A imagem de nós mesmos (II)

A fotografia, consta, é de 1883. O homem montado tem os pés descalços: não é alguém. Com a mão direita, segura a coronha de uma espingarda apoiada no ombro. Tem uma faca longa presa na cintura. À frente dele e do pangaré, uns 5 ou 6 cães. É uma fotografia posada, como as fotos da década dos 80s do século XIX precisam ser. Mas a leitura dela ainda nos é possível: o capitão-do-mato vai para o trabalho. Vai caçar escravos fugidos.Capitão-do-mato

Vai caçar mulheres e homens que cansaram da infâmia suprema de saber-se propriedade de alguém. Talvez nem seja um capitão-do-mato. Melhor seria distingui-lo como homem-do-mato, já que a função tem hierarquia e patentes: soldado, cabo, capitão, sargento-mor e capitão-mor. De capitão em diante, era necessário a chancela da autoridade pública. Brancos, mulatos, negros libertos e até mesmo escravos ocupavam a função. Como prêmio pelo cumprimento das funções, recebia-se o custo de tomadia, que variava de acordo com a distância percorrida para a captura.  Para o senhor de escravos, havia ainda os custos judiciais da carceragem, e, na segunda metade do século XIX, o preço dos anúncios publicados nos jornais.

É imagem rara, esta. Temos algumas poucas ilustrações de Rugendas e Debret, um número ainda menor de fotografias.

O capitão-do-mato é figura que nos constrange e nos persegue. É personagem vil da nossa história. É um igual caçando iguais. É um não-alguém caçando alguém que é algo. Neste Brasil, humanos são só uns poucos. À grande maioria, essa condição é negada. O escravo, escreve um autor, “há de ser lince para ver o aceno do senhor, águia para lhe penetrar os pensamentos, boi para resistir ao trabalho, e para sofrer os castigos, jumento”. A grande maioria tem utilidade enquanto bicho, é carne para ser usada e abusada. Assim foi e assim é. Humano, o escravo só se torna quando comete um crime. Apenas assim consegue o estatuto legal para ser sujeito e sofrer as consequências de infringir a Lei.

Não acertamos as contas com a História. Não colocamos os pingos nos is. Não fazemos autocrítica. O nosso passado não foi enterrado, e o seu fedor empesteia o ambiente. Nos fazemos de hipócritas e fingimos que não sentimos odor nenhum. Olhamos no espelho e não vemos um capitão-do-mato. Não vemos um ser brutalizado por séculos de relação senhor/escravo, da relação “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Não vemos nada disso.

Eu trato dessas coisas para não tratar dos nomes de hoje. Para não falar de michéis temers, de geddéis, de padilhas, de bolsonaros, de dórias, de lulas, de roussefs, de renans, de aécios, de paloccis, de dirceus, de pimentéis, de sartoris, de cabrais, de alckmins, de blairos, de collors, de sarneys, e etc… Para não falar deles.

Nunca.

Jamais.

 

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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