Noel Rosa – 100 anos do filósofo do samba.

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De quando em quando os gênios aparecem na terra? Difícil responder. Fato mesmo é que nossa era não possui gênios. Afinal, um gênio não nasce assim a todo momento e em qualquer lugar. Temos prodígios, fenômenos, talentos, mas não gênios. O físico Robert Oppenheimer disse que a diferença entre um gênio e um grande gênio, é que o grande gênio sabe a resposta antes da pergunta. Esse gênio a que estou me referindo implicitamente aqui é com certeza um grande gênio, pois sabia muito mesmo, e não pense que aprendeu na universidade não, afinal ele escreveu: “ninguém aprende samba no colégio” (Feitio de Oração): estou falando de Noel Rosa. Esse ano comemorasse o centenário de nascimento do poeta da vila (1911-1937), homenagem justa, porém tímida. O crítico Wallace Fowlie comparou Jim Morrison a Rimbaud em um belo livro analisando a influência do segundo no primeiro (poeticamente falando). Entretanto, é possível também comparar Rimbaud a Noel, não poeticamente (estilos e épocas diferentes), mas em intensidade da obra, no vigor e na brevidade com que tornaram-se gênios. Por exemplo, José Saramago escreveu sua obra-prima (Ensaio sobre a cegueira) aos 73 anos – não que não fosse antes disso um grande escritor, mas tornou-se um gênio das letras após tal obra. O tempo é relativo como disse Einstein, sim, pois a genialidade pode despertar em pontos distintos da vida. Rimbaud por exemplo, já entre os 15 e 18 anos já tinha concluído toda sua obra. Com Noel Rosa ocorreu o mesmo. Morreu aos 26 anos deixando milhares de músicas – entre elas diversas obras-primas não só do samba, mas da canção brasileira. É obviamente considerado um gigante da música, tendo sido celebrado em vida ainda por seus contemporâneos. Suas principais características como poeta são a ironia, a simplicidade e a crônica do cotidiano (talvez a influência mais forte de Noel seja Chico Buarque). Noel embora de classe média, foi um grande boêmio, convivendo com a malandragem do morro quebrando barreiras. Nisso talvez ele e Pixinguinha sejam os dois principais nomes que fizeram a ponte entre o morro e o asfalto, entre a malandragem e a intelectualidade, mas não aquela intelectualidade presunçosa, arrogante. Noel muitas vezes cantava o que não vivia, mas por muitas vezes cantou causos vividos por ele – como o seu romance eterno com Ceci, a protagonista real de a “Dama do Cabaré”. Embora não soubesse ao certo sobre a roupa – o chapéu, o terno branco, sapatos pretos e tradicional cigarro no canto da boca, tornaram-se também graças a ele uma “insígnia” do bom sambista. É preciso também dizer que num momento em que música brasileira passava por muitas transformações, Noel teve papel decisivo.

 

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O samba era marginal e exclusivo dos morros – nos anos 30 torna-se (claro que por motivos políticos) o ritmo oficial do país por Getúlio Vargas. A música nacional tinha uma grande predominância instrumental (só para citar um exemplo, a celebre “Carinhoso” de Pixinguinha era só instrumental, coube a Braguinha pôr uma letra) – sem contar que o choro era o ritmo mais celebrado pelo menos até o fim dos anos 20. A era do rádio levou suas composições país a fora pela voz de gente do calibre de Aracy de Almeida e Francisco Alves, tornando-o conhecido, porém não uma estrela. Aliás, isso longe de acontecer em qualquer época – pois acredite, num país como a Argentina que trata com bem mais devoção seus grandes vultos culturais, Noel seria um deus. Quase ninguém conhece sua obra – para isso eu então recomendo seu “songbook” (Songbook Noel Rosa, Vários Artistas, Lumiar Discos, 1991) – pois além de informativo, traz o fino de sua obra (embora muitas outras grandes canções estejam fora). É uma boa introdução a sua obra. Seus versos simples nos fazem tanto rir quanto refletir, dada sua profundidade, porém como disse, sem afetação acadêmica ou filosofia rebuscada. Mas sim, era um filósofo – chamado o “filósofo do samba”, tendo como grandes escolas os botequins da vida, barracos, rodas de samba, enfim a vida, sua maior matéria-prima. Eu o conheci ainda criança através do meu pai. A canção foi “Último Desejo” na voz de Nelson Gonçalves (fã inconteste de sua obra). A letra logo me encantou, mas só na maturidade é que fui perceber toda sua condição lírica e significado. Além dessa, gosto muito de “Feitiço da Vila”, “Feitio de Oração”, “Quando o Samba acabou”, “Palpite Infeliz”, enfim, muitas outras – inclusive “A Rita” de Chico Buarque é muito “noeliana”. Entretanto, só se terá mesmo a dimensão desse gênio brasileiro ao ouvir sua obra – mais do que ler “Noel Rosa: poeta da vila, cronista do Brasil” de Luiz Carlos Leitão (2009) e ver “Noel – poeta da vila” de Ricardo Van Steen (2006), é preciso ouvir, com alma, coração e sobretudo simplicidade. 

 

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.