“Essa nação ainda tem jeito”

O MBL pressiona e o Santander Cultural de Porto Alegre cancela a exposição Queermuseu. Difícil saber o que é pior: as alegações cretinas, reacionárias e francamente burras do tal movimento liberal ou saber que conseguem amedrontar uma instituição a ponto de fazê-la recuar de maneira humilhante, covarde mesmo. Por sua vez, a bancada evangélica da Câmara Municipal de São Paulo aproveita para surfar na onda e solicita que o Ministério Público Federal investigue se o Ministério da Cultura, o Santander e o curador da mostra cometeram crime, afinal, “difundem a causa gay”, afirmam os 14 vereadores das trevas paulistanas. Terminam elogiando os proto-fascistas barulhentos do MBL: “Vemos jovens que estão atentos a essas vergonhas. Essa nação ainda tem jeito“.

A sem-cerimônia dos muito ignorantes é sempre surpreendente. São os militantes perfeitos: cheios de si, cheios de energia, cheios de certezas, cheios de boçalidade, sedentos de fanatismo. Tempos atrás, via-se mais desses tipos à esquerda, que a direita tinha vergonha de se mostrar. Hoje, em nossa aurora fascista, os militantes da direita perderam o pudor e exibem-se orgulhosos, cheios de si, cheios de energia, cheios de certezas, cheios de boçalidade, sedentos de fanatismo. “Orgulho de ser tosco”, poderia ser um mote honesto para essa turma.

Curioso que um movimento que se pretenda liberal cuide de fazer pressão para, justamente, coibir a liberdade de expressão. Em nossa versão tupiniquim, liberdade de expressão é liberdade para dizer apenas aquilo com o que concordamos.

O mesmo também ocorre com sinal oposto: a patrulha dita progressista é pesada e nunca se vê como tal. Veem-se defendendo o bem. Portanto, cercear o ponto de vista alheio é obrigação moral.

Por trás disso tudo, aquilo o que nos condena a ser um arremedo de civilização: nenhum respeito pelo outro, nenhum respeito pela diferença. Se eu estou certo, por que devo tolerar quem pensa diferente de mim? Para o meu opositor, a fogueira.

Por trás disso tudo, aquilo o que nos condena a ser um arremedo de civilização: a desconfiança que temos uns dos outros. Não se pode permitir que uma ideia diferente seja exposta às pessoas: elas irão acreditar nela! Elas irão adotá-la, incontinenti! Daí ser necessário proibir sua veiculação. Os milhões de brasileiros são como crianças: ingênuos, suscetíveis. É importante impedi-los de entrar em contato com certas ideias.

No específico desse caso, além da já citada ignorância, assusta a má-fé dos liberais de retaguarda. Não vi muito dos trabalhos da mostra, mas o de Adriana Varejão, apenas para citar um dos que pude dar uma espiada, é uma crítica fina, sofisticada mesmo, dos nossos hábitos autoritários transpostos para o comportamento sexual histórico, coloquemos assim, dos brasileiros. Claro que, para esses oportunistas xucros, onde há reflexão crítica eles só podem enxergar apologia. Talvez fiquem incomodados porque tais imagens, ao invés de estimular-lhes a reflexão, estimulem outras coisas. Ver o desejo inconfessável representado numa imagem ou num objeto pode ser muito perturbador.

Tempos tenebrosos nos esperam.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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