Beleza, networking e nascimento.

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O que é sucesso? É o que Geyse Arruda conseguiu ou é o que ela ainda está em busca? O mundo de hoje define sucesso pelo número de discos que você vende ou por quanto seu nome agrega valor e cifras. O que muitos se esquecem é que o que vende muito é porque é apreciado pela massa, e a massa como sabemos, possui um gosto duvidoso. Logo não podemos associar popularidade e lucratividade com qualidade. Há quem consiga aliar as duas ou três características, mas é raro. A qualidade é o quesito mais difícil de manter em uma carreira. Consistência é a palavra. Acredito que exista um ápice criativo nas carreiras e em igual proporção um momento crítico, um declínio até natural. Talvez o melhor e mais bem acabado caso disso seja o Chico Buarque, que após décadas lançando grandes obras, parou sua carreira musical por não mais conseguir em um dado momento – presumo eu, manter a mesma qualidade de outrora. Isso chama-se bom senso. Roberto Carlos já não usou desse expediente. Continuou usando seu nome e prestigio para sustentar uma carreira cujo o momento crítico havia chegado. Porém não é só porque seus discos continuavam vendendo que isso denotava qualidade. Mas os caminhos do sucesso também passam por outras áreas, não apenas o reconhecimento da qualidade de seu trabalho, de um legado deixado para as próximas geração, veja Mozart por exemplo, sua obra já perdura há mais de 200 anos – o tempo de sua morte. Mas hoje se estivesse vivo – mesmo sendo um gênio da raça, com certeza seria menos rico que 50 Cent por exemplo. Há também o componente da exclusão, você pode ser bom e bem sucedido e bom e mal sucedido, em compensação você pode ser ruim e bem sucedido, o que é absurdo levando em consideração uma lógica construída por Platão, mas que fora assassinada pela indústria de massas. O sucesso não é apenas atingido pela qualidade, aliás, isso é um mero detalhe, é como diz Parreira sobre o gol no futebol, um mero detalhe. Os programas reality shows de talentos jogam na nossa cara o que eles julgam ruim e inadequado para o sucesso, mas eu me questiono, e o que eles apontam e aprovam como bom e apto para o sucesso realmente presta? Na frente da qualidade hoje, temos pelo menos três itens: beleza, networking e nascimento. A beleza é um mero desvio do acaso. Há crianças lindas geradas por pais feios e crianças feias geradas por pais bonitos, então, a combinação genética é fruto do acaso. Ironias de lado, quero dizer que se você tiver um rosto bonito, se encaixar no padrão de beleza vigente ou possuir um corpo esbelto, você já têm um terço do caminho percorrido. Exemplos existem vários, vou citar apenas dois: As mulheres frutas e Carla Perez.

 

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 Seus atributos são bundas grandes e rostos bonitos, nos vendendo uma sensualidade virtual. Enquanto estão quietas e apenas dançando vá lá, agora quando vão cantar, é um desastre. Não precisão de talento, apenas usam o que têm, ou seja, ganham a guerra com as armas que possuem, e fazem sucesso, fama e muito dinheiro apenas com o corpo. Outro quesito é o networking. Nesse a beleza também pode exercer papel fundamental. O networking é traduzindo de forma simplificada é uma rede de trabalho, que funciona como uma agenda de contatos profissionais e para outros fins. Porém hoje você não se torna conhecido ou consegue contatos por que possui atributos especiais, mas por qualquer motivo ou motivo nenhum. A Geyse é celebridade, conhece pessoas no mundo artístico, mas o que ela têm de mais que justifique isso? Nada. Basta ou você bajular, sair ou conhecer alguém que tudo se ajeita. Hoje a coisa funciona na base da canetada ou do telefonema, o amigo do meu filho têm uma banda e eu conheço um empresário que pode dar uma força, pronto, como disse Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Mesmo com a internet, rádios e a tevê continuam sendo grandes ferramentas de divulgação, agora diga se não é mais fácil quando você conhece alguém que conhece alguém que é amigo de um amigo que é amigo do Faustão, do Raul Gil ou de um diretor da MTV ou da 89 FM? O outro item da lista é o nascimento. Esse é o mais facilitador do sucesso, mesmo que temporário. Ter berço é meio caminho andado para o sucesso, quer um exemplo, Fiuki. Eu não vejo talento nele nem para música e nem para dramaturgia, mas com pai famoso tanto em um quanto no outro ramo – Fábio Júnior, as coisas facilitam. Isso por si só abriram todas as portas para ele, mesmo não possuindo talento algum. O Edinho só jogou no Santos porque é filho do Pelé, se fosse mais um garoto de campinho de terra de periferia jamais tinha chegado lá porque não têm talento e mesmo sendo filho do maior jogador de todos os tempos isso ficou provado. No mundo da música há casos de talento hereditário, mas que não se descarta o berço de onde é oriundo. A Sandy principalmente agora em carreira solo, mostra que têm algum talento, mas o fato de ser filha de Xororó lhe abriu muitos caminhos que teria que percorrer sozinha com a incerteza de conseguir. Léo Maia, Maria Rita, Luiza Possi, Preta Gil, entre outros, são frutos do mesmo processo, uns com talento e berço, outros só com berço, mas o berço sendo fator importante – não necessariamente determinante para o sucesso. Conseguir algo hoje apenas pelas habilidades inatas que o indivíduo consegue potencializar a que chamamos de talento, é muito difícil. Você pode ser talentosíssimo, mas se não tiver uma boa imagem, não conhecer ninguém e for filho de um qualquer, esqueça, suas chances são as mesmas de um espermatozóide em meio há milhões de outros.

 

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Portanto, a música hoje em dia para um indivíduo comum ou é hobby ou teimosia, pois vencer num mundo injusto como o nosso e que não valoriza o talento é tarefa para um exército de Hércules. Por isso eu sempre digo que a música é elitista e aristocrática, inclusive a popular, pois não privilegia os melhores, os mais meritosos, mas sim os melhores nascidos, o que não significa que sejam os melhores, na acepção da palavra.

 

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.