Maslow, o CD e algumas considerações lógico-econômicas.

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O romantismo do vinil não se dá apenas pelo chiado das velhas vitrolas ou pelo aveludado som liberado por ele (lembrando, o som do vinil é melhor do que o do CD). O charme também envolve as capas e toda riqueza dos encartes. Hoje em outra proporção, o CD também passa a exercer o mesmo fascínio. É inegável que ter a obra original é diferente, o acesso as informações no encarte, a qualidade do som (formato wave), a arte, etc. Entretanto, devemos levar em consideração que, as pessoas que se abrem mais a tipos variados de música ficam em desvantagem nesse processo. Explico. Não dá para descobrir novos artistas ou (novas) sonoridades, comprando discos originais. O custo é um dos principais impeditivos. Custo esse já do CD nacional, isso sem contar às bandas que não saem aqui e que você precisa importar e arcar com todos os custos envolvidos. Agora quem se fecha em um estilo – tipo o sujeito que só ouve punk rock, ou só metal, ou só rap – ele se foca no que gosta e se limita na limitação (sic) do seu próprio estilo. A limitação tem seus riscos. Um deles é a intolerância com outros gêneros e com quem ouve esses gêneros. O sujeito pode dizer que não gosta de pagode, agora há dizer “morte aos pagodeiros”, é além de intolerância, é estupidez. “A juventude envelhece, a maturidade é superada, a ignorância pode ser educada, a embriaguez passa, porém a estupidez é eterna” (Aristófanes). Desejar a morte do outro (mesmo no plano figurativo) só porque ele ouve algo diferente de você não é uma atitude digna de aplauso. Retomando ao foco, a questão é que comprar CD´s hoje se tornou muito caro. Até a pirataria deixou de faturar com CD´s – pois o indivíduo baixa o disco em sua casa e usa outras formas de executar essa música. Até a tecnologia percebeu isso, muitos aparelhos de som para automóveis já vem com entrada USB para pen drive ou tocadores de mp3, dispensando a utilização do CD (embora ainda venham com essa função). Segundo a pirâmide de Maslow, certas coisas são consideradas de maior necessidade em detrimento de outras. Comprar CD´s originais em países desenvolvidos é uma coisa, comprar em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos é outra. Qual a grande diferença? Nesses primeiros a estabilidade econômica controla a inflação, aumenta o PIB e a renda per capita dos cidadãos, enquanto nos outros, a inflação dispara os preços e as condições de vida se tornam cada vez mais temerárias. Isso sem contar fatores de renda per capita e distribuição de renda. Aplicando “rasamente” Maslow nessa questão, o que é de mais necessidade, o último disco duplo da sua banda preferida ou o arroz e feijão do almoço da família e o leite dos filhos? O bom senso não deixa dúvidas! Se o país fizesse sua parte economicamente (e socialmente) falando, proporcionando ao cidadão que suas necessidades primeiras fossem supridas sobrando um excedente para outras coisas, aí sim, comprar CD´s originais seria aceitável. Leve em consideração que uma pessoa gosta de mais de cinqüenta artistas, que alternadamente lançam discos a cada dois ou três anos. Nesse ritmo de lançamentos, os gastos com CD´s seriam enormes no longo prazo. Use o mesmo raciocínio com a cesta básica.

 

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No mesmo período compare custos e benefícios. Há quem vá me dizer que se gasta também com internet. Inegável. Mas o uso da internet não é tão limitado quanto o do CD, e mais, o custo da banda larga vem caindo vertiginosamente devido entre outras coisas a popularidade do meio e a concorrência entre as empresas do ramo (além de novas formas com 3G). Em média um disco nacional está em torno de 30, 40 reais, e o importado 60, 70 reais. Usando o valor máximo – 70 reais – coloquemos esse valor como o custo da internet por mês. O valor que você gastou para comprar um único CD, você acessou a rede durante um mês inteiro e baixou quantos discos pode durante esse período. Não é uma defesa da pirataria, mas sim uma alternativa aos preços abusivos. Isso sem contar a finitude do espaço para guardar os CD´s (refiro-me ao espaço residencial). Haverá um dia que você terá tantos discos que não terá também onde guardá-los. Li há muito tempo atrás uma matéria com o Zeca Camargo onde ele dizia que se desfez de grande parte de sua coleção – parte por que não ia ouvir e parte por falta de espaço. Com o mp3 (guardados sob gravação em mídia ou em HD externo) não há tanto o perigo da limitação (há o mesmo perigo da degradação do tempo pela ação do oxigênio na mídia). Numa mídia cabem cerca de 40 discos de tamanho e qualidade médios. 40 Cd´s ocupariam o espaço de: 40 X 40 = 1600, mil e seiscentos discos completos em mp3. Tem a questão da qualidade eu sei, mas há compressões e compressões, umas com mais e outras com menos qualidade, mas que no geral dá para apreciar a música (principalmente a noite). Outra questão é grande roleta russa que é comprar CD´s de bandas desconhecidas para diversificar o seu repertório. Eu por exemplo, já acertei muito, mas também errei muito. Acertos no escuro foram os brilhantes discos de Emiliana Torrini (Love In The Time Of Science) e Black Box Recorder (England Made Me). Já o fracasso retumbante, foi o disco homônimo da banda Man Will Surrender. Com detalhe, meu gasto somado com os três, foi na época (2001 – cenário de crise), 195 reais. Lembrando que na época o salário mínimo era 180 reais. Usando Maslow novamente é um despautério. Pais de família sustentavam casas com o dinheiro que eu gastei com CD´s, incluindo um que eu não gostei. O mp3 é uma alternativa de se conhecer um mundo que existe mas que muitos se fecham para ele, porque estão imersos em seus estilos e nas convenções que os cercam. Comprar CD hoje é tão caro quanto em qualquer época de 1997 até hoje – crise e instabilidade econômica somadas no terceiro mundo, resulta em salários congelados e preços aquecidos. Perde-se na arte dos encartes, no charme, mas ganha-se no bolso e principalmente no aumento do repertório e da cultura, que por sinal o preço é inestimável.

 

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.