O idiota da aldeia foi eleito

Na primeira aparição pública após ser eleito presidente da República, o idiota da aldeia de Umberto Eco baixa a cabeça, pretendendo mostrar-se homem de grave e intensa espiritualidade.

À sua esquerda, o pastor feito senador, impecável no vestir-se, toca a oração. A caterva que cerca o eleito trata de imitar os seus gestos, porque é importante mostrar-se temente a deus e não contrariar o rei.

Naturalmente, o eleito se exibe junto de sua esposa, porque é homem de bem, e homem de bem é homem de família.

E é homem, claro. Hetero, profundamente hetero.

Já se ouve relatos, aqui em São Paulo, de gays sendo agredidos verbalmente nas ruas, com coisas do tipo sua hora tá chegando, viado filho da puta, ou ainda vai morrer, bicha sem vergonha. Não que isso não ocorresse, mas a coisa tem se multiplicado.

A polícia também tem reprimido os protestos com mais… entusiasmo, digamos. O governador eleito de São Paulo, o playboy, apresentador de tv e sex machine João Agripino Dória, com sua lealdade e seu senso de oportunidade únicos, alinhou-se imediatamente com o presidente eleito. O mesmo que, anteriormente, ele havia criticado. Desmentir o que já havia dito, entretanto, é hábito cotidiano do governador eleito. Já afirmou que, durante o seu governo, a polícia atirará para matar. 2019 promete.

Mas, enquanto o ano novo não chega, os homens de bem oram. Alguns, vemos na imagem, olham para um lado, outros para outro. É tentador imaginar o que se passa em suas mentes.

Pouco antes de seu pronunciamento televisivo, o eleito manifestou-se pela internet, para seu público fiel. Ali, pudemos vislumbrar algo das preferências literárias do eleito: uma versão simplificada da bíblia que é sucesso entre neopentecostais, um livro do escritor e paranoico Olavo de Carvalho e, surpreendentemente, uma biografia de Winston Churchill. Até então, a única leitura conhecida do eleito – seu livro de cabeceira, segundo ele próprio – era a autobiografia do torturador Brilhante Ustra, momentaneamente deixada de lado.

Morte, tortura e deus, tudo embalado no mesmo pacote. Tudo em nome de um “esquerda nunca mais”.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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