Mea Culpa.

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Quando somos jovens demais, geralmente somos mais radicais e mais firmes nas nossas opiniões. Voltar atrás, dar o braço a torcer, jamais. O jovem não consegue ter a dimensão exata da palavra “nunca”. Quantas vezes eu já não disse, “eu nunca isso”, “eu nunca aquilo” – e hoje, só hoje consigo ver o quanto fui precipitado. O título desse artigo é bem proposital, uma vez que aqui eu faço justiça a coisas que eu disse há algum tempo atrás. Eu certa vez (no passado) não dei méritos artísticos a Beyoncé e a Lady Gaga. Disse que eram medíocres e meras copiadoras de outras artistas – no caso aqui, respectivamente de Mariah Carey e Madonna. Disse a época com convicção, mas com a convicção dos rasos, dos superficiais. Não tinha analisado nada feito por elas, apenas me deixei levar pelo estilo e por minhas preferências musicais. Claro que hoje eu continuo não ouvindo a música feita por elas, mas nem por isso deixo de reconhecer méritos e qualidade em suas devidas produções artísticas. Por conta da minha antipatia pelo R&B, sempre achei a Beyoncé “mais do mesmo”. Um mulherão moldado pela indústria para entreter marmanjos e fazer patricinhas dançarem. Cheguei em um artigo (De Ella Fitzgerald à Beyoncé: a música negra feminina contemporânea em três atos, 19.10.2009), a dizer que a música negra feminina estava mal representada por nomes com Beyoncé e Rihana. Pois bem. Quando Beyonce Knowles veio ao Brasil pela primeira vez, logo tornou-se presa fácil dos programas de TV, que passaram a exibi-la muito mais do que antes. “Single Ladies” virou um hit gigantesco e entrou até para o panteão da cultura pop do século XXI. E em meio a toda essa euforia, eu fui dar uma olhada mais afundo na ficha técnica dos discos da pop star. Conclui que Beyoncé não é estrela assim à toa. Ela têm talento sim. Insisto aqui em dizer, continuo não ouvindo suas músicas, mas reconheço seu talento. Ela cria todas as coreografias complicadíssimas do seu show. Palpita em tudo, na produção dos discos e dos shows, figurino, repertório, iluminação, divulgação, arte de capa e é peça fundamental nos contratos de publicidade envolvendo seu nome. Além disso tudo é compositora. Olha, as músicas podem não ser geniais, mas pelo menos ela compõe e faz sucesso com seus méritos, não se limita a usar a criação dos outros (não que não regrave nada). Vi trechos do seu show aqui do Brasil e pude vê-la cantando (não fazendo playback), dançando muito e com muito vigor, além de ser simpática com o público. Isso me fez mudar de ideia em relação a sua figura como artista (e chamá-la assim), pois muitos assim se acham, mas poucos o são. Seus vídeos também são muito bem feitos e produzidos – e a meu ver seu maior mérito – já que os grandes artistas também possuem um quê de visionários, foi sua bem sucedida parceria com Lady Gaga. Ao invés de abrir competição e arriscar perder mercado, Beyoncé preferiu reparti-lo, juntando-se com outra artista com visão aguçada.

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Lady Gaga era uma completa desconhecida até dois, três anos atrás. Hoje é uma marca rentável no mundo inteiro, chegando a ser top 10 inclusive na Oceania. Eu a considerava uma boa oportunista copiadora de Madonna. Hoje a vejo como uma visionária artista que sabe muito bem explorar a tecnologia, a globalização e o marketing. Minha visão começou a mudar a partir do momento que vi pela primeira vez o vídeo de “Alejandro”. Considerei-o uma grande obra e um dos melhores vídeos dessa década – com uma fotografia e um jogo de câmera simplesmente impecáveis e esteticamente belos. Continuo achando as letras das músicas de Gaga superficiais, mas depois de ler algumas entrevistas dela, reconsiderei. Gaga faz o que o mercado quer e sabe da efemeridade das celebridades e das cantoras pop. Se mostrou inteligente, culta e visionária em muitas de suas respostas, principalmente em reconhecer o potencial da moda e suas conexões com a música e de como pode usar a internet em tempos de “youtube” a seu favor. Seus modelitos fashion e a grande vitrine em que transformou seus vídeos (para marcas e grifes), renderam-lhe fama, respeito e fortuna. O que Lady Gaga conseguiu em sei lá, dois anos, poucos conseguem em uma carreira inteira (claro, dadas as condições desse tempo). Analisando sua obra, pude perceber um certo vigor, lógica e refrões calculados, quase matematicamente. Assim como disse sobre Amy Winehouse – não sei o quanto Beyoncé e Lady Gaga vão suportar o insaciável apetite destrutivo da indústria. Não sei se em 100 anos (mesmo com a memória eletrônica da internet), ainda falaremos em seus nomes, compraremos seus discos ou usaremos suas camisetas, mas o fato é que no momento presente elas fazem parte da história. Novos nomes vão surgir (vide Adele – mesmo fazendo um som diferente), mas eu não tenho como negar o valor artístico e o vigor apresentado por elas no “hoje”. Embora eu não as ouça, tenho que admitir que se destacam no meio do besteirol (algo semelhante a elas) – e diferente da relação Lady Gaga-Madonna, pois aqui trata-se de mimesis e não de cópia – tocado nas rádios e veiculado nos programas de tevê. Aqui deixo então minha “mea culpa” – meu reconhecimento desses dois nomes como artistas de alguma relevância – não para a cultura ocidental, como os Beatles que serão lembrados daqui a 100, 200 anos – para o momento em que vivemos, afinal temos que tirar sempre algum proveito das crises, e essa não veio no final do século, mas no começo (ou será que se arrasta desde o final do século passado?).

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.