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A influência da Bauhaus e das formas da arte abstrata na música do Kraftwerk e do New Order.

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A precisão das linhas, a pujança das formas e a sobriedade das cores, impressionam quando observamos obras como o edifício Seagram em Nova York, do arquiteto Mies van der Rohe. O mesmo impacto se tem quando se vê também na geometria de Gropius ou nas formas centradas de Piet Mondrian. Há ali, um certo ordenamento, um sentido de confiança, uma tranqüilidade interna externando-se, absorvendo-nos aos poucos,organicamente como os quadros de Kandinsky. Quando eu observo essas obras, tenho imediatamente os sentidos tomados por uma “essencialidade”. Um dos grandes legados da escola Bauhaus é a ideia de que a arte não é apenas condicionada a estética, mas que pode servir a humanidade sendo útil, sendo funcional.[1] Uma coisa bela pode ser inútil, assim como uma coisa feia pode ser útil, sendo que esse paradoxo se dá de acordo com que você espera da arte, de como você aplica a arte em sua vida. Embora críticos de peso, como o jornalista Tom Wolfe reduzam a importância da Bauhaus, sem dúvida sua influência é acentuada sobre diversas áreas do conhecimento, da psicanálise á medicina, da física á música.[2] É notável a influência da escola alemã na obra dos também alemães do Kraftwerk e dos ingleses do New Order, sobretudo no que diz respeito a forma, função e padrões. Musicalmente falando, o Kraftwerk utiliza repetição de sons e combinações sobrepostas, criando texturas e ambientações geométricas. A mesma estrutura vista por exemplo em obras do pintor Lyonel Feininger.[3] As combinações rítmicas do Kraftwerk são perfeitas, criando harmonia e sentido, como nas obras de Gropius e outros arquitetos da Bauhaus. A música eletrônica recria justamente esse conceito de ordenação, na música “The Man Machine”, nota-se os encaixes perfeitos, sente-se as engrenagens internas funcionarem perfeitamente como num motor de automóvel. É tudo muito calculado, há simetria, como nas obras de Paul Klee, o equilíbrio em diálogo com a forma, o controle a serviço do olhar, e no caso do grupo alemão, o controle e o equilíbrio que se tem em Klee para o espírito através dos olhos, se dá através dos ouvidos.[4]

 

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Embora o Kraftwerk utilize moderna aparelhagem eletrônica e insira em seus shows performances com robôs e telões, sua música, que é o que nos chega mais cotidianamente, é minimalista. Utilizam-se de poucas estruturas num processo de multiplicação, são pontos de força, são sonoridades que criam sonoridades, no mesmo processo pictórico de Kandinsky, onde o mais importante não é a elaboração processual, mas sim o resultado último da obra, e em ambos os casos – como nas obras funcionalistas da Bauhaus – o que se destaca é justamente o quanto nos toca. A mesma estrutura é vista também no New Order, embora mais pop do que o Kraftwerk, mas há nas canções do grupo inglês a mesma retórica musical, a mesma estrutura geometral, a mesma repetição de acordes. Alguns críticos enxergam no Kraftwerk um grande ponto de renovação na música pop mundial. Sua influência começou a se acentuar após a decadência do punk no final dos anos setenta. E parte dessa influência é vista na obra do New Order, e alguns momentos mais intensa do que em outros, mas nunca deixando de ser notada.[5] O som do New Order é mais orgânico, mas próximo de Kandinsky, enquanto que o Kraftwerk é mais próximo de Mondrian. As texturas usadas pelo New Order são menos densas, mas segue a receita kraftwerkiana de “variações de minutos nos temas percussivos repetitivos”.[6] Outro ponto importante na obra do New Order é a objetividade. Embora não seja crua como a música punk e nem tão elaborada como o rock progressivo, a música feita pelo New Order cumpre de forma excelente o que se propõe fazer: entreter. O New Order não é um grupo político ou de crítica social, é um grupo dançante, e dentro dessa concepção de música, ignoram a complexidade das letras, enquanto que o som é privilegiado, multiplicando variações, como em “Sooner Than You Think”.[7] Já o Kraftwerk, além de crítico é irônico. Ridicularizam a sociedade tecnológica e caótica, principalmente sobre o medo nuclear instalado a partir da difusão das armas nucleares no pós-guerra. E assim como o NewOrder, também o fazem com exímia competência o que se propõem. 

 

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Ambos seguem o mesmo princípio das obras de Walter Gropious, uma interpretação da nova civilização metropolitana e tecnológica do século XX.[8] Cada um em um ponto do século XX, cada um cumprindo sua função, cada um fazendo a leitura exata do momento histórico ao qual está inserido, e da Bauhaus para os eletrônicos a lição, “a economia dos meios e a funcionalidade da arte”.[9]A mesma coesão das linhas e sobriedade, o mesmo colorido de Klee eu vejo e sinto no New Order. Canções ordenadas, máquinas trabalhando em linha de produção, seqüências idênticas, mas ordenadas, insistentemente ordenadas. Já o Kraftwerk é mais escuro, mais condensado, como a “Igreja de Domburg” de Mondrian. As mesmas linhas presentes nos trabalhos de Albers por exemplo, vê-se na dureza da música do Kraftwerk. Linhas de sonoridades estáticas – é só comparar “The Man Machine” com “Face Up” do New Order, as batidas mesmo secas do New Order são mais quentes do que som do Kraftwerk. Lembram imensos icebergs sonoros, prédios de gelo e de forma, como os edifícios de Marcel Breuer, quadrados, formas concretas e coesas, estruturadas como se o mundo fosse governado pelas formas figurativas dos sonhos de Kandinsky. A influência da Bauhaus continua viva mesmo após noventa anos desde sua criação. O funcionalismo se adéqua bem aos dias de hoje, essa ideia é de suma importância hoje, uma vez que o mundo atual é mais pautado pela aparência do que pela essência e funcionalidade. A indústria da moda é um exemplo disso, termos como elegância e beleza a serviço de quê? Kraftwerk e New Order são provas da adequação e da interação entre vários tipos de arte. A obra dessas duas grandes bandas, fazem com que os críticos da música eletrônica enxerguem que há musicalidade e expressividade nessa forma de música. A música nos remete as emoções, e também há evocações visuais, e essa conexão pode ser vista e ouvida num puro exercício de alimento para o espírito.

 

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[1] GOMBRICH, E.H. A história da Arte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1981. p.445.

[2] GONÇALVES FILHO, Antonio. O eterno fascínio da velha escola. O Estado de São Paulo, São Paulo, 17 maio. 2009. Caderno de Cultura. p. D1.

[3] GOMBRICH, E.H. Idem. p. 462.

[4] Idem.

[5] GORDIRRO, André. Robôs emocionantes. Show Bizz. São Paulo, n. 11, p. 70, novembro. 1998.

[6] DALTON, Stephen. Kraftwerk – The Man-machine. In: DIMERY, Robert. 1001 Discos para ouvir antes de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2007. p. 397.

[7] UEHARA, Helena. Joy Division/ New Order. São Paulo: Landy Editora, 2006. p. 104.

[8] PEVSNER, Nikolaus. Os pioneiros do desenho moderno. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p.212.

[9] GONÇALVES FILHO, Antonio. Idem. p. D2.

 

 

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Notas das imagens.

 

1. Edifício Seagram [Nova York – EUA] – Mies Van Der Rohe, .

2. Flora And The Sand – Paul Klee, 1927.

3. Church Near Domburg – Piet Mondrian, 1910-1911.

4. Yachten – Lyonel Feininger, 1929.

5. Composition IV – Wassily Kandinsky, 1911.

6. Gropius House [Massachusetts – EUA] – Walter Gropius, 1938.

7. Armstrong Rubber Co. Headquarters [Connecticut – EUA] – Marcel Breuer, 1968-1970.

 

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Kraftwerk – The Man Machine [Emd Int´l, 1978].

New Order – Low Life [Qwest/ WEA, 1985].

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.