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É nas esquinas que algo acontece, não acontece, está para acontecer.

 

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As recentes intervenções nas ruas da Tunísia, Egito, Argélia, Líbia, têm nos mostrado que ainda há calor nas esquinas. Ou melhor, ainda se pode esquentar as coisas, especialmente quando o intervir é uma espécie de vir entre e as in(ter)venções se dão no calor de acontecimentos que afirmam o devir minoritário das multidões.

 

 Percebemos nesses movimentos que quando uma ou várias situações colocam o caldeirão para ferver, quase a entornar, as etnias, crenças, posicionamentos políticos dissonantes e disparidades socioeconômicas se misturam, perdendo a tradicional ênfase que em tempos mornos ou frios, estas mesmas frentes se dão, isoladamente, naquilo que sustenta cada um de seus diferentes apelos, sabores e interesses particulares.

 

O resultado “gastronômico” dessa mistura insurgente num caldeirão borbulhante é o surgimento de bolsões de comum, espaços-tempo em que é possível trabalhar com, em meio ao agenciamento de diferenças produzidas através de uma multiplicidade de forças em alianças provisórias, mesmo que improváveis, marchando juntas, dobrando as esquinas em imanência. 

          Que saberes-sabores extrair desses aquecidos caldeirões de acontecimentos em cada esquina?

 
Isso me lembrou os relatos acerca das “Barricadas do Desejo” do maio Francês de 1968, assim como os inúmeros acontecimentos pelo mundo afora, especialmente na América Latina, também durante a quente década de 1960, enquanto esta ainda estava fervendo. Depois vieram os Anos de Inverno da década de 1980, tal como nos alertou Guattari, período de passividade fria, de acomodação, de um silêncio sem mordaça (?!)… estes anos foram seguidos pelos de 1990, você se lembra da 1ª Guerra do Golfo, dos mísseis teleguiados e dos aparatos de destruição que dispensavam a marcha da infantaria, que pareciam apresentar ao mundo um novo modo de ocupação bélica modulado pela não-presença, conforme análise de Virilio? Espécie de “guerra de videogame”, com velocidades nunca dantes experimentadas até aquele evento.
 

          Você ocupa uma esquina sem precisar pisar nela.

Penso que há ocasiões em que é preciso esquentar as esquinas. Em tempos de GPS, de Google Street View, quando (todas) as esquinas são demarcadas a priori, ainda assim, é possível dizer que a revolução não será televisionada? É possível que ela seja “tuitada”, narrada em 140 caracteres através daquela máquina de pequeninas conversações frenéticas e suas esquinas, que é o Twitter. Máquina, que como outras, não é boa ou ruim de antemão, mas cujos funcionamentos, mais do que suas funções, é que vão determinar a sorte de acontecimentos aos quais filiá-la.

 

          Ainda há espaço nas esquinas para o inusitado e suas forças subversivas, para errâncias cujo caminho se (des)faz ao caminhar?
 

          Como experimentar um dérive situacionista em tempos de GPS, perdendo o rumo do destino já dado?


As esquinas podem se tornar pontos de encontro e ao mesmo tempo cruzamento de linhas. Linhas de toda sorte, conforme Deleuze e Guattari, que podem ser duras, flexíveis, de estratificação, de fuga, sedentárias, nômades… há uma multiplicidade de linhas e intercessores, incluindo as de despacho pelas encruzilhadas afora, o desafio é cartografá-las.


E havia música na praça…

A praça se não nasce de uma ou várias esquinas, localiza-se cercada de esquinas por todos os lados. Talvez a praça seja uma espécie de instalação para sinalizar a afluência de um punhado de esquinas. Para que serve mesmo uma praça em uma cidade? … quando uma ou várias bicicletas cruzam uma esquina, quando uma frase ou desenho é grafitada em uma esquina, quando a praça vira praia, dá até para sentir uma onda em suas esquinas. Incomoda-me avistar uma praça cercada, mesmo quando os motivos alegados envolvem a questão da segurança e de se evitar a depredação. Pois não basta perambular pelas esquinas, é preciso ocupá-las.
 
          Ainda acho que dançar alegre pelas esquinas é melhor do que marchar cabisbaixo em fila indiana.

 

Território de encontros por excelência, é nas esquinas que a multidão se sente mais à vontade. Seja aglomerada em grandes blocos ou em grupelhos, ouvimos os passos e as vozes, as reivindicações e as alegrias, de uma multiplicidade. Ali não se tem o um a um, mas a soma dissonante, as singularidades em marcha.

Na esquina tem outra esquina. Você dobra uma esquina e de repente… as dobras de dentro do fora. Esquinas de subjetivação. Esquizoanálise na Esquinanálise.

 

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Rogério Felipe