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Os Estaduais não servem para nada

Os campeonatos estaduais são um anacrônico resquício do passado e lá deveriam ficar, encrostrados em nossa nostalgia, lembrança de um Brasil mais pobre e provinciano.

Como gaúcho, vi coisas incríveis nos últimos anos: vi o Inter ser duas vezes campeão gaúcho enfrentando na final o XV de Novembro de Campo Bom. Numa das decisões – antes do jogo – o Inter já tinha contrato assinado com três jogadores do XV (Ediglê, Perdigão e Edmílson) e em outra com Dauri. É correto colocar clubes com interesses e capacidades financeiras tão diversas juntos? Os estaduais são um entulho entre competições mais interessantes e um pouco mais honestas como o Brasileiro, a Copa do Brasil – que deveria ser jogada no segundo semestre, a fim de não coincidir com a Libertadores, de modo que todos, até o XV de Campo Bom, pudessem jogá-la — e os campeonatos internacionais, como a Libertadores e a Sul-Americana. Quase todos os países de futebol significativo estruturam-se com Copa nacional – correspondente à nossa Copa do Brasil -, um campeonato nacional com jogos em turno e returno e uma ou duas copas continentais. Só nós temos excrescências como estes estaduais realmente muito chatos e suspeitos.

Suspeitos? Sim! Diverti-me hoje pela manhã com os jogadores do Juventude. Eu corria meus oito quilômetros e sorria enquanto eles afirmaram indignados não serem uma filial do Grêmio. Porém, curiosamente, insistiam em deixar a dupla informação no ar:

”Sim, as estatísticas mostram que nunca fizemos frente ao Grêmio, só ao Inter; nossa torcida não compreende o motivo, nós também não. Somos grandes, estivemos 14 anos na primeira divisão brasileira e nosso único problema é nunca ganhar do Grêmio. Aliás, ganhamos uma na época da Parmalat e outra em 94, né?”

Sabem tudo. Assisti entre amigos o último Grêmio e Juventude. Era o de sempre: o Juventude observava o Grêmio jogar de tal forma que um amigo meu (gremista) perguntou para mim: por que eles não nos marcam? Pois é. Há coisas que só podem ser explicadas pelo business. O Campeonato Gaúcho consegue ser pior que os organizados pela CBF. Lembram quando o Inter fugiu do anti-doping e não sofreu sanções, acabando campeão? Pois é. Lembram quando todos os jogadores da dupla Grenal era julgados rapidamente e absolvidos pelo tribunal e os coitados do interior eram suspensos? Pois é. E em Minas? Sabiam que em 2007 o Cruzeiro só jogava em casa ou nas imediações de BH, enquanto o Atlético fazia uma quilometragem 50 vezes maior? Pois é. Lembram quando Carlos Simon decidiu que o Inter ganharia do Glória e roubou, roubou e roubou do pobre time da Vacaria no Beira-rio, impedindo que a final fosse Glória X XV de Novembro? Pois é. Saí deprimido do Beira-Rio. Ganhar daquele jeito… Há coisas nos estaduais que só as federações e seus políticos explicam.

Mas há coisas ainda piores nos estaduais. O citado XV de Novembro só funciona 4 meses por ano, que é a duração do Campeonato Gaúcho. Então, não há qualquer atividade 8 meses por ano… Às vésperas do estadual, seus dirigentes contratam um time inteiro para aquele período. É uma festa para os pequenos empresários do futebol. Os jogadores moram em hotéis, não têm nenhum vínculo com a comunidade, nenhum compromisso com a população local, vão lá dar uma “enganada” para levar uma grana e fim. Se a situação do time estiver complicada, os jogadores nem recebem o último mês. Vão embora, às vezes processam o time. Fim. Futebol só daqui 8 meses.

Ora, se tivéssemos um calendário estável, com várias divisões, o XV poderia se qualificar dentro de um estadual para entrar na 4ª ou 5ª Divisão. Quando o XV entrasse numa destas divisões, seus dirigentes fariam um raciocínio óbvio: 4ª Divisão é uma coisa menor, com pouco público e pouca grana, “então, vou montar o meu time aqui, com a gurizada da cidade; e vou me planejar. Eu tenho por objetivo subir para a 3ª Divisão em 5 anos, para tanto vou montar esse meu time aqui de garotos de 17, 18 anos. Eles vão perder muito no primeiro ano, no segundo vão equilibrar, no 3º vão ficar ali entre os 8 primeiros, no 5º eu contrato uns dois ou três de fora e ganho. E disputo a 3ª Divisão com caras que eu formei na minha cidade e que já terão 23, 24 anos. Vou tentar depois a segundona, e assim por diante. Em todo lugar é assim.

Os estaduais, meus amigos, não servem para nada, não levam a nada. Melhor que acabassem.

Consulta: blog de Juca Kfouri.

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Milton Ribeiro