Gostos Inconfessáveis.

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Podemos não admitir, mas todos temos gostos inconfessáveis. Aquelas músicas ou artistas que só ouvimos em casa, de preferência de madrugada para ninguém ver ou ouvir. Geralmente esse gosto é marcado pelo brega ou pelo trash, por coisas de qualidade meio duvidosa pela maioria. A inadmissão se dá por conta de certos compromissos que você assume com certos grupos, seja de amigos ou de movimentos específicos. Metaleiros curtem Metal, pagodeiros Pagode, funkeiros ouvem Funk, e assim por diante. Então quando você se identifica com um grupo, logo você precisa seguir certas regras, principalmente quanto a exclusões. É como na oposição binária de Lévi-Strauss, onde Rock é necessariamente o oposto de Samba – partindo de ambos os lados. Porém assumir certos gostos em público ou em conversas é uma questão de personalidade. Mas essa é uma fase compreensível da vida, principalmente quando se é muito jovem. Quando se começa a descobrir mundos no mundo, logo um conflito acontece. É como estar na linha do meridiano de Greenwich, ou põe um pé no ocidente ou no oriente. Então o que se faz é por um pé em cada, ouvindo um estilo no grupo e outro quando se está só. Por isso que o melhor é ser como cantou Zeca Baleiro: “eu não sou negão, eu não sou judeu, não sou do samba nem sou do rock, minha tribo sou eu”. Quando você se desvincula de um grupo, você passa a não mais ter compromissos com ele, aí você se torna livre para ser o que quiser e para sair mesmo do armário. Certa vez surpreendi um amigo (que não vou revelar por questões óbvias) numa situação digamos, embaraçosa. Fã convicto de Metal Extremo, cara de mal, rebites e couro, na frente de todos e na rua era o “metaleiro”. Algumas garotas até suspiravam por ele e por sua pose de mal. Um dia eu fui na casa dele sem avisá-lo, bati a porta e a mãe dele me atendeu. Ela me mandou entrar e ir direto até o quarto dele. Quando eu entrei, o vi dançando e cantando feliz da vida, Abba e Bee Gees. Que combinação não, Death Metal com Discothéque. Esse é um caso de falta de personalidade, pois qual o problema dele ouvir esses dois tipos de música tão dispares, qual o problema? Não podemos nos envergonhar daquilo que somos. Pois somos um pouco do que ouvimos (claro, não literalmente). Muitas pessoas conhecidas e famosas já admitiram alguns gostos “duvidosos” – o crítico Zuza Homem de Mello confessou gostar de Roberta Miranda, o ator Vagner Moura é fã de Odair José e Reginaldo Rossi, assim como Rodrigo Amarante dos Los Hermanos. É claro que famosos têm uma certa blindagem, onde isso não soa tão mal aos ouvidos do grande público. Mas veja, esse mesmo grande público – a dizer, o povo, tão cativo nessa situação é o grande censor dos gostos de si mesmo. Na vida pública cotidiana, admitir gostar dessas coisas é quase uma ofensa, quase uma agressão. Se gostar de certas coisas é ofender as pessoas, deixar de gostar ou se esconder é uma ofensa a si mesmo! Mas é fato, todos temos um gosto peculiar, para usar um eufemismo. 

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O meu eu vou confessar. Há, não sei! Vou dizer vai. É “Roxette”! Imagine a cena agora, bochechas coradas, olhar esquivado, intervalo de silêncio esperando o riso ou os comentários. É como um divã, ufa! Desabafei. Por muito tempo eu escondi que gosto de Roxette, por vergonha de meus amigos, do que eles iam dizer ao saber. É como se isso fosse denegrir minha imagem, manchar minha reputação. Mas pelo contrário, é assim que você mede se um homem está pronto (veja também como ele se comporta quando vê uma barata). Tive coragem de dizer, e disse mais, “Have Must Been Love” e “Listen To Your Heart” marcaram momentos inesquecíveis em minha vida. E são boas canções, e porque é que o deixariam de ser só porque são pop? Músicas açucaradas, quase diabéticas, que marcaram momentos, amores, amizades, um tempo que se estou lembrando agora é porque foi bom. E qual o problema com o Roxette? Isso mudou o quê, ou melhor, o que mudou na minha vida em admitir isso? Mas o que mais me atrai são as histórias, os artistas “toscos” que às vezes você nem imagina e a pessoa gosta e a diversidade. Aí você vai numa festa e vê seus amigos cantando “Sandra Rosa Madalena” do Sidney Magal. Eu acho isso demais. E eu como não sou partidário da excludência, acho bastante comum um sujeito ouvir Pere Ubu, dodecafonia, Eurythimcs e Anthrax, qual o problema? E como disse Carlo Ginzburg, “nenhum homem é uma ilha”, eu diria, nenhum homem “deveria” ser uma ilha, mas o são, “a humanidade é uma ilha, uma porção de arrogância cercada por ignorância por todos os lados”.

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.