Eu e minhas preferências.

Arte e Cultura - Música Mais

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 altalt

 

Não vou aqui me atrever a destrinchar os mecanismos por trás das preferências individuais. Mas posso dizer que por trás das preferências existem muitos fatores, psicológicos, emocionais, sociais, afetivos, etc. E o que leva uma pessoa escolher aquilo e não aquilo outro, tanto pode ser uma combinação de todos os fatores, como a sobreposição de um em relação aos outros. Se você ouve uma determinada música – ou um tipo de música, é porque lhe agrada. Ninguém carrega no Ipod músicas que lhes desagradem. O que faz com que tais músicas agradem ou não – são as sensações positivas ou negativas que elas nos trazem. Depois disso vêm os outros fatores – pois primeiro sentimos, para depois pensarmos (isso talvez na maioria das pessoas). Por isso também que a maioria das pessoas age por impulso – primeiro age (sentimentos) e depois pensa no que fez (raciocínio). Isso explica o porquê de mudarmos de gosto, pois se as influências advindas de nossas experiências não fizessem efeito (e abrem-se aí os demais fatores citados acima) – continuaríamos na vida adulta gostando das mesmas coisas de quando criança. O ambiente de convívio, o engajamento em alguma ação, uma posição ideológica, tudo isso contribui para a formação das preferências. Nos anos 60, a juventude engajada, rebelde e ligada à esquerda, preferia a música de protesto de Geraldo Vandré, o samba social de Zé Kéti e Chico Buarque e a Tropicália de Caetano e Gil do que a Jovem Guarda. Crianças que nascem e crescem em periferias – onde o samba, o rap, o pagode e o funk predominam, tendem a permanecer nesse círculo de preferências quando adultos (tendem). Filhos de roqueiros tendem a preferir o rock na juventude e na fase adulta porque foram (de certa forma) condicionados a ouvir esse tipo de música. O ambiente é fator importante – mas, isso não é regra absoluta, porque existe o fenômeno da migração de estilos musicais. Pessoas que crescem ouvindo um tipo de música e depois mudam. Isso é comum, advém não apenas do crescimento físico e cronológico, mas sim do crescimento humano e intelectual. Em fevereiro de 2007, a revista americana Seleções Reader´s Digest, publicou uma matéria sobre esse tema. A matéria trouxe entrevistas de 4 pessoas muito diferentes – advindas de realidades, criações e meios diferentes – e as perguntou sobre seus gostos em geral (musical incluso). Os quatro entrevistados:Angélica (apresentadora), MV Bill (rapper), Márcia Tiburi (filósofa) e Ivo Pitanguy(cirurgião plástico). Como essa revista têm boa circulação, ouvi uma conversa dentro do ônibus a respeito dessa matéria. Eram duas mulheres – uma de meia idade (40 anos) e outra jovem (23 anos) – falando sobre vários assuntos, até que chegaram nesse. O que mais me chamou atenção foi uma das opiniões que dizia que “cirurgiões plásticos, médicos, possuem um gosto refinado por serem de elite”. 

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Achei essa opinião de uma falta de embasamento imensa. Como você pode atribuir a uma classe profissional ou social a exclusividade de um gosto musical? A música é livre – pode tocar a qualquer um, de qualquer idade, cor, sexo, religião ou condição econômica. Na matéria, Ivo Pitanguy diz que seu cd preferido é “The Johann Sebastian Bach Collection” – um dos pilares da música erudita ocidental. É claro que Ivo é de um outro tempo (nasceu em 1926), é um homem de um tempo onde se aprendia francês e piano na escola pública. Do jet set onde freqüenta ao meio onde cresceu, o refinamento e o apreço pelas coisas cultas era (e é) grande. Mas daí a dizer que Bach e Mozart são exclusividades da elite, é uma coisa mais distante. Contrariamente, MV Bill apontou como preferido o cd “Tim Maia disco club”. Tim Maia é um dos pais da soul music no Brasil – e um dos grandes ícones da música negra no país como um todo. A música de Tim, cheia de suingue, de balanço (daí surge o samba rock), lembra justamente o suingue que os pobres e negros tinham (e têm – mas aí se estende ao brasileiro em geral) e que usaram para driblar as adversidades da vida. As musicalidades negras se combinam de certa forma e dialogam entre si – e o rap (estilo de MV Bill) é uma extensão – também de certa forma, de todo um caldeirão de “musicas” negras a partir dos Estados Unidos, mas que aqui tomou vida (e identidade) própria. Não que Bill não possa ouvir (e gostar) de Bach, ou Pitanguy de Tim Maia (que aliás têm grande aceitação nas elites), mas o contexto é altamente influente na formação das preferências – e nesses casos aqui mais ainda. Angélica apontou o disco “Pancadão do Caldeirão do Huck” – mas aqui há uma ambigüidade. Angélica tanto apontou esse disco pelo fato de Luciano Huck ser seu marido (cumplicidade), como pelo fato de (mesmo sendo da elite e freqüentando o jet set) – não ter um gosto apurado, para não dizer refinado. Angélica faz parte de uma burguesia alienada, não me refiro à política, mas sim a cultura. Todo o dinheiro que possuem não necessariamente os conduz a um caminho de leituras mais complexas, filmes de arte e música com conteúdo (não que devessem). Afinal, que tipo de “conteúdo” há num “pancadão”? Já Márcia Tiburi apontou “Dois Quartos” de Ana Carolina como um disco preferido. Essa talvez tenha sido uma escolha propositadamente lógica e não necessariamente emocional – digo, Márcia Tiburi é uma mulher cultíssima, e assim como possui um vasto conhecimento, já demonstrou uma vasta cultura também, então isso nos leva a ideia de que seu gosto musical é mais amplo do que apenas Ana Carolina. Embora Ana Carolina esteja longe de ser superficial, também não é nada excepcional, elevado, etc. Mas a escolha de Márcia se deu mais pela questão sexual e feminina do que propriamente artística. Márcia é notadamente uma defensora dos direitos femininos e de suas liberdades mais amplas – que incluem desde a escolha das roupas ao direito ao aborto. Ana Carolina apesar de cantar músicas sentimentais com letras interessantes, leva consigo a bandeira da discussão do lugar da mulher na sociedade, de seus direitos sexuais, de suas escolhas, etc.

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A escolha de Márcia Tiburi reflete seu escopo intelectual, suas ideias, convicções – e isso não a impede (limita) de ouvir “pancadão” caso queira – assim como Angélica ouve (e gosta) Ana Carolina. Não deve haver exclusivismos, sim escolhas – e dentro delas as relações com o meio e com o querer. E os fatos derrubam essas ideias – orquestras de crianças e jovens de favelas tocando Villa-Lobos e Beethoven (se fosse pela regra geral – como insistem alguns, seria uma orquestra de funk), e jovens de classes média e alta indo a shows do Racionais Mc´s (e lotando os bailes funk). E está aí o poder da música – o de incluir, pois quando a música se fecha em nichos – todos perdemos.

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