Som, Ruído e Música.

 

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Certa vez me deparei como uma questão um tanto espinhosa e controversa, a respeito de gostos musicais. Lendo diversas entrevistas do maestro Júlio Medaglia, senti em suas falas uma certa superioridade da música erudita em detrimento de outras manifestações musicais. A questão a que me referi no início, trata-se da comparação ente estilos musicais e a superioridade de um em relação a outro. Conversando com um jovem periférico sobre música, notei sua exaltação ao funk carioca e congêneres, e seu total repúdio a música dita por ele “clássica”, referindo-se a ela como “chata”. Se perguntar a Júlio Medaglia o que ele acha sobre o funk carioca sua resposta com certeza será negativa. Em primeiro lugar é necessário deixar claro que cada um têm o direito de gostar do que quiser, as pessoas são livres para escolher seus estilos de musicais. Porém é clichê dizer que gosto não se discute, porém também não é dizer que há coisas em termos musicais que são superiores a outras. O politicamente correto impede tais manifestações e nossa ignorância também nos impede de tecer críticas no limite do respeito, pois sempre que nos referimos ao gosto do outro, é costumeiro usar termos como “merda”, “porcaria”, etc. Não há respeito pelo que o outro gosta mesmo que isso signifique coisas de uma qualidade menor em seu julgamento. E é aí que se dá o nó da questão, como definir – e quem define – o que é de maior ou de melhor qualidade. Nessa direção, devemos primeiro recorrer à lexicologia, a dizer a parte da gramática que se ocupa dos significados das palavras. Os dicionários definem a palavra som, como sendo um fenômeno acústico advindo da propagação de ondas sonoras produzidas por um corpo que vibra em meio material elástico especialmente o ar. A definição de ruído têm vários significados, alguns deles são: som confuso, qualquer som, perturbação aleatória, etc. Quanto a música é definida da seguinte forma: arte e ciência de combinar sons de modo agradável ao ouvido. Com tais definições em mente, a questão começa a se elucidar melhor. Muitas vezes ouvimos expressões como “tudo é questão de ponto de vista”, onde uma coisa pode ser boa para um e não para o outro. Porém há coisas que são indefensáveis, por exemplo, violência, estupro, pedofilia, etc. Mesmo em nome de um ponto de vista que a pessoa tenha direito de ter, é inconcebível alguém defender a pedofilia, achar que isso é bom só porque é seu ponto de vista. Música pressupõe sentido, ordenação. Então nem tudo que é chamado de música e de fato música. Tudo é som, porém a diferença é que: alguns transformam sons em música e outras apenas em ruído. Veja uma orquestra em ação e entenda o que é música. Assista um concerto de jazz, e observe a técnica, o domínio das notas e como elas dialogam harmoniosamente criando sentido. Outra questão é a técnica. Antes disso porém, farei aqui um pequeno parêntese histórico. Quando o jazz começa a se expandir a partir de Nova Orleans nos anos 20, pelo fato de ser um tipo novo de música, fora visto pelos situacionistas como um mero ruído irritante. Em 56 no início do rock n´roll, Elvis Presley e Little Richard eram vistos como transgressores e o rock não era nem considerado música pelos jazzistas. Hoje o rock ganhou respeitabilidade devido a sua evolução e suas fusões com o próprio jazz, com a música erudita, além de incursões de músicas tradicionais e folclóricas de diversos países. Quando me refiro à técnica, quero dizer a execução desses sons. Em termos musicais, os sons são caracterizados pelas notas, definidas pelas escalas – a pitagórica é uma delas. A combinação dessas notas formam acordes que agrupados são como frases para formar um texto, esse texto musical é justamente a música terminada. No caso dos sons emitidos pela voz, também podem ser ordenados pelas notas. Entretanto aí, já enveredamos por questões de timbres vocais, uns mais graves do que outros, outros agudos, uns finos demais, outros roucos, uns agradáveis e outros não, e nesse caso, não basta apenas a técnica, é necessário também a beleza desse timbre. A música erudita é caracterizada pela instrumentação, porém a Ópera – uma extensão da música erudita – é cantada. No caso da música popular, quase toda ela é cantada, e nesse caso aqui, esse canto é condicionado a outro elemento fundamental dessa manifestação: a letra. E é aí que voltemos ao funk carioca. Montaremos uma equação: som + letra + canto = música ou não. O som do funk pode ser enquadrado como ruído, ou seja qualquer som, além do que o sampler permite que se use bases de outras músicas que são repetidas em outras, como variações mais lentas ou mais rápidas dependendo do que se quer. No funk não se cria nada, e não se toca nenhum instrumento, ou seja, não há técnica envolvida. As letras são desprezíveis. Além dos assuntos abordados, as rimas são pobres, a forma de escrever não segue nenhum tipo de rigor técnico ou critério e não despertam nenhum tipo de sentimento em alguém. Há os que defendem o fato do funk carioca ser um tipo de som sensual, lascivo, mas em mim não desperta nenhum tipo de reação nesse sentido, bem diferente de Isaac Hayes, Chris Isaak e Brian Ferry, sendo sensuais sem serem vulgares. As letras do funk são apelativas, explícitas, vulgares e sexistas. Não há como comparar Furação 2000: “é diferente, vem com a gente, quero ver gerar pirar”, com Chico Buarque: “sábios em vão, tentarão decifrar, o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de estranha civilização”. Não há comparação entre Caetano Veloso, Ary Barroso, Gilberto Gil, Renato Russo ou Vinícius de Moraes com MC Serginho, MC Créu, Tati Quebra Barraco, Perlla ou Gaiola das poposudas. É notável a diferença quilométrica entre eles, tanto estilística quanto poética, que no caso não pode ser referida aos funkeiros, uma vez que esses desprezam tal arte. Cantar é algo superior, nem todos cantam, isso é só para alguns, os demais pronunciam palavras com algum ritmo. Esses mesmos funkeiros citados, cantam também, e nesse caso a comparação também é disparatada quando lembramos de interpretes como Gal Costa, Elis Regina, Cássia Eller, Nelson Gonçalves, Emílio Santiago ou Noite Ilustrada – entre outros. A qualidade, a beleza, a potência de alcance de suas vozes é algo impressionante, se distinguem na multidão de vozes do cotidiano das cidades, e não há como compararmos esses com aqueles. Portanto eu concluo que o funk carioca não é música, é apenas ruído – e não há problema nisso. Não há som de qualidade, não há letras de qualidade e não há canto de qualidade, é apenas qualquer som, ou seja, ruído. Esse ruído serve apenas como entretenimento de massas, sem conteúdo, uma vez que a massa não quer saber de pensar, e música também é para pensar, aprender, refletir, se elevar e no caso do funk carioca nada disso proporciona ao ouvinte, seja voluntaria ou involuntariamente. Por mais que o funkeiro tenha o direito de ter sua opinião – que por sinal deve ser respeitada – não há como fugir do fato de que dentre os muitos ruídos, o funk é também um ruído menor. Sua importância social é negativa, sua qualidade é inexistente, é um meio de dinheiro fácil porque é consumido pela massa sem qualquer critério estético ou sem qualquer critério de qualquer natureza. Portanto, nunca comparem Mozart ou Schubert com funk carioca sob a alegação de um ser melhor do que outro, até porque comparação só se dá entre coisas compatíveis, portanto, compare música apenas com música e ruído apenas com ruído. Gosto não se discute, porém numa arqueologia do gosto, concluo que se respeita o do outro, porém se admite que há gostos inferiores e gostos superiores a julgar pelo método exposto.

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.