Música e Futebol, uma tabelinha.

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Há uns dois anos atrás o Santos F.C.  causou polêmica por conta das comemorações de seus jovens jogadores. As danças dos santistas irritaram os adversários. Os dribles dos craques se olharmos bem são como passos de dança. Embora nem sempre, dança pressuponha música. Música e ritmo, é o que dizem no popular quando um time está jogando entrosado, “está jogando por música” – ou, algumas jogadas são comparadas com “balé”. Há muitos vídeos de futebol que usam o “Bolero” de Ravel e o “Danúbio Azul” de Strauss II como trilha-sonora dos lances mágicos proporcionados por esse esporte. A relação do futebol com a música não se dá em mão única. Se a música entra no futebol, o futebol também entra na música. O esporte mais popular do mundo influenciou diversos compositores brasileiros a criarem canções com essa temática. E nisso, o futebol também se liga com a poesia. Uma bela jogada, um drible, um grande gol, é muitas vezes equivalente a versos de um Manoel Bandeira ou de um Drummond. Isso para não falar do maior poeta do futebol, Armando Nogueira, aquele que melhor traduziu em palavras as ações do campo. Existem diversas canções sobre futebol, umas são mais marcantes, outras menos, umas mais conhecidas, outras nem tanto e outras não. Excetuando temas específicos compostos para seleção brasileira, eu desconhecia canções sobre futebol nos anos 50 (até me lembrar de “Que Bonito É”, clássico de Luis Bandeira de 1956) – portanto coloco os anos 70 como um marco simbólico da explosão desse filão na música brasileira. Mas é sobretudo nos anos 90 com a música “É Uma Partida de futebol” do Skank, que a junção futebol e música ganhou a grande massa. Em termos de jingles de Copa do Mundo, nenhum bate o da Copa de 70: “Todos juntos vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve a seleção”. Tirando a questão militar dessa discussão, o tema é de fato muito carismático. Aqui eu não levo em consideração os temas mais recentes como “Festa” de Ivete Sangalo e “Deixa a Vida me Levar” de Zeca Pagodinho, porque não são canções feitas para esse fim.

 

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É claro que dentre as muitas canções que existem sobre futebol, cada um escolhe a sua preferida e não há uma “lista” de melhores, ou de mais geniais, mas sim o que a memória e a preferência pessoal trazem a tona. A ligação entre música e futebol é tão intrínseca, que as canções das torcidas são tão emblemáticas e tão parte do espetáculo quanto qualquer outro elemento do jogo. Uma das mais antigas que eu me recordo ter ouvido, é “Aqui é o País do Futebol” de Milton Nascimento e Fernando Brant, porém na voz de Elis Regina. A letra traz um traço da personalidade brasileira muito interessante, quando diz sobre o magnetismo que o futebol exerce sobre as pessoas: “Brasil é só futebol, nesses noventa minutos de emoção e alegria, esqueço a casa e o trabalho, a vida fica lá fora, dinheiro fica lá fora, a cama, a família, a vida e tudo fica lá fora”. Quando o time do coração está em campo, nos transformamos, deixamos de fazer coisas e os olhos ficam fixos na tela ou no campo num estado de quase êxtase. Jorge Ben Jor é por si só uma instituição musical, porém quando o assunto é futebol, ele talvez se torne o compositor que mais se dedicou ao tema. Para sintetizar, Ben Jor homenageou em canções os dois maiores craques da história do Brasil (segundo alguns – eu também coloco o Garrincha nessa lista), Pelé e Zico – “O Nome do Rei é Pelé” e “Camisa 10 da Gávea”. Para não falar das excelentes “Ponta de Lança Africano” e seu popular “umbabarauma” e “Filho Maravilha” (anteriormente Fio). Futebol e música foram também às últimas conseqüências com os Novos Baianos, o time e a banda. E dessa banda saiu Moraes Moreira que compôs “Espírito Esportivo”. A canção expressa à felicidade que o futebol representa, tanto que mesmo aqueles que não têm um time de coração, que não acompanham com radio no pé do ouvido e tabelas de campeonato, torcem em época de Copa do Mundo, como diz a letra: “qualquer score me faz feliz, o coração pela boca apela, empurra o time pra frente”. Moraes Moreira assim como Jorge Ben Jor homenageou Zico, o mesmo fez Fagner, com quem gravou um disco, tema esse aliás – jogadores que se aventuram na música, que será explorado brevemente.

 

 

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“Samba Rubro Negro” é outra célebre canção futebolística, imortalizada pelo sambista João Nogueira. Essa fala sobre o que a paixão por um time é capaz, a letra diz que pode chover, pode sol queimar que nada disso fará com que o protagonista deixe de ver o Flamengo, o que se estende a qualquer time. E quando o time perde, diz à letra que se perde até a vontade de almoçar e de jantar, o que não está muito distante do que ocorre com qualquer aficionado por esse esporte. O futebol meche com as paixões, desperta diversos sentimentos, faz rir e chorar até o mais testestorônico dos marmanjos. Gilberto Gil conseguiu driblar a ditadura através do futebol, logo em 1973, três anos após o tricampeonato (70), que fora usado como manobra pelo regime militar. “Meio-de-Campo”, é fantástica, principalmente em sua simplicidade e ironia. De início ele se refere ao mítico Afonsinho, jogador símbolo de rebeldia e o primeiro a obter seu próprio passe, dizendo que a situação continua a mesma, que continua aqui desprezando a perfeição. Em seguida ele diz: “que a perfeição é uma meta, defendida pelo goleiro que joga na seleção, e eu não sou Pelé nem nada, se muito for, eu sou um Tostão”. Gil traz ginga, a mesma que o craque usa para fugir dos zagueiros, o baiano usou para driblar a censura. Usou termos como “meta” num duplo sentido, e concluiu que fazer um gol nessa partida (o regime) não é fácil. E por fim a grande obra musical futebolística de todos os tempos, “O Futebol” de Chico Buarque. Retomando a questão do início, há canções mais conhecidas do que outras, e nesse caso aqui a comparação é entre essa e a canção do Skank. Não há aqui qualquer referência sobre uma ser melhor do que a outra, até porque são expressões diferentes, são formas diferentes de abordar o mesmo tema. Mas é que a abordagem buarquiana sobre o futebol têm um nível diferente, porque traz um elemento só encontrado em Chico Buarque, um rigor simples. Descrever a letra desse craque é tarefa árdua, e eu como não sou Pelé nem nada, há quem diga um Tostão, um craque que trocou as chuteiras pela caneta. Então deixo aqui apenas um trecho desse verdadeiro tratado musical sobre futebol: “para aplicar uma firula exata que pintor, para emplacar em que pinacoteca nega, pintura mais fundamental, que um chute a gol, com precisão, de flecha e folha seca”.Ver a letra da canção completa em: http://www.chicobuarque.com.br/construcao/mestre.asp?pg=ofutebol_89.htm

 

 

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Notas.

 

1. Elis Regina – Trem Azul, 1982.

 

2. Jorge Ben – África Brasil, 1976.

 

3. Moraes Moreira – Alto Falante, 1978.

 

4. João Nogueira – Clube do Samba, 1979.

 

5. Gilberto Gil – Cidade do Salvador, 1973.

 

6. Chico Buarque – Chico Buarque, 1989.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.