. No entanto, nestes sites, como em portais exclusivos, tal como e-mails, o comportamento do ciborgue ‘ansioso’ se mostra: a tentativa constante de lidar com o novo ao atualizar o sítio funciona como uma busca desesperada pelo instante vivido ao conectar-se, apresentando um aspecto de passado e presente, tão amorfos quanto o próprio ciberespaço.


Viver o instante virtual é próximo do que é viver o imediato concreto. A definição de instantâneo não se altera, mas a relação do alguém com o tempo sim. A diversidade de emoções, sensações e expectativas do momento vivido na natureza concreta geralmente se limita a experiência que passa ao término do momento, restando apenas a memória para o sujeito. Assim, pode-se definir uma história, cronologia ou um processo de vivência a partir do conjunto de momentos, tendo ou não a contagem do tempo, aos moldes ocidentais, como referência. A vida no virtual é capaz de extrapolar isso, impedindo muitas vezes a contagem, mensuração ou determinação da cronologia, por várias razões.


O descolamento do concreto ao conectar-se pode justificar a impossibilidade de mensurar o tempo no mundo cibernético, mas não é o principal motivo. Geralmente o comportamento do ciborgue vai além da vida instantânea em um sítio, há a associação da simultaneidade nesta realidade, isto é, o sujeito é capaz de acessar vários sítios em um só momento sem perder o referencial de quem ele é ou da realidade na qual se insere. Caracterizando um comportamento que se aparenta ansioso, diante, principalmente, do referencial concreto.


A ansiedade do habitante é justificável: a sensação diante do novo muitas vezes é o que o atrai para aquele sítio, portanto vivê-lo é essencial. Dessa forma, o pós-humano se liberta das amarras do tempo contado no ocidente para a liberdade do viver de instantes constantes; ou seja, o visitante busca a atemporalidade imensurável, imediata, e se depara com a eternidade de viver o agora, constantemente.


O paradoxo do eterno início, ou melhor, eterno novo; atua de forma complementar ao imediatismo aparentemente preponderante no universo cibernético. Quando o caminho é conhecido, a navegação é desnecessária, e dessa forma, o eterno se apresenta enquanto o acesso externo a um passado vivido, antes apenas rememorado. A eternidade é vigente e caminha como aliada do agora, pois como num processo de cultura oral de mitos, a temporalidade cibernética se constitui para além do trivial: vive a antítese de ser pra sempre agora, sem perder seus elementos característicos ou até se sustentar de lembranças.


A cibernética, formada basicamente dos registros – outrora fundamentais para construção da cronologia – se transpõe ao tempo criador, deixa o próprio homem, agora um ciborgue, onipresente, ou seja, habitante de todo o espaço e tempo. O que antes era exclusivo das divindades criadas à semelhança do ser humano, hoje se apresenta como uma busca constante do pós-humano, seja no conectar, ou na cibervida presente no cotidiano dele.

Porque copiam os Beatles?

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Nelson Rodrigues disse que “toda unanimidade é burra” – isso significa que não necessariamente a maioria o seja. Os Beatles não são unanimidade, e nem nunca foram. Entretanto, é indiscutível a qualidade e a influência do grupo britânico não só no rock como na música pop do restante do século XX (a partir da década de 60) e do século XXI. Gente como o articulista do Yahoo Dafne Sampaio não vê valor algum nos Beatles – já pessoas como eu o consideramos o maior grupo musical da história. E como se mede isso? Não fiz nenhuma pesquisa universitária e nem fiz leituras ou consultei “especialistas” – usei apenas um pouco de dedução, imaginação e suposição para chegar a essa conclusão. A música feita pelos Beatles serve de parâmetro para quase tudo de 1965 para cá – exemplos: The Byrds, The Kinks, Oasis, Pulp, Jovem Guarda, etc. Além da quantidade de artistas que regravaram suas músicas, o número de tributos e homenagens feitas em estilos tão diferentes como Salsa, Guarânia, Eletrônica, Dub, Country, Jazz, etc. Os Beatles trouxeram renovação ao rock – pois romperam com o esquema tradicional dos anos 50, incorporando novos métodos de composição, arranjos mais sofisticados, efeitos de estúdio, álbuns conceituais, música indiana – misturando, confundindo e influenciando toda uma geração. Mesmo após 40 anos do fim da banda, os Beatles continuam gerando audiência, mídia e dinheiro. E por quê?

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Bom, primeiro pela qualidade indiscutível. Segundo porque é atemporal – ou seja, sua música comunica-se com qualquer geração, e não ficou apenas confinada aos saudosistas hippies dos anos 60. São canções que entraram no repertório popular – de “Lucy In The Sky With Diamonds” a “Yellow Submarine”, passando por “Across The Universe”, “Heres Come The Sun” e “Twisted And Shout”. São canções que serão ouvidas eternamente – porque transcendem o tempo por tratarem de temas universais. E de tanto cada geração falar delas (e ouvi-las), o interesse pelas gerações vindouras aumenta. As canções beatlenianas estão em tudo – comerciais de TV, festas, rádios, novelas, filmes, etc. E aí reside a diferença entre os Beatles e seus “concorrentes”. Elvis Presley com certeza é um ícone da música do século XX também, mas o interesse geral por sua música é sazonal (com isso estou descontando todo o culto que existe em torno de sua figura). Madonna é chamada de rainha do pop – mas não se fala mais tanto dela assim! Michael Jackson voltou às manchetes por sua morte, mas seu legado (importantíssimo por sinal) não pode ser comparado com a da banda britânica. E quanto aos Stones, Bob Dylan, Neil Young, The Doors, Pink Floyd, Lez Zeppelin, Jimi Hendrix, entre outros? Continuam cultuados? Claro que sim – tanto os vivos, quanto os mortos – mas eles não estão por aí a todo momento – pois sua influência não é tão nítida quanto a dos Beatles.

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Todos esses são grandes artistas – talvez até eternos como os Beatles – mas não são copiados como estes e muito menos entraram com tanta profundidade para a cultura pop. Sim, os Beatles transcenderam a música, pois influenciam a arte também. Por sinal outra inovação do Fab four. A capa do revolucionário Sgt. Peppers é com certeza uma obra-prima da pop art (por extensão). É um dos modelos de capas mais copiados de todos os tempos. E se enganam se pensam que só a capa do Sgt. Peppers é copiada – não, há toda uma sub-cultura que envolve as capas de “Let It Be” e principalmente “Abbey Road”.  Platão diz que as idéias existem independentemente de nós as pensarmos e que como já existem, um dia virão à tona porque serão pensadas por alguém. Então sob essa condição, eu penso que se essas capas não tivesse sido pensadas por eles, seriam pensadas por outros – mas a realidade desmente a teoria, porque então ninguém mais pensou em capas tão geniais que pudessem ser copiadas a exaustão? Porque só os Beatles são os Beatles! E se pensarmos bem, até que algumas são capas comuns, idéias simples – mas que levam a assinatura de serem dos Beatles. E que a partir daí trazem em si um legado, uma referência, uma qualidade quase dogmática. Só se torna um modelo, um parâmetro, aquilo que é bom, aquilo que vende – e por isso os Beatles são copiados até hoje. São como os grandes mestres do Renascimento, ou os compositores clássicos, ou os craques do futebol do passado – servem como “guias”, pois apontaram caminhos, foram por estradas inéditas, e sobretudo porque ousaram. Sim, os Beatles foram extremamente ousados. Romperam com seu tempo e como aponta o crítico Harold Bloom – os gênios se criam por ousarem romper e ultrapassar seus antecessores. Os Beach Boys até tentaram competir – lançando o genal “Pet Sounds” para rivalizar com Revolver. Mas não conseguiram realizar algo maior do que Sgt. Peppers e ficaram pelo caminho. Já os Beatles superam todos – incrivelmente todos os que vieram antes e depois deles, e assim está sendo a história da música pop e do rock há 40 anos – data do fim da banda. Veja – que outra banda conseguiu lançar em seqüência álbuns tão genais e importantes com eles (Rubber Soul, Revolver, Sgt. Peppers, Magical Mystery Tour, White Album, Yellow Submarine, Abbey Road e Let It Be)? O Nirvana e o Radiohead foram bandas que mexeram com as estruturas do pop – mas assim como Elvis são sazonais – vemos camisas deles por aí, mas não transformaram nada, não viraram parâmetro e a qualidade de ambos não é assim tão indiscutível. Resistir ao tempo é realmente para poucos, influenciar quase todos é ainda mais restrito, agora se tornar referência de arte de capa é feito só para os Beatles. “Beatles live forever!” 

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E de repente o relógio para. O tempo não.

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E de repente o relógio para. O tempo não. “O tempo não pára”, cantou no passado recente o poeta Cazuza, e ainda nos (en)canta no presente, pelas vitrolas, rádios, televisões, Ipods, Internet e demais máquinas, mídias e gadgets de reprodução áudio e visual por aí afora. Seja no formato analógico ou digital, suas virtualidades ainda nos provocam arrepios, cujos efeitos ora tiram o nosso sossego, ora nos acalantam. O poeta boêmio ainda canta e encanta aqueles que possuem sensibilidade e param por alguns minutinhos para curtir uma música. E curtir exige certo tempo, no que talvez vá além das nossas capacidades de medição. Tempo intensivo, desmedido, relacionado mais às sensibilidades e aos afectos, do que aos relógios.
 
Um tempo que não para é o das urgências. E as urgências não deveriam ser tratadas com pressa, mas sim, com modulações de velocidade, que podem ser rápidas ou lentas. No mais das vezes, a pressa funciona tal como um índice de paixão triste, operando como uma inimiga das velocidades, diminuindo a nossa potência de ação. Necessitamos de uma alternância entre velocidades e lentidões que aumente a nossa potência de ação para afinarmos a nossa capacidade de afectar e de sermos afectados, tal como nos sugere o filósofo Spinoza, e assim nos tornarmos capazes de experimentar o que pode um corpo.
 
E subitamente um coelho branco salta da toca, mete a mão no inexistente bolso de seu colete e retira de lá um relógio sem ponteiros para o qual olha e diz: “Oh puxa! Oh puxa! Como estou atrasado!” Em seguida, o coelho branco salta de volta para a toca sendo seguido imediatamente por Alice. Lewis Carroll e as aventuras de Alice, como Deleuze nos chamou a atenção, primeiro sobre o jogo de profundidades de Alice no país das maravilhas, e na seqüência, acerca da força das superfícies planas em Alice no país do espelho. Livros mágicos em que uma sucessão de acontecimentos se sustenta em uma miríade de paradoxos desconcertantes.
 
N’outro dia mesmo eu estava a pensar que talvez um relógio tivesse que ter ponteiros e ao mesmo tempo um espaço onde não houvesse ponteiros, onde de preferência não houvesse nada além de um vazio (espécie de presença edificante).  Vazio para nos lembrar que algo do tempo sempre escapará aos nossos regimes de medição, ao controle. Daí a pensar um relógio que ao invés de marcar as horas, as libertasse. Ou melhor, se fosse para ter ponteiros, que estes fossem frouxos e não tão firmes e que apontassem saídas, brechas, rupturas, mais do que segundos, minutos e horas com exatidão. Um relógio que fosse um elogio ao tempo que escapa. De toda maneira, ainda prefiro os relógios analógicos aos digitais, a velocidade analógica costuma ser mais interessante do que a digital.
 
Há os que usam o relógio para marcar as horas, e os que olham para esta maquineta a fim de medir um tempo, outros tantos usam estes gadgets inusitados apenas como enfeite. Por essas e outras: “Está cada vez mais complicado convencer uma criança a usar um relógio, máquina de um só gadget” Talvez porque as crianças se interessem mais por um relógio que entre em seus jogos e brincadeiras do que um que sirva apenas para lembrá-las de que nas horas que passam logo elas terão que parar de brincar. Se o relógio não solta raios laser, mesmo que imaginários, para que pregá-lo no pulso?
 
Se o tempo fosse mesmo líquido eu saberia ver as horas nos relógios de Dalí. Mas, daí a um, ou dois segundos, numa tarde de calor, as horas se evaporariam em nuvens invisíveis como o tempo. Você não vê o tempo, especialmente quando diz: “Eu não vejo a hora…”
 
Já faz um tempo que eu pretendo não fazer nada. Mas não fazer nada exige um esforço danado, ou seja, é preciso fazer muito, com precisão, numa exata medida que eu desconheço. Da espera eu também nada sei, pois tenho pouca paciência e (quase) nenhuma esperança. Apenas sinto, no mais das vezes, vontade(s). E a vontade, tal como uma força, eu também não vejo, apenas sinto (quando sinto). E quando sinto, pode ser como uma pancada, ou suave como uma pluma.
  

E o tempo passa, as horas se vão, os minutos escorregam e os segundos, pela pequenez desta unidade de medida, são os primeiros de que sentimos falta.

Tempo(s)

 “Tem coisas que o tempo cicatriza”, dizem as mães e os pais que querem acabar com o nosso sofrimento adolescente. Dia desses eu estava passeando com o meu cachorro na praça e presenciei uma discussão entre dois adolescentes. Era um casal de namorados que discutia como se não houvesse amanhã. Para eles o tempo era aquele pedacinho da história convertido em um grande desapontamento pela falta cometida por uma ou ambas as partes. Todas as mágoas, angústias, erros e arrependimentos posteriores estavam ali na pracinha sendo expostos enquanto eu passeava com o meu cachorro.

Tive certa inveja daquela briga e da inocência com que brigavam. Eles falavam alto e nem olhavam para os lados; coisas que, com o tempo, deixamos de fazer por civilidade (ou tentativa de). Quando eu voltei pra casa, voltei pensando que eu não brigaria mais daquele jeito, que aprendi direitinho que o tempo “cicatriza tudo”. O que justifico: com a quantidade de obrigações que tenho não dá para ficar brigando na pracinha como se não houvesse amanhã. Meu tempo é cronometrado de acordo com o que eu tenho para fazer. Poucas coisas alteraram essa ordem. Porque, afinal, sou uma pessoa “normal”, que tem um trabalho, ganho meu dinheiro, pago minhas contas, e olho para frente.
 
Voltei para casa pensando também que alguém diria para aquele casalzinho (é -zinho porque é novinho) que nada daquilo valia a pena, que era uma perda de tempo tremenda brigar “por nada”, que eles tinham que estudar e que um dia eles ririam de tudo aquilo. 
O que nos faz rir do tempo, afinal? Nossa ignorância em saber que ele não deixa de passar? Ou em desconhecê-lo como um curativo (um anestésico, na verdade) para nossas dores mais doídas? Seria possível uma “vida normal” sem uma progressão do tempo (algo que não parecia estar no horizonte daquele casalzinho adolescente)?
 
É bem possível que sim, diriam os psicanalistas. A normalidade está bem longe desse tempo cronológico em que eu disse fundamentar a vida. Talvez seja essa nossa fantasia: colocar tudo em um espaço-tempo apreensível para as justificativas. E, na verdade, tudo isso é mentira e impossível. Porque quando nos deparamos com esses pequenos acontecimentos, a ordem das coisas pode mudar e mudar completamente a nossa perspectiva, o nosso estar no mundo. E tudo isso é a infância que nos acompanha alimentando nossa potência e não a imposição civilizatória para adentrar o mundo da normalidade. De modo que a anacronia acaba nos confundindo a ponto de querermos sair dela para não cairmos nas “armações do tempo”. Por isso é mais fácil nos tornarmos nostálgicos (e anestesiados com a cicatrização) de um tempo perdido do que agarrar suas aberturas ao imprevisível.
 
Os conselhos “adultos” (ou cronológicos) que castram nossas possibilidades, nossos sonhos, têm a “boa intenção” de fazer com que deixemos de ser estúpidos. E deixamos de ser até descobrirmos que a estupidez, a estupefação, enche o mundo de graça. É num passeio desses, obrigatório e despropositado, que podemos encontrar esses sopros de vida que nos fazem deparar no espelho com uma racionalidade que consentimos para justificar o dia-a-dia enquanto o que queríamos mesmo era viver a insensatez embriagada de um tempo outro
 

O que significa perguntar sobre o que resta: pensar a atualidade como o trabalho do diagnóstico


1

Ao perguntarem-se sobre aquilo que resta da ditadura, os gestos de Vladimir Safatle e de Edson Telles (2010) repetem, em certa medida, o gesto filosófico-político agambeniano e arendtiano. Em acréscimo, parecem captar as peculiaridades da experiência brasileira de exceção. Segundo eles, não se deveria mensurar aquilo que resta de uma ditadura pelo número de corpos mortos e violados que ela deixa para trás. Procurar os espectros do autoritarismo no interior da cultura brasileira implicaria diagnosticar no presente o que, de fato, constitui aquilo que resta de uma ditadura: as estruturas políticas, administrativas e jurídicas que se prolongam e sobrevivem ainda hoje no interior do Estado democrático de Direito brasileiro.

 

2

Na abertura de um dos textos de Infância e história, o filósofo e jurista italiano Giorgio Agamben (2008, p. 111), escrevera que “[…] toda cultura é, primeiramente, uma certa experiência do tempo, e uma nova cultura não é possível sem uma transformação dessa experiência”. A afirmação do vínculo entre a cultura humana e uma singular experiência do tempo renova uma tradição que não ousou pensar o tempo para além da reprodução dos conceitos de instante e de contínuo. Pensar a relação dos homens com seu tempo permite recuperar dimensões da experiência destruídas ou seqüestradas, exemplares da tarefa do historiador sucateiro de Walter Benjamin (1994, p. 114); o gesto benjaminiano do historiador trapeiro que “deseja não deixar nada se perder” aferra-se ao insignificante e, portanto, à própria experiência. Eis o gesto que parece habitar profundamente a afirmação agambeniana: “toda cultura é, primeiramente, uma certa experiência do tempo”.

 

3

       Será preciso desdobrar até mesmo o conceito de tempo. Todos partilhamos de uma representação vulgar da temporalidade, de que Heidegger (2009) já havia falado em Ser e Tempo. Segundo ela, o tempo seria como uma linha contínua, povoada por instantes inextensos, e orientada irrevogavelmente ao futuro. Em nossa concepção, o passado é continuamente soterrado pelos escombros de um presente que transcorre veloz demais. A quotidianidade presente é afetada pelas formas de uma temporalidade em que cada instante engendra uma exceção: já não nos sentimos capazes de construir uma experiência autêntica da temporalidade porque vivemos unicamente o instante, e o instante está, desde sempre, e já, dentro e fora de si mesmo; nas palavras de Deleuze (2006), o presente é essencialmente paradoxal, uma vez que o instante atual é aquele que é, mas, ao mesmo tempo, é aquele que já se passou.

 

4

       No prefácio a Entre o passado e o futuro, Hannah Arendt identifica uma relação essencial entre pensamento e tempo. A partir de He, uma curta parábola de Kafka, Arendt desejava revelar aquilo que se encontra na estrutura íntima do pensamento. De acordo com a transcrição de Arendt, a parábola kafkiana é a seguinte:

 

“Ele tem dois adversários: o primeiro acossa-o por trás, da origem. O segundo, bloqueia-lhe o caminho pela frente. Ele luta com ambos. Na verdade, o primeiro ajuda-o na luta contra o segundo, pois quer empurrá-lo para frente, e, do mesmo modo, o segundo, uma vez que o empurra para trás. Mas isso é assim apenas teoricamente. Pois não há ali apenas os dois adversários, mas também ele mesmo, e quem sabe realmente de suas intenções? Seu sonho, porém, é em alguma ocasião, num momento imprevisto – e isso exigiria uma noite mais escura do que jamais o foi nenhuma noite –, saltar fora da linha de combate e ser alçado, por conta de sua experiência de luta, à posição de juiz entre os adversários que lutam entre si”. (Kafka, apud, Arendt, 2009, p. 33).

 

5

       Tanto como o homem kafkiano deseja fugir à linha de combate e alçar-se sobre ela, para compreender a profundidade dessa pequena parábola kafkiana precisaríamos fugir às conclusões de Arendt, aproveitando livremente suas descrições. A partir de He, Arendt descreve um homem demasiadamente contemporâneo, que encarna o próprio presente ao encontrar-se encerrado na batalha com as forças do passado, que o empurram à frente, e do futuro, que o mantêm violentamente aferrado ao atual.

Em He, as forças do passado e do futuro empurram o homem a um espaço lacunar e, segundo Arendt, atemporal. Nele, o homem é forçado a pensar, e todo pensamento só pode ser constituído em tensão com as potências da memória que não cessa de acossar o homem desde a origem e empurrá-lo adiante, e dos devires, que, repelindo-o, fazem da atualidade o lugar mais próprio em que seu pensamento se mantém. É no dorso fraturado do atual que Arendt (2010, p. 224-225) isola o espaço próprio ao pensamento como exercício do espírito. Esse espaço atemporal e, no entanto, atualíssimo, não pode ser herdado; precisa ser recriado e renovado a cada geração e a cada novo nascimento. Pensar a sua própria atualidade é a tarefa por excelência de cada geração.

 

6

       Se retornarmos a Kafka, perceberemos que há uma passagem que Arendt interpreta como o “intervalo lacunar”, o espaço vazio em que se tornou possível pensar: “Seu sonho, porém, é em alguma ocasião, num momento imprevisto – e isso exigiria uma noite mais escura do que jamais o foi nenhuma noite –, saltar fora da linha de combate…” (Kafka, apud, Arendt, 2009, p. 33).

       Precisamente onde Kafka escreve “imprevisto” e Arendt interpreta “atemporal”, poderíamos interpretar – não sem antes trairmos Arendt –, “intempestivo”, “inatual”, “extemporâneo”, como preferiria Nietzsche. O imprevisto de Kafka precisa abrir uma noite escura como nunca houve; “Ele”, o lutador, salta e foge à linha de combate, que passa a ser singularmente impessoal; passado e futuro, a memória e os devires, permanecem intocáveis pelo ego pensante arendtiano.

       Alocar o ego pensante em um intervalo atemporal que seria preciso criar sempre e a cada vez, como quisera Arendt, poderia sugerir a negação de que o pensamento possa estabelecer-se em correlação com seu tempo. Em Nietzsche (1990), o conceito de intempestivo, ou de inatual, possui uma vantagem: ele não seqüestra nem negativiza o tempo ou os devires. No impessoal combate entre passado e futuro, a atualidade não é vazia, negada, intervalar, mas um índice do real a que precisamos resistir – e uma indeterminação virtual que nos permite resistir.

       Pensar é muito mais do que sustentar-se em um vazio atemporal, como quisera Arendt; o pensamento, no interior ou no fora do combate, sempre se relaciona essencialmente com o tempo. Quando o lutador kafkiano consegue alçar-se da linha de combate é porque, escapando à determinação de seu próprio presente – ser acossado da origem ou impedido pela frente –, a atualidade virtualizou-se e converteu-se em árbitro da totalidade de nosso tempo. O presente, o atual, confundem-se com o intempestivo e com o inatual: “agir contra o tempo, e sobre o tempo e, espero eu, em favor de um tempo que virá” (Nietzsche, 1990, p. 94); “a crueldade de reconhecer unicamente o direito daquilo que deve nascer”, dizia Nietzche. É o imprevisto kafkiano, ou o intempestivo nietzschiano, que quebram a cadeia dos acontecimentos, e poderiam renovar a forma de perguntar-se sobre “o que resta” como um trabalho dúplice: diagnóstico do presente e resistência intempestiva.

7

Encontramo-nos desde sempre na tensão kafkiana, em que as forças do tempo mobilizam a história e atravessam os corpos: desviando-se, escapando, suplantando-os, exaurindo-os. Não há pensar que não esteja em relação com o contemporâneo – e, por vezes, o contemporâneo pode significar o advento de “uma noite tão escura como nunca houve”. No entanto, não há nada mais difícil do que suscitar um crepúsculo em pleno meio-dia. É preciso deixar-nos afetar por uma memória irredutível ao presente; diagnosticar e cartografar a atualidade; auscultar os devires e suas indeterminações; perguntar-se sobre o que resta é estar sempre à espreita daquilo que vem… Arendt sabia ser necessário que cada geração e que cada homem – a cada nascimento –, constituísse, à sua maneira, a abertura intemporal, intempestiva e intensa em que se tornou possível pensar. Perguntar-se sobre “o que resta…” demanda, essencialmente, lançar um olhar sobre o tempo: espreitar as forças, detectar a memória, o presente e os devires de nossas estruturas político-jurídicas, e diagnosticar em seu interior o legado autoritário que, longe de ser um anacronismo, constitui o presente inverossímil, inquietante e paradoxal que nos afeta e concerne.

 

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Infância e história. Destruição da experiência e origem da história. Tradução de Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

ARENDT, Hannah. A vida do espírito. Tradução de Helena Martins et al. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira: 2010.

_____. Entre o passado e o futuro. 6. ed. Tradução de Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2009.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Magia e técnica, arte e política. (Obras escolhidas; v. 1). 7. ed. Tradução de Paulo Sérgio Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. 2. ed. Tradução de Roberto Machado e Luiz B. L. Orlandi. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra. Um livro para todos e para ninguém. 17. ed. Tradução de  Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

_____. Deuxième considération inactuelle. De l’utilité et des inconvénients de l’histoire pour la vie. In : Considérations inactuelles I et II. Textes et variantes établies par G. Colli et M. Montinari. Tradução de Pierre Rusch. Gallimard, 1990.

SAFATLE, Vladimir; TELES, Edson (Orgs.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010.

* Comunicação oral feita durante a VI Semana de Extensão do Centro Universitário Curitiba, Faculdade de Direito de Curitiba. Blog: <http://murilocorrea.blogspot>

 

 

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