A morte da arte no rock.

 

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A globalização à medida que aproxima as coisas as fragmenta também. O Google deixou tudo à mão, ao passo de um clique. Nesse mar de gigas e teras byte, a arte se perdeu e deixou de ser ars, técnica em latim, para ser ctrl+C, ctrl+V. Isso mesmo. Copiar e colar, um mero mínimo esforço da sociedade do conforto. Os saudosistas do vinil sempre nos dizem sobre as vantagens sonoras do formato, mas também há outro dado sempre citado: a arte das capas. A riqueza das capas sempre foi um atrativo a mais, o design sempre atraiu como um canto de sereia muitos audiófilos a armadilhas sonoras. Porém é inegável que tanto as artes gráficas quanto a fotografia já nos proporcionaram capas incríveis, da genial e simples capa de Robert Mapplethorpe para o disco Horses de Patti Smith aos trabalhos de Pushead, Todd McFarlane e mais recentemente Stefan Glerum. Entretanto, essa questão traz consigo um paradoxo. Não adianta ter capricho nas capas e o disco ser ruim, o essencial não pode ser secundário nesse processo. Porém toleramos capas ruins, desde que sejamos recompensados pelo conteúdo do disco. O que acontece hoje é que tanto conteúdo quanto a arte das capas é ruim, e uma coisa ao invés de compensar a outra, morrem abraçadas. O mundo de hoje se banalizou. Essa fragmentação a que me referi se dá inclusive no processo de concepção de um disco. É uma espécie de consonância da arte para o rock. O poeta francês Charles Baudelaire disse que Delacroix “era o último dos antigos e o primeiro dos modernos”, isso quer dizer que esse artista, mesmo na modernidade do século XIX, carregava consigo a tradição formativa dos antigos, a dizer renascimento. Em linhas gerais, a formação de um artista – do renascimento até a primeira metade do século XIX – passava pelo conhecimento da arte antiga, da poesia, da literatura, da filosofia, da física, da química e do engrandecimento do espírito. Alguém só poderia ser chamado de artista caso possuísse uma série de atributos considerados essenciais para tal ofício. Um quadro de Delacroix, de Ingres, ou do mestre Jacques-Louis David, é uma verdadeira conversação entre diversas artes – onde sem o conhecimento destas o observador não consegue compreender a obra. Por um tempo, o rock se diferenciou de outras manifestações artísticas populares por promover em nível diferente da pintura, um diálogo entre diversas artes. Bandas de Krautrock trazendo ao rock as obras de Brecht, John Lennon ao compor emulava Lewis Carroll, Pink Floyd criando trilhas para Michelangelo Antonioni, sem contar Thomas Miller, líder do Television que adotou o pseudônimo Tom Verlaine por causa do poeta francês. Artes plásticas, cinema, literatura, teatro, sendo como mundos no mundo do rock, círculos concêntricos, sendo esse centro o próprio rock. Era o rock elevando o nível de seus ouvintes – seja nas referências literárias das letras ou quando estampava nas capas trabalhos de artistas novos ou consagrados. Hoje o que vemos são massificação e alienação. Sonoramente não se cria mais nada. Chacrinha já decretava em sua máxima: “nada se cria, tudo se copia”. A maioria das bandas de hoje não são originais. São cacos ajuntados aqui e ali, nos anos passados, em fórmulas conhecidas apenas maquiadas de modernidade. A arte das capas hoje enfrenta um momento crítico, não apenas pela ausência no formato mp3. Ninguém se dá ao trabalho de pensar, então para que dificultar (o ouvinte, parte desse processo) enchendo de arte um disco de rock. Veja pelas estatísticas, o mundo lê cada vez menos, e quando lê, lê coisas que em nada engrandecem seu espírito. O mundo de hoje é o do resumo, é um mundo compactado pela tecnologia, por isso a arte está morrendo como técnica, reduzida apenas a conceitos. As bandas de hoje se preocupam apenas com visual – parecer, não ser, e muito embora não se interessem pela arte das capas, pelo menos que nos compensassem com bons discos. Bons discos, a dizer apenas boa música. Não posso dizer que tudo bem, façam capas ruins, mas também não posso obrigá-los a isso, mas que pelo menos se esforçassem em criar boas canções, coisas originais e não se limitassem apenas a copiar e colar. Essa colagem que vejo nas capas não pode ser chamada de arte. Não há criação, há recortes de coisas que já existem, é para mim apenas agrupamento, junção de coisas que têm algum sentido em seus contextos originais, mas que fora deles perdem sentido. Voltando a questão dos saudosistas do vinil, estou de pleno acordo, e mesmo com o cd, é de fato um deleite completo, tanto o ouvir grandes canções como contemplar um belo encarte, não apenas informativo, mas também rico em imagens, em arte. Temo muito pelo o que há de vir ainda, pois como a junção arte-rock a muito se perdeu e o rock hoje é guiado pelo movimento new rave, cheio de cores vazias, sem conteúdo e sem criação, as coisas vindouras não nos dão esperança de que nossos espíritos voltem a ser plenos, como um dia já foram.

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.