Sax, Murphy & Rollins: além das impressões

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Eu nunca gostei muito de Saxofone. Achava um instrumento previsível – claro que essa visão se dava muito pelo meu desconhecimento. Porém um dos fatores que mais me fizeram desgostar do Sax foi Kenny G. – que eu chamo “fator KG”. Suas canções eram feitas para o grande público, tocavam em rádios populares, sua música era apreciada de uma forma muito banal, e isso me desagradava – continua me desagradando embora eu respeite. Claro que G não é um músico ruim, longe disso, mas eu cresci ouvindo as pessoas o considerarem o melhor. Isso fez em minha mente uma confusão: será que o saxofone só pode ir até aí? Questionava-me sobre se seria esse o limite. Outro que deu continuidade ao meu desagrado ao instrumento foi o brasileiro Saraiva. Aquele vai e vem de suas músicas me irritava profundamente. Eu não via sentido naqueles sons, aquelas notas agrupadas nada me diziam, e música é sentimento acima de tudo e eles não conseguiam me tocar a alma. Alguns anos se passaram até eu me deparar com dois músicos que mudariam para sempre minha relação com o Sax – “Murphy o Gengivas Sangrentas” e “Joe Lovano”. Tomei contato com o Gengivas Sangrentas através de Lisa Simpson. Lisa sempre tocou seu Sax solitária até o dia em que conheceu Murphy e se tornou sua grande amiga e parceira de jam sessions. Minha relação com o Sax começou a mudar justamente por um episódio dos Simpsons que retrata a trajetória de Murphy e sua amizade com Lisa. O episódio mostra a carreira do jazzista desde o início, de músico de acompanhamento em bares á sua obscura carreira solo, tendo gravado apenas um único disco, “Sax On The Beach”. Murphy porém estava muito doente e a única pessoa que o visitava era justamente Lisa, que herda dele uma missão e seu precioso e velho Sax, já amarelo-enferrujado. O sonho de Murphy era ouvir sua música tocando na rádio, mas isso não aconteceu com ele em vida. Mas Lisa conseguiu a muito custo fazê-lo, como um tributo a sua obra numa rádio especializada em jazz de Springfield. Fisicamente falando Murphy lembra – e depois eu li que realmente fora inspirado mesmo – Sonny Rollins. Os dois são negros, altos, sisudos, usam cabelo comprido, óculos e barba (detalhe: Murphy não viveu o suficiente para sua barba embranquecer como a de Rollins) – Murphy é só um pouco mais gordo. Já Rollins eu conheci através de Joe Lovano. Foi assim. Em 2003 eu estava baixando coisas pelo antigo Soulseek, e como a taxa de transferência estava boa naquela ocasião, foi clicando em tudo que via na tela sem ao certo saber o que era. Algumas coisas é claro que eu sabia, mas muitas não, e nesse meio após alguns downloads fracassados, veio uma música de Lovano. A canção era “Miss Etna”. Fiquei impressionado com a música e fui atrás de informações sobre esse músico. Em suas filiações musicais veio o nome de Sonny Rollins, de quem já ouvira muito falar mas não conhecia se quer uma nota. Lendo a biografia de Rollins descobri o principal ponto de convergência entre ele e Murphy, a ponte. Após se retirar pela primeira vez oficialmente da música, Rollins passou a treinar na ponte Williamsburg para poupar os vizinhos do barulho de seu instrumento, especialmente uma mulher grávida.

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No episódio do Simpsons,Murphy também aparece tocando numa ponte, sozinho à noite. Lisa aparece e protagoniza uma das grandes cenas musicais da história do desenho, um lindo dueto de Saxofones diante das ruas vazias e do clarão da lua. Revendo o episódio passei a realmente perceber as semelhanças, exceto no estilo de tocar de cada um. Murphy toca mais solto e como menos engenhosidade do que Rollins, mas ambos se encontram por serem próximos do Hard Bop. Sonny Rollins é grande demais para se enquadrar em uma categoria só. Ele transita por gêneros, do citado Hard Bop ao Free Jazz, tendo algumas canções com um pé no Cool Jazz. Mas dos grandes discos de Rollins que eu ouvi, os que mais me chamaram atenção foram seu clássico “Saxophone Colossus” de 1956 (meu preferido) e “Sonny Meets Hawk!” com Coleman Hawkins (outro gigante do jazz) de 1963. A maneira como Rollins toca seu Sax me impressionou e me emocionou, pois nota-se que é um perfeccionista, alguém que não se contenta, que quer sempre buscar algo a mais. E essa sua busca o fez transitar pelos gêneros como dito acima, e essa sua aventura pela virtuose e pela sofisticação nos deram grandes canções, como “Lover Man”, “St. Thomas”e a grandiosa “You Don´t Know What Love Is”. As atmosferas densas e amorosas criadas por Rollins são únicas, a forma como cada nota sai da boca de seu Sax, a forma como ele brinca com cada uma delas, o jeito como elas dialogam é realmente incrível. Foi a partir dessa experiência que eu comecei a ver e ouvir o Sax com outros olhos e ouvidos – passei a admirar esse instrumento e a reconhecer o seu real valor melódico e suas infinitas possibilidades rítmicas. Rollins toca com vigor e elegância, com convicção, com suavidade – mas sobretudo com verdade. E se hoje eu gosto muito de Sax eu com certeza devo a ele. O Sax têm uma sonoridade mais solta em relação ao Trombone e ao Trompete – instrumentos que eu sempre admirei mais. Sonny Rollins é um dos grandes jazzistas vivos, mas faz música impopular e tal qual Murphy não toca nas rádios. Ao ouvir suas músicas eu me sinto vivo, pois ela faz vibrar em mim emoção, faz meu sangue correr, me faz ficar mais disposto. E hoje posso compreender que o Sax não é só apenas um instrumento romântico, mas também é um instrumento de vivacidade, e Rollins consegue nos transportar para os dois mundos. Por isso eu digo que Murphy permanece vivo em algumas canções de Rollins, e onde quer que ele esteja, está feliz, seja pela homenagem de Lisa, seja pelo grandioso trabalho de Rollins.

 

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Sonny Rollins – Saxophone Colossus. (Ojc, 1991).

 

 

 

 

 

 

 

 

About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.