Arte e Cultura - Cinema Atemporal

AS MÃES DE CHICO XAVIER – Glauber Filho e Halder Gomes
Enquanto a tempestade sacudia os Alpes suíços, Victor Frankenstein, ou o moderno Prometeu, teimava em continuar sua experiência no estúdio fétido. Exausto e febril, ele está completamente surdo aos avisos da Natureza que esbraveja contra sua tentativa de se igualar a Deus. Raios e trovões somam-se aos impulsos elétricos que chegam à Criatura, o líquido amniótico borbulha como as águas da chuva que ele vê pela janela. O momento crucial desta narrativa traz ao cume o conceito romântico da relação do indivíduo com a Natureza.
Esta intensa Einfühlung pela Natureza nas narrativas românticas vai além da simples empatia, na verdade, chega à total identificação, como observado por Schelling – mencionado por mim em outro texto no Pensador Selvagem Cinema espírita. O espírito humano é a quintessência da natureza e a natureza é a manifestação do espírito humano, não somos separados.
Em As mães de Chico Xavier de Glauber Filho e Halder Gomes mais uma vez esta característica romântica está presente. A simbiose entre a Natureza e os seres humanos ultrapassa a simples analogia e nos traz, além de imagens arrebatadoras, a sincronicidade dos eventos, como a nos falar sobre a eternidade da vida. No início do filme as imagens da água e uma nebulosidade se misturam e ao abri-la vemos pai e filho pescando num lindo lago; o peixe pescado pelo rapaz, que nem queria estar ali, é seguido de comentário do pai: “você deveria aproveitar mais estes momentos” o qual é ignorado pelo filho. A presença da natureza trazendo um prazer simples não comove o rapaz que não está em harmonia com ela e ele será o próximo fisgado.
A natureza é personagem no filme, como anunciadora ou companheira: a tempestade que cai quando o rapaz é deixado na clínica, o céu que muda a cada acontecimento, as pedrinhas do rio que a mãe guarda com carinho, os pássaros que cantam na porta da escolinha de Theo, os grilos na Casa da Prece de Chico. Incluso o silêncio recheado destes sons naturais tão bem colocados e pontuados faz da narrativa um convite para irmos mais fundo na reflexão. Bem diferente das afobações e necessidades de sustos de outros filmes que falam de desencarnados por aí.
Mesmo sendo, como dito pelo próprio Glauber, um filme que homenageou o centenário de Chico Xavier, não me pareceu um filme doutrinário, mesmo com referências ao Cristianismo (como nas imagens dos peixes) e na prática da caridade kardecista. É ainda um filme em si, uma ficção baseada em fatos reais, mas que com certeza pode ser apreciada por quem não segue os preceitos ali somente mencionados. O entrelace dos personagens, suas experiências, alegrias e dores são humanas e é o que se ressalta no enredo. É como disse Glauber: é um legado e uma produção ligados a causas sociais e humanitárias como vemos nos créditos, mas também é uma obra de arte.
Seu ritmo leve e cadenciado e sua simplicidade profunda lembram as narrativas cinematográficas iranianas, tais como: “A maçã” de Samira Makhmalbaf ou “O balão branco” de Jafar Panahi, só que com mais sofisticação. Este toque fino está, por exemplo, na maneira em que os acidentes foram mostrados: nada de rios de sangue saindo da tela, nada de ver em que estado ficou o corpo, não somente porque a ênfase é o espírito e a passagem, mas também porque o importante ali não é chocar. São mortes que emocionam, mas não massacram a paz do espectador e talvez por isso mesmo doam um tantinho mais...
A sincronicidade que une os personagens faz da narrativa algo mais comovente e próximo a algo com que o espectador pode se identificar rapidamente, já que parece ser assim conosco quando o trágico acontece. O irmão que ouve de Karl sobre Chico Xavier e morre em seguida; Karl que vê em sua ilha de edição cenas do acidente em que estava o irmão; a professorinha que queria abortar e ouve de Elisa como é ter um amor incondicional de mãe.
Outros pontos que colocam este filme fora do alcance das marcações que poderiam podá-lo e mais próximo de um estilo definido de Glauber/Haulder foi o cuidado no figurino e ambientação, mesmo que saibamos que ocorria nos anos 90, para que soasse com algo atemporal, que nos leva e levará os futuros espectadores a sentir esta linda mensagem como eterna. Assim como os closes para captar as emoções dos personagens e os olhos! Ah, os olhos das mães! Nada mais a comentar sobre estes últimos...
Como conversei com Stephanie Celentano em breve bate papo sobre o (talvez) cinema espírita, não me sinto segura para dizer que este já é um gênero cinematográfico brasileiro, mas com certeza é brasileiro. E pode ser um subgênero do que vemos alguns já chamar de cinema transcendental. De qualquer forma, com ou sem rótulos, é um filme lindo, perspicaz, sutil, elegante, profundo sem ser pretencioso. Eleva a alma pelo que diz e pelo o que mostra.
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