O crepúsculo dos Deuses.

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O que é o limite da vida? Acredito que o limite seja aquele ponto em que a nossa vida chega e que temos apenas a opção de parar tudo que estamos fazendo e da forma como estamos fazendo – pois o próximo passo pode custar à própria vida. Entretanto podemos morrer mesmo vivos, ou como os budistas dizem [principalmente a escola tântrica] – estamos morrendo um pouco a cada dia. Porém qual o objetivo da vida de um artista? Sucesso, fama, dinheiro, reconhecimento, luxo, extravagância ou um misto de tudo isso e mais um pouco? O rock nos oferece em abundância exemplos de artistas que vivem e viveram no limite de tudo, muitos deles pagaram com as próprias vidas, enquanto outros amargam o fundo de um poço que eles mesmos cavaram. Cartola já cantou que “o mundo é um moinho”, um grande triturador de ilusões e sonhos, que é tão implacável quanto o tempo, que devora as coisas e lega a obra [se é que podemos chamar assim em muitos casos] de muitos artistas ao mero esquecimento. Sid Vicious e Kurt Cobain são exemplos de vidas extremas, nas drogas e no sucesso repentino – o primeiro tornou-se símbolo de um movimento [punk] e o segundo de uma geração [os anos 90], ambos, assim como Che Guevara, hoje estampam camisetas de milhares de jovens mundo a fora. O líder do Nirvana tornou-se o grande porta voz da geração sem rumo dos anos 90, cantou o desespero do fin de siécle – disse o que todos queriam dizer, aos pais, aos amigos, ao mundo – suas emoções eram as de qualquer adolescente, em Seatle, em Nova Iorque, em Nova Déli, no Afeganistão, em todos lugares – estavam cheios de um vazio existencial, e o tiro que ceifou a vida de Kurt, tirou também um pedaço da vida de cada jovem. Sid Vicious não, não serviu de arauto para os anos 70 (haviam outros), mas abusou de tudo por nós, nos levou ao limite [mesmo que falsamente, segundo alguns] da desesperança no futuro, nos fez enxergar a porção de lixo que há em cada um de nós, mas foi vencido pelas drogas (overdose no banheiro de sua mãe). “É tão estranho, os bons morrem jovens, assim parece ser[…]”, cantou Renato Russo, como uma profecia mortal, que acometeu Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrison (o próprio Russo – embora por outros motivos), porém no caso de Vicious e Kurt, trata-se de falibilidade dos ídolos, ou seja, expõe assim a faceta mais humana dessas personas [isso mesmo, pessoas], pois nós as elevamos a condição de seres sobrenaturais, verdadeiros deuses e super-heróis. Será que Kurt Cobain achou que o tirou que transpassou o seu cérebro não o mataria, só aliviaria sua dor? E Viciuos, será que achou que a overdose só atingia os fãs dos Pilstols, mas a ele não? Muitas vezes canalizamos nesses ídolos tudo aquilo que queremos ser, vemos no outro a beleza que não vemos em nós, sofremos com a dor deles, rimos com seus sorrisos e nos realizamos com sua glória, mas eles se machucam também, são deuses de barro, quebram como nós e são finitos. Michael Jackson também é um caso extremo, de rei do pop a bobo de sua própria corte, teve tudo nas mãos, o sucesso, o mundo, a fama, o dinheiro, mas não soube lidar com isso, estragou sua carreira e jogou no ralo todo o prestígio que tinha por caprichos não humanos. Sua majestade brilhou mais do que o ouro de sua coroa, conclusão, tornou-se prisioneiro de sua própria vida, e como num espelho invertido, desejou mais os fãs do que os fãs o desejam no final de sua carreira.

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Vicious, Jackson e Kurt, [os anos 70, 80 e 90 representados] – morreram e mostraram o caminho. Napoleão começou sua decadência após invadir a Rússia no rigoroso inverno [início do século XIX], Hitler fez a mesma coisa no meio do século XX [felizmente]. Karl Marx disse que a história se repete uma vez como tragédia e outra como farsa –  isso soa não só atual, como profético. Amy Winehouse também morreu seguindo a mesma estrada para a perdição que esses predecessores seguiram. E Amy é um caso curioso porque reunia características dos três citados. Amy tinha talento como Michael Jackson. Era auto-destrutiva como Sid Vicious. E era infeliz [suposição minha] como Kurt Cobain. Amy Winehouse pareceu não acreditar na finitude de sua vida, acreditava que conseguiria preservar aquilo que ainda a sustenta, seu talento vocal – veja Jackson por exemplo, não conseguiu no final da carreira repetir o vigor de outrora, até nomes como Caetano Veloso (e Chico Buarque, João Gilberto, entre outros) declinam na qualidade com o passar do tempo (mesmo a qualidade deles ainda sendo superior a da maioria). Amy com alguma certeza iria passar por isso também – pois seu estilo de vida poderia prejudicar tanto sua voz quanto sua capacidade criativa. Milton Nascimento já cantava belamente que “todo artista deve ir onde o povo está”, Amy Winehouse fez muitas vezes o contrário, fogindo dos fãs e ainda os agredindo – o que sempre foi um grande risco, tanto físico [Dimebag Darrell ex-Pantera morreu no palco] quanto para a carreira em si, uma vez que com o declínio da qualidade seu público poderia abandoná-la [Axl Rose do Gun N´Roses é um exemplo]. Lembrando também que Winehouse iria lançar seu terceiro disco – que seria a prova definitiva de sua carreira. Estou querendo dizer que o artista muitas vezes [e principalmente quando não gerencia sua carreira de forma correta], torna-se refém de seu próprio sucesso, e caso o mesmo não chegue, afunda-se ainda mais nas drogas –além da normal perda de poder criativo que chega com o tempo. Talento é parte da capacidade que temos de agradar por longo tempo, agora genialidade é entrar para história, como Mozart e Beethoven (Bach e outros), que jamais morrerão, guardadas as devidas proporções, Kurt, Janis Joplin, Jim Morrison, Hendrix, Lennon, Elvis, Vicious, também não serão esquecidos, pois se neles faltou à genialidade, talento não faltou, para que suas obras se mantivessem vivas até hoje e seus rostos gravados em camisetas em todo mundo, agora te pergunto, será que em 100 anos ainda falaremos de Amy Winehouse ou veremos seu rosto estampado em camisas por todo mundo?

 

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.