Arte sem adjetivo

Artistas tendem a inflacionar a repercussão do seu trabalho e de si mesmos, por óbvio. É parte do jogo. Baudelaire já cravava que o artista nunca sai de si. E Fernando Pessoa complementava evidenciando o evidente: que o artista mente até quando fala a verdade.

E ainda que artistas sejam egocêntricos mitômanos, algumas das vezes acertam no alvo e o que produzem pode ser relevante e contundente. Mas não é a regra.

É difícil imaginar que qualquer manifestação artística possa mudar o mundo. Pode mudar uma pessoa, o que já é um feito notável. Agora, mudar os rumos do planeta? Alterar a rota de um país? Do Brasil? Muitos artistas querem que acreditemos nisso, que a força de suas obras repercutirá mundo afora gerando ação e reação. Um amigo disse que o urinol de Duchamp é mais importante do que a invenção do próprio urinol. Tendo a discordar, mesmo considerando Duchamp o artista mais importante do século XX. Passeie o incauto pelas ruas do centro de São Paulo na quarta-feira de cinzas e ele perceberá de imediato o despropósito da afirmação do meu amigo.

Uma lembrança antiga, de setembro de 2001: logo após o ataque às torres gêmeas (a maior performance já concebida e executada, ver o texto), houve o caso das cartas enviadas a órgãos do governo americano contendo um pó branco, que mais tarde descobriu-se que era antraz. Lembro de uma performance que vi logo após esse incidente: jovens artistas corriam pelo espaço da galeria, abriam envelopes de carta que continham um pó branco (que era talco) e o atiravam no chão e nos espectadores, gritando “antraz, antraz!”. Fui embora meio deprimido.

Compreendi meu mal-estar: havíamos testemunhado há poucos dias, pela tv e ao vivo, a performance das performances, a performance para acabar com todas as performances, na qual indivíduos encharcados de ideologia suicidaram-se e, com o próprio suicídio, assassinaram milhares (na lógica do indivíduo encharcado de ideologia, todos que não comungam do mesmo credo são culpados pela sua opressão) numa ação tão espetacular quanto mortífera. E por aqui, os artistas, meninos criados a leite com pera e ovomaltino[1] corriam pelo espaço apertado de uma galeria jogando talco em espectadores também criados com leite com pera e ovomaltino, num ambiente confortável e protegido, apartado do atribulado entorno paulistano, em condições controladas e seguras, e (quase) todos ali querendo acreditar que essa performance era chocante, relevante e contundente.

Era, isto sim, pobre e risível, uma brincadeira infantil e inócua vendida como ato político feroz. Claro, muitos ali não engoliram a patacoada. Já outro tanto apreciou a performance dos jovens artistas, elogiando-a muito no café que havia na galeria, e vaticinando: o império americano estaria em maus lençóis depois da performance do coletivo.

O fato é que a melhor das performances não terá nunca o impacto que um mísero capítulo de novela da Glória Perez tem. Mas nossos amigos os artistas querem fazer crer que sim. Daí que não deixa de ser interessante que movimentos retrógrados e oportunistas, como o MBL, com suas ameaças de fechamento de exposições, acabem por garantir que trabalhos artísticos que passariam em branco para grande parte da população, tenham um destaque na mídia muito maior do que normalmente teriam.

A arte não tem função nenhuma, e essa é sua força maior. Sua falta de utilidade concreta é o que a torna intrinsecamente subversiva, política e disruptiva. Se acrescentamos algum adjetivo após a palavra arte, ela se enfraquece instantaneamente.

 

[1] Expressão criada pelo grande filósofo contemporâneo Gil Brother.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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