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Kaká, o Ingênuo Garoto-Propaganda da Renascer

Kaká faz mais um gol no Boca Juniors e ergue a camiseta. Sob o uniforme do Milan aparece a repulsiva mensagem “I belong to Jesus”. Eu e minha mulher ficamos muito contrariados. O que fizemos contra Kaká para que ele nos agrida daquela forma?

Se eu fosse um jogador de futebol que estivesse jogando a final do Mundial de Clubes e, ao marcar um gol, mostrasse ao mundo uma camiseta apoiando a descriminalização do aborto, a liberação das drogas ou com a singela frase “Eu sou ateu”, ele e seus pares se sentiriam atacados, não?

Dizer que a propaganda de Kaká equivale a que, por exemplo, a Nike faz, é um absurdo. A Nike deseja vender seus produtos, supostamente os melhores, mas influencia apenas discretamente meu modo de ser e pensar. Já a propaganda de Kaká é de índole comportamental e religiosa. Seria apenas comportamental se dissesse ao mundo “Eu gosto de sexo oral”, mas, sendo religiosa, ataca não apenas comportamentos, mas outras convicções e culturas. Se ele fosse árabe e defendesse alguma postura fundamentalista, seria talvez punido pela FIFA, não? Fico imaginando o jogador Al Rachid comemorar um gol mostrando ao mundo sua camiseta “Mulheres, usem a burka ou não saiam de casa!”. O que Kaká faz é o mesmo que o meu Al Rachid faria: é desrespeitar as diferenças, pois seu Jesus me agride como agride a quem tem outros deuses.

A prática religiosa implica necessariamente em cooptação, pois só com grande quantidade de fiéis se auferem grandes lucros. Há pessoas que dizem que o ateísmo também é uma religião, mas isto é apenas uma inócua posição filosófica. O ateísmo não tem donos nem templos, não forma sacerdotes, não gera lucros nem faz propaganda, não se apresenta na forma de símbolos como santinhos ou bonequinhos sangrando presos a uma cruz. Além disto, os ateus não costumam manifestar-se ostensivamente e não procuram cooptar fiéis, apenas são agredidos pelos vendedores de verdades absolutas. O ateu é como alguém que chega a um disputado jogo de futebol e defende que aquilo é uma bobagem. Mas a analogia não é perfeita porque normalmente os aficionados deixariam em paz quem não gosta do jogo, enquanto os religiosos vêm incomodar quem quer ficar em paz.

Se fosse apenas isso, Kaká… Mas não é. A frase de Kaká tem um subtexto mais surpreendente e inadequado do que parece. O ingênuo menino com cara de anjo deveria escrito “I belong to Estevam Hernandes”.

Estevam Hernandez sempre foi um homem de vendas. Até 1986 era gerente de marketing da Xerox e então resolveu vender algo que não necessitasse de toner, manutenção ou garantia; resolveu vender Cristo fundando com sua mulher, Sônia, a Igreja Apostólica Renascer em Cristo. Como bom profissional, fez sua igreja crescer. Começou como um grupo que se reunia para orar na casa do casal; hoje é um império. Kaká é amigo de Estevam e Sônia, paga R$ 2 milhões anuais à Renascer e, para que mais fãs entrem em contato com a instituição, expõe nela a taça que recebeu como Melhor Jogador do Mundo. Há boatos – negados por Kaká – que a taça teria sido doada à Renascer.

A virtude não parece ser a principal característica dos santos pombinhos. Estevam e Sônia colecionam 51 processos contra si só em São Paulo e Brasília. Curiosamente, tais processos são movidos por devotos. A operação é sempre igual: imóveis são alugados para novos templos, compromissos são firmados mas raramente cumpridos. O problema é que os avalistas dos aluguéis são devotos , o mais das vezes pessoas simples, loucas para entregar-se a alguma fé. São eles, não o casal ou a igreja, que correm o risco de perder seu patrimônio.

Para completar, o casal cumpre pena num país onde há Justiça atuante. Eles foram presos nos Estados Unidos condenados pelos crimes de contrabando de dinheiro e conspiração para mais contrabando de dinheiro. Até agosto passado, o casal ficou em liberdade condicional e vigiada, quando Estevam começou a cumprir período de reclusão até 29 de dezembro. Agora será a vez de Sônia, que deverá cumprir 140 dias. Gente de primeira linha… Gente muito boa, diz Kaká… São amigos íntimos do craque que declara ter casado virgem e que a sogra não suporta. Uma beleza! Ou seja, há mais fatos implícitos no gesto da Kaká: quando ele ergue a camiseta, faz a propaganda da Renascer, convidando os potenciais fiéis a irem a um balcão de negócios, local de transações – convencionais e escusas -, evasão de divisas e roubo, tudo camuflado de fé em Cristo…

A novidade é que a lenta, pesada e equivocada Justiça Brasileira agora quer ouvir Kaká. É natural; afinal, ele convive e dá dinheiro a pessoas que lavam dinheiro. As perguntas do juiz Marcelo Batlouni Mendroni fará a Kaká não o fazem um criminoso, mas sugerem um ingênuo. “Qual é seu grau de amizade e que relação tem com as pessoas acusadas? Os acusados costumam freqüentar sua casa na Itália e no Brasil? O senhor costuma freqüentar a casa deles, no Brasil e nos Estados Unidos? A partir de 31 de julho de 2006, quando teve início a acusação por crime de lavagem de dinheiro, quantas vezes os acusados freqüentaram sua casa? O senhor tem conhecimento do fato que eles tiveram prisão decretada? Durante o período de vigência do decreto de prisão, as duas pessoas citadas ficaram hospedadas em sua casa, na Itália ou no Brasil?”.

Você pode me dizer que a Igreja Católica sempre fez o mesmo e lhe darei razão. O catolicismo amealhou patrimônio mais do que suficiente para pagar com folgas os processos por pedofilia de que é acusada, principalmente nos EUA. Mas acho sempre interessante analisar o que as religiões ocultam por trás da “salvação”.

(Secundariamente, gostaria de saber o que os muitos patrocinadores do craque pensam disso.)

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Milton Ribeiro