Juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante

Quando dos 30 anos da morte de Adoniran Barbosa, o comentário de um nome hypado da nossa música me chamou a atenção. O rapper, porque era um rapper o nome hypado da nossa música, disse que o que mais apreciava em Adoniran era o fato de que ele era “um ícone pop radical”.

Encafifado, imaginei que alguém entrevistava o compositor de Saudosa Maloca e lhe perguntava: Adoniran, como você se definiria? E ele, com seu sotaque inconfundível, respondia na lata: Como um ícone pop radical…

A assunção do pop ao ponto máximo da cultura ocidental é um fenômeno que sempre me intrigou. Verdade que eu talvez esteja papagaiando a visão de mundo da Ilustrada, da Folha de SP, mas muita gente que conheço considera um único disco de David Bowie dos anos 80 mais importante do que toda a obra de Stravinsky e Bartók juntas.

Não que este escriba seja algum exemplo de indivíduo com sólida formação erudita clássica. Longe disso: durante anos trabalhei com HQs e conheço bem esse universo pop ao qual me refiro. Daí que posso afirmar que percepção histórica, profundidade e densidade não fazem parte do repertório. Tudo é muito acelerado, muito fragmentado, muito descartável, muito jovem.

É bastante lógico que as coisas sejam aceleradas e fragmentadas. Seguimos a velocidade do nosso tempo, e no nosso tempo as informações viajam na velocidade da luz.

O culto à juventude é que me parece algo contraditório. Porque também vivemos mais, muito mais do que viveram nossos pais e nossos avós. E cultuamos e louvamos e amamos e apreciamos apenas os nossos primeiros 20 anos de vida. Depois disso, uns 60 anos de nostalgia, ostracismo, resignação e miséria nos esperam. Tem alguma coisa fora da ordem aí…

É que juventude vende. A ideia da juventude, a imagem da juventude, o cheiro da juventude. Velho só se vê em propaganda de banco e de seguro de vida.

Juventude compra também. Ela própria ou a ilusão dela.

Mas o fato de tudo também ser descartável é o ato falho do culto à juventude. Aí se exibe o caráter desesperado de se saber dispensável. Somos como o aviso na embalagem de detergente: descartar após o uso.

Sabemos que seremos jogados fora após o uso, e não admitimos isso. É duro. Melhor nos imaginarmos num perpétuo adolescer, assistindo a Avengers – Infinity Wars (e observando a repercussão mundial que o último teaser gerou, de acordo com o excitado jornalista), ouvindo K-pop e fazendo maratona de Game of Thrones. Pelo menos, o tempo passa rápido e a gente nem percebe.

Um outro ícone pop radical, Nelson Rodrigues, aconselhou: Jovens, envelheçam! Hoje, esse conselho não vale mais. Na velocidade do século XXI passamos da adolescência diretamente para a morte. Morte em vida ou não.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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