Do Forró Universitário ao Emocore – indústria, público e a teoria da sucessão dos estilos musicais.

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Hoje quando acordei, liguei a tevê e passando os canais me deparei com uma entrevista do “Falamansa” – o grupo de forró universitário. Enquanto ouvia as respostas do grupo – intercaladas a algumas canções, me veio à mente uma ideia que responde a uma questão muito recorrente – o movimento Emo irá acabar? Fiquei pensando – o Falamansa teve seu auge entre o final dos anos 90 e o começo dos 2000. Lembro-me que nessa época o grupo tocava e aparecia em todos os canais, suas músicas estavam entre as mais pedidas e isso gerou duas conseqüências: uma legião de fãs – com sandálias rasteiras, calças largas e chapéus e uma série de outros grupos fazendo o mesmo tipo de som (Circuladô de Fulô, Peixe Elétrico, Rastapé, entre outras). Onde estão todos? Podem não ter acabado – óbvio, mas já não fazem o mesmo sucesso e não possuem o mesmo espaço de antes. E por quê? Por duas razões – pela sazonalidade dos estilos musicas e por sua conseqüente saturação, a indústria fonográfica abandona um estilo e abre espaço para o próximo que começa a entrar no gosto do grande público – e a outra razão se dá pelos tipos de público. Entre os diversos tipos de público, destaco três como sendo os principais para explicarem essa teoria. Percentualmente falando, o público de um estilo musical dividi-se em: 70% – aproveitam o “boom”, aderem a moda e quando tudo acaba, migram definitivamente de estilo, 20% – aderem mesmo o estilo e tornam-se sectários ou fanáticos, sendo assim uma minoria que realmente gostavam em detrimento da moda e os outros 10% – são aqueles mais ponderados, que nem deixaram de curtir e nem viraram fanáticos, e sim deixam espaço para ouvirem um pouco de tudo. Para reforçar isso, basta vermos o que aconteceu com o Reggae – o estilo que midiaticamente substituiu o Forró universitário. Esse auge do ritmo de Bob Marley aconteceu de 2001 a 2005 – e em um processo semelhante ao forró, o reggae também apareceu muito, também saturou, também criou uma legião de fãs e novas bandas. Onde estão todos? Sim, também não acabaram – mas como dito acima a indústria está sempre em busca do novo “hype” – a nova menina dos olhos. Esses 70% - são justamente a amostra do poder de influência da mídia em relação à imposição de gostos musicais (e culturais). As pessoas com uma formação humanística menos favorecida (isso não têm haver com formação escolar), conseqüentemente são mais fáceis de serem influenciadas – não possuem identidade e capacidade de fazerem suas próprias escolhas. São para essas pessoas que os programas são feitos, as estratégias de marketing, toda publicidade e toda banalidade reinante na tevê pública. Porque os 20% – os sectários, seguem suas bandas no underground, vivem as filosofias cantadas nas letras (veja por exemplo que muitos dos simples curtidores de reggae tornaram-se rastafáris) e deixam quase todos os outros tipos de música de lado – recebendo pouca ou nenhuma influência da mídia. Os 10% – os ponderados, são mais críticos em relação aos desígnios da mídia. Dificilmente deixam-se levar pela “ditadura” do gosto e não possuem compromisso com nenhum estilo, banda ou afiliação. Eu citei o caso do reggae, mas isso serve também para punks, metaleiros, góticos, pagodeiros, funkeiros, clubbers, e outros – que por causa do pertencimento a um grupo, não podem gostar de nada que fuja de seu estereótipo. A estrutura é a mesma. Dessa forma, a crítica se aproxima do modelo marxista – o materialismo histórico, e da teoria da sucessão dos impérios de Kenneth Waltz – que lidam com a ideia da inevitabilidade das mudanças de modo de produção (na primeira) e dos impérios (na segunda). Se aproveitando dessa ideia, acredito muito na desaceleração gradual e no enfraquecimento do movimento emocore. A indústria não é condescendente com ninguém, e não será com o emo. A lógica capitalista não conhece sentimentos, é fria, então também será impiedosa com emo, assim como foi com o forró e com reggae. A comparação aqui não é estilística ou de juízo de valor, mas sim estrutural e conjuntural. Assim que surgir um estilo novo – dentro de qualquer gênero (rock, forró, samba, eletrônico) – a indústria irá tirar todo espaço do emo e dará a esse novo estilo. E esse novo estilo também irá nascer datado – e fadado a morrer, justamente pela teoria de sucessão de estilos. Se repararmos nas evidências, Fresno e NX Zero embora tenham ainda muita mídia, não têem hoje o mesmo espaço de antes – que hoje é ocupado pelo Restart. O Cine esteve num momento intermediário, mas já começa a gradualmente aparecer menos. Desde 2006 os emos dominam o mercado – já estão quase completando um ciclo como o do forró e do reggae, isso também se apresenta como um sinal. Os coloridos iram desaparecer? Não! Eles serão apenas 20% – dentro do esquema apresentado, aqueles que iram aderir de verdade a essa causa. A maioria das meninas que hoje choram, dormem nas filas dos shows e usam óculos de aros grossos, iram ignorar as bandas que hoje cultuam, pois estarão ocupadas demais com a “next big thing”. Esses fãs são uma espécie de Sísifo moderno – o personagem da mitologia foi condenado a levar eternamente uma enorme pedra ao cume de um morro, sendo que a pedra sempre irá cair de lá – o mesmo digo desses 70% – condenados a eternamente mudar de estilo de acordo com o “querer” da indústria. E quanto aos 10%? Eu pergunto: há alguma sensatez no emo? Porém eu asseguro – não sei nem quando, nem onde, mas o emo irá passar – pois como diz uma canção de Nelson Ned: “mas tudo passa, tudo passará, e nada fica, nada ficará” – veremos.

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