Por ninguém, pra ninguém.

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Estive presente nessa última virada cultural em São Paulo com a clara intenção de ver o show do Misfits, porém acabei mesmo foi vendo o show do Beatles 4Ever. E pude conferir na integra a execução de Revolver (1966) e do Sgt. Pepper (1967). Entretanto antes de começar o show – uma discussão se abateu nos arredores a respeito de qual dos dois álbuns é o melhor dos Beatles. Nesse quesito as opiniões se dividem – mas o fato é que Revolver é bastante subestimado. Em 2007 – lembro-me muito bem, completou-se 40 anos do lançamento de Sgt. Pepper Lonely Hearts Club Band, álbum esse que até hoje é considerado o maior feito pelos Beatles em toda sua carreira. É claro que não deixa de ser louvável esse fato, ainda mais por que grande parte da imprensa musical de relevância opinou nessa direção, mas o mais curioso nisso tudo, é que em 2006, não se comemorou 40 anos do grande Revolver, por quê? 

Talvez seja pelo fato de não ter-se tido tempo suficiente para apreciá-lo, pois era comum na época lançar um álbum a cada ano, e não a cada dois ou três como hoje, pois se ganha muito com as turnês, além de que os artistas atuais não possuem tanto talento assim para lançar grandes álbuns todos os anos. O caso mais expressivo que me ocorre agora é o Radiohead, que emplacou dois colossos musicais em seqüência, claro que não no ano seguinte ao primeiro lançamento, The Bends em 1995 e OK Computer em 1997. Então, em uma época tão fértil, tão cheia de grandes artistas e grandes obras, Revolver ficou quase que ofuscado com o intenso brilho de Sgt. Pepper. Porém, não há como não se empolgar ao ouvir Revolver de faixa a faixa, pois consegue ser ao mesmo tempo inovador e conservador, moderno e antigo, agradando a todos os tipos de público, ora com sutileza de “Here, There, and Everywhere”, com a alegria de “And Your Bird Can Sing”, ou com o psicodelismo de “Yellow Submarine” e “She Said She Said”, além das várias versões feitas por artistas de diversos gêneros.

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É só conferir na trilha sonora do filme “Uma Lição de Amor”(I Am Sam) com Sean Penn e Michelle Pfeiffer, a faixa número nove “I´m Only Sleeping” interpretada pelo discutível The Vines – e que está ótima, é um pouco mais rápida que a original, mas grandiosa e fresca como se fosse bem atual, e é nisso que os Beatles se saem melhor, é nessa vivacidade.

Também nessa linha ouvi lindamente interpretada, a canção que considero a melhor de Revolver, “For No One”, primeiro na voz de Caetano Veloso em 1975 no álbum Qualquer Coisa – revestida numa roupagem bossa novística, a música se revigora numa caetanidade com direito a início assoviado e violão marcado. Caetano imprime seu inconfundível sotaque carregado a um inglês quadrado que ficou ótimo. E depois uma versão terminal feito pelo grande Elliott Smith – toda sussurrada do começo ao fim, Smith coloca uma emoção tão grande na canção, que chega a dar a impressão de que essa seria a última música que cantaria na vida. Mas nada é igual ao original, é como um quadro, por mais que a réplica sirva muito bem em nossa sala, nada se compara a ter um original, e nesse caso também.

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É lindo aquele começo com Paul ao piano e Ringo marcando de leve na bateria – a voz do mesmo Paul com uma firmeza e uma seriedade talvez não antes vista, anuncia os primeiros versos que conduzirão a música até o derradeiro refrão. Nota-se um flerte do piano numa escala Mozartiana, algo realmente clássico, e numa canção pop, para vermos o nível em que estava o quarteto de Liverpool. Porém o ponto mais lindo da música é o solo de trompa lá por volta dos 51 segundos, mágico, angelical. A letra fala de abandono e saturação em uma relação, uma situação de extrema dependência de alguém para com o outro, ao ponto de não aceitar a separação e buscar em falsas evidências aquilo que você gostaria que fosse. Isso fica claro na letra quando ele diz: “No entanto você já não acredita nela quando ela diz que seu amor já morreu…”, esse pensamento é claramente uma forma de amenizar a própria dor, pois você acredita piamente no que diz o refrão: “Um amor que deveria ter durado anos”, mas que agora você não aceita que acabou. O dia começa e seu mundo começa também a ruir, pois “você descobre que todas as coisas gentis que ela disse, não fazem mais sentido”, pois sua companheira acorda e sem pressa se maquia, toma lentamente seu café prenunciando sua saída, demonstrando uma indiferença inexplicável – pois como alguém que dividirá com você todas as coisas, até as mais intimas por tanto tempo, hoje o vê como um estranho. E o mais triste dessa história, é que o amor é tão sublime, que chega a admitir que “haverá um dia em que todas as coisas que ela disse, encherão sua cabeça, mas você não conseguirá esquecê-la”, e mesmo depois de quase rastejar-se pelo chão numa súplica desesperada, ela nada expressa, “e nos olhos dela você não vê nada, nenhum sinal de amor atrás das lágrimas choradas por ninguém (for no one)”. E justamente não aceitamos pelo fato de que o ser humano acredita na perfeição e na duração das coisas (infinitude). Mas não, as coisas são finitas e logo podem acabar. É claro que ninguém inicia nada já crendo no fim – mas não admitir possibilidades machuca muito mais. O homem se machuca quando percebe – como diz a letra, que “ela não precisa mais de você”. Ele não suporta o fato de que ela pode ou se virar sem ele – ou seja, é muito mais do que se virar sozinha, e principalmente que outro ocupe seu lugar, na importância, nos pensamentos dela, na suposta dependência que ela tem, na sua fragilidade que necessita de cuidados. Mais uma vez, “um amor que deveria ter durado anos” – mas será que deveria mesmo? É o famoso dilema do: “devo” – “quero” – “posso”. O mais certo nesse caso (e em casos como esse), é: “um amor que eu queria que tivesse durado anos” ou “um amor que poderia ter durado anos” – porque esses verbos (querer e poder), são muito pessoais e não dependem do “outro”, já o dever sim, é impositivo, e impositivo ao outro. Ela deve ter seus motivos – mas você não compreende, porque o sentido das coisas numa separação só se dá para uma das partes. Ele não compreende porque ela o está deixando (o inverso também acontece) – e a incompreensão leva muitas vezes ao desespero, a raiva, a loucura (por isso na letra ele diz: “as coisas que ela disse encherão sua cabeça”). O nosso sentido de perfeição não aceita quando algo sai do planejado. Mas ué – os planos não são feitos para não darem certo? É por isso que planos não podem ser individuais quando falamos em amor – precisão ser conjugais. Porque se não, se anda em direções opostas e num dado momento da relação essas diferenças vão aparecer e cobrar o seu preço: a separação. E veja o quanto de egoísmo há nisso: os planos são seus, do seu jeito, porque você ama: “você a quer, você precisa dela” – mas e ela, será que precisa de você, ou você é que quer crer nisso? Alguns psicólogos dizem que a negação é uma das características dos contrariados: “no entanto você já não acredita nela quando ela diz que seu amor já morreu” – e para forjar um álibi perfeito e fugir do egoísmo: “você pensa que ela precisa de você”. O que mais machuca nisso tudo é a indiferença da outra parte – não demonstrando nada nos olhos, na expressão, na face – onde está o sentimento devotado por anos? Você se pergunta a todo instante ao se ferir vendo fotos, vídeos, sentido cheiros e indo a lugares que lembram – e você grita: “por quê?” Custa a acreditar, mas por pior que seja essa dor, essa indignação, esses questionamentos todos a cerca da natureza e das causas da separação – você não vai esquecê-la, e não vai esquecer o fato de que poderia (não necessariamente deveria) ter durado anos. 

 

 

 

About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.