Me surpreenda… ou se deixe surpreender.

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Esse é início da coluna dentro da coluna – ou se preferirem da meta-coluna “Revirando o Arquivo”. Nessa meta-coluna vou tratar apenas de discos da minha coleção pessoal, onde vou contar histórias, resenhar discos, indicar, recomendar, enfim, falarei aqui apenas de coisas que tenho e ouvi.

 

 

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Sabe quando você começa a baixar/comprar discos e discos sem parar e sem organização e quando você se dá conta há um oceano de álbuns não ouvidos? Isso acontece comigo com alguma freqüência. Dia desses, eu estava vasculhando as milhares de pastas para ver o que gravar primeiro e como eu sou um mortal como qualquer outro, funciono melhor ouvindo música. Dentre as muitas coisas, fiquei sem saber o que ouvir. Olhei as capas, medi a duração das canções e nada. Passando os olhos pelos nomes, um saltou-me a vista, Wes Montgomery. Eu já ouvira tal nome antes, mas não me lembrava nada sobre ele. Não sei por que o nome “Montgomery” me remeteu a algo de blues, e como eu não sou fã de blues, logo resisti a ouvir o disco. Pensei naquele blues tradicional, naquelas levadas manjadas e naqueles solos intermináveis. Até que me veio à mente uma primeira informação sobre o artista, Wes Montgomery é um guitarrista. Não ajudou muita coisa, ou melhor, piorou. Pois sempre associei discos de guitarristas com longas e chatas viagens musicais cheias de solos e virtuoses. Deixei mais uma vez o disco de lado. Porém Wes Montgomery insistia em aparecer. Folheando revistas antigas, li uma resenha de um disco seu qualquer, o crítico falava mal e ocultamente me dizia para não perder meu tempo em fazê-lo (ouvir o disco). O falecido Wes então resolveu agir de alguma forma. Aleatoriamente enquanto eu falava ao telefone, fui clicando em qualquer coisa no computador e nesse processo, inconscientemente abri a pasta e ativei uma música no programa tocador. A melodia era linda. O som era calmo e agradável e me fez subitamente parar a conversa e pedir um momento. Quando verifiquei o que era, era “Greensleeves” de Wes Montgomery. Minha reação instantânea foi dizer: “nossa, que coisa mais linda!” E então pus o disco para rolar desde a primeira faixa. Realmente foi um primor a audição, de uma sofisticação e de um bom gosto raros, daqueles que só se encontra par apenas em Pat Metheny e Andy Summers [por sinal admiradores de Wes]. Enquanto eu ouvia o disco, lembrei-me de um outro disco de Montgomery cujo a capa é uma mulher sentada numas pedras, com semblante triste e um mar azul ressacando na costa. Já havia lido em algum lugar coisas negativas do disco (nunca o ouvi), coisas dizendo que a capa é brega, entre outras coisas – então liguei uma coisa à outra, talvez a má impressão que fiquei de Wes Montgomery tenha sido por conta dessa capa e desse comentário. Mas ao ouvir o disco “Road Song”, tal impressão foi desfeita. Um disco lindo, primoroso, com uma banda de acompanhamento incrível. Wes Montgomery foi um grande guitarrista de jazz, nascido em 1923 e morto em 1968 em Indianápolis no estado de Indiana nos Estados Unidos. Road Song foi seu último disco, e talvez por isso traga o guitarrista no auge de sua forma. As canções são todas instrumentais, num clima de descontração totalmente contrário ao momento que vivia os Estados Unidos – auge da luta pelos direitos civis dos negros e morte de Luther King.

 

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Só para se ter uma idéia, a versão de “Fly Me To The Moon” tem um início tão mágico, que se tem a impressão de estar ouvindo Mozart ou Bach e não jazz. Flautas e sopros criam uma atmosfera tão lírica que até parece um sonho. “Yesterday” também lembra muito um concerto, lembra justamente os quartetos de corda de Mozart, mas em seguida Wes cria texturas com sua Gibson, dignas de um bar esfumaçado, onde belas moças desfilam, onde se brinda a vida como se não houvesse mais nenhum lugar na terra a não ser esse. Os timbres de Montgomery são tão lindos que às vezes dá a impressão de realmente não ser jazz. Violinos, pianos, órgãos, criam junto com trompetes e flautas, sonoridades campestres, e é fácil nessa audição se imaginar em uma festa dionisíaca (para não dizer bacanal) pintado por Poussin. Posso dizer que foi uma surpresa. Uma agradável surpresa o disco Road Song. É de fato um dos melhores discos de fusion jazz que eu já ouvi, pela elegância e pela técnica. É um disco que traz paz de espírito, nos faz navegar em águas calmas. Isso sem contar o título do disco, literalmente “canção da estrada”. A capa traz um automóvel com os faróis acesos indo longe numa estrada num fim de tarde, a capa remete a uma fuga, saindo de um estado turbulento para um estado de graça, de plenitude, que é o que disco passa para quem o ouve. Quem quer se surpreender ouça Road Song de Wes Montgomery, quem quer viajar também, um disco inspirado. E essa história me trouxe uma lição importante, a de nunca desdenhar um disco. Por menos atraente que seja a capa, por pior que seja a crítica do disco e por mais que digam coisas ruins dele, ouça você e tire suas conclusões. Afinal, a crítica dá o norte apenas, não finca o x no chão. Desconfie sempre das opiniões, não as menospreze, apenas tenha reservas a respeito. Wes Montgomery me trouxe essa grande lição, de que você pode ser surpreendido sempre e que existem muitos bilhões de discos a serem descobertos, esse Road Song de 1968 é prova disso, eu tive que ouvi-lo quase 40 anos depois, mas valeu muito a pena.
 

 

Wes Montgomery – Road Song (A&M, 1990), 1968.
 

 

 

 

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Marlon Marques Da Silva