O inquietante e a cinza

Das Unheimliche. O inquietante de Freud. Conceito que abarca uma coisa e seu contrário. Como o cinza. Como a cinza. Que é o resto que se eleva, que se move pelo ar, e que torna a cair e a elevar-se, se deixada de acordo com os ritmos da natureza.

Francis Bacon usava a poeira que se acumulava em seu ateliê para fazer a cor cinza que usava. É um cinza perfeito, indestrutível, já que é o resto das coisas, o resto que já sofreu todos os abusos da natureza e do tempo. Incapaz de perecer porque já pereceu.

Pense-se numa fotografia em preto e branco. Ou, melhor dizendo, em tons de cinza. Por mais conhecidos que sejam os objetos ali gravados, a ausência de cor nos distancia deles. Interpretamos o cinza das fotos como recuo no tempo. É uma interpretação curiosa, porque artificial. É que na infância da fotografia, do cinema, da televisão, as imagens eram cinzentas. Daí que ligamos a falta de cor ao passado.

Mas as cores das coisas desbotam. A mesma luz que nos permite vê-las acabará por degradá-las, e das cores só permanecerá o cinza.

É moda colorir fotografias antigas, dar cor a um mundo que já não é mais. O resultado é irreal, independentemente da qualidade do trabalho realizado. Irreal, distante, inquietante. Vejo a fotografia de Van Gogh colorida, e ela não me parece mais real por causa disso. Ao contrário: a voz do artifício soa volumosa e intrusiva. Jamais deixa de ser a fotografia de Van Gogh que foi colorida no Photoshop.

O pai de Calvin, de Calvin e Haroldo, deixa o menino doido explicando que não eram as fotografias que eram em preto e branco, o mundo é que era. E, no fundo, ele está correto: o mundo que passou era cinza. Tudo o que já passou é cinza, da mesma forma que tudo o que está por vir também é cinza.

A cor é o presente. Colorir aquilo que não é é perturbador.

O inquietante de Freud. Das Unheimliche.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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