As palavras, a biografia e a imagem

Véu de Verônica

Ezra Pound chama de fanopeia a imagem que o texto poético produz na mente do leitor. Lemos um verso. Ao fazê-lo, ouvimos sua melodia e seu ritmo, apreendemos algumas das ideias ali contidas, e criamos uma imagem. É, sem dúvida, um ato mágico: a palavra, que é som, transmutando-se em ideias e imagens.

Thomas Bernhard, por exemplo. Em cada livro seu, há a fixação de uma certa imagem.

O narrador sentado na bergère (poltrona com orelhas, na tradução portuguesa), em Árvores Abatidas, o narrador que olha para uma fotografia dos pais em Extinção, o narrador e o amigo suicida devastados ao ouvir as Variações Goldberg executadas pelo outro amigo Glenn Gould, o homem que se senta no banco do museu por trinta anos diante do Homem com Barba Branca, de Tintoretto, em Velhos Mestres

Uma imagem basta. Dela desenvolve-se o mundo interior do narrador, indo e voltando aos mesmos tropos furiosamente, criando refrãos que reforçam mais ainda a imagem fixada. E estes refrãos maníacos são ataques periódicos, são os elementos que transmitem energia ao que, de outro modo, seria um texto lamurioso e deprimente.

Uma imagem que basta. E, claro, as obsessões do homem. Que não é nunca sua biografia, e que nunca foge dela.

Entretanto, e isto me vem agora, a biografia de um indivíduo é algo que simplesmente não existe, é algo como uma impossibilidade. Esta história não existe. Não posso escrever algo que se pretenda “a história da minha vida”: os fatos que narro descrevem apenas a minha existência mental e os mal-entendidos que derivam dela. Do mesmo modo, não podem escrever a história da minha vida: descreverão outros processos mentais e outros mal-entendidos. E nem mesmo o confronto dialético da história que eu escrevo com a história que o outro escreve dará conta da história da minha vida. Muito justamente, as biografias nos interessam pelo que há nelas de inacreditável, de impossível. Vale, para todas as biografias, a sentença de Tertuliano para a fé em Cristo: creio porque é absurdo. Acreditamos, ou nos interessamos por biografias, pelo elemento exótico, extraordinário. Claro que há o fascínio de conhecer-se a fundo um indivíduo, saber das suas peculiaridades, de seus hábitos, de suas fraquezas.

Especialmente de suas fraquezas: o indivíduo sempre sai menor da sua biografia. Não me refiro às biografias de encomenda, aquelas biografias hagiográficas de primeiras-damas de governadores medíocres, mas de textos sérios, com pesquisa de fôlego. Não me lembro de nenhuma que não me tenha deixado com um certo gosto amargo ao final.

Mas precisamos das biografias, menos por elas serem portadoras de verdades incontestáveis do que por elas nos fornecerem imagens, retratos das vidas ali descritas.

Marcel Schwob, na introdução de seu Vidas Imáginarias, afirma que biógrafos, quando não cometem o erro de se verem como historiadores, criam retratos. Homero é figura remota, e nem mesmo sabemos se existiu. A indeterminação é inquietante, e para aplacá-la cria-se uma biografia inventada, que se pode condensar numa imagem, num retrato: o cego Homero, o rapsodo Homero, com a lira pendurada nas costas, conduzido por um pastorzinho, com cães a perseguir-lhes pelo caminho poeirento em que seguem. Jesus Cristo, que possui quatro biografias canônicas e um outro tanto de biografias apócrifas, não tinha sua imagem descrita. Uma lacuna que não poderia persistir: a Idade Média cuidou de preenchê-la com lendas e mitos, com sudários e “imagens verdadeiras” (a sagrada Verônica – tratarei disso noutro artigo). Até mesmo uma descrição fajuta, de um suposto contemporâneo, foi forjada. Ali se tem um Jesus tipicamente europeu, que chegaram a ver chorar, mas que nunca viram rir. Como Tomé, precisamos ver para crer.

Precisamos transformar a História em imagem, precisamos de algum detalhe, mesmo minúsculo, que realize a transmutação das palavras e dos números em imagens. Precisamos passar do intelecto aos sentidos. Somente assim, o ato mágico citado no primeiro parágrafo se realiza.

Nicéforo I, patriarca de Constantinopla no século IX, alertava em seus textos contra os iconoclastas: se removermos as imagens, não apenas Cristo, mas todo o Universo desaparecerá.

É disso o que se trata.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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