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População, qualidade de vida e desenvolvimento sustentável

A atual crise econômica mundial não deveria impedir que os chefes de governo do G-20 que vão se encontrar, em 02 de abril, em Londres, possam pensar em um "New Deal Verde", que combine investimentos na qualidade de vida da população, combate à pobreza e a formatação de um acordo global para substituir o Protocolo de Kyoto.

A população mundial era de cerca de 250 milhões de habitantes no ano 1 da era Cristã e passou para 500 milhões, em 1500. Até o final do século XVIII, o impacto global do crescimento da população mundial sobre o ambiente foi pequeno. Em 1804, a população mundial atingiu 1 bilhão de pessoas e as conseqüências iniciais da Primeira Revolução Industrial sobre o planeta foram apenas residuais até aquele momento. Por volta de 1922, a população mundial atingiu 2 bilhões de pessoas e as transformações econômicas provocadas pela Segunda Revolução Industrial começaram a transformar o mapa do mundo. Paralelamente à difusão do modo de produção e consumo industriais, o volume da população mundial continuou a crescer, acrescentando mais 4 bilhões de habitantes no restante do século, triplicando o estoque existente e atingindo mais de 6 bilhões de pessoas no ano 2000. Concomitantemente, o crescimento da economia mundial se deu em progressão ainda maior. Hoje em dia, não resta dúvida que as conseqüências da atividade econômica humana, tal como se deu historicamente, tiveram um efeito deletério sobre o ambiente natural, provocando alterações significativas no clima e nas condições de vida do planeta.

Ao contrário das previsões pessimistas de Malthus, o PIB mundial cresceu em progressão geométrica e a população cresceu em “progressão aritmética”. Segundo cálculos do professor Maddisson, o PIB mundial cresceu 40 vezes entre 1820 e 1992, enquanto a população mundial cresceu 5 vezes. Portanto, houve um crescimento da renda per capita mundial equivalente a 8 vezes neste período. A melhoria das condições econômicas, aliada à melhoria dos avanços médicos e sanitários, fez a esperança de vida ao nascer da população mundial subir de cerca de 30 anos, em 1900, para mais de 60 anos, no ano 2000.  Portanto, o alto crescimento demográfico do século XX foi o resultado da vitória humana sobre a mortalidade precoce.

Contudo, o “sucesso” do progresso econômico se deu às custas do fracasso da conservação e preservação ambientais e da incapacidade de se eliminar a pobreza e as desigualdades nacionais e internacionais. Este paradoxo entre sucesso e fracasso fez com que as idéias e previsões de Malthus fossem dadas como mortas, ao mesmo tempo em que eram ressuscitadas por outros pesquisadores.

Autores como Julian Simon e Bjorn Lomborg consideram que as hipóteses de Malthus são equivocadas e que a racionalidade humana e os avanços tecnológicos são capazes de resolver os problemas ambientais em uma situação de crescimento populacional. Simon (1998), em seu livro “The Ultimate Resource II: People, Materials, and Environment” , afirma que as taxas de mortalidade vão continuar caindo, o bem-estar vai continuar aumentando e que o crescimento populacional contribui para o desenvolvimento humano no longo prazo. Lomborg (2002), no livro “O ambientalista cético” , tenta mostrar, com base em diversos dados estatísticos, que os problemas relacionados ao meio ambiente não são tão sérios como se difunde e que deve-se priorizar os investimentos naquelas ações sociais que possibilitem maior retorno em termos de custo-benefício. Ele opõe o investimento no combate à Aids, malária e desnutrição – que trariam maiores retornos – ao investimento na redução de gases poluentes, por exemplo. Ambos os autores privilegiam o crescimento populacional e econômico e colocam em segundo plano o combate aos danos à natureza e ao aquecimento global.

Em um campo de pensamento diametralmente oposto, John Gray e James Lovelock consideram que o poder da tecnologia e dos avanços da racionalidade humana tem servido apenas para aumentar o poder do ser humano sobre o planeta à custa da degradação ambiental e da redução da biodiversidade. Em entrevista à revista Época , Gray (2006) apresenta um prognóstico pessimista sobre o futuro da humanidade: “A espécie humana expandiu-se a tal ponto que ameaça a existência dos outros seres. Tornou-se uma praga que destrói e ameaça o equilíbrio do planeta. E a Terra reagiu. O processo de eliminação da humanidade já está em curso e, a meu ver, é inevitável. Vai se dar pela combinação do agravamento do efeito estufa com desastres climáticos e a escassez de recursos. A boa notícia é que, livre do homem, o planeta poderá se recuperar e seguir seu curso”.

Na mesma linha, Lovelock (2006), escrevendo no jornal britânico The Independent, afirma que, como resultado do aquecimento global: "Bilhões de nós morrerão e os poucos casais férteis de pessoas que sobreviverão estarão no Ártico, onde o clima continuará tolerável". Para ele: "o mundo já ultrapassou o ponto de não retorno quanto às mudanças climáticas e a civilização como a conhecemos dificilmente irá sobreviver". Ele acredita que os esforços para conter o aquecimento global já não podem obter sucesso completo e a vida na Terra nunca mais será a mesma.

Assim, em pleno século XXI, persistem visões otimistas e escatológicas sobre a relação entre população e meio ambiente. Ao mesmo tempo, existe a necessidade de se combater a pobreza, que requereria políticas de apoio ao crescimento econômico e à distribuição de renda. Portanto, existe um desafio muito grande pela frente no sentido de avançar no bem-estar da humanidade, com redução da pobreza e da desigualdade, sem destruir o meio ambiente e as condições naturais que fornecem alimentos, água, ar, energia, matérias-primas, enfim, o substrato da vida na Terra.

A atual crise econômica mundial não pode servir de desculpa para a inação. Os chefes de governo do G-20 que vão se encontrar, em 02 de abril, em Londres, deveriam pensar em um "New Deal Verde", que combine investimentos na qualidade de vida da população (especialmente educação ampla e de qualidade), combate à pobreza e cuidado com as questões ambientais. Até o final de 2009, todos os países do mundo, sob o patrocinio da ONU, vão se encontrar para discutir um novo acordo global para substituir o Protocolo de Kyoto. Vai ser uma oportunidade para pessimistas e otimistas se acertarem e construirem uma alternativa viável para a sobrevivência da humanidade e de todas as formas de vida do Planeta.

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José Eustáquio Diniz Alves