Dança macabra

O indivíduo do século XXI tem um aspecto em comum com o indivíduo da era medieval: uma profunda descrença em tudo que não for a carne. As ironias infestam essa frase.

Por diversos motivos, a mulher e o homem medievais eram incapazes de ir além daquilo o que se colocava diante de seus olhos. A imagem, então rara, era o limite da imaginação.

Vejo e crio o mundo, esse poderia ser um mote para o medievo tardio. Assim preconizavam os pregadores, que recomendavam o exercício mental de imaginar a partir de imagens já vistas nas igrejas, a partir de pessoas conhecidas, de locais conhecidos, e usar essa fantasia imagética para recriar as passagens sagradas da Bíblia. Povoar os textos sagrados, dar um rosto conhecido para cada um dos participantes do teatro cósmico divino, dar colorido à paisagem, preencher com barro, pedra e palha as paredes das casas, iluminar as sombras para que não haja lugares escuros nos quais o Diabo possa se esconder. Imaginar com fervor, ver com os olhos fechados, intensamente.

É preciso criar imagens, é preciso ver para crer melhor. É preciso ver para crer.

E o que não se vê é de difícil apreensão. Quase não tem força para se impor à existência. Não vejo, então não há.

O mundo é tenebroso, terreno emprestado ao Demônio. É o que se vê com os olhos de ver. Não se deve sair da via direita, que ao largo dela só há perigo, sofrimento e morte: a selva escura. Fora do caminho reto, há o risco de encontrar-se frente a frente com os três cadáveres – um jovem, um maduro, o outro, velho – já esqueletos, que aterrorizarão o caminhante desgarrado e que revelarão: nós somos o que você será, já fomos o que você é. E o caminhante se desespera: o que tem diante de si é uma caricatura horrenda do que foi o corpo, do que foi a vida.

Três temas dominam a mentalidade medieval tardia: primeiro, o ubi sunt, ou, onde estão todos aqueles que foram poderosos e que brilharam sobre a terra? Em seguida, o horror da visão do corpo que se decompõe, e, por último, a dança macabra, conduzida pela Morte e que arrasta a todos, reis e papas, ricos e miseráveis, velhos e crianças. São três motivos que espelham uma existência insegura, assombrada, inquieta.

Nosso século angustia-se com as mesmas coisas. Transitoriedade, finitude, descrença no que não se vê. E atualiza os três temas angustiantes à sua maneira.

O culto à celebridade é uma inequívoca demonstração dessa descrença. É um desesperado modo de afirmar a própria existência enquanto se é carne. Sou célebre, logo existo, é a fórmula. Fora daí, não há nada. E, se não sou célebre, sigo a celebridade, acompanho cada momento de sua existência. Quem sabe desse modo não a acompanharei em sua eternidade virtual?[1]

Os poderosos e os que brilham sobre a terra estão por aí, nas redes sociais, fazendo-se existir a cada minuto, mostrando-se em selfies e descrevendo-se em 140 caracteres. Através delas, as redes sociais, podemos esconder nossa decrepitude em corpos fitness explodindo de beleza, felicidade e realização.

E atualizamos a dança macabra em incessantes viagens a Bali ou a Fernão de Noronha, onde como, bebo e rezo, em baladas ininterruptas e em festas incendiárias, nas quais me extingo num sentimento oceânico que me arrasta para além de mim mesmo.

A dança macabra é o termo final. Imagem desconcertante de um arrastão escatológico que nos atrai mais do que nos repele. A pulsão de morte freudiana em configuração medieval.

Porque, não obstante a nossa aldeia global, o indivíduo do século XXI vê-se atirado novamente num universo hostil que escancara seu desamparo, sua existência insegurança, assombrada e inquieta.

Estamos no meio de uma selva escura.

[1] Eternidade limitada, com o perdão do oximoro, já que não dura mais do que a carga de bateria de um smartphone…

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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