Ronda Noturna 2.0 By Marcos Schmidt / 18/01/2019 Share 0 Tweet Apanhe-se um livro de contos de fadas – o dos irmãos Grimm, por exemplo – e a sensibilidade de século XXI será destroçada. É chocante a violência ali presente. O tempo certamente desbastou as narrativas que encontramos ali. Podemos supô-las ainda mais violentas à medida em que recuamos no tempo. E podemos recuar muito: há estudos que traçam a origem de algumas das histórias – Chapeuzinho Vermelho, entre elas – até as eras da matriz linguística do indo-europeu. Já que citei Chapeuzinho Vermelho: na versão de Perrault, de 1695, não há final feliz. Chapeuzinho Vermelho acaba devorada pelo lobo, e história termina aí. Pouco antes, ela se despe e deita na cama junto ao lobo que também devorou a avó de Chapeuzinho. Os irmãos Grimm, a partir de 1812, suavizam a história: Chapeuzinho não chega a deitar-se com o lobo e é salva, bem como sua avó, mesmo tendo sido devoradas pelo lobo. Ainda assim, a história continua violenta. Lembro de outra história compilada pelos irmãos Grimm, a de número 22, que se chama Quando crianças brincaram de açougueiro. Há duas versões, ambas terríveis. Na segunda delas, as crianças veem o pai matando um porco e resolvem brincar de leitão e açougueiro. A que faz as vezes de açougueiro apanha uma faca e a enfia na garganta do irmão que personifica o porco. A mãe que está no andar de cima dando banho em outro dos irmãos, ouve os gritos da criança e desce para ver o que está acontecendo. Ao ver a cena, arranca a faca da garganta do filho-feito-porco e apunhala o filho-feito-açougueiro no coração. Daí ela sobe e vê que o filho que estava na banheira afogou-se. A mãe não suporta o ocorrido, e enforca-se. O pai, que não estava presente, morre pouco tempo depois, de tristeza. Confesso que fiquei um tanto perturbado ao ler essas histórias em suas versões preservadas por Charles Perrault e pelos irmãos Grimm. Sua violência é assustadora. Mas acho que compreendi melhor o porquê disso ao ler o posfácio de Leonardo Fróes, tradutor da edição de Contos da Mamãe Gansa, de Perrault, publicada pela finada Cosac Naify. Uma mãe explicou ao tradutor: os contos de fadas são ferramentas para salvar as crianças. Eis a chave para compreender a violência desse universo fictício. Os contos de fadas tratam de um mundo terrível, de violência onipresente, de miséria e de penúria, onde a fome é universal e os grupos vulneráveis – crianças, velhos e mulheres – estão sujeitos a abusos constantes, sem nenhuma forma de proteção. Essas narrativas que chamamos de contos de fadas são pintadas em cores saturadas e berrantes para servir de aviso indelével na mente das crianças. Você não irá nunca desviar do caminho reto – essa é a mensagem implícita de Chapeuzinho Vermelho. Esses contos revelam ainda outras características de um mundo antigo. N’A bela adormecida percebemos um aviso perturbador: não se meta nem julgue os atos de um nobre. Ele está acima de tudo. Numa versão registrada por Giambattista Basile em 1634, a bela adormecida é estuprada por um rei enquanto dorme, dando à luz, nove meses depois, a um casal de gêmeos. Como um rei é um rei, ela acaba se casando com o monarca depois que desperta. Em João e Maria, inferimos um mundo no qual a fome é ubíqua. Com a exceção da nobreza, os seres humanos, a natureza e o fantástico são assolados pela fome constante. O pai e a madrasta de João e Maria passam fome, as crianças passam fome até o ponto do delírio, e até a bruxa malvada passa fome. Os pássaros estão famintos e comem as migalhas que as crianças usaram como marcadores do caminho. O estado de fome é absoluto. Pegando emprestado uma citação de Neil Gaiman, que está no fantástico blog do Bráulio Tavares (Mundo Fantasmo): João e Maria (‘Hansel e Gretel’) conta a história de uma família durante uma grande fome coletiva, quando eles não tinham comida bastante para duas crianças e dois adultos, e lamentavelmente iam ter que se livrar das crianças. É a respeito de duas crianças esfomeadas na floresta que praticamente tropeçam nessa casa feita de pão de gengibre. A trilha que eles deixam é devorada por pássaros famintos, e eles mesmos não demoram a ser apanhados por uma mulher que vê neles uma refeição em potencial. É uma história sobre fome. Não bastasse essa miséria, há que se notar ainda outra manifestação do mundo antigo que nos assombra até hoje: os mais fortes – no caso o pai e a madrasta – descartam os mais fracos, as crianças. É terrível concluir que nada é mais didático do que a violência. Aprenderemos muito nos próximos quatro anos. 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