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Deus Criou a Mulher. E a Mulher Criou o Cinema.

Março de 1895. Em um salão de paris, os irmão Auguste e Louis Lumiére assombravam os convivas demonstrando em público pela primeira vez sua mais nova invenção: o cinematógrafo, uma misteriosa caixinha capaz de conjurar um trem inteiro nas paredes do recinto, e fazer ele se mover em direção da distinta audiência! Entre a pequena multidão de sussurros intrigados e gritos de surpresa, uma secretária de 22 anos de idade observava atentamente. E percebia que aquilo que os Lumiére tratavam como uma mera curiosidade mecânica que interessaria o mundo por um verão e logo seria esquecido tinha potencial para ser muito, muito mais… Nos meses seguintes, essa jovem convenceria seu empregador, Léon Gaumont, a fundar o primeiro estúdio de cinema do mundo. E ela mesmo ganharia o direito de disputar o controverso título de “criadora do cinema”.

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Alice Guy

Alice Guy (mais tarde, conhecida pelo nome de casada, Alice Guy-Blaché) era filha de um editor de livros francês radicado em Santiago, no Chile. Por insistência de sua mãe, outra imigrante de origem francesa, Guy nasceu na França, e passou sua primeira infância criada pelos avós, na Suíça. Ela só conheceria o Chile, terra onde seus pais e irmãos moravam, por um breve período quando criança. Aos seis anos de idade, foi internada em uma escola para moças na França, e sua vida provavelmente teria tomado o rumo de outras mulheres de classe média alta europeia da época, envolvendo um bom casamento e uma aborrecida existência doméstica pelo resto dos seus dias, não fosse por uma tragédia… Em 1893, seu pai faleceu, deixando para trás dívidas resultantes de anos de maus negócios. Pouco tempo antes, o irmão mais velho de Guy também tinha morrido precocemente, vítima de uma doença cardíaca. A tarefa de sustentar sua mãe viúva, e si mesma, repousara assim nos ombros da jovem francesa, que não esmoreceu. Mudando para a vibrante metrópole parisiense, ela aprendeu estenografia e buscou um emprego de secretária, sendo contratada em uma agência de fotografias dirigida por Léon Gaumont.

Por si só, isso já bastaria para caracterizar Alice Guy como uma desbravadora. Em sua autobiografia ela conta que frequentemente lhe perguntavam porque procurou ter “uma carreira”, uma vez que “já era uma mulher”, e teoricamente, isso bastava. Mas Guy não só escolheu se profissionalizar como fez em uma época em que o mundo começava a se transformar, e  sabendo aproveitar a oportunidade para participar e moldar essa transformação. Naquele fatídico março de 1895, era como secretária de Gaumont que ela atendeu a apresentação dos Lumiére. Mas, poucos meses depois, seria como produtora e diretora que Alice Guy marcaria seu nome na história do cinema.

Como mencionei no começo dessa história, os Lumiére não tinham grandes expectativas com relação à sua invenção. Eles estavam muito felizes em terem resolvidos o enigma técnico da projeção, que permitia exibir filmes para diversas pessoas de uma vez só, diferentemente da experiência individual típica do cinematoscópio de Thomas Edison. Mas, fora isso, eles não tinham muitas ideias do que fazer com o recém-inventado cinema, além de registrar alguns eventos corriqueiros para posteridade. Mesmo seu primeiro filme de ficção (e o primeiro de toda história), O Regador Regado não passa de uma brincadeira doméstica ensaiada, mais uma veleidade do que uma narrativa propriamente dita. Para os Lumiére o cinema era uma moda que mais cedo ou mais tarde, seria fatalmente esquecida… e, de fato, após realizarem um tour mundial com o cinematógrafo, os Lumiére pararam de fazer filmes para voltar a se dedicar à desenvolver novas tecnologias fotográficas. Mas Alice Guy tinha uma outra visão. Ela achava que o tais “filmes” podiam ser utilizados não apenas para registrar imagens de pessoas em coisas em movimento, mas também para contar histórias! Mais ainda! Guy achava que se as histórias fossem interessantes o suficiente, a audiência estaria disposta a assistir um filme novo apenas para ver uma história nova! Conceitos que, hoje em dia, parecem óbvios e lugar-comum… Mas eram inovadores o suficiente em sua época para encontrarem resistência. Mas, dado o sucesso econômico que os filmes do cinematoscópio tinham, e o interesse suscitado pelas exibições dos Lumiére, Léon Gaumont finalmente cedeu. Sua empresa de fotografia produziria filmes, muitos filmes. E Alice Guy ficaria responsável por fazer isso acontecer.

Assim, em 1896, Guy lançou A Fada do Repolho, um curta baseado em uma tradição folclórica francesa sobre recém-nascidos surgirem de plantações de repolho. Era um filme simples, que obedece completamente as limitações técnicas e convenções estéticas do cinema da época. Mas era também ostensivamente uma ficção, que tentava contar uma história, e não apenas registrar um evento. Mais ainda, era uma das primeiras ficções… Além de Guy, a única outra pessoa fazendo cinema do tipo era Georges Méliès. Mas, logo, e por conta inclusive dos esforços de Guy como produtora da Gaumont, muitos outros seguiriam seus passos (incluindo Louis Feuillaide, uma lenda do cinema que foi diretor de Os Vampiros, e que foi contratado por Guy e, anos mais tarde, indicado por ela como seu sucessor).

Muitos dos trabalhos de Guy, assim como de outros cineastas do período do Primeiro Cinema, estão infelizmente perdidos para sempre. Mas sabemos, pelo pouco que sobrou, e relatos da época, que sua obra foi pautada pela inovação. Não bastou para Alice Guy criar o conceito moderno de cinema… Ela forçou ao máximo os limites técnicos e sociais da época para levar seus filmes além. Guy experimentou com cores e com som, e também foi responsável pelas primeiras imagens de casais interraciais no cinema. Ela também popularizou filmes de dança, um predecessor arcaico dos musicais, e foi uma pioneira das superproduções, dirigindo em 1906 La Vie du Christ, uma monstro de 25 cenas e mais de 300 figurantes que foi o maior filme já feito quando surgiu e chegou a ser distribuído em pedaços, as cenas separadas, para agradar audiências e distribuidores que simplesmente não estavam acostumadas com a ideia de um filme tão vasto (total de 33 minutos…).

Uma sala de exibição anuncia uma noite de filmes da Solax

Em 1907, Alice Guy se casou e mudou com o marido para os Estados Unidos, para dirigir a divisão norte-americana da Gaumont. Não demorou muito, porém, para que ela fundasse a própria companhia, a Solax, Depois de ser a primeira diretora e produtora de cinema mulher, Alice Guy se tornou também a primeira mulher a comandar um estúdio de cinema, e com muito sucesso. Sediada em Nova Jersey, a primeira capital do cinema dos Estados Unidos (onde também estavam os estúdios de Thomas Edison), a Solax logo se tornou um dos principais estúdios de cinema, e fomentou o crescimento de outras empresas, como a Metro, que distribuía seus filmes, e a Goldwyn, uma produtora que alugava seus estúdios (mais tarde, essas empresas se juntariam para fundar a Metro-Goldwyn-Meyer, a famosa MGM). E, mantendo a tradição de pioneirismo, foi na Solax, em 1912, que Alice Guy dirigiu A Fool and His Money, uma tragicomédia sobre um lavador de pratos que, em uma rápida sucessão de eventos, encontra e perde uma fortuna e o amor de sua vida, e que hoje é considerado como sendo muito possivelmente o primeiro filme já feito com atores afro-americanos.

Apesar de ter um papel inegável como uma heroína da emancipação feminina, e ter uma prática cinematográfica marcada pela ruptura com padrões sociais de gênero e raça, o discurso de Alice Guy era, por vezes, ambíguo. Por exemplo, em 1906, ainda na sua fase francesa, ela dirigiu Les Résultats Du Féminisme, uma comédia em que homens esteriotipicamente afeminados são assediados por mulheres masculinizadas, reproduzindo de forma bem escorreita certos clichês cômicos machistas e antifeministas da época. Interpretações mais recentes, porém, buscaram encontrar outros subtextos na obra. A vitória final dos homens, por exemplo, pode ser vista como uma declaração contraintuitiva de apoio ao feminismo, uma vez que eles fazem o papel de pessoa oprimida que no mundo real pertence às mulheres, e o filme termina por demonstrar simpatia ao grupo vitimizado. Considerando quão brilhante Guy era, não é esperar demais que ela deliberadamente estivesse subvertendo um velho clichê machista para demonstrar o absurdo da oposição masculina ao feminismo… Ainda mais considerando que o filme não propõe que os “resultados do feminismo” são o caos social, mas apenas que ser tratado como uma mulher é uma experiência desagradável. Uma verdade que, infelizmente, marcaria a carreira de Guy em seu fim, tanto quanto no seu começo.

Na década de 20, disputas judiciais e políticas sufocaram aos poucos a indústria de cinema da costa leste. A principal concorrente da Solax, a Biograph de D.W. Griffith,  mudou para Hollywood, e logo outros estúdios seguiram, ou surgiram por lá. Com eles, se foi também Herbert Blaché, marido de Alice, que a trocou por uma atriz mais nova, e deixou a diretora de cinema para trás para dirigir sozinha o estúdio e cuidar dos filhos do casal. Assoberbada e com dívidas, Alice Guy dirigiu filmes por mais dois anos, até 1920. Enfim oficialmente divorciada de Blaché, ela declarou a falência da Solax e retornou com os filhos para a Europa. Ela voltaria para os Estados Unidos apenas em 1964, já com idade bastante avançada, para morar com uma de suas filhas. Quatro anos depois, ela morreu. Depois de 1920, nunca mais dirigiu nenhum filme.

A Gaumont existe até hoje, e é o estúdio de cinema mais antigo do mundo. A aposta de Alice Guy foi acertada e, de fato, cinema não apenas não foi só uma mera curiosidade, como foi a principal indústria de entretenimento do século XX, uma nova forma de arte, e permanece como o meio narrativo dominante de nossa era. Nenhum indivíduo, nem mesmo Georges Méliès ou Edwin Porter, experiment ou tanto ou fez tanto para expandir os limites do cinema quanto Alice Guy fez em sua era. Ainda assim, seu nome foi largamente esquecido da história cinematográfica. Ainda hoje, Guy é tratada como uma nota de rodapé, ou tem suas enormes contribuições para o cinema reduzidas ao papel de “primeira mulher diretora”. Mas ela foi a primeira pessoa a ter a ideia de usar filmes para contar histórias, e criou a divisão de cinema do primeiro estúdio cinematográfico, além de ter dirigido mais de mil filmes, incluindo 22 longa-metragens, e os primeiros filmes com som, com cor, com diversidade étnica. Seu papel na história do cinema foi fundamental e decisivo. Em 2004, uma placa contando a história do seu estúdio foi construída no local onde a Solax ficava, em Fort Lee, Nova Jersey.

É o único monumento existente em homenagem à mulher que criou o cinema.

Lápide de Alice Guy, com o símbolo da Solax Company, no Cemitério de Maryrest, Mahwah/NJ

About the author

Felipe Damorim

Felipe Damorim se formou em uma faculdade, e desistiu de outras duas. Editou livros, publicou contos, manteve blogs e dirigiu filmes. As pessoas dizem que gostaram de tudo, pelo menos na cara dele.