Sibylle Baier, um clássico por acaso.

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Sibylle Baier é uma cantora alemã de folk, de voz de anjo quase mórbido. Sua voz às vezes pode parecer monótona para os marinheiros de primeira viagem, mas é de uma qualidade e doçura incríveis. Seu disco de 2006 “Colour Green” é um achado perdido dos anos 70. O mais interessante é que esse belo disco só ganhou o mundo 30 anos depois. Sibylle cresceu na Alemanha dos anos 50 [pós-guerra], e sua vida era cercada por uma incrível monotonia. Até que Baier fez uma viagem para fora da Alemanha – por extensão de seu mundo, e isso muda sua vida. Ao voltar Baier compõe “Remember The Day”, e essa que deveria ser apenas uma canção particular/familiar, tornou-se a primeira de uma série. As canções foram registradas em um gravador caseiro antigo e assim dessa forma despretensiosa, o disco foi guardado e devidamente esquecido, talvez como algo que devesse se envergonhar. O fato é que seu filho Robby decidiu lançar o disco, e assim o mundo conheceu esse clássico acidental – nas palavras de Michelle Aldredge. Só para se ter uma noção, gente do calibre do diretor Wim Wenders [aliás, Baier trabalhou no filme Alice nas Cidades desse diretor] e J. Mascis [Dinosaur Jr.] são fãs da cantora, portanto algo de especial ela tem. E o que de especial ela tem? Primeiro a coragem de gravar um disco sendo uma “amadora”. Segundo, a extrema sensibilidade e candura do seu toque no violão e em sua voz. Terceiro, a simplicidade. Não há músicos de apoio, efeitos de estúdio, sobreposições, etc., é Sibylle e seu violão, numa troca íntima, ímpar, única. Segundo observa Aldredge, Baier consegue ser tão genial que consegue falar de tortas de maça e pão com manteiga no café da manhã em família e citar T.S. Elliot. Sua simplicidade toca direto as pessoas porque ela fala coisas que todos passam, compartilha sentimentos que todos tem – mesmo que não admitam. Colour Green é nostalgia.

 

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É um disco que soa velho, que parece velho, que é velho. A capa é magistralmente composta com uma textura algo sépia, mostrando Baier de olhos fechados respirando o ar fresco do campo. Ao fundo uma paisagem agreste, triste, profunda. Esse é o tom do disco, oscilando entre Nick Drake e Leonard Cohen – comparação feita por tyme-machine.blogspot.com. As canções “Tonight” e “Softy” são muito parecidas, mas igualmente maravilhosas, porém são diferentes um pouco da ótima “William”. Sibylle passa para o ouvinte uma angústia, algo de saguão de hospital, um clima de velório, o maroonbible.blogspot.com a definiu como uma cantora “assombrosamente bela”. Mas há construções elaboradas como em “Driving” e “Remember The Day” [a pioneira], onde se ouve bem sua voz, mais solta, sobreposta ao seu lânguido violão. “Colour Green” fala do estranhamento da cidade, e do devir da vida. O choque do mundo do interior, da vida simples, de poucas pretensões e de como a informação pode ter seu lado maligno – talvez abrir os olhos para um mundo cruel e real?. Sibylle canta com uma bela emoção contida – a faixa título nos passa uma sinceridade absurda, impressionante. O resto do álbum é isso, o mesmo folk simples, cativante, emotivo, e como bem descreveu o orangetwin.com: “retratos íntimos de beleza triste e frágil da vida”. Enfim, um disco imperdível. 

 

 

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Sibylle Baier – Colour Green (Orange Twin, 2006).

 

 

 

 

 

 

 

About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.