14 trilhões de fotos

Basta um toque na tela de um smartphone para produzir uma imagem. É quase instantâneo, e pode-se fazê-lo em (quase) qualquer lugar.

A história da imagem é a história da economia do tempo para produzi-la. Meses no século XV, segundos no século XXI. Era trabalho de um profissional especializado, e custava caro.

Mesmo nos nossos dias, no entanto, há uma enorme diferença entre a imagem produzida por um profissional e a imagem criada pelo amador. Mas os meios e as técnicas necessárias para produzi-la estão disponíveis para todos.

Eu mesmo, que sou de uma época pré-computadores, fico assombrado ao me lembrar do modo como fazíamos certas coisas, uma logomarca, por exemplo. Era trabalhoso, exigia-se um conhecimento maior de técnicas, e o processo de se fazer alterações demandava muito tempo. Claro que essa é uma constatação que se faz a posteriori, quando uma nova técnica torna a antiga obsoleta.

Já na era dos pcs, a mudança de velocidade ainda é perceptível. Nos primeiros computadores que usei para trabalhar, era possível dar um comando no Photoshop e sair para tomar café, fumar um cigarro e trocar um dedo de prosa com alguém, voltar e o pc ainda estaria trabalhando no mesmíssimo comando. Se fazemos bom uso do tempo economizado é algo a ser discutido.

Leio em algum lugar: em 2017 serão tiradas 14 trilhões de fotos digitais. Numa conta mais modesta, 1 trilhão. Bilhões e bilhões de selfies.

Tente o fanático por selfies localizar uma determinada foto de uma data específica. Caso ele não seja também um fanático por organização, não encontrará. A tal foto permanecerá perdida entre milhares de outras fotos, tantas fotos tão parecidas. Como a arca da aliança, perdida num depósito cheio de caixas todas iguais, em Caçadores da arca perdida.

Faço um recorte e volto no tempo. O pintor alemão Gerlach Flicke pintou este retrato duplo em 1554. Gerlach FlickeDe um lado, é um autorretrato, e do outro lado, é o retrato de Henry Strangwish, um corsário inglês amigo do pintor. Estavam presos quando Flicke pintou o pequeno quadro. Na inscrição que está sobre a cabeça de Flicke está a motivação da pintura. Mal traduzida, fica assim: Esta era a aparência de Gerlach Fliccius no tempo em que ele era pintor em Londres. Este retrato foi pintado a partir de um espelho para o seu querido amigo, para que assim ele fosse capaz de lembrar-se dele (Flicke) após a sua morte.

Era, portanto, um presente do pintor para o amigo corsário. Presente precioso, diga-se de passagem. Não apenas materialmente, mas precioso também em função da carga emocional investida. E, não menos importante, pela raridade do objeto: imagens eram raras, retratos eram raros. Flicke planejou cuidadosamente a composição, o desenho, a ordem de aplicação das cores. Era absolutamente necessário que um pintor planejasse tudo de antemão: o material era caro e desperdiçar pigmentos estava fora de questão. Tudo devia ser preparado na quantidade exata e imediatamente antes de se começar a trabalhar.

Uma imagem, portanto, era algo que demandava tempo, conhecimento e trabalho para ser produzida. E era, via de regra, irreproduzível. Um objeto único.

O retrato duplo de Gerlach Flicke e Henry Strangwish, de 1554, está preservado, é parte do acervo da National Portrait Gallery, de Londres. Um curioso pode vê-lo, se quiser.

Quantas das 14 trilhões de fotografias digitais de 2017 estarão disponíveis para o curioso do ano de 2480?

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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