Bieber, chupetas e outros vícios.

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Minha sobrinha seria uma adolescente normal caso não tivesse apenas 4 anos de idade. Ela também seria uma criança normal caso não gostasse de Justin Bieber. Ela ainda está numa fase de descobertas, de um mundo povoado por letrinhas, canções infantis e bichinhos animados dando olás fofos e sorridentes. Antes de chegar às paixonites comuns aos adolescentes, há muitas brincadeiras de rua, como pega-pega, ou pular corda, amarelinha, entre outras, até que essa fase chata da vida das pessoas chegue. Pois com minha sobrinha isso aconteceu muito precocemente (não as paixonites), aos já ditos 4 anos de idade. Nessa idade é comum o apego a ursinhos de dormir, a amigos imaginários, a amiguinhos reais e as chupetas. Talvez o apego a chupeta, seja o traço comum entre minha sobrinha e as demais crianças de sua idade. Ela aprendeu cedo a ligar e mexer no computador, porém o que antes se resumia a joginhos de lógica infantil, se transformou em uma “biebermania”. Não sei o que esse menino fez (e têm) para enfeitiçar minha sobrinha e milhares, ou até milhões de outras adolescentes e meninas mundo afora. Não sei que tipo de ópio há nessa figura, naquela voz, naquele jeito que faz com que ela só fale nele o tempo todo. É toda hora – “Mãe posso ver o Bieber, Mãe põe o Bieber, Mãe o Bieber isso, Mãe o Bieber aquilo”. Tudo agora se resume a ele. Ela fica nas nuvens quando o vê, a simples chamado de seu nome a faz parar tudo que está fazendo para vê-lo, é realmente um vício. Com seus 4 anos de idade ela já sabe cantar seus principais hits, de “Baby” a “One Less Lonely Girl”. A língua é um inglês enrolado que apenas acompanha o ritmo da música, onde uma vez ou outra, ela acerta meio por acaso uma palavra. Canta no ritmo, e quando a música começa a esquentar, ela levanta, afasta tudo e começa a dançar. Os seus passos são desconexos aos do seu ídolo, ela na verdade inventa sua dança, e ri, e aí de quem a interromper chamando ou apenas a irritando. Perguntei a ela o porque dela gostar tanto assim dele, ela me respondeu que a música é legal, que o cabelo dele e as roupas são legais e que gostaria que ele fosse seu primo. Dia desses fiquei observando ela assistir seus clipes. Os olhos dela estavam atentos, fixos, sem se desviar um segundo se quer para olhar o mundo a sua volta. Sua expressão era de uma felicidade sincera, de uma criança que apenas vê naquilo uma diversão, não uma paixão algo erótica como as garotinhas de 12, 13 e 14 anos vêem. Ela ainda não chegou nessa fase, nem mental e nem corporal, apenas vê nele um primo, um amiguinho e não um namorado. Já percebi que o que atrai ela para essas músicas é agitação do ritmo, as mil e uma possibilidades de mexer o corpo. Ela é uma criança muito ativa, que não suporta ficar quieta brincando de bonecas no quarto. Adora movimentos, pular, correr, dançar pelo espaço, pelos poucos metros quadrados de sua casa, que muitas vezes é pequena para as aventuras que ele imagina na mente. Justin Bieber a liberta eu diria, ela se vê um pouco na juventude dele, na liberdade dele, na figura meio andrógina dele, como um Pequeno Príncipe, corpo de menino e jeito de menina.

 

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E assim eles dançam, os dois, um de cada lado da tela, numa parceria imaginária que funciona bem, para prendê-la por muitos minutos no quarto em frente ao computador sem dar outros trabalhos aos seus pais. Outra questão também é a ambiental. A menina está crescendo num ambiente muito adulto, onde ela interage no dia-a-dia apenas com adultos, onde o mais próximo dela – um certo “Tio Bau”, é 22 anos mais velho do que ela. Ela é uma menina muito esperta, madura para seus 4 anos, onde muitas vezes nos surpreende com assuntos e um raciocínio incomuns a sua idade. Então ela têm também um quê de ser mocinha, de ser grande, de gostar de coisas de menina mais velha, maquiagens, roupas, espelhos, etc., então seu gosto pelo Bieber é um certo reflexo desse avanço etário. Ela não faz à mínima ideia do que falam aquelas letras, do que significam direito muitas daquelas imagens, mas todo aquele repertório vivo e agitado a atraem por sua natureza inquieta, ela se identifica com aquilo. Neurologicamente também suponho que ocorram reações prazerosas para ela, ativando substâncias, inibindo outras, causando sensações, e a ajudando-a a evoluir. O exercício de cantar, dançar, de coordenar os movimentos, exige uma alta atividade cerebral, o que é positivo independentemente do tipo de música em questão. É claro que para nós adultos, overdoses de Bieber fazem mais mal do que bem, mas para ela, ao contrário, faz mais bem do que mal. É claro que essa fixação em Justin Bieber não vai durar para sempre, assim como ela não vai chupar chupeta pelo resto da vida, pois os vícios são assim, tomam conta por muito tempo e depois são trocados por outros, outros vícios.

 

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.