Notas sobre uma missa negra

Deputado fanfarrão

Em menos de dois anos, duas missas negras foram perpetradas pelo Congresso brasileiro: certamente ninguém ataca a democracia brasileira com tanta ferocidade quanto os três poderes da República.

Mas esses dois últimos espetáculos são notáveis por outros aspectos que não o resultado em si mesmo.

Algumas notas:

  1. Sobre as imagens: que espetáculo dantesco, diria Castro Alves. O caráter de missa negra fica bem evidenciado pelas imagens proporcionadas pelos inacreditáveis deputados. A missa negra é uma paródia da missa tradicional. Os senhores deputados são uma paródia da figura do parlamentar. Homens e mulheres ridículos vociferando boçalidades, cobertos pela bandeira do Brasil, pela bandeira de seu estado, segurando bonequinhos ofensivos, portando cartazes em português capenga, atirando confetes, agradecendo a família, a deus, homenageando torturadores, urrando e torcendo como se fossem adolescentes num estádio de futebol. Claro, a imagem que melhor condensa essas misérias é a do deputado cassado-porém-atuante Wladimir Costa (SD-PA), tanto na primeira como na segunda missa negra. Não bastasse o ridículo da figura de um parlamentar que faz uma tatuagem (falsa) do erótico presidente Michel Temer, ainda é fotografado pedindo “nudes” ao celular durante a sessão. Completando o escárnio, é recebido por Temer no dia seguinte, que o chama de “Wlad”.
  2. Sobre a distância: um dos pilares da teoria lacaniana é a lacuna existente entre a linguagem e os objetos. Nosso inconsciente estrutura-se como linguagem, e entre o nome das coisas e as próprias coisas há um vazio que faz com que sintamos que há alguma coisa faltando. Isso pode dar um tremendo bode, especialmente se entre a linguagem e as coisas houver uma distância muito grande. Pode acabar em ruptura da estrutura da psique. Apliquemos isso ao congresso nacional: entre os chamados representantes do povo e o povo há uma lacuna. Dado que os tais representantes cuidam prioritariamente de interesses pessoais inconfessáveis, a lacuna entre representantes e representados (povo) aumenta até o alheamento. Isso pode dar um tremendo bode, pode acabar em ruptura do sistema democrático.
    Deputado Barreto Pinto

    Deputado Barreto Pinto, na fotografia que lhe custou o mandato

  3. Sobre imagens, de novo: o primeiro deputado brasileiro a ser cassado o foi por causa de uma imagem, uma fotografia. Barreto Pinto foi cassado em 1949 por falta de decoro, após ter sido fotografado vestindo um fraque e cuecas. Na atual legislatura, 299 deputados (58,3 % do total) têm problemas com a justiça, somando 1131 ocorrências. Desses, 76 já foram condenados. O PEN, partido escolhido por Bolsonaro para disputar a presidência, tem 100 % de seus parlamentares enrolados com a justiça. É seguido pelo PP, com 80 % de seus 45 deputados, e pelo PTB, com 70 % de seus membros. Em números absolutos, o campeão é o PMDB, com 43 deputados com ocorrências judiciais. O campeão em número de ocorrências é Beto Mansur (PRB-SP), com 47 registros, não por acaso, um lugar-tenente do lúbrico presidente Temer. Nenhum foi cassado.

Assim é. Aparentemente, nós, brasileiros, sentimos falta de uma Idade Média em nossa história. Talvez por isso estejamos criando uma era medieval hoje, aqui, agora. Rumamos para o passado, sempre, a passos largos.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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