O espírito de Goebbels está entre nós

Joseph Goebbels

Consta que esta fotografia foi tirada logo após Goebbels ser informado de que o fotógrafo era judeu. Há outras versões da história. A mais provável é que Goebbels soubesse quem era o fotógrafo, Alfred Eisenstaedt. Até então, o ministro da propaganda nazista entabulava, sorridente, uma conversa com os presentes no jardim do Hotel Carlton, em Genebra, onde se preparava para fazer um pronunciamento radiofônico. Goebbels chefiava a delegação alemã nessa conferência da Liga das Nações, em 1933. Eisenstaedt comenta em sua autobiografia, décadas depois: “Ali, sentado no jardim do hotel, estava Joseph Goebbels, o ministro de propaganda de Hitler. Ele sorria, mas não para mim. Ele olhava para alguém à minha esquerda…. De repente, ele me viu e eu o fotografei. Sua expressão mudou. Aqui estão os olhos do ódio. Eu era um inimigo?

Joseph Goebbels

Foto de Alfred Eisenstaedt (1933)

A foto parece sintetizar o homem. Corpo rígido, tenso, garras no lugar das mãos, cenho franzido, olhar agressivo e desconfiado, a orelha que parece mover-se sozinha para captar toda a informação do ambiente, cercado e adulado por dois sicofantas. É a corporificação do ódio. Um amigo comentou que, nessa foto, ele se parece com o Smeagol, do Senhor dos Anéis. É pior: Smeagol personifica a cobiça, Goebbels é puro ódio.

Imagens são veículos para transportar informações. Funcionam como ímãs, atraem e carregam até informações alheias. A frase “Quando ouço alguém falar em cultura, saco o meu revólver”, de uma peça antinazista de Hanns Jost, já foi atribuída a Goebbels e a Göring. É justo: suas figuras grotescas harmonizam-se com expressões dessa natureza. Não se deve esquecer da noção pervertida que os nazistas tinham da cultura. Não se deve esquecer que organizaram a exposição de Arte Degenerada, em que ridicularizavam toda a arte moderna como manifestação doentia do caráter judeu. Hitler era, ele mesmo, um artista frustrado. Göring era um colecionador, comprou alguns Vermeers falsos pintados por Van Meegeren. E Goebbels… bem, Goebbels adorava a Hitler, e odiava a tudo mais.

Lembro desses homens horrendos porque sinto no ar, no nosso zeitgeist, o espírito de Goebbels a nos assombrar. No mundo e no Brasil. No mundo de Trump e no Brasil de Temer.

É algo que se manifesta na polarização política dos dias que correm aqui na Terra Papagalli. Há uma aversão à nuance, uma aversão à matização e à sutileza que me causa espanto. Converse-se, se possível for, com um dos soldados dessa batalha infame entre coxinhas e petralhas. O que se ouvirá é um amontoado de clichês, slogans e palavras de ordem mal-ajambrados, incoerentes, inconsistentes, contraditórios, quando não sumamente mentirosos ou estúpidos. E, acima de tudo, uma certeza inabalável que só a ignorância permite. Posicionamentos fixos, asseverações peremptórias, o branco e o preto sem nada entre eles. Quem discorda de mim está errado e é meu inimigo, e inimigos devem ser exterminados, é a lógica subjacente a tudo isso.

Claro que as redes sociais contribuem para essa radicalização: ali, no mundo virtual, o diálogo é entre iguais, a mediação se dá entre a tela do computador e a tela do celular, entre avatares. Pixels interagindo com outros pixels. Sem a presença concreta do Outro à minha frente, é fácil desumanizá-lo, vê-lo como uma caricatura de propaganda de guerra, cuja função é exatamente transformar o inimigo em coisa, porque coisas são mais simples do que pessoas.

Esse era o métier de Goebbels: transformar seres humanos em coisas, para então destruí-las sem maiores escrúpulos. Ele fez uso extremamente eficaz do veículo de comunicação mais moderno de então, o rádio…. Imagine-se o que não faria hoje, com twitter, facebook e instagram.

Entretanto, ele está por aí. Seu espírito, ao menos, está por aí, nos olhando com o corpo rijo, tenso, cenho franzido, garras de abutre e olhos de ódio. E espalha sua mensagem aos ventos para quem quiser ouvir: Quem discorda de mim está errado e é meu inimigo, e inimigos devem ser exterminados.

E a cultura, como fica a cultura em nosso contexto de ódio político exacerbado?

Não fica.

É simples assim.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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