Sobre a Importância de Ser Lumière

Os Irmãos Auguste e Louis Lumière

No episódio anterior desta coluna, eu contei pra vocês que inventores como Joseph Plateau, Etienne-Jules Marey, Eadweard Muybridge e Albert Londe passaram o século XIX desenvolvendo as técnicas e aparatos que permitiram a criação da forma de arte que hoje é chamada apenas de “Cinema”. Ainda assim, quando chegamos no ano de 1893, ainda não tinha nada de bom para um cabra assistir se quisesse ver um filminho… Porque filmes ainda não existiam. Mas isso já estava para ser resolvido.

O desenvolvimento técnico que permitiu o surgimento do cinema foi só metade da equação que permitiu que hoje, você passasse o final-de-semana comendo Cheetos enquanto assiste Netflix. A outra metade foi a cultura de entretenimento ocidental. Com a urbanização que aconteceu a partir do século XVIII, grupos itinerantes como circos e trupes de teatro começaram a se estabelecer nas grandes cidades, ocupando salas de teatro e salões de dança, particularmente os mais pobres, que não tinham infraestrutura para receber as opulentas óperas atendidas pelas elites ricas. Nesses espaços mais caídos, surgiram os espetáculos de vaudeville, que podem ser bem definidos como uma tentativa de usar quaisquer meios possíveis para distrair uma multidão de gente sem muita grana, educação formal ou possivelmente alcoolizada, por algumas horas. Truques de mágica, cenas cômicas, dança, canto, acrobacia, malabarismo… Tudo valia no vaudeville, e um bom artista da área devia ser capaz de transitar sem muito problema entre uma coisa e outra. Não é de se surpreender que o vaudeville se revelaria um enorme celeiro de talentos para o nascente cinema, tanto na frente quando atrás das câmeras… Georges Mèliés, Charles Chaplin e Buster Keaton sairiam direto de lá para os estúdios.

Mas a cena do show business vitoriano não se limitava aos salões duvidosos e cabarés do Circuito Orpheum e da Galerie Vivienne. Também existiam os “arcades” e as feiras… que eram exatamente a mesma coisa que os fliperamas de hoje em dia. Um espaços escuros onde gente do povo podia se divertir com aparelhos mecânicos, jogos e alguns shows… incluindo aí as Fantasmagorias, espetáculos de luzes e sombras que utilizavam de efeitos óticos e equipamentos como a Camera Obscura e a Lanterna Mágica. Não era particularmente uma novidade… teatros de sombras são uma diversão que existe desde a antiguidade, e que pode ser encontrado por todas culturas do Velho Mundo, da África à Ásia, passando pela Europa… Mas era ainda popular o suficiente para dar uma ideia a um velho inventor e empreendedor de Nova Jersey: “Se gostam tanto de efeitos visuais, porque não fazer algum tipo de espetáculo com fotografia?” E assim, Thomas Edison iniciou a criação do Cinetoscópio.

Thomas Edison, Inventor, Empresário, Mau Caráter

Pra ser justo, dizer que Edison “criou” o Cinetoscópio é meio que uma simplificação brutal. Edison era um empresário, e um particularmente trapaceiro e explorador. Mas ele viu que existia uma demanda a ser explorada e correu atrás. O trabalho duro mesmo ficou na lomba do velho parceiro de Edison, o engenheiro escocês William Kennedy-Laurie Dickson. Um gênio técnico e pau para toda obra, Dickson foi responsável por criar a última peça do quebra-cabeça, sem o qual nunca haveria cinema… Ele descobriu como fazer para registrar uma série de fotografias em uma fita flexível, mas duradoura o suficiente para aguentar passar diversas vezes pelos mecanismos de uma câmera e de um projetor. Um imigrante escocês pobretão, que anos antes tinha implorado para que Edison lhe desse um emprego, tinha, assim, inventado o filme de celuloide.

(E apesar do tema recorrente dessa coluna e da anterior é de que o cinema é filho de muitos pais e não só de uma ou duas pessoas, se você quiser fazer questão de definir UMA pessoa para apontar como “Inventora do Cinema”, eu diria para falar de William Kennedy-Laurie Dickson. Que, aliás, foi também o primeiro ator de cinema, e a estrela do primeiro filme de todos os tempos… Saudação de Dickson, uma complexa trama em que Dickson passa um chapéu de uma mão para a outra, demonstrando que capturou movimento com sucesso.)

 

Mas e os Lumière? No que eles contribuíram? O que foi que ELES fizeram para o cinema? Apenas tomaram para si a fama? Estamos sendo enganados o tempo todo?

Sim, óbvio que estamos sendo enganados o tempo todo. Mas nem tanto quando a questão são os Lumière.

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Black Maria, o primeiro estúdio de cinema

Black Maria, o primeiro estúdio de cinema

Os Cinetoscópios começaram a ser comercializados em 1893, e foram razoavelmente bem-sucedidos. A partir do estúdio construído em Nova Jersey, apelidado de Black Maria devido à cor preta que lhe decorava completamente, Edison e Dickson produziram diversas filmes cujos temas poderiam excitar os interesses do público… A filmagem de um espirro foi um dos primeiros clássicos, mas houveram também filmes com apelo mais sensual, mostrando dançarinas com vestes escassas (para a época), e até a gravação de uma luta de boxe. Porém os cinetoscópios tinham lá suas limitações, enquanto veículo para distribuição de filmes. Eles eram, no fim das contas, um gabinete de madeira onde o espectador se inclinava para ver o filme passar, enxergando tudo através de uma fresta. Só dava para uma pessoa assistir por vez e, como a produção da traquitana era cara, demorava para os equipamentos (e os filmes feitos para ele) se pagarem. Do jeito que a coisa andava, a nova forma de arte baseada no registro de imagens em movimento estava destinada a ser uma curiosidade passageira.

O Cinematógrafo dos Lumière: a caixinha que mudou o mundo!

O Cinematógrafo

Até que, em 1895, em um salão de Paris, os irmãos Auguste e Louis mudaram a história do mundo.

A contribuição dos Lumière à História do Cinema foi a invenção do primeiro aparato mecânico capaz de projetar imagens em uma tela grande, permitindo assim que várias pessoas assistissem um filme de uma só vez. Pode parecer um passo modesto, mas foi um avanço crucial. Com essa tecnologia, era possível para um exibidor lucrar dezenas de vezes mais do que ganhava com um Cinetoscópio em uma única sessão. Também ajudava o fato que o Cinematógrafo dos Lumière era mais leve e móvel, podendo ser transportado de um lado para o outro com maior facilidade… O que permitia realizar sessões de cinema itinerantes, indo onde o publico estava. Os Lumiére tinham efetivamente tornado o cinema economicamente viável. Nascia ali uma indústria. Nascia ali um futuro.

 

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Mas isso não foi tudo que os Lumière fizeram, veja bem. O sucesso do Cinematógrafo os estimulou a produzir diversos filmes nos anos seguintes, para alimentar a curiosidade de um público cada vez mais ávido por imagens em movimento. Surgia ali o que hoje é chamado de Primeiro Cinema, um movimento de cineastas de primeira hora que perduraria até a segunda década do século XX. Em seu comecinho, o Primeiro Cinema não era lá coisa das mais interessantes para as sensibilidades de hoje em dia. A novidade era ver fotos se mexendo, então ninguém precisava fazer muito mais que isso para agradar. Os primeiros filmes dos Lumière se resumem a coisas como o registro de um trem chegando em uma estação, ou funcionárias de uma fábrica saindo para ir embora para suas casas. Para fins históricos, são documentos sensacionais, mas não era exatamente uma trama plena de suspense.

Mas em 10 de junho de 1896, uma surpresa. Os Lumière exibiram sua mais nova obra, filmada nos jardins de sua casa em Lyon. O Regador Regado não era apenas um registro fotográfico, o retrato de um fato que aconteceu espontaneamente. Era um evento ensaiado, em que pessoas fingiam emoções e agiam de uma forma pré-combinada para contar uma história. Era a primeira comédia do cinema, mas era ainda mais… Era o primeiro filme narrativo, a primeira obra cinematográfica de ficção. Mais que um novo tipo de fotografia, o cinema ganhava aqui os primeiros contornos de uma linguagem própria e começava a tomar o rumo de sua grande vocação: ser a forma de narrativa visual dominante do século XX.

 

Os Lumière porém, falharam em reconhecer isso, ou mensurar o verdadeiro impacto que suas invenções teriam sobre a sociedade. Após uma produção significativa nos primeiros anos do Cinematógrafo, eles se afastaram da produção de filmes, se dedicando à fotografia (onde ajudaram a desenvolver os filmes coloridos). Mas não fez mal. Auguste e Louis já tinham feito mais que o suficiente. A bola estava rolando, e cairia nos pés de outros pioneiros que cuidariam de fazer com que o jogo da arte cinematográfica seguisse bonito. Incluindo aí uma jovem secretária que atendeu à primeira exibição do Cinematógrafo em Paris… e teve uma ideia.

Na próxima coluna: Alice Guy, a Mãe do Cinema
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About the author

Felipe Damorim

Felipe Damorim se formou em uma faculdade, e desistiu de outras duas. Editou livros, publicou contos, manteve blogs e dirigiu filmes. As pessoas dizem que gostaram de tudo, pelo menos na cara dele.