Este País, Itália By Allan Robert P. J. / 08/02/2008 Share 0 Tweet Semana passada toquei num aspecto que quem não vive fora não consegue avaliar. Quando escrevo sobre a Itália, escrevo sobre o que vejo, sobre o que vivo. Não tenho a menor idéia de como estão as coisas por aí, mas por aqui as pessoas vão-se tornando cada vez mais dependentes da tecnologia. E por aí? Como vão as coisas? São tão diferentes dessa Itália das pizzas e gente virtual? Confesso ter certa dificuldade com a chamada tecnologia. Quem já leu o livro “Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas” certamente se lembrará do personagem que chamava a tecnologia de “aquela coisa”. Não chego a tanto, mas estou perto. Conheço alguns italianos que possuem dois ou três celulares, cada um com um operador telefônico diferente, “para aproveitar todas as ofertas.” Depois mandam SMS a si mesmos como se fossem amandas ou gabrielas e mostram aos amigos. Os mais jovens, na faixa dos 12 aos 20, passam o tempo trocando mensagens e fotos, inclusive durante as festas ou quando saem em bandos. É possível controlar a frequência escolar dos filhos através do site do instituto, enquanto algumas escolas já enviam SMS aos pais informando o horário de saída ou a ausência dos filhos. Como de resto já é possível fazer de tudo sem sair de casa, desde se cadastrar no cartório eleitoral, pagar contas, comprar entradas a teatros ou cinemas, candidatar-se a um emprego, fazer as compras do mês e toda e qualquer ação que possa evitar o contato com outros seres humanos. Tem muita gente fazendo sucesso e dinheiro, mas só virtualmente, em jogos onde cada um assume a personalidade que lhe convém, vivendo emoções virtuais em vidas paralelas àquelas reais, procurando compensar um certo mal-estar geral, que uma vez se chamava rebeldia sem causa, típica da adolescência, mas que vem atingindo também os mais maduros. Aprendizes de zumbis caminham a pé ou de bicicleta com os respectivos MP3, alienados à vida que corre ao lado, suada e assustada. Algumas empresas de telefonia móvel já oferecem a oportunidade de haver um único telefone, um único número. Quando em casa, é o telefone fixo que toca; quando na rua, é o celular, mas o número é o mesmo. A empresa concorrente oferece um celular que permite ter acesso à TV por satélite (deve ser complicado assistir ao jogo do timão no monitor do celular). E tem, também, a empresa que oferece num único pacote o telefone de casa, acesso à internet e TV digital. Deu fome? Pizza Express. Os cinemas lotados de celulares que tocam e acendem luzes, piscam e emitem bip; o falso maluco que parece falar sozinho enquanto caminha; a jovem de bicicleta que fecha os olhos quando no MP3 toca a música preferida e ela nem nota que quase causou um acidente no cruzamento; a senhora que controla no próprio celular se vai chover ou se deixa o guarda-chuva em casa; o motorista das entregas que vai seguindo a voz do navegador satelitário para não se perder. Um mundo coligado ao mundo todo, virtualmente. O ser humano tem essa capacidade de criar paradoxos curiosos: quanto mais cresce a população, mais as pessoas vão se isolando. Compartilhe isso:Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)MaisClique para compartilhar no LinkedIn(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Tumblr(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Telegram(abre em nova janela)Clique para compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Skype(abre em nova janela) Relacionado