Vou de Táxi – infância, erotização e o que podemos ver.

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Quando uso minha memória para lembrar de Angélica, a primeiro associação que faço é com programas infantis. Durante muito tempo Angélica foi uma espécie de Xuxa dos canais rivais da Globo – seja a extinta rede Manchete ou do SBT, algo parecido com o Datena hoje, todas as emissoras querem o seu Datena. Logo, por associação, o público de Angélica nesse período – que compreende parte dos anos 80 e dos anos 90, era o infanto-juvenil. Há várias maneiras de definir as fases da vida, quando começam e quando terminam – desde historiadores da infância como Colin Heywood, passando pelo célebre Phillippe Ariés e pele excelente Jean Piaget. Mas o certo mesmo é dizer que independente da idade estabelecida, o capitalismo com seu toque de Midas transforma tudo em filão de mercado. Então, se essas fases da vida não são criações diretas do capitalismo, são pelo menos indiretas. As crianças podem não ter condições financeiras para consumirem, mas possuem o principal, o desejo. Então elas formam um segmento de mercado, assim como os adolescente, os jovens, a terceira idade, etc. Cada um com seus signos, produtos e estratégias de marketing próprias. Dito isso, concluo que, se Angélica nesse período supracitado tinha como público as crianças, logo qualquer ação mercadológica que usasse seu nome como marca seria destinada a esse público. Se pensarmos em Angélica como cantora, a enquadrare-mos como cantora infantil. O primeiro hit de Angélica como cantora infantil foi “Vou de Táxi” de 1988 – ela com então 15 anos. Fazendo um exame mais cauteloso sobre a letra dessa música, a primeira pergunta que se impõe é: será que é realmente uma música para crianças? Antes de ingressarmos nessa análise é bom apresentar um fato recente – o Reino Unido acaba de votar um projeto de lei que proíbe as crianças de usarem roupas de adultos. Ou seja, cada público com sua característica. Não é a toa que cada vez mais a idade sexual tem sido reduzida, e não apenas isso, o acesso a todo tipo de informação, o ingresso no mundo do álcool, drogas e cigarro, entre outras coisas. Imaginemos que a situação representada na letra seja vivida por uma adolescente de 15 anos – isso delimita o processo analítico e as conclusões que iremos tirar. 

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“Pela janela do meu quarto, ouço a buzina, me chamando, quem será que vem me acordar” – como assim “quem será que vem me acordar”? Ou seja, se ela não sabe quem, isso significa que pode ser qualquer pessoal, e isso significa que pode ser mais de uma pessoa a ser esperada. Pense em você em casa e toca o seu telefone. Quantas pessoas você conhece e que possuem seu telefone? Certamente mais de uma! Com a personagem não é muito diferente, o que demonstra (forçosamente ou não) que se relaciona com qualquer um. Veja se isso é música infantil: “Mas no banho, foi só me tocar, de repente lembrei do teu olhar” – uma criança ou adolescente (lembre-se da época) podem não saber o significado desse “tocar”, mas podem querer ir atrás de saber. Não é puritanismo, mas apenas cautela. É importante que se descubram as coisas, e não que haja uma hora certa, mas certamente há uma idade imprópria para isso (sei lá, 6 anos idade não considero uma idade adequada para se “tocar” por exemplo). Se com esse verso “Vou de Táxi” ainda pode ser considerada uma música para crianças, “I Touch Myself” da banda Divinyls também pode ser: “Quando eu penso em você, eu mesma me toco” – e não é. O refrão da música de Angélica diz: “Vou de táxi cê sabe, tava morrendo de saudade, mas não lembro, do teu nome” – esse não lembrar do nome, pode evidenciar para alguns o fato da personagem se envolver com várias pessoas. Ou também o fato de que o nome da pessoa não importar, assim como qualquer outra coisa. E outra, como uma garota de 15 anos (hipoteticamente) sai com um desconhecido? A letra esconde o descaso dos pais ou uma garota exercendo sua liberdade? Muitos irão ver a questão pelo seu viés ideológico (que eu considero um tanto ultrapassado). A visão do descaso dos pais, seria identificada com a direita. Ou seja, o controle dos pais sobre os filhos, o conservadorismo, a autoridade, etc. A visão da liberdade da garota seria identificada com a esquerda. Luta contra a sociedade impositora, quebra de tabus, enfrentamento frente a alienação dos pais, etc. Mas será? – Para os dois casos. O coro das feminista irá dizer que se no lugar dela fosse um homem não teria problemas, mesmo que o homem em questão fosse um garoto de 15 anos. Pois a sociedade vê com olhos diferentes homens e mulheres – meninos e meninas, compare com a música “Puteiro em João Pessoa” do Raimundos. “Não tem pressa, teu jeito de olhar pra mim me arrepia, me leva, me faz viajar…” – isso é apologia ao sexo e a promiscuidade, ou só o funk carioca é que faz isso? Ou apenas querem enxergar isso no funk porque é uma música feita por uma maioria negra e periférica? Será que pegaria bem uma garota branca, loira, estrela de tevê, classe média alta ser rotulada de apologista do sexo (e para menores ainda)? Que diferença há entre “teu jeito de olhar pra mim me arrepia (…), me faz viajar…” e “só pra te enlouquece, só pra te enlouquecer” do grupo Avassaladores? Olhando bem nenhuma – exceto as estruturais (questões de fundo).

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No fim dessa mesma estrofe lê-se: “a escola pode esperar” – o que sentencia: ela é mesmo uma adolescente (está em idade escolar). Se a escola pode esperar, significa que está em segundo plano. Que belo exemplo para as crianças não? Trocar a escola por sexo, primeiro passo. Segundo passo, a escola não garante o futuro de ninguém. Terceiro e último passo, trocar o sexo por dinheiro = prostituição. Não posso dizer que isso é algum tipo de mensagem oculta da música (como Charles Manson via nas canções dos Beatles e em “Helter Skelter” em especial), mas certamente é uma leitura possível. Confesso que sempre ouvi essa música mas nunca havia parada para vê-la por esse ponto de vista, e foi justamente numa conversa sobre hits dos anos 80 que eu me lembrei. Aí então pensando melhor sobre a letra me questionei sobre ser ou não mesmo uma canção infantil ou adolescente. É claro que podemos fazer a leitura que quisermos de qualquer música, ou de qualquer coisa (propagandas, filmes, discos, livros, quadros) – porém sempre será uma visão pessoa e subjetiva, nunca totalizadora ou definitiva. Não cabe aqui estabelecer coisas, mas sim questionar aspectos e fazer com que cada um traga seus pontos convergentes ou divergentes como esses ou não. As análises são como festas: se só uma pessoa traz comida e as outras só trazem as bocas, todos comem pouco – mas se todos trazem comida, todos comem um pouco mais. Então num debate, conversa, análise, crítica – se todos trouxerem idéias, ao invés de só uma forma de ver a questão, teremos várias, é a boa e velha lição que a dialética nos deu.

 

 

 

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About the author

Marlon Marques Da Silva

Filósofo, tio de duas sobrinhas, santista. Professor da rede pública (ETEC); estudei: História (UNG); Filosofia (USP), Pedagogia (Faculdade Brasil/USP-Leste); Política internacional (FESP); Políticas Públicas de Educação (INEQ); História da Arte (MASP). Alinhado ao campo marginal da filosofia ao lado de Demócrito, Lucrécio, Spinoza e Nietzsche.