A história do diabo

No provocativo A história do diabo (1965, ed. Annablume), o filósofo Vilém Flusser chama de influência diabólica tudo aquilo o que insere as coisas no tempo. O oposto, a influência divina, seria tudo aquilo que retira as coisas do tempo (e consequentemente da história).

A influência diabólica, portanto, é a própria vida, e o que chamamos de divino, a negação dela. É que Flusser identifica o início do tempo, e da história, com a queda de Lúcifer, ou Satã.

A tentativa de fugir do diabo, segundo ele, é um outro aspecto da nossa tentativa de emergir da temporalidade e ingressar no reino das Mães imutáveis.

A história do diabo não é história e nem é sobre o diabo. Pelo menos, não o diabo cristão ou mesmo diabo enquanto influência maléfica. Parece, se tanto, com o Lúcifer de Paraíso perdido, de Milton: mais humano do que sobrenatural, histórico e falível (e bastante orgulhoso, por que não?).

Pensada em termos cristãos, a vida é um fardo, algo que deve ser superado estoicamente, já que o grande prêmio, ou a grande condenação, se for o caso, só será concedido no pós-morte, na eternidade. Flusser identifica os pecados capitais com essa influência divina, de extermínio de tudo o que é vital:

“Soberba é consciência de si mesmo. Avareza é economia. Luxúria é instinto (ou afirmação de vida). Gula é a melhora do standard de vida. Inveja é luta pela justiça social e liberdade política. Ira é a recusa a aceitar as limitações impostas à vontade humana; portanto, é dignidade. Tristeza ou preguiça é o estágio alcançado pela meditação calma da filosofia.”

Seria injusto condenar apenas o cristianismo como religião niilista. Nietzsche relacionou praticamente todas no Crepúsculo dos Ídolos, contrapondo-as ao pensamento grego pré-socrático.

Deus feito homem é sua inserção no tempo. É Deus submetido às Leis da natureza, e sujeito às corrupções perpetradas pelo tempo. Como percebeu Hegel, não se poderia usar as formas clássicas da arte grega para representar o Cristo crucificado. Deus feito carne é, em sua representação cristã definitiva, um deus humilhado, ferido, vilipendiado. A função de tal imagem é despertar a piedade e a compaixão nos fiéis. Um maldoso poderia afirmar que, a partir daí inicia-se uma estética da pena

Aplicando Flusser, deus encarnado é deus submetido à influência diabólica, é deus desdivinizado, é deus caído. Humano, histórico e falível.

Curiosa trajetória percorrida: inicia-se com a queda de Lúcifer e o início do tempo e encerra-se com a queda de Deus, ainda que essa queda não tenha significado o fim do tempo. Segue o tempo e segue a história, imersos que estamos na influência diabólica. Amém.

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Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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