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Black Box Recorder – a doce armadilha que fixa na mente.

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Tudo começou num dia qualquer de 2001 – cheguei da escola, fiz meu ritual noturno e antes de dormir, programei meu videocassete para gravar os videoclipes da madrugada na MTV. Acumulando fitas e fitas durante a semana, só pude ver e editar tudo no final de semana – e olhando fita por fita, vídeo por vídeo, em meio a muitas coisas ruins, inusitadas e propagandas, lá estava o videoclipe mais curioso que eu já tinha visto até então: “Child Psychology” do grupo inglês “Black Box Recorder”. O clipe em preto e branco, mostra uma garota numa escura, densa e medonha floresta, sozinha tomando um banho de banheira. Enquanto a música suave vai tocando (e ela cantando) – sua figura se intercala com a de uma menina de seis anos de idade que simula na banheira vários vezes suicídio. A música estranhíssima, mas ao mesmo tempo cativante – escondia por trás de uma inocência, intenções perversas. Nessa época a internet começava a se tornar mais acessível às classes menos abastadas – logo minhas fontes de informação eram as lojas da galeria do rock e as revistas de música. E justamente na edição 190 da Revista Showbizz de maio de 2001, saiu uma matéria sobre o Black Box Recorder. Através dessa matéria eu soube que a música “Child Psychology” foi proibida nas rádios inglesas e o videoclipe vetado na MTV por conta de seu refrão: “a vida é injusta, mate-se ou supere isso”. É claro que isso causou em mim o efeito reverso – ao invés de me afastar me atraiu ainda mais. Como o disco não tinha nas lojas, eu precisei importá-lo – e foi assim que consegui ter acesso a essa preciosidade chamada “England Made Me” – o primeiro disco da banda. Após audição e pesquisa a respeito do disco, descobri que a vocalista Sarah Nixey canta todas as faixas com um tom intencional e perversamente infantil, justamente para não deixar transparecer a acidez das letras e nem seus reais significados. É claro que a mídia inglesa lembrou-se de Charles Manson e suas declarações após matar Sharon Tate de que haviam mensagens secretas na canção “Helter Skelter” dos Beatles. Só que no caso do Black Box Recorder não se tratava de mensagens secretas – mas sim de um refrão explícito que aconselhava a pessoa a tirar a própria vida ou resolver seus problemas. O refrão é a parte da música feita para ser decorada e cantada incessantemente – e o refrão de “Child Psychology” realmente era pegajoso e cativante – uma voz doce, inocente, uma batidinha suave de violão e sinos de ninar no fundo, realmente ficavam na mente. Depois de tanto ouvir o disco, e essa faixa em especial – passei a cantar intuitivamente o refrão. Às vezes distraído, me pegava balbuciando o refrão. Porém o que eu repetia eram versos destrutivos – ou até realistas de acordo com cada realidade – que poderiam me influenciar de alguma maneira. Segundo o pesquisador Julian Treasure, “os sons têm um efeito psicológico” e podem nos influenciar dependendo da associação que fazemos. Da mesma forma como nossa visão capta todas as imagens que nos vêm e nosso cérebro filtra tudo isso armazenando em lugares diferentes – consciente e inconsciente, nossa audição faz o mesmo. Embora a maioria de nós não tenha ouvido absoluto – nossa audição capta muitos sons ao nosso redor, porém o filtro cerebral não nos faz processar conscientemente tudo. E realmente, a música possui uma poderosa capacidade de marcar nossas vidas – é só perceber que a maioria das pessoas têm uma trilha sonora para um amor, ou uma música que se lembra do pai ou da mãe, ou da infância, etc. Treasure disse sobre o tipo de associação que a pessoa pode fazer com a música – então pense o seguinte cenário: a indivíduo passando por problemas emocionais ou financeiros, como num efeito dominó tudo dando errado – então aparece uma música com refrão cativante onde as palavras chaves são: “a vida é injusta” e “mate-se”, qual associação pode-se fazer nesse caso? Tudo isso levando em consideração que há pessoas altamente influenciáveis. Após comentar sobre a canção com meus amigos, todos se interessaram para ouvir também. Então eu emprestei o disco há pelo menos dez amigos, e esperei os comentários posteriores. O resultado foi que pelo menos oito deles ficaram com a música na cabeça também. E porque ela fixa na mente? Justamente pela associação que fazemos. Treasure diz que: “muitos acham o canto dos pássaros reconfortante, pois ao longo da evolução aprendemos que tudo está tranqüilo quando os pássaros cantam. O mar nos relaxa, porque tem uma freqüência de 12 ciclos por minuto – a mesma de nossa respiração quando dormimos”. Ou seja, ao associarmos à voz Nixey à doçura e o refrão – até algo infantil, a tranqüilidade, mandamos para o nosso cérebro (córtexsistema límbico) um estímulo positivo, em resposta o cérebro libera (através do hipotálamo), hormônios como a ocitocina – causando sensações de prazer. E como o ser humano quer repetir sempre o que é bom, seletivamente tendemos a guardar aquilo que nos traz benefícios (nesse caso o refrão). Alguns críticos a época acusaram o Black Box Recorder de incitar o suicídio – justamente pela perversa armadilha sonora criada por eles. Porque não compuseram o refrão dissonante e gutural? Porque não associaríamos com coisas boas – é só percebermos os efeitos que os sons do trânsito provocam nos motoristas e motoqueiros. Muitos não suportam mais o barulho dos motores, escapamentos e buzinas – e freqüentemente se dizem estressados. Treasure diz que barulhos de sirene por exemplo, geram em nosso corpo uma descarga do hormônio cortisol – que acelera nosso coração (que não é uma sensação boa). Portanto eu recomendo cuidado nas audições, pois nunca sabemos as intenções por trás dos versos ou das vozes e dos arranjos. As músicas mais delicadas e infantis, podem ser grandes lobos vestidos de cordeiro – querendo nos influenciar a comprar um produto, votar num candidato ou até cometer homicídio ou suicídio. E ainda mais num mundo onde não se pode mais confiar nas pessoas, até a música perdeu sua inocência.

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.